sábado, 29 de novembro de 2008

O ENTRELAÇAR DAS PARALELAS.

Quando a brandura me roubar as opções do amanhecer,
tu despertarás da madrugada nos meus braços.
Demasiada, talvez, seja a felicidade, já que a tua imagem,
sempre terna e encantadora faz o impossível entendimento
da noite, das estrelas e da aurora dos meus dias. Quando a
lágrima fugir ao seu controle e as estações frias da natureza
ficarem mais longas na lembrança, a saudade responderá
com o cansaço de um velho e eu estarei contigo ouvindo os
pássaros chilreando na amoreira e as flores num completo
desabrochar. Esvoaçarão as andorinhas, mas eu não terei
feito nada para isso. Eu acordarei, com certeza, ao teu
redor, mas calado. Sem respirar, se possível, para não
desfazer o começo do eterno e a despedida do jamais.

silvioafonso

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

A MULHER FATAL, DE OLAVO BILAC.

Recordo, ao ver-te, as épocas sombrias Do passado.
Minh'alma se transporta À Roma antiga, e da cidade
morta Dos Césares reanima as cinzas frias;
Triclínios e vivendas luzidias Percorre; pára de Suburra
à porta, E o confuso clamor escuta, absorta, Das
desvairadas e febris orgias.
Aí, num trono erecto sobre a ruína De um povo inteiro,
tendo à fronte impura O diadema imperial de Messalina,
Vejo-te bela, estátua da loucura! Erguendo no ar a mão
nervosa e fina, Tinta de sangue, que um punhal segura.

A MULHER ...

Era mais bela! O seio palpitando... Negros olhos as pálpebras
abrindo... Formas nuas no leito resvalando...
Não te rias de mim, meu anjo lindo! Por ti – as noites eu velei
chorando, Por ti – nos sonhos morrerei sorrindo!

A MULHER FATAL, DE CASTRO ALVES.
Como teu riso dói... como na treva Os lêmures respondem
no infinito: Tens o aspecto do pássaro maldito, Que em sânie
de cadáveres se ceva!
Filha da noite! A ventania leva Um soluço de amor pungente,
aflito... Fabíola!... É teu nome!... Escuta é um grito,Que
lacerante para os céus s'eleva!...
E tu folgas, Bacante dos amores, E a orgia que a mantilha te
arregaça, Enche a noite de horror, de mais horrores...
É sangue, que referve-te na taça! É sangue, que borrifa-te
estas flores! E este sangue é meu sangue... é meu... Desgraça!

A PORNOGRAFIA DE DRUMOOND.

Sugar e ser sugado pelo amor no mesmo instante boca
mil valente o corpo dois em um o gozo pleno Que não
pertence a mim nem te pertence um gozo de fusão difusa
transfusão o lamber o chupar o ser chupado no mesmo
espasmo é tudo boca boca boca boca sessenta e nove
vezes boquilíngua.

A língua lambe as pétalas vermelhas da rosa pluriaberta;
a língua lavra certo oculto botão, e vai tecendo lépidas
variações de leves ritmos.
E lambe, lambilonga, lambilenta, a licorina gruta cabeluda,
e, quanto mais lambente, mais ativa, atinge o céu do céu,
entre gemidos, entre gritos, balidos e rugidos de leões na
floresta, enfurecidos.

A castidade com que abria as coxas e reluzia a sua flora
brava. Na mansuetude das ovelhas mochas, e tão estreita,
como se alargava.
Ah, coito, coito, morte de tão vida, sepultura na grama,
sem dizeres. Em minha ardente substância esvaída, eu
não era ninguém e era mil seres em mim ressuscitados.
Era Adão, primeiro gesto nu ante a primeira negritude de
corpo feminino.
Roupa e tempo jaziam pelo chão. E nem restava mais o
mundo, à beira dessa moita orvalhada, nem destino.


Mimosa boca errante à superfície até achar o ponto em
que te apraz colher o fruto em fogo que não será comido
mas fruído até se lhe esgotar o sumo cálido e ele deixar-te,
ou o deixares, flácido, mas rorejando a baba de delícias
que fruto e boca se permitem, dádiva.
Boca mimosa e sábia, impaciente de sugar e clausurar

inteiro, em ti, o talo rígido mas varado de gozo ao confinar-
se no limitado espaço que ofereces a seu volume e jato
apaixonados como podes tornar-te, assim aberta, recurvo
céu infindo e sepultura?
Mimosa boca e santa, que devagar vais desfolhando a

líquida espuma do prazer em rito mudo, lenta-lambente-
lambilusamente ligada à forma ereta qual se fossem a
boca o próprio fruto, e o fruto a boca, oh chega, chega,
chega de beber-me, de matar-me, e, na morte, de viver-
me.

