terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

PALHAÇO, O DEUS DO CIRCO...

O palhaço não veste roupa especial ou necessariamente pinta
de alegria a sua cara. O riso que nem sempre ascende dos
seus lábios, mas cria nos olhos da molecada o espanto do
improviso, não é postiço ou mentiroso. É real, é verdadeiro.
Não é criação do ser humano, da natureza, mas do grafiteiro
eterno que tatua na alma do escolhido a vida que ele leva.
Não dou vivas ao palhaço pelas cambalhotas ou pela graça
que ele faz, mas pela esperança que reflete na vida da criança
e a saudade da juventude na vida do idoso que ele causa.
silvioafonso.



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sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

NO BANHEIRO, FEMININO OU MASCULINO?

Ele era alto e forte, bonito, sensual. Bateu atrás de si a
porta do banheiro e se perdeu em um bloco que passava.
Outros rapazes, senhores casados, solteiros, sozinhos e
acompanhados sambavam felizes enquanto o trio
elétrico vazava pela praça da Igreja calando os blocos.
Tambores marcavam o ritmo, mas ela tinha o seu; era
eloquente, suave, inebriante como o voar das gaivotas.
O som parecia distante como um papel de parede ou a
trilha sonora de um carnaval que mexeu com a libido do
seu corpo e entorpeceu a sua alma. Suave como as águas
calmas de um riacho ela seguia o vibrante, mas distante,
som que eletrificava o povo e marcava nela o carnaval
que ainda fervia em suas veias como o aroma do gozo
roubado por quem não tinha cara, e nome muito menos,
mas tinha pegada, altura e beleza, cheiro e sabor como
provam a sua peça de roupas mais íntima deixada nem
banheiro químico e os seu crespos pêlos, ainda, arrepiados
e molhados do amor que ela viveu.

silvioafonso.

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sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

CAPITU, O LIVRO E O FILME...

Senhor crítico de cinema, eu não tenho a pretensão de ser
um ponto final na sua frase, talvez dois pontos ou uma
vírgula já me consolam. Eu sou um leitor inveterado e
acredito que até os piores textos são importantes para
o aprendizado. É lendo que se aprende a escrever.
Quanto ao livro em questão eu diria que Dom Casmurro
foi escrito com base na destruição de um tempo, sem que
se acreditasse em nada para o futuro que viria. Machado
de Assis trabalha sobre escombros e desta forma, o jeito
de contar a história dialoga com um amontoado de sobras
de aparências guardadas em arquivos. A série foi filmada
num prédio velho porque ali também havia ruínas de um
tempo. A trilha sonora traz de volta o som de Jimi Hendrix,
o toque metálico de Iron Man, de Ozzy Osbourne e ainda
uma pitada de bom gosto com Cheek to Cheek na voz de
Fred Astaire. Esta Ópera-rock é a reconciliação entre
Machado de Assis e os jovens. Só isto já contraria a idéia
de que o filme Capitu é só mais um apanhado na obra
literária de um grande escritor. Quero ressaltar que,
na visão de modernidade Capitu surpreenderá os

professores do ensino médio que trabalham para que
Dom Casmurro se transforme numa leitura de prazer.
É, o suposto adultério da protagonista, que prende o aluno
à leitura. Essa polêmica não interessa muito frente ao
ensaio existencial do escritor que explica como a dúvida
atrapalha o ser humano a viver.

silvioafonso.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

A MINHA MÃE BRIGOU COMIGO.

Eu quase morri de medo.
Gladiadores e suas lanças, montavam alados cavalos e eu,

encurralado me escondia sob as saias
das fadas que desejosas de lamber a cor melada dos meus
olhos riam enquanto eu transpirava o suor da minha
intensa agonia escoando de sobre a cama onde eu acho
que dormia.
silvioafonso


silvioafonso

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

UMA NOITE NÃO É IGUAL A OUTRA.

