sexta-feira, 28 de novembro de 2008

A PORNOGRAFIA DE DRUMOOND.

Sugar e ser sugado pelo amor no mesmo instante boca
mil valente o corpo dois em um o gozo pleno Que não
pertence a mim nem te pertence um gozo de fusão difusa
transfusão o lamber o chupar o ser chupado no mesmo
espasmo é tudo boca boca boca boca sessenta e nove
vezes boquilíngua.

A língua lambe as pétalas vermelhas da rosa pluriaberta;
a língua lavra certo oculto botão, e vai tecendo lépidas
variações de leves ritmos.
E lambe, lambilonga, lambilenta, a licorina gruta cabeluda,
e, quanto mais lambente, mais ativa, atinge o céu do céu,
entre gemidos, entre gritos, balidos e rugidos de leões na
floresta, enfurecidos.

A castidade com que abria as coxas e reluzia a sua flora
brava. Na mansuetude das ovelhas mochas, e tão estreita,
como se alargava.
Ah, coito, coito, morte de tão vida, sepultura na grama,
sem dizeres. Em minha ardente substância esvaída, eu
não era ninguém e era mil seres em mim ressuscitados.
Era Adão, primeiro gesto nu ante a primeira negritude de
corpo feminino.
Roupa e tempo jaziam pelo chão. E nem restava mais o
mundo, à beira dessa moita orvalhada, nem destino.


Mimosa boca errante à superfície até achar o ponto em
que te apraz colher o fruto em fogo que não será comido
mas fruído até se lhe esgotar o sumo cálido e ele deixar-te,
ou o deixares, flácido, mas rorejando a baba de delícias
que fruto e boca se permitem, dádiva.
Boca mimosa e sábia, impaciente de sugar e clausurar

inteiro, em ti, o talo rígido mas varado de gozo ao confinar-
se no limitado espaço que ofereces a seu volume e jato
apaixonados como podes tornar-te, assim aberta, recurvo
céu infindo e sepultura?
Mimosa boca e santa, que devagar vais desfolhando a

líquida espuma do prazer em rito mudo, lenta-lambente-
lambilusamente ligada à forma ereta qual se fossem a
boca o próprio fruto, e o fruto a boca, oh chega, chega,
chega de beber-me, de matar-me, e, na morte, de viver-
me.

Fizeste-me a graça Sem que eu pedisse, fizeste-me a
graça de magnificar meu membro. Sem que eu esperasse,
ficaste de joelhos em posição devota. O que passou não é
passado morto. Para sempre e um dia o pênis recolhe a
piedade osculante de tua boca.
Hoje não estás nem sei onde estarás, na total

impossibilidade de gesto ou comunicação. Não te vejo não
te escuto não te aperto mas tua boca está presente,
adorando.
Adorando.

Nunca pensei ter entre as coxas um deus.

[Carlos Drumoond de Andrade]

3 comentários:

  1. Super sensual e excitante , sobretudo por descrever a intimidade dos amantes quando ainda não acontecia a democratização dos encontros, a banalização do sexo.

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  2. .

    Aprendiz,
    eu já estou aprendendo contigo e as minhas intenções nem importam, mais.

    Um abraço.


    .

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  3. Adoro a'pornografia' de Drummond!
    Lida por vc então...ai ai.

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