sábado, 31 de julho de 2010

O VERDE DA MATA SOB O VERDE DOS SEUS OLHOS

Para um casamento de fidelidade permanecer sério e duradouro é necessário honra e respeito do casal. Cada um do par precisa ser forte diante das cantadas do seu admirador.
Quando no trabalho, no supermercado ou até mesmo na faculdade um colega bem apessoado, solteiro e discreto faz a primeira investida, o sentimento de autoestima e vaidade começam a corroer a distância que assegura a integridade da árvore frente ao lenhador.
Caso um dos dois; marido ou mulher, não dê um basta antes que outras oportunidades apareçam, certamente novos golpes com o machado serão dados no frondoso jequitibá, antes, senhor de toda a floresta.
Novas investidas farão com que tombe para o lado perdendo a majestade, centenária, tornando-a comum entre as outras.
Um golpe, dois, até seriam possíveis, mas deixar que novas oportunidades fragilizem a base e a faça refém do vento, isto não deve ser cogitado, até porque, ela, depois de derrubada, será cortada em partes, nem sempre iguais. Removida do meio das de sua espécie. Guardada em local não sabido e por fim vendida para quem não soube de sua vida e da história não tomou conhecimento.

silvioafonso.
..............................................................................................Imagem by arvoresnacidade.blogspot.com

sexta-feira, 30 de julho de 2010

MENINA DOS OLHOS TRISTES

Ainda na adolescência rabiscava os seus primeiros versos. Rimava palavras e pensamentos e entre sonhos e delírios, escreveu o primeiro livro. Vivenciou o amor com o primeiro namorado e entre pontos e vírgulas, formou sua família, criou seus filhos. Os versos cresceram embasando novos paraísos, forjando vida e morte criando tramas na ficção e romance na realidade. Seus proventos advieram da literatura que antes era um passatempo, uma forma de expressar os sentimentos da menina que amava o vento, as flores e agora se entrega ao mar, às águas que lhe banham os pés toda vez que o procura para as suas queixas ou novas inspirações. Mar de amargura, onde chora as suas tristezas e de alegria ao partilhar as suas aventuras.
Entre aspas, parênteses, sonhos e delírios. Entre as flores, as dores, entre as pessoas, mesmo que pra ficar sozinha. Entre e bate a porta, entre as rochas, entretanto, entremente, na vida da gente.
Passam as horas, e o tempo passa. Arrasta os versos, as poesias, os contos de todos os dias. Suas lágrimas empoeiradas, secas de tempos atrás, não choram mais. Olhos arregalados no futuro, livros rascunhados, um, dois, as vezes mais, embaixo do braço para editar com grossas capas, personagem com outros nomes, outras histórias, pois as suas ficaram estampadas na alma, cujo corpo luta para manter-se ativo, belo, vivo, como antes vivia a menina dos versos rimados, que ficou pra trás.
silvioafonso

segunda-feira, 26 de julho de 2010

O BEIJO DAS MENINAS

Foi no auge do meu sofrimento. No momento maior da dor que eu vi a sua mão perdida no meu rosto. Você calou gota a gota o meu pranto e quando a vida que se resumia num fio, os meus lábios, de leve, você beijou. Alvoroço na alma da mulher, que então morria. Fogos, retreta, gritos de euforia, festa de regresso à vida, feita por você. Foi a sua presença, o aconchego do seu corpo ao meu, dos seus seios espremidos contra os meus, de suas pernas às minhas entrelaçadas e dos beijos, quantos teria você deixado em minha boca, sem a minha presença? Você abriu as portas à minha vida e agora, sentida, beija a minha face, toma pra si, de volta a vida que era minha, bate atrás de si a porta, engole o choro e vai embora.
silvioafonso.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

ENTRE PALAVRAS E PENSAMENTOS.

Ter alguém entre as palavras deve ser bem melhor que entre pensamentos mesmo sabendo que os dois são frutos do desejo. Eu falo o que tu queres que eu fale e o pensamento é resultado de uma estória com meados entrelaçados de princípio e fim à nossa mercê. Os sussurros, que são palavras sem vogais não nos levam a nenhum lugar interessante, mas nos conservam aonde estamos mais picante, apimentado. É gostoso o hálito quente lambendo o lóbulo da orelha e o que ele sopra não importa, importa sim o bafo morno, gostoso, arrepiando a pele, eriçando os desejos.
Quando os meus olhos escorregam dos teus para morrer no teu decote, meu Deus, quanta vontade de morrer com eles, esmagado por esta anatomia e sepultado entre as tuas pernas em lugar aonde os deuses moram e a minha virilidade faz sentido!
silvioafonso.

terça-feira, 20 de julho de 2010

MENINOS E MENINA.

