quinta-feira, 29 de outubro de 2009

TEMPERATURA MÁXIMA.


            Tem  febre que incendeia o corpo para cozinhar os pensamentos, mas também sufoca e maltrata até matar.  Talvez seja a tristeza de quem se dedicou, fez tudo para dar certo, mas sentiu que saiu errado. Sentimento de fracasso inesperado. Guerreiro arrependido de ter matado quando o que queria era ter morrido. Agora, se num futuro próximo, a dor, graças ao medo,  lhe pareça ter ido embora, não rogue mais pela morte se tiver de dar em troca a sua acovardada vida. Matar a sede de um abraço, de um beijo. Matar a saudade de alguém querido, mas distante.  Matar a fome de quem há muito não come, matar o nome, matar, matar, matar. Não queira morrer para ter perdão, mas já que os pecadores vivem em razão do medo, por que matar então? Eu não advogo em causa própria e muito menos em causa alheia. Por isso, por favor entendam; o que eu escrevo não passa de um simples texto e não é um sufocante desabafo, mas o que justificaria a vida se até o sol morre todos os dias a cada entardecer?   Eu precisaria destas respostas para que muitos não se tornem o seu próprio  carrasco, mesmo que cada um viva encarcerado na tristeza do seu próprio corpo. 

terça-feira, 20 de outubro de 2009

DOS ASTROS, UMA ESTRELA NOVA.

É na espiral, entre o sol e a lua, que eu fico zonzo e perco o rumo. São nestas curvas que eu te vejo tonta, de rota torta, sem setas, sem metas.
Busco distante o luar de que tanto falas para saber do teu limite, se ele existe.
Rola rala a brisa que te move e por ti se torna remo fácil no manejo do teu barco.
Barco que remonta universo abaixo pelas corredeiras tortuosas, pedregosas, entre as estrelas, ópio em minhas veias.
Vento brando, brisa rala que espalha a branca nuvem, alcalóide cristalino que nasalo corpo adentro, alma afora.
Esperneies, esbravejes, mas não te gabes se para aspirar o que te adormece, tiveste de apertar os astros entre planetas e satélites.

silvioafonso

terça-feira, 13 de outubro de 2009

O AMOR DELA E O MEU, PRÓPRIO.

Do suor que regou teu corpo tu lavaste todas as minhas lembranças.
Vejas nestas marcas roxas que fizeste no meu coração com a força dos teus desejos. Elas são de força diferente da força do amor que tu fizeste em mim nascer. E a minha alma, que esfacelada se julgava morta desperta com um grito surdo, intenso, quase mudo, no interior do peito que abrigou teu medo, teu beijo e o amor que me faz vivo?
Se a nudez que descobriu meus sonhos e agora os deixa frios, sós, desprotegidos, descobriu também esse rosto que latente se mostra sorridente em minha mente embaçando os pensamentos obscuros desta dor que me fizeste. Digladio contigo desesperado e já nem sei por quê. Talvez eu busque essas respostas, como buscam as lágrimas furtivas dos meus olhos um canto para morrer e nesta morte eu tento matar o que me causa amor, me afronta com o irônico do seu sorriso, na distância que ele mesmo provocou.
silvioafonso

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

TENHO TODAS AS IDADES, INCLUSIVE A MINHA.

Aceitar a minha idade é o orgulho que eu tenho. Não renego uma parte do tempo que eu tenha vivido, digo isso sem nenhuma hipocrisia e mesmo que hipócrita eu fosse, não seria razoável que eu apagasse alguma fase da minha história para ficar cinco, três ou um ano que fosse, menos velho. Eu não seria justo com os momentos em que eu aprendi não me lembro o que e quando, mas certamente, alguma coisa eu aprendi e por isso eu não cortaria algum período de minha vida, mesmo porque eu não me lembro quando um fato importante aconteceu. Por isso, como eu vou negar o tempo em que eu ambicionava um grande amor? Certamente isso está fora de cogitação porque por este momento eu esperei a minha vida, quase, inteira, ou eu rejeitaria os instantes em que eu subia a serra para conhecer a moça dos olhos cor da mata ou os dois anos em que eu fui feliz com ela ou quem sabe; o tempo que eu continuei menino entre seus braços, seus beijos e abraços, planos e esperanças? Ah, eu não vou mentir... Não quero isso porque não ganho nada e se ganhasse, nada valeria os momentos em que eu sorri de perder o fôlego. Em que eu chorei para aliviar a alma e em que eu busquei a morte pra nascer de novo. Nascer puro, sem passado e sem pecado. Só para ser dela. Absolutamente dela, mais uma vez.
silvioafonso.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

SÉRIA, BONITA E INTELIGENTE.

Poucas são as mulheres que debruçaram na cátedra da vida apregoando sua força e a sua dor, e as que o fizeram se calçaram em rimas ou versos de forma que dissessem o amor sobre todas as coisas. Um amor com o delírio da música, com o cheiro da flor ou um amor que esculturasse o corpo e a mente sem abrir mão dos sonhos e da fantasia. Clarice Lispector, Cassandra Rios e você, que do alto deste morro me cobre os dias com a luz verde do seu olhar, todas deram a cara às fotos e aos fatos, aos ditos cochichados e aos fatos consumados.
Olhos brilhantes, às vezes com riso, sem rancor ou medo. Português da culta norma num labirinto estreito da gramática, pragmática, religião que permitissem a música das cores e das sombras numa liberdade de supremo encantamento, suspense, narrativa da força dos desejos e do amor da bela e audaciosa mulher que ama sem esconder do público o seu sentimento, nas palavras fortes que macula a alma e deixa cicatriz, mora a verdadeira mulher moderna.
silvioafonso