terça-feira, 31 de agosto de 2010

BOTÃO DE FLOR

Brancas, amarelas, vermelhas, perfumadas. Nasceram na primavera, mas não desanimaram no final da estação. Um dia elas partiram, foram-se ainda belas, foram embora com você.
Foram, mas, quem sabe, não quisessem.
Foram por companhia e sem olhar para trás não perceberam que nos meus olhos despetalavam todas as flores e no meu peito sangravam todas as rosas.

silvioafonso

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

POR ELA...

Pela Internet nos falávamos compartilhando sonhos e pensamentos. Ela escrevia e sempre que podia lia o que eu publicava e por ela os textos saiam, sem falsa modéstia, melhores e mais bonitos. Nas entrelinhas havia um pedido de socorro, de colo, de abraços e de perdão.
Lia, mas não entendia e se entendia, fazia que não sentia. Os dias não passaram, o tempo passou por eles, e aqui estou; escrevendo como faço há anos e nas entrelinhas um agradecimento pelos momentos lindos, pela preocupação para com aquele que escreve e a parceria constante em todos os momentos.
Aparentemente, deve pensar ela, nada mudou, tudo continua tal como era antes, mas eu sei que mudou. Mudou o jeito de olhar, o sorriso e a expressão do rosto quando eu digo que já é tarde e eu preciso ir. Mudou o tamanho da saudade e do amor que já têm a dimensão do infinito. Mudou o jeito de vestir, de tratar com terceiros. Mudou a responsabilidade e a esperança, mas do resto, nada mudou; a beleza tem o colorido das borboletas. O cheiro tem o aroma das rosas. A pureza lembra as águas do lago azul e a meiguice, a santa triste do altar.
Nada eu faria de novo, pois nada está errado para que fosse corrigido. Nada eu deixaria de fazer agora, porque a minha vida não é feita de nada, mas sim de todas as coisas, como todos os meus momentos, todos os meus pensamentos, toda a minha vida e o meu amor são por ela.

silvioafonso

terça-feira, 24 de agosto de 2010

EU NÃO SOU...

Tu podes até dizer que eu não sou teu conhecido, teu colega ou amigo, mas no fundo, no fundo, sou eu quem sabe o que, verdadeiramente, para ti eu sou; eu sou o vento que espalha a tua chama. A lágrima do teu pranto que não cala. O gol que ao teu grito escapou e a picada em que a floresta se refez. Eu não sou o sim ou o não, mas o talvez de todas as tuas certezas. Eu sou a mão da qual a tua escapou, a prece de quem não tem remédio, a extrema-unção dos teus castigos, a alegria que te mata.
Eu sou, enfim, o que tu quiseres fazer de mim.




silvioafonso

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

A MINHA VIDA, SEUS CAMINHOS E VIÉS.

À vida, nem todas, talvez só a minha, tem sido um verdadeiro carrossel. Tem vez que se mostra perigosa como a roleta-russa e tem instante de apreensão como o primeiro ato de uma peça de teatro. Tem momentos de euforia, amargura, fantasia e tem aquele em que a paz nos estende a toalha xadrez do piquenique de domingo. Todos os momentos, sendo nossos, são de certa forma valiosos. Quando tristes, o tempo não passa, mas se alegres, dificilmente são, na hora, percebidos. A tristeza faz sofrer o corpo e macera a alma. A alegria purifica o espírito mas é passageira como a chuva de verão. Eu sei que ambas têm o seu próprio peso, a sua intensidade. A tristeza só é real se perdurar, já a felicidade, efêmera, vale para uma vida inteira.
A minha vida tem sido assim; levo vários dias preocupado com a festa para ser feliz nas poucas horas de uma noite.

silvioafonso

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

COMO SE FOSSE MINHA.