Fizeste-me a graça Sem que eu pedisse, fizeste-me a
graça de magnificar meu membro. Sem que eu esperasse,
ficaste de joelhos em posição devota. O que passou não é
passado morto. Para sempre e um dia o pênis recolhe a
piedade osculante de tua boca.
Hoje não estás nem sei onde estarás, na total

impossibilidade de gesto ou comunicação. Não te vejo não
te escuto não te aperto mas tua boca está presente,
adorando.
Adorando.

Nunca pensei ter entre as coxas um deus.

[Carlos Drumoond de Andrade]

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

TABACARIA.


Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo

Fernando Pessoa

A MULHER FATAL, DE AUGUSTO DOS ANJOS.

Em Augusto dos Anjos encontrei a mulher fatal misturada
aos traços chocantes que caracterizaram sua obra, como a
exploração intensa do orgânico, do animal...tudo a ponto de
provocar mesmo nojo aos que lêem. Em Versos íntimos, a
figura feminina é destruidora por seu abandono violento, ela
rejeita ferozmente o poeta Augusto dos anjos que não
parecendo demonstrar sensibilidade alguma. Mas ainda que
liricamente esbraveje impropérios contra ela, é possível
identificarmos que a ingratidão e o abandono não foram
suficientes para demover o lirismo da sedução que a mulher
provoca. Torna- se um ícone o dizer: o beijo, amigo, é a
véspera do escarro

"Vês! Ninguém assistiu ao formidável Enterro de tua última
quimera. Somente a Ingratidão - esta pantera - Foi tua
companheira inseparável!
Acostuma-te à lama que te espera! O Homem, que, nesta
terra miserável, Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.
Toma um fósforo. Acende teu cigarro! O beijo, amigo, é a
véspera do escarro, A mão que afaga é a mesma que
apedreja.
Se a alguém causa inda pena a tua chaga, Apedreja essa
mão vil que te afaga, Escarra nessa boca que te beija!"

A PORNOGRAFIA DE OLAVO BILAC.

Nua, mas para o amor não cabe o pejo Na minha
a sua boca eu comprimia. E, em frêmitos carnais,
ela dizia: Mais abaixo, meu bem, quero o teu beijo!
Na inconsciência bruta do meu desejo Fremente,
a minha boca obedecia, E os seus seios, tão
rígidos mordia, Fazendo-a arrepiar em doce arpejo.
Em suspiros de gozos infinitos Disse-me ela, ainda
quase em grito: Mais abaixo, meu bem! ? num
frenesi. No seu ventre pousei a minha boca, Mais
abaixo, meu bem! ? disse ela, louca, Moralistas,
perdoai! Obedeci…

[Eu, silvioafonso, fiquei sabendo que ficou famoso o papelucho deixado por Emílio de Menezes para o epitáfio do amigo: "Bilac esta cova encerra. Choram sacros e profanos... Muitos anos coma a terra, a quem comeu tantos ânus!"].

[Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac]

A PORNOGRAFIA DE DRUMMOND.

Amor – pois que é palavra essencialcomece esta canção e
toda a envolva. Amor guie o meu verso, e enquanto o guia,
reúna alma e desejo, membro e vulva.
Quem ousará dizer que ele é só alma? Quem não sente no
corpo a alma expandir-seaté desabrochar em puro gritode
orgasmo, num instante de infinito?
O corpo noutro corpo entrelaçado, fundido, dissolvido, volta
à origemdos seres, que Platão viu completados:é um, perfeito
em dois; são dois em um.
Integração na cama ou já no cosmo? Onde termina o quarto e
chega aos astros? Que força em nossos flancos nos transporta
a essa extrema região, etérea, eterna?
Ao delicioso toque do clitóris,já tudo se transforma, num
relâmpago. Em pequenino ponto desse corpo,a fonte, o fogo, o
mel se concentraram.
Vai a penetração rompendo nuvense devassando sóis tão
fulgurantesque nunca a vista humana os suportara,mas, varado
de luz, o coito segue.
E prossegue e se espraia de tal sorteque, além de nós, além da
prórpia vida,como ativa abstração que se faz carne,a idéia de
gozar está gozando.
E num sofrer de gozo entre palavras,menos que isto, sons,
arquejos, ais,um só espasmo em nós atinge o climax:é quando
o amor morre de amor, divino.
Quantas vezes morremos um no outro, no úmido subterrâneo
da vagina,nessa morte mais suave do que o sono:a pausa dos
sentidos, satisfeita.
Então a paz se instaura. A paz dos deuses,estendidos na cama,
qual estátuasvestidas de suor, agradecendoo que a um deus
acrescenta o amor terrestre.

