quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

EMPATIA.

Dizem, os melhores pensadores, que as nossas qualidades são
levadas na parte da frente do corpo e nas costas todos os nossos
defeitos. Assim, no caminho da vida, onde as pessoas se
enfileiram e passam uma a uma, fica muito cômodo a quem vem
atrás observar os defeitos da que vai à sua frente, mas a ela não
deveria ser dado o direito do comentário irônico. Não exaltar os
problemas de quem vai a sua frente deveria ser a palavra de
ordem, já que os seus, também são vistos por quem vem logo
atrás de você.
silvioafonso

[Foto by kibeloco]

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

A VASECTOMIA PODIA TER MUDADO A MINHA VIDA

Eu tenho quatro filhos maravilhosos que são frutos de um concurso
que eu não sabia que fazia. Foi lindo o meu tempo de rapaz como
tudo o que nele acontecia. Passeei por lugares que hoje, talvez, não
conseguisse e namorei as mais belas moças de minha cidade. Das
quatro mais bonitas, com as quais eu mais tomei cuidado para vitar
uma gestação não explicável eu me resguardei de camisinha ou elas
se protegeram com anticoncepcional. No entanto, estes meus
espermatozóides que mais parecem uma broca de furar concreto,
romperam os obstáculos e fecundaram os desavisados óvulos das
minhas namoradas. Coincidência, ou por ter havido muito amor nas
relações, os meus filhos são bonitos, altos, magros e inteligentes na
medida certa.Tivesse eu me precavido da vasectomia e não estaria,
agora, gritando ao mundo que eu concorri para o nascimento de
quatro lindos rapazes que a seu tempo, cada um fez de mim o bobo
que eu sou e deles os melhores homens do mundo. Pretensioso que
eu sou diria, ainda, que eles são a minha mais nova edição, e
melhorada.


silvioafonso

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

FLAMBOYANT NO ARPOADOR

Este vento, fresco, cheirando a terra carpida é o mesmo que
balançou o flamboyant e coloriu com flores os seus cabelos
no alto daquela serra. Flores de muitas cores e tons, lindas
como você olhando os ramos e se encantando com o
alaranjado da cor que “purpurava” as flores num contraste
do anil azul do céu. Quantas lembranças eu tenho de você
que não saía do meu redor, presa, como estava aos meus
beijos, aos abraços como se fossem, estes, os últimos que
eu lhe daria.Eu cuidava de você menina, respeitava em
você a senhora de todos os momentos e eu a desejava com
a sua beleza e a vibração que de todas as mulheres, você
tinha.
Você foi a primavera que floriu os meus dias dos quais me
lembro todas as tardes, quando o sol se põe ao longo
“alaranjando” o céu neste mesmo mar, em que você me viu,
no Arpoador.

silvioafonso

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

ORGASMO ALHEIO.

Meia-noite e todos pareciam dormir. Nem o pio da coruja ou os grilos se ouvia, tudo era silêncio. Uma lua, atrapalhada, brigava com as ralas nuvens tentando ver o que naquele quarto acontecia. Era amor, com certeza. Era amor de verdade, adivinhava o pequeno astro. Um amor impulsivo que prendia, arrebatava e, como o vento nas palmeiras fazia cantar, gemer, chorar. Um grito matou o silêncio e os gemidos se seguiram fazendo da noite um teatro a céu aberto. Nenhum riso e muito menos, aplauso. Todos prestavam a atenção ao primeiro e único ato não de frente para o palco, mas espreitados através das janelas que, fechadas, separavam dos atores a platéia abobalhada. Gritos surdos, Mas não mudos. Choro de medo, mas sem arrependimento e um prazer que não comensurava. Todos de pé e nem uma palavra, parecia que ninguém tinha boca, mas eram todos ouvidos. Fantasias, alucinações, céu e inferno, conjeturavam todos olhando para cima, para o quarto do 202. Mais um pouco, um pouco de tempo mais e um grito próprio de fêmea acasalando estremeceu no terceiro orgasmo o prédio onde tudo aconteceu. Fim do espetáculo. Fim do mais belo de todos os atos, que começou no romantismo de um casal apaixonado, para encerrar na masturbação de cada um, no sonho dos que, acordados, não dormiram.

silvioafonso.

domingo, 7 de dezembro de 2008

MINHA MÃE E A DERCY.

Minha mãe lê e escreve com bastante dificuldade,
mas gosta de cinema, exposição e teatro. Só
conversa com pessoas que saibam o que dizem,
trocando experiência com as mais vividas. É
generosa e bonita, fiel aos filhos, aos amigos e
aos princípios. Ri da ignorância e da inteligência.
Na época da Dercy Gonçalves não perdia um só
dos seus programas. Os palavrões da atriz...
Palavrões? Quem disse isso, eu? Não. Dercy
não falava palavrão, dizia o que todos gostariam
de falar, mas a censura os calava. Dercy,
felizmente era mulher, caso contrário ficaria
ridículo dizer aquilo e minha mãe se encantava.
Ela, Dercy, humilde e vinda do interior, tornou-se
a atriz dos pobres. Todos fingiam não gostar do
seu trabalho, mas mentiam. Todos adoravam e
pagavam qualquer valor para rir de suas
histórias ou dela, mas iam, como foram para
encorajar a alma e exercitar o riso. Eu aprendi a
sorrir com minha mãe. Ela ria, como eu rio do
meu time do coração, quando ganha ou perde.
Rio, felizmente, ainda diz a minha mãe; quando
dizem, NÃO para mim e penso; não sabem do
quê estão abrindo mão, e ela conclui: Rio se
não vivo bem e rio por não ter morrido, ainda.
Mas vivo assim, sorrindo para ser simpática e
com isto oferecer um curso intensivo de como
ser feliz sem envelhecer com precocidade.

silvioafonso