O vento que fere a minha boca derrama por sobre o meu rosto os cabelos negros de suas lembranças.
Era madrugada quando a vi deixando a festa. Correu para o meu táxi, esticou-me a mão com um endereço escrito, adentrou ao carro e adormeceu. Vestia um curto vestido preto. Uma bolsa vermelha despencava do seu ombro e abraçando junto aos seios as sandálias da mesma cor que descalçaram os seus pés que mal a sustentaram, deitou quando devia se sentar.
Meia hora depois de vê-la entrar chegamos ao destino. Acendi a luz interior e lhe abri a porta. Nem um movimento. Só o forte cheiro de álcool que tomou todo o ambiente a deixou inerte, à mercê da própria sorte. Chamei por ela, sem tocá-la. Voltei a chamar e num velado sorriso virou de lado, ajeitou a roupa e ficou como que o seu quarto fosse ali. Tomei a sua mão e de perto pude ver, nela, u'a menina vestida de mulher. Nada tinha que não fosse de boneca. Os lábios vermelhos, a pele branca, o rosto corado e um cheiro de colo, de não fiz nada, de perdão. Deslumbrei nela a minha filha e, de volta, porta afora vi os batedores num clarão alaranjado anunciarem o sol que não tardara, era dia. Sentei-me ao volante e sem dar por mim esqueci todas as mazelas, não a vi deixar o carro, preocupado adormeci.

silvioafonso

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

CRIANÇA COMO ANTES...

Depois que a mulher, envergonhada, chamou a sua atenção na frente de todos naquela sala por estar falando alto o então formando em filosofia baixou a cabeça e confessou aos pés de sua amada, que entristecida, pediu desculpas: - Ah, que nada, meu bem... Não tem que se desculpar, até porque eu não acho que você se envergonha de mim, mas que fica envergonhada, fica. E continuou o estudante: - Todas as pessoas olham e as vezes acham estranho, fora do normal um cara grande, de boa aparência e conhecimentos diferenciado, visitando ou morando na mesma cidade que eles, estar ali, pertinho ao alcance dos seus olhos e de suas mãos. Amor, continuou ele; eu convivi com isso a minha vida toda e até já tinha me esquecido desses momentos, mas o puxão de orelhas é que me assusta. Ninguém, depois da minha mãe e suas porradas, se atreveu a tocar nesta ferida que arde e não sara. Você fez isso uma vez e eu fiquei sem dormir por algumas noites, mas fiquei na minha. Descobri que você tomou os ares da minha mãe e por isso doeu tanto a porrada que o tom de sua voz causou em mim. Hoje minha mãe não tem mais forças para nada, a não ser para sentir saudades do seu tempo, de suas coisas e de sua gente. Eu sei que sou motivo de estudos, mas não quero a minha vaidade exposta para análise e por isso eu me curvo, me guardo onde, com muito custo, fugi para o mundo, para avida. E concluiu: - Eu não quero que a tristeza nos atrapalhe a vida, mas por favor, respeite a minha.

silvioafonso.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

RISO, SABOR SAL.

Quantas lágrimas e suspiros...
Quantas pessoas riram desse amor tão choramingado de criança? Riram as flores, as estrelas, até o rei sol, seu companheiro, virou a cara pra rir dela.
Risos da vida que em breve será passado. Passado a ferro e a sofrimento. Passado que não sara e se sarasse não seria sério. Lembrança amargurada da menina que molha de lágrimas os bilhetes escritos a toda hora com saudade do menino que é hoje, o seu príncipe, eternamente, encantado.
Amanhã, com certeza, ele terá todas as formas, porém nenhuma forma mudará o homem, ainda menino, que foi dela, seja do jeito que for, e ela, a mulher que se tornar.

silvioafonso.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

SÓ POR AMOR..