[Carlos Drummond de Andrade]



segunda-feira, 24 de novembro de 2008

FRIEDRICH NOS MEUS SONHOS.

Nesta manhã eu despertei dizendo versos de um poeta do século
dezoito.
Meditei em pensamentos de Descartes e de Pascal e num instante
vi brilhar a trilha do meu Deus em meio à vida que eu levo na
truculenta monotonia deste tempo de cegueira espiritual. Como
não haveria de ser eu um mísero ser triste e só em meio a um
mundo de cujos objetivos não compartilho e de cuja alegria não
me diz respeito? Estou convencido que não sou um artista da
agonia, não sou, no sentido da palavra de Nietzsche, um criador
de sofrimento.
Devo admitir aqui uma observação psicológica, embora eu saiba
muito pouco sobre a minha própria existência e olha que eu
tenho ótimos motivos para crer na bondosa e severa educação de
meus pais e professores que devotos, fundamentavam a educação
na desobrigação da vontade e do prazer. Caráter e honradez
eram a base do ser melhor. Levantei, banhei o corpo e o
alimentei para um novo, mas não diferente dia de minha vida.

silvioafonso


quarta-feira, 19 de novembro de 2008

MARCAS DO TEMPO.

Que venham as rugas, mal queridas. Que cheguem as dores antes da morte, mas não tire do palhaço o direito do sorriso. Chore, sofra, sinta sede e passe fome, mas deixe aberta a porta da graça, do escárnio, dos sonhos e se você não acreditar que a felicidade existe e que os contos de fada são um engodo, mesmo assim não tire do palhaço a expressão dos olhos e o riso dos seus lábios. Não mate a esperança da criança e dos que já passaram como passou o tempo se eles vão ao circo em busca do primeiro instante, quando viajaram nas fábulas os seus sonhos de crianças.

Sentir na boca o gosto, amargo, do que eu não comi. Rever no álbum da retina as imagens que me emudeceram talvez não traga o sabor do mundo que eu presenciei, lambi, gostei, mas não comi para não ter que vomitar os dias em que eu sonhei, gozei e com azia despertei azedo para um outro dia doce da minha vida.

silvioafonso

HUMANO, DEMASIADO HUMANO

Humano, demasiado humano é uma genealogia do pensamento moderno, da razão moderna e marca o rompimento de Nietzsche com o romantismo de Richard Wagner e o pessimismo de Arthur Schopenhauer. Ele, Nietzsche, faz análise dos modismos de sua época procurando estabelecer uma ligação entre o passado bárbaro da humanidade e o estado em que se encontra o pensamento filosófico, científico e religioso do século XIX, procurando hipóteses de um progresso da humanidade pós-moderna. Seu pensamento filosófico sobre temas como metafísica, moral, religião, arte, literatura, amor, política e relações sociais de maneira clara e serena, reflete sobre as primeiras e derradeiras coisas, analisando a história dos sentimentos morais que atravessaram os séculos da história humana, criticando e recriminando a vida religiosa do ser humano, descrevendo os sentimentos e a vivência dos artistas e dos escritores, examinando o seu semelhante, suas atitudes e pensamentos na sociedade e, descrevendo a história e a função do Estado. Nietzsche é filosofia, sem ser preferencialmente filósofo; é vida espiritual, vida intelectual, vida racional, vida presente, vida humana. Nietzsche era um grande pensador que vivia em conflito consigo e com a sociedade e, sem dúvida , demasiado humano. Transcrevo um trecho copiado de Humano, demasiado Humano:
“Nós nos importamos com a boa qualidade dos homens, em primeiro lugar porque ela nos é útil, em seguida porque queremos dar-lhes alegria (os filhos aos pais, os alunos aos professores e em geral as pessoas de benévolas a todas as outras pessoas). É somente quanto a boa opinião dos homens é importante para alguém, abstraindo a vantagem ou seu desejo de agradar que falamos de vaidade. Neste caso, o homem quer dar prazer a si próprio, mas à custa dos outros homens, seja levando-os a ter uma opinião falsa a respeito dele, seja aspirando a um grau de “boa opinião”, em que esta tem de se tornar penosa para todos os outros (provocando inveja). O indivíduo quer geralmente, por meio da opinião dos outros, certificar e fortalecer diante de seus olhos a opinião que tem de si; mas o poderoso respeito pela autoridade – respeito tão antigo quanto o homem – leva muita gente também a apoiar na autoridade sua própria confiança em si, portanto a só aceitar de mão de outrem: acreditam mais no critério dos outros do que no próprio. O interesse por si próprio, o desejo de se satisfazer alcançam no vaidoso um tal nível que ele induz os outros a uma falsa estima de si falsa, demasiado elevada, e depois se fia, não obstante, na autoridade dos outros: desse modo provoca o erro e, contudo, lhe dá crédito. É preciso, portanto, admitir que os vaidosos não querem agradar tanto a outrem quanto a si próprios e que chegam ao ponto de com isso descurar seu proveito; pois, muitas vezes importa-lhes suscitar em seus semelhantes disposições desfavoráveis, hostis, invejosas, em decorrência desvantajosas para eles, apenas para terem satisfação de seu eu, o contentamento de si”.