Foi por brincadeira que ele viu a coisa séria. Num programa
da Internet ele escreveu sobre a sua vida, mostrou as coisas
que tinha e que gostava, conheceu pessoas e também da
imagem que viu dela . Tentou uma aproximação, um
contato e se falaram. Primeiro um recado, um convite e logo
uma proposta de encontro que mais tarde lhes
mostraria o verde radical e o maduro paradoxo. Encontros
e emoções, sim e não a toda a prova. Acertos, discussão,
ponto de partida, reta de chegada e a vida corria como um
rio manso na estação das águas.
Eram diferentes em hábitos e costumes, o gosto e o futuro
se completavam no contraste dos opostos que, quanto
mais teimavam, mais se descobriam, se entendiam, se
atraiam. Psicologia, história, literatura e esporte. Vinha o
que viesse e os dois deitavam, discutiam, se fortaleciam
na conclusão. A vida deles já não pertencia a um ou
ao próximo, mas a ambos e os dois se tornavam um.
Devastador, demolidor, como é o tempo descontando as
melhores notas e as piores, cauterizou a vida deles numa
triste média. Antes ou durante, não me lembro, eles se
bastavam. O mínimo que ele oferecia era tudo o que ela
pretendia e com ele não era diferente. Passaram-se as
horas, dias, anos e agora tudo é natural, nada mais é
novidade, nada prende ou liberta.
Quando ele faz alguma coisa, para ela ele faz com carinho,
mas ela entende como quem sorri de uma piada ou fica
triste com o pranto alheio. Ele sabe que a vida tem o seu
prazo de validade e em sendo assim os sentimentos
também podem perecer...
Antes eles lapidavam os sentimentos e jogavam fora o
excedente porque se bastavam. Agora ela aceita certo
tipo de atenção porque a dele já não contunde.
Esse tempo, senhor de todos os males também é o
senhor de todas as reflexões e com este sentimento ele
encerra a sua caminhada com o cair da tarde, o fim de
ano e o cair do pano.

silvioafonso.
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segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

ELA SE FOI DO MEU AMIGO E NÃO VOLTOU.

Arde em minha alma o fogo da sua despedida. Queima em
meu peito a febre do abandono. O meu corpo sua frio nesta
viagem, sem volta, da sua alma para além da minha. Choram
os meus desejos com medo da distância e do esquecimento.
Distância entre o seu agora e a incerteza dos meus passos.
Sem você eu não quero mais a esperança que promete
fantasias aos meus sonhos, porque eu não desejo a felicidade
que os outros buscam. Eu quero o meu destino que eu
coloquei em suas mãos, sem ter de lutar por ele, mesmo que
eu sofra e chore esta dor que dói e me faz pequeno, como
estou.

silvioafonso

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

LITERALMENTE NA CAMA.

Na Itália eu cochilei por sobre os versos de Petrarca, em
Portugal me deitei com Camões refletido nos meus olhos
e du Bocage me levou à Inglaterra onde namorei aos
sonetos shakespearianos. Andei com pensadores, poetas
e escritores e em sonho eu voltei à terra onde nasci.
Cansado eu fiquei à beça e foi nos braços de Bilac e de
Cecília que eu me vi versando Chico pra cantar Caymme.
Relendo Machado eu o fiz em alta voz e de joelhos eu rezei
Fernando, Sabino e Pessoa na literatura brasileira.

silvioafonso

domingo, 1 de fevereiro de 2009

CARNAVAL NO RIO.

Chora cavaquinho, mas não finja que está triste. Grita cuíca
sem sair do compasso tocador. Pula tremendo saltitante o
pandeiro malabarista enquanto beija o estandarte que
esvoaça colorido. Cai o queixo do turista, do passista
equilibrista e sem perder o riso sai pro samba a baiana
sorridente que feliz descobre a cara fazendo girar todas
as saias mostrando por baixo outras tantas. Marca o passo
"surdão" antigo. Ritme o compasso e nesse passo o mestre
leva a escola, quem sabe à glória? Vibre com o som na
pele, cante com a harmonia dos versos e viva esta festa,
feliz, branco, mulato, negro aprendiz no trabalho
estressante no barracão das artes. Vá com Deus, visitante
estrangeiro, viaje contente, mas diga pra gente que
deste povo tu levas fé. Tu tiveste respeito por
quem não tem pão, educação, teto e chão, mas tem um
jeito jeitoso de fazer festa, como ninguém.