Um amigo do meu blog comentou que eu era uma pessoa triste e que, com certeza, esta tristeza é fruto da escolha de vida que eu fiz. Também falou que a dor que eu sentia por ter filhos homens e entre tantos nem uma menina para refrear os ânimos e mudar o rumo das brincadeiras justificava este triste sentimento, e que tudo isso estava explícito nos meus textos, nas minhas fotos e nas dos que me acercam.
Talvez eu tenha sido alvo de análise, já que o direito de acertar no tabuleiro e não na mosca jamais será roubado do atirador de dardos, haja vista que a felicidade a que se refere o querido amigo não é outra senão a do prêmio da mega sena, a ida ao céu para ver Jesus sem a obrigatoriedade da morte e a vida eterna dos nossos entes mais queridos. Em suma; o estoque das pequenas flechas é grande, mas o desperdício é incalculável. O jogador tem o direito de chutar a bola e errar o gol, mas botar a culpa na jabulani é sacanagem...
Todos temos o privilégio de deixar fluir a própria vida ou viver a que mais gostarmos, assim como espirrar ou tossir na hora da missa em sua igreja ou rezar, baixinho, no momento de intensa gritaria.

Talvez isto explique os meus textos e as minhas fotos sem a necessidade de culpar os homens da minha casa onde existe mel, sem a necessidade dos zangões.
silvioafonso.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

DORMI NO CAMINHO...

Tão logo cheguei à casa escorri na poltrona a roupa que você, pretensiosa, abriu com o seu atrevimento, amarrotou com o embaraço das colegiais para molhá-la com a vergonha da primeira vez.
Vazei para o chuveiro onde me deixei por horas pensando nesse despropositado encontro. Duas pessoas desconhecidas que se olham, trocam sorrisos e casualmente ocupam a mesma poltronas em um ônibus de carreira intermunicipal. Um outro olhar, desta vez provocativo, cerrou-nos os olhos e nos calou a boca num demorado beijo. Demorado como a lembrança que prostra, agora, o maior de todos os sentimentos depois de um princípio natural, carícias desaconselháveis para o lugar com uma conclusão louca, irresponsável.
Fim da linha. Um sai da vida de quem fica. Sai sem nome sem telefone. Fica sem o par, mas leva consigo a grandeza de ter feito amor quando a ordem do dia era matar, mesmo que fosse o sono.


silvioafonso.

terça-feira, 13 de julho de 2010

VERDE MENINA.

Vejo água no verde dos teus olhos, talvez por tu saberes que o tempo de criança foi embora numa revoada de borboleta e passarinho.
Tu és menina de todas as histórias, infância que o tempo não apaga, não acorda, não desperta. Tu és a mais linda adormecida das crianças, da carruagem em forma de Ferrari, dos castelos de argamassa e azulejo colorido, dos cavaleiros medievais guerreando entre as estrelas e das bonecas de todas as vestes, de trapos de seda aos tecidos indiano de moleque.
Deixes, sem vergonha, que o verde destas lágrimas seja levado pela brisa que sorri por entre os fios negros dos teus cabelos para longe de ti, para longe da possibilidade da perda, mas que deixe nos meus braços a criança que tu, jamais deixaste que os meus olhos não vissem.

silvioafonso.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

OS HOMENS DA MINHA VIDA...

Eu sou apaixonado pelos meus homens, confesso. Pelo menos tive mais felicidade com eles do que com as mulheres. No princípio foi o meu pai. Um misto de Homem-Aranha, gênio e palhaço na mesma história. Depois vieram os filhos e mesmo que eu tenha levado à risca a ideia de que, colocando a sementinha no fundo, bem no fundo do jardim entre as flores nasceria uma menina, não deu certo; deu menino para reforçar a defesa do nosso time. Tentei mais vezes e nas três outras, mais meninos. Os meus patrões também são homens e os professores, homens na sua maioria. Os deuses quiseram filhos homens, mas eu quero menina, e por fim os vultos da filosofia que formaram o meu caráter, seriam machos, sim senhor.
Continuarei tentando, mesmo a contragosto da família vou plantando as minhas esperanças no solo abençoado e fértil da minha mulher.
No próximo dia 27 a minha mais nova edição, melhorada, apagará mais uma vela no bolo de sua vida. Aproveito para agradecer a Deus por eu tê-lo vivo e saudável entre nós, e que dê a ele a minha parte de felicidade que talvez eu tenha pra sentir. São estas, pois, as pessoas que formam o amor que eu tenho. Homens de honra, pobres sim, porém honestos vivendo nesta imensa selva de interesse e vaidade.