Pediu baixinho com cara de choro, fingiu tristeza e fez beicinho, até chorou, mas nada a demoveu da ideia. Voltou ao assunto com novas promessas, novos sorrisos, flores, vestidos, bolsas, sapatos e até ameaçar de ir embora ele tentou, mas nada. O que ele queria não acontecia. Brigaram, fingiu não estar bem e por isso não foram ao cinema. Cancelou o passeio à Conservatória e do recital de flauta e violão eles esqueceram. O tempo passou e o assunto se esgotou, foi guardado na última gaveta do arquivo morto das suas exigências. Esqueceu mas não perdeu o desejo e a esperança. Em todas as mulheres ele via o que de melhor na sua existia e só de olhar o das outras, entristecia. Enxugava a baba que caia e voltava à casa para olhar de perto aquilo que lhe pertencia, mas que não estava à sua mercê.
Num fim de semana, pela manhã, como faz sempre , ela o beijou na boca. Beijou com mais ardor, mais carinho, mais amor. Falou sobre vários assuntos e entre eles o que apimentava o casamento. Adiantou que o deles era lindo não fosse a sua teimosia em querer o que ela tinha medo e por isso não cedia. Confessou que tinha curiosidade, porém receava gostar e gostando se acharia promíscua, vulgar. Isto tirava dela a vontade de tocar no assunto.
Imbuída de coragem resolveu dar um basta em tudo aquilo e salvar o casamento que, segundo ela, achava ameaçado.
Escolheram o local, mas foram antes ao teatro. Riram muito com a peça, porém a ansiedade tirou, mais dele do que dela, toda a concentração. Saíram do espetáculo e foram jantar. Já na madrugada entraram na suíte presidencial, que não era tudo o que ela merecia, mas o que tinham para o momento, e lá, ela deu as cartas. Namoraram quase sem roupa como fazem todos os dias. Beijaram-se como sempre, trocaram juras, como ele troca, ainda, e depois do segundo drinque ela cedeu ao nu e às fantasias. Tirou de dentro dele o que já o incomodava e o beijou. Trouxe para junto dos seus olhos e demoradamente o acariciou enquanto procurava nele a sua curvatura, os relevos no corpo que em suas mãos pulsava quente, inquieto. Olhava para ele sem pressa como da primeira vez, com desejos de estudante e conhecimento de mestrado. Só pararam quando ouviram os aplausos da cidade que, inteira, aplaudia o atrevimento de um casal que não mediu consequências, dores e sacrifícios. Que trancou todos os medos e demoliu tabus. Beijou-se profundamente, riu da vida, bateu a porta e voltou pra casa.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

PAI? QUEM SOU EU...

Há séculos, antes do descobrimento do Brasil, nasceu o meu primeiro filho. Com o tempo o País cresceu, ficou mais bonito e os meus outros filhos, dividindo o amor sem tamanho que eu tinha para lhes dar, fizeram de mim o pai coruja e responsável que eu sou com a sua vinda.
Ser mãe é obra divina, eu sei. Mas, pai? Talvez o criador não tivesse com o quê adjetivar o dele e por isso criou, amor. Foi amor o que eu tive pelo meu pai, e este é o mesmo sentimento que aperta o meu peito a cada vez que eu olho um, ou todos os meus filhos. Só eles tiram de mim o que eu mesmo não sabia que podia e se não faço mais é para não confundir o seu caráter e os cidadãos que eles são.
Arrepiam no meu corpo os pelos sempre que eu lembro do meu pai. Mastigo, mas não engulo o gosto adocicado de cada beijo recebido. Retempero para, do meu jeito, a minha moda, beijar os filhos que eu criei e que de felicidade me completam a cada dia.

silvioafonso

terça-feira, 3 de agosto de 2010

ASSIM NASCE O AMOR...

O amigo de minha filha, um moreninho jeitoso, tomou todas as suas coisas, colocou em um caminhão baú deu um aceno e foi embora. Mudou-se para um bairro distante de nossa rua e desde o dia em que partiu o tempo se fez sem cor. O sol não brilhou com a mesma intensidade assim como os passarinhos deixaram de sair em revoada e a cascata calou seu canto e se trancou num canto pra chorar. O jovem jeitoso deixou no peito dela um vazio imenso, do tamanho do vazio entre as águas do mar vermelho, separadas por Moisés. Amor de criança, amor de esperança.
Quando a menina chora a ausência do amigo que também sente o vazio de sua presença cria no peito deste anjo de oito anos uma ferida que dói e não sara. Cicatriz que carregará por toda a existência e quando adulta, a melhor de todas as lembranças.
Lágrimas de saudade, recordação do primeiro amor, do verdadeiro e puro amor de uma criança.
silvioafonso