terça-feira, 17 de novembro de 2009

A SAUDADE AINDA PULSA...

Eu me lembro tão bem...
Parece que vejo, ainda, o meu pai deitado escondendo os olhos com o braço que cobria metade do seu rosto.
Corri para o quarto e me joguei em cima do meu herói. Fiquei meio que sem jeito e vi a minha cara enrubescer. Eu não sabia o que fazer com a certeza que eu tinha de que cisco algum havia caído nos seus olhos para deixá-los tão úmidos, avermelhados. Foram estas as suas desculpas ditas ao pé do meu ouvido enquanto abraçava e beijava o filho que eu era. Hoje eu sei o quanto é difícil esconder o pranto que não cessa. Como é difícil não chorar e ter que explicar as lágrimas que incham e entristecem os olhos. E o meu pai chorou. Chorou por não ter o mínimo necessário para nos manter a mim e as minhas irmãs naquela época, para que fôssemos como as crianças que frequentavam a nossa casa.
Hoje eu choro por coisas que eu não sabia existirem no meu peito, e que me sufocam e quase matam.
Ah, meu pai...
Que saudade eu tenho de você. Como é difícil bancar o super herói com palavras exatas e atitudes coerentes, como você era comigo. Estou fazendo tudo para ser igual a você e isso tem pesado em minhas decisões. A cada dia eu me vejo mais distante dos seus passos e, não fosse o homem honrado que você fez de mim e eu pensaria, até, em parar de caminhar.
silvioafonso

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

APLAUSO DE ENSURDECER.

Foi em festa que você chegou e mesmo que nem todos torcessem por sua vinda, hoje o amam e respeitam.
Você que parecia ter as mãos vazias, trazia no semblante a feição dos anjos, no corpo o porte dos atletas e no coração a meiguice dos monges. Seu sorriso era o prenúncio da primavera e a inteligência digna dos sábios.
Quanto tempo mais eu terei de vida para deslumbrar a mais bela metamorfose? Quanto tempo o destino terá guardado para mim e seria ele o suficiente para ver o meu filho encaminhado, a minha neta formada e educada naquilo que ela pretende?
Pai e filha. Vocês são o melhor que eu recebi de Deus. Em vocês eu não aposto tudo, mas serei àquela pessoa na arquibancada da vida a aplaudir, de pé, o grande espetáculo que vocês têm para mostrar.

Tenho a honra de saber em suas veias o meu sangue e o da mulher que nasceu para ser da gente o melhor que alguém pudesse ter.

silvioafonso

terça-feira, 10 de novembro de 2009

AVE DE RAPINA

Rompeu a casca e deu as caras. Diferente das outras aves não sabia sua própria identidade. De corpo amarelo emplumado cresceu pensando que fosse um pinto. Foi levado pela vida e só deu por si quando do alto de u’a montanha foi, por ela, atirado no despenhadeiro num vazio que não tinha fim.
O hoje já é passado e quase tudo acabou ali. A sua história não foi melhor que a de uma galinha, mas teve princípio, não teve meio e fim. Seria, mas felizmente não foi o fim de sua vida.
- Bata as asas! Dizia uma voz no seu interior.
- Isso! Bata com mais força, quem sabe você não voa e, quem afirma que chegou a sua hora, o seu fim?
Antes a ave andava com os olhos pregados no chão em busca do que comer, do que fazer, como todas as outras, do galinheiro onde vivia.
Vivia assim, mas só isto não lhe bastava, ela queria algo mais, queria ser qualquer coisa além de uma galinha pura e simplesmente porque sabia que algumas portas se abrem para quem é audacioso.
Em cada canto tem uma vaga para quem ousa e para este tipo sempre existe alguma coisa a ser feita e para isto a menor recompensa é melhor que nada.
O corpo cai pesado cheio de pensamentos e de sonhos, mas suas asas batem medrosas, mas com ritmo, no espaço o seu corpo toma outra posição e a queda é atenuada.
Esperançosa esvoaça para o alto e corajosa vê que é hora de pousar. Entre tantos alvos o seu objetivo é buscar a “mosca”, o centro negro que poucos se atrevem, mas dos que acertam, poucos recebem mais do que entende a psicologia. Não se voa alto para um pagamento injusto, uma coisa qualquer por qualquer coisa. Agora é diferente porque a águia que se achava pinto vê do alto o que os outros não enxergam de perto e isso vale um salário maior, tão grande como o tamanho de suas asas. Todas as convenções foram deixadas de lado para que pudesse seguir os seus próprios pés, suas asas.
Parabéns aos que tentaram, aos que buscaram na incerteza a sua origem em detrimento do medo e do; deixa prá lá, que a inveja e a indiferença lhes obrigam.
Pinto são todos os covardes. Um filhote de águia criado no galinheiro, necessariamente, não tem que viver catando minhoca e dormindo no poleiro, basta que troque uma parte do seu sono pelos estudos, pela chance de estar com o seu filho e seu marido e tão logo se forme na faculdade voe para o mais alto que puder para, nas montanhas, fazer o seu ninho e viver com os que a amam e admiram.
SILVIOAFONSO

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

HOJE É PRIMAVERA

Hoje é primavera. Vejo em todas as folhas o verde vivo de sua idade.
Vejo no céu um azul limpo de nuvens, de tristeza e de arrependimento e você sabe porquê. Porque hoje é primavera.
A primavera é a estação do ano que surge como um hífen numa oração, um traço de união entre dois extremos; inverno e verão.
A primavera não separa as diferenças, mas comunga em todas as línguas e todos os credos, em todos os hábitos e todas as raças.
Hoje é primavera e talvez por ser diferente e rica de história você tenha nascido.
Há trinta e quatro anos todos riam e só você chorava. Todos festejavam a sua primavera
enquanto você deitado se cobria com o céu.
O céu do nascedouro, do amor dos que o aguardavam, o amor de Deus.
Leandro, Feliz primavera. Feliz nove de novembro de todos os anos. Feliz aniversário.

SILVIOAFONSO