silvioafonso

segunda-feira, 5 de julho de 2010

TRIBUTO A CATIAHO

Depois de tomar conhecimento que uma linda escritora atuante do seu Blog resolveu protagonizar o longa-metragem que conta a história do seu sucesso eu respiro, tomo o tempo que comprovadamente é pouco, armo-me de cavalete, pincéis e poucas tintas e pinto o quadro da minha vida. Sou filho de um casal que se dividia entre as artes; minha mãe amava o belo e o meu pai a perfeição, por anos dividiram entre eles um amor de fantasia, de contos de fada com herói, mas sem covarde, com mocinha sem bandido. Dois anos mais tarde bate o gongo e eles saem para o primeiro round de uma luta pelo primeiro filho. Deu menina na primeira de muitas tentativas. Outros rounds antecederam o meu sendo que para cada um novo outra menina rompia a fita de chegada. Meu pai quis desistir do embate, jogar a toalha, porém a minha mãe que não ganhava a luta, mas perdê-la não sabia, tratou de inspirar o cavalheiro de todos os gestos e de todas as palavras. Reanimou nele o músculo da vaidade que ora fraquejava para dar, ela mesma, o golpe de misericórdia e num nocaute fulminante eu nasci e acabei com o adorável sofrimento. Choro forte, riso farto, beijos e abraços com sangue pintando a cena. Entre os dois o amor, o amor que sangrava o sangue de cada um. O sangue de todos nós, possível vencido e possíveis vencedores. Cinco pares de peitos, cinco duplas de pernas femininas. Um homem ditando amor e u'a mulher com o nome de Maria. Tratamento igual para menino e meninaS. Estudar para andar com os próprios pés sem a necessidade de olhar por onde anda era a ordem para depois serem, como foram, professores do primeiro grau, do segundo e depois, da Pós, do mestrado, professores da universidade onde estudaram. Família respeitada por quem a conhecia, mas o tempo, aquele tempo, lembra? Pois é. Covarde como é levou o meu pai. O pai nosso, o pai de todos e nós, voando como voam as andorinhas vimos o pai voar de uma vida de pouco tempo para outras de eterna melancolia. Em cada palavra que dizemos o meu pai está presente. Em cada gesto, em cada riso o riso gesticulado de um cara que amou a mesma mulher como que fosse ela a única, a Eva do paraíso, e ela, novamente virgem depois que ele partiu.
Eu tenho orgulho quando lembro do amor dos meus velhos. Ele era lindo e a beleza desse amor fazia feliz o casal que não abria mão do pagamento de suas dívidas, de desculpar-se pelo atraso de algumas promessas e do meu pai esquecendo-se de algumas datas que muito me fazia rir. Tenho vergonha, como dizia, de não ser, depois de tentar sem esmorecer, a metade de tudo que o meu pai foi com a doçura de sua presença. Infelizmente a morte burra levou quem não devia, mesmo tendo deixado a mulher, mãe de todos nós, como consolo eu não desculpo o ciclo da vida.
Enfim, como só morre quem é esquecido, o meu pai vive comigo, aqui, no lado esquerdo do meu peito e nos meus pensamentos onde o seu nome pulsa forte, como as cores desta tela.

silvioafonso

quinta-feira, 1 de julho de 2010

CALAR, NEM PENSAR

Feche os olhos e deixa fluir a verve. Fale como quem fala com os seus próprios botões. Botões rosas da gérbera, botão roxo avermelhado do maracujá, branco do crisântemo, com o botão verde azulado da flor de lótus ou o vermelho brilhante da lis. Fale sem medo de errar, quer na verdade duvidosa, quer na norma culta da língua. Fale dos seus medos, de suas dores. Fale dos seus sorrisos, dos seus desamores. Fale de você, de sua primeira vez, de como foi e como fez. Fale, pois o tempo é curto, assim como a vida não é longa. Descreva o tempo, o seu momento de sozinha, de solteira, de solidão. Fale dos seus atrevimentos, se é que se atreveu pelo menos uma vez. Fale de quando você disse não, quando pretendia dizer sim. E quando você disse o que não devia, sofreu por isso ou foi o melhor momento que você viveu?
Fale portanto e não gagueje. Livre-se dos tabus e dos arrependimentos. Fale como se fosse uma prece ou a sua última vez, mas não se cale para sempre.
silvioafonso