quinta-feira, 30 de setembro de 2010

EM ORAÇÃO...

Perdão, senhor, se eu não creio em nada, mesmo acreditando em tudo. Perdão por eu não ir à sua igreja, mesmo sabendo que eu cumpro com as minhas obrigações pagando a quem eu devo e respeitando os meus amigos, filhos, parentes, assim como eu respeito a pátria que eu tanto amo. Perdão por eu não dar esmolas quando a minha humildade não se faz presente. Por eu não ajudar a quem precisa só por não ter como socorrê-la. Perdão por eu não ser o super-homem que os meus filhos acreditam e por isso não salvar a minha cidade da violência à ela cometida. Perdoe-me por, tão tarde, eu descobrir os meus medos e os meus defeitos, por eu voltar cansado à casa depois de um longo dia de trabalho e me prostrar na rede para fugir de novos compromissos.
Enfim, perdoa-me por eu ser assim, tão frágil e igual a todo mundo.

silvioafonso

terça-feira, 28 de setembro de 2010

É PRIMAVEEEERA...

Às seis horas do primeiro sábado da primavera, ele, a moça dos olhos da cor da mata e a criança de todas as perguntas, deixaram a sua cidade e, serra abaixo partiram buscando à cidade que, para cada praia existe um sol para cada um. Buscavam pela vista que muitos não vivem ser ter. Observavam a maneira agradável com que os cariocas, de sotaque cantado e corpo gingado, recebiam os que ali chegavam, assim como se encantavam com as moças de pele da cor do bronze que, seminuas, saiam do mar. A gentileza e a simpatia com que eram olhados marcavam na vida de cada um dos que ali chegavam como o primeiro dia de muitos que pintaria a felicidade na vida de cada pessoa que migrava à cidade do mar e das montanhas, da água de coco e da cerveja gelada ao longo das salgadas marolas a beira mar. Rio de Janeiro, cidade maravilhosa onde eu nasci moleque, cresci rebelde e cidadão me formei para fugir à serra em busca do colo da mulher que eu tenho, amo e quero como parte do que mereço.



silvioafonso.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

POR QUE, EXCELÊNCIA?

Eu não sei se vocês já perceberam, mas a oposição ao governo não tem dado às caras e nem mesmo nesta eleição ela se faz presente. Eu acho temerosa a democracia onde todos os políticos dizem amém ao “grande chefe”. Muitas promessas foram feitas na eleição passada e o pessoal que tomou posse não cumpriu com o que disse, não quero saber se em parte ou no seu todo, mas não cumpriu. Por que a “oposição” não lança mão deste gancho para cobrar ou mesmo para tomar como sua as ideias que não saíram do papel? Tem muita coisa no País que não foi feita, muita que ficou para fazer, fora as mentiras que foram ditas e que nós acreditamos. Não estou apontando o presidente, os senadores, deputados e vereados, mas todos. Todos são responsáveis pelo que o governo faz de produtivo e pelo que fez de mal, já que em todos, com o seu voto, a maioria acreditou.
silvioafonso

terça-feira, 21 de setembro de 2010

PARABÉNS PRA VOCÊ...

Amanhã, último dia do inverno, o tempo estará claro com períodos parcialmente nublados. Parecia até que o tempo já sabia o que estava reservado para mim, pois este é o primeiro sinal de que o inverno cumpriu com o seu papel e passará, no dia 23 de setembro, a vez à primavera. Para a maioria das pessoas a primavera normalmente é chamada “de estação das flores”. Existe uma outra forma de se ver a primavera: ela é uma estação de transição entre o inverno frio e seco e o verão chuvoso e quente. E esta transição não é normal. Uma hora, chove como no verão e, de repente, a chuva para e vem um frio intenso. Portanto, nada mais natural que a primavera apresente características de todas as estações num período curto, muitas vezes no mesmo dia, parecendo que o clima está maluco. Talvez por isso eu tenha escolhido este momento para nascer, para vir ao mundo e entendê-lo assim, confuso. Tem hora que o ar cheira a flor e em outros momentos o mato molhado ou surrado com o calor do sol desprenda o perfume característico da roça, do cigarro de palha e do café torrado, moído e passado em coador de pano como faziam as nossas avós. Foi, portanto, na primavera que eu chorei pela primeira vez. Chorei por inocência, sem saber por que chorava. Talvez fosse uma idiotice, uma maldade, chorar no momento mais feliz da vida dos meus pais. Mamãe sorria, esquecida de suas dores, por me ver nu, pendurado de cabeça para baixo nas mãos do nosso médico e papai, tão conservador, sorria ao distribuir os charutos cubanos aos amigos sem se dar conta das pernas de mamãe que expunham as suas vergonhas. Nasci e comemoro no dia 2 de outubro, o dia do começo de tudo. Neste dia a natureza armou-se de pá e enxada para construir a minha estrada. Plantou em cada lado uma espécie de cada flor. Perfumou o ar para aqueles que comigo andassem e ao meu lado não sentissem as agrura dos espinhos, das pedras soltas para os pés dos que acreditam em mim. No dia dos santos anjos da guarda eu ouvirei os risos do meu pai e constatarei, na face já envelhecida de mamãe as mesmas expressões do dia do meu nascimento, quando eu chorei, pela primeira vez.