silvioafonso


terça-feira, 18 de novembro de 2008

PASSARALHO.

Que venham as rugas, mal queridas. Que cheguem as dores antes da morte, mas não tire do palhaço o direito do sorriso. Chore, sofra, sinta sede e passe fome, mas deixe aberta a porta da graça, do escárnio, dos sonhos e se você não acreditar que a felicidade existe e que os contos de fada são um engodo, mesmo assim não tire do palhaço a expressão dos olhos e o riso dos seus lábios. Não mate a esperança da criança e dos que já passaram como passou o tempo se eles vão ao circo em busca do primeiro instante, quando viajaram nas fábulas os seus sonhos de crianças.

Sentir na boca o gosto, amargo, do que eu não comi. Rever no álbum da retina as imagens que me emudeceram talvez não traga o sabor do mundo que eu presenciei, lambi, gostei, mas não comi para não ter que vomitar os dias em que eu sonhei, gozei e com azia despertei azedo para um outro dia doce da minha vida.

silvioafonso

UMA NOITE DE AMOR OU DE AGONIA?

Meia-noite e todos pareciam dormir. Nada de pio de coruja e nem os grilos se ouvia, tudo era silêncio. Uma lua, atrapalhada, brigava com as ralas nuvens tentando ver o que acontecia naquele quarto. Era amor, com certeza. Era amor de verdade, adivinhava o pequeno astro, um amor impulsivo que prendia, arrebatava e, como o vento nas palmeiras, fazia cantar, gemer, chorar. Um grito matou o silêncio e os gemidos que se seguiram fizeram da noite um teatro a céu aberto. Nenhum riso e muito menos, aplauso. Todos prestavam a atenção ao primeiro e único ato não de frente para o palco, mas espreitando através das janelas que se faziam fechadas separando dos atores a platéia abobalhada. Gritos surdos, Mas não mudos. Choro de medo, mas sem arrependimento e um prazer que não comensurava. Todos de pé e nem uma palavra, parecia que ninguém tinha boca, mas eram todos ouvido. Fantasias, alucinações, céu e inferno, conjeturavam todos olhando para cima, para o quarto do 202. Mais um pouco, um pouco de tempo mais e um grito próprio de fêmea acasalando estremeceu, no terceiro orgasmo, o prédio onde tudo aconteceu. Fim do espetáculo. Fim do mais belo de todos os atos, que começou no romantismo de um casal apaixonado, para encerrar na masturbação de cada um, no sonho dos que, acordados, não dormiram.

silvioafonso.

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

ESTOU A MINHA PROCURA.

Meu coração questiona, sempre, as minhas atitudes, porém a minha alma não pergunta o porquê. Por isso, de vez em quando, fecho os meus olhos para não ter que responder ao tempo. Daí a razão que eu tenho de ter nascido com três vidas; uma longa para os meus amores, outra média para a minha imaginação e uma, a mais breve, para a minha felicidade. Apesar de o amor desesperar, ele é sempre bem querido e vindo. Embora a imaginação, nem sempre, possa se materializar, sonhar se faz fantástico. E ainda que a vida seja efêmera e tenha um fim, o pouco que se tenha vivido já valeu a pena por causa do mistério do sim.Qualquer lugar parece ser melhor do que aqui. Mas quando vou a esse lugar qualquer, eu quero é voltar para cá e quando aqui me encontro o meu regresso não demora. Sonho para que um dia o lá se torne definitivamente o mesmo lugar, que este lugar aqui.

silvioafonso

COMO NA FÓRMULA 1.

Eu adoraria que na vida, como na Fórmula Um, a pista fosse
de mão única, não tivesse cruzamentos e sinais luminosos,
guardas de trânsito e "Radares" prontos para multar.
Adoraria que todos corressem em busca de um mesmo ideal,
mas que, como na Fórmula Um a nossa equipe estivesse bem
treinada e que imprevistos não acontecessem. Chegar seria,
sempre, a razão principal, mais subir ao podium, uma
conseqüência.



silvioafonso.