silvioafonso.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

A SUA FELICIDADE É A MINHA ALEGRIA

Debruçada sobre a cria, ela não viu passar as horas, ela não viu passar os dias. Cuidava da claridade, da temperatura e do vento. Corria com o que fosse de beber, e pra comer arrumava um jeito. Apelava pra Nossa Senhora, para todas as crenças, fazia promessas. Educava como quem adestra, dava conselhos, dividia o pão. Viu os primeiros passos, os primeiros livros, o gosto pelas roupas novas, a evolução. Viu o diploma recebido, o primeiro emprego, o casamento e os filhos que surgiam. Viu o primeiro choro, o primeiro riso, enfim, o primeiro adeus. Doou a sua vida para viver a do filho que nascia. Enclausurou os seus sonhos para fazer sonhar aquele a quem deu o seu sangue, o seu nome e a sua alma. Deu-lhe a beleza das palavras, a esperança da fé e a inspiração. Tinha a idade das jovens quando esse botão de flor deu sinal de vida. Era moça para tanta responsabilidade, mas ela não fugiu à luta. A flor desabrochou e agora, mulher formada, deixa um sorriso feliz, um beijo terno em sua face, dá adeus e vai embora. Vai numa viagem sem tempo para voltar, e se voltar, deixando para trás alguém, já sem o viço da pele, a estatura da mulher bonita e o brilho que parecia eterno nos olhos pra recomeçar.
Ela gira em torno de si e sem pressa, olha o chão e volta à casa para viver sozinha os dias que lhe sobraram.
silvioafonso.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

”PRA NÃO DIZER QUE EU ME ACOVARDEI”

Por favor, não me falem que o meu país é mal colocado em diversos rankings mundiais de competitividade. Não me digam que ele, mesmo tendo sido detectados avanços na capacidade gerencial das empresas, como na macroeconomia e no mercado financeiro, mesmo assim caiu duas posições em relação ao ano passado. Não me conte que o meu país, entre 139 outros liderados pela Suíça, caiu para o 58º lugar ficando, inclusive, abaixo da Índia e do Chile, da Itália e da China nós já sabíamos.
Não falem porque eu não vou ouvir, pois o momento de se discutir este assunto é agora. Não me contem que os candidatos estão empenhados em desmerecer as intenções e a boa fé dos seus adversários ao invés de discutirem o que eu não quero que insinuem, já que eles acham maravilhoso o crescimento nestes últimos anos, esquecendo-se que o peso do Brasil não aumentou com a produção mundial, pelo contrário, caiu nos últimos quatro anos, segundo informações abalizadas.
Estou pedindo, por favor, calem-se, porque eu não gostaria de ouvir que a eficiência do mercado de trabalho passou de 80º para 96º lugar; e em saúde e educação primária, de 79º para 87º lugar, ficando mais próximo de Chade, País do norte da África.
Parem, porque eu vou embora, não quero ouvir mais nada. Vou à praia e depois tomar chope com os amigos para contar-lhes da moça de olhos verdes que nasceu e mora no alto das montanhas, e da Rebeca, criança com jeito de moça e entendimento de ancião.
Quero dormir em concha com quem acha que sonhar não custa tanto, e viver feliz como o sol que todos os dias acorda a paz que nasceu, cresceu e ainda mora em nossa terra.


silvioafonso

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

UMA NO CRAVO, DUAS NA FERRADURA

Quantas vezes entre tantas me peguei sonhando? Tantas moças quanto eu dava conta, nem contei. Contam, as três, que, de quando em vezeu temia pelo desempenho pois duas para cada uma perfazem um total de seis. Sol na porta, luz no quarto cheio de perfume. Cheiro de vela apagada, de beijo lambido, rasgado, moleza no corpo, trabalho forçado, satisfação da alma, corpo cansado, largado, saciado.
silvioafonso

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

VIVENDO OS MEUS SONHOS...

Pensei que ardesse em febre, que crepitasse como as labaredas que viram e reviram o verso e o anverso queimando as suas roupas e colorindo de alegria o cinza dos seus desejos. Por isso eu pensei que já fosse noite no seu dia, que padecesse de alegria e que o nervo exposto lhe tirasse o ar e intumescesse o seio, que o gosto pelo amargo pusesse água em sua boca e que de tesão varasse o gelo adentro e se pusesse efervescendo às margens de um despenhadeiro. Que isso fosse a vida e não o sonho que de suor molhou a minha roupa e me deixou assim, ereto de emoção.
silvioafonso.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

A FRUTA DA FÉ.

A filosofia tem briga acirrada com a psicologia como a religião tem com a ciência. Portanto se no topo da macieira, como afirma o poeta, é aonde moram as melhores maçãs, poucos lá se atrevem e muitas delas, por estarem fora do alcance das mãos, amadurecem e apodrecem sem terem tido o privilégio da primeira mordida. Pode-se dizer, também, que as máquinas fazem a seleção no ato da colheita e as do "topo", serão as primeiras a entrarem nas caixas com destino ao mercado e as últimas a serem "comidas". Filosofia sim, mas entre a dúvida da fé e a certeza da ciência eu fico com a segunda opção.

silvioafonso