quarta-feira, 9 de outubro de 2019

BANDIDA MEMÓRIA

  
   Quando a mulher diz que não se lembra da pessoa na boate 
que pagou sua conta, que ouviu suas lamúrias sem interferir no 
relato e ainda por cima a levou aos maiores e melhores orgasmos de sua vida, como  confessou a uma de suas amigas que por sinal me contou que a infeliz chegou a pensar que pudesse morrer de tanto que gozou naquela noite. É difícil acreditar que alguém, como essa senhora, pudesse negar fatos com provas não irrefutáveis como essas.  Isso me leva a pensar que a moça, quem sabe, pudesse estar sofrendo de amnésia ou escolheu a mim para otário. Eu até acredito que também não vá se lembrar de quando me sorriu ao sentar-se com o namorado, praticamente ao meu lado, na Confeitaria Colombo e muito menos admitirá o arrepiou que teria sentido quando toquei sua perna com a minha por baixo da mesa. Isso pra não falar do bilhete na teia da minha raquete depois do último set daquela partida.  Quando alguém se esquece de fatos tão relevantes é porque os corriqueiros, como o das flechas  lançadas em forma de brinde em minha intenção, não significam coisa nenhuma já que  se negava dizer que tivesse me visto na festa onde o branco preponderava e eu estava de preto.   Enquanto me questiono os dardos cruzam em todas e quaisquer direções,  tipo aqueles de ponta melada que um dia acertou em cheio o meu lado esquerdo do peito. Foi lindo vê-la erguer a taça em minha direção, sabendo eu que brindava a minha presença.  Agora só me resta torcer para que os dardos não sejam  adocicados quanto aqueles que me lambuzaram os lábios no momento do beijo, pois só assim deixará de roubar da mão dos infelizes, como eu, o doce que deu.

sexta-feira, 4 de outubro de 2019

QUE DROGA!

  
    O Ricardo foi embora... Quando ele se levantou eu estava  acordado, mas fingi que dormia para deixá-lo mais à vontade, mesmo assim veio até minha cama pra conferir. Depois tomou uma chuveirada, comeu algumas fatias de pão de forma com manteiga,um copo de leite frio e voltou ao meu quarto onde pegou a camisa que o Gabigol me deu de presente depois do jogo do Grêmio.  
Aí partiu sem dizer pra onde ia. 
Eu sei que minha casa não seria sua primeira opção ao escolher um lugar para ficar porque, como diz, eu sou chato e tudo me incomoda, inclusive a toalha molhada que o vira-casaca deixou no meu quarto quando pegou a camisa. Eu sei que só veio por ter sido enxotado da casa dos amigos por suas mulheres como a sua o enxotou da presença dela. E tudo por conta da jogatina, um vício que tirou dele o emprego, os amigos e a mulher por quem morre de amores. Foi por acreditar nesse amor que ela se afasta e o faz acreditando que sozinho possa se conscientizar da besteira que fez até porque perdeu o que tinha de mais precioso só não perdeu a minha amizade. Eu jamais o deixaria sucumbir aos pés de ferro de um baralho de cartas.  Muitas vezes, antes de me atrever em determinadas aventuras, o procurei para me aconselhar como ele muitas outras chorou no meu ombro suas mazelas.  Infelizmente a impetuosidade do vício colocou sua vergonha e sua honra de joelhos. O jogo, pelo que sabemos, não faz mal nenhum além de roubar o tempo e o dinheiro de quem joga. O pior é que ele nunca anda sozinho.  Com ele vem a bebida e o cigarro e em muitos casos as drogas ilícitas que deixam a pessoa tão fora da realidade que até tricolor "veste" a camisa do time dos outros.

segunda-feira, 23 de setembro de 2019

UMA VELHA CANÇÃO.


     
      Ouvindo Cazuza eu descobri que tenho um pouco a ver com o poeta, só não sou, como diz em uma de suas canções, muito exagerado.  Mas confesso que as vezes me excedo além dos limites. Não vou dizer que por eu saber que o "homem só é considerado homem quando faz um filho,  escreve um livro e planta uma árvore" tenha relação com a música e muito menos torna diferente aquele que faz tudo isso.  Eu, por exemplo. Desde muito cedo, ainda menino,  eu plantava semente de mamão, mas nunca vingaram. Depois comecei a escrever, mas não fui além de um contador de casos meio sem graça, e por fim as namoradinhas. Começou com as coleguinhas da escola. Depois com as meninas da rua onde a gente morava e com aquelas que frequentavam os lugares onde eu ia.  Depois de crescido comecei a escrever livros, pois queria que lessem minhas histórias da mesma maneira como eu gostava de ler a dos outros, e foram oito as tentativas, sendo que cinco estão publicadas e outras aguardando vez. Mais tarde vieram os filhos, aos pares. E daqueles que a mim foram dados a conhecer eu registrei todos. Dei a eles meu nome e com o auxílio da mãe de cada um os fiz cidadãos. E por fim, a árvore.  Comecei escolhendo um lugar para plantá-las.  Arei e adubei a terra antes de semeá-la. Depois reguei para que crescessem e chegassem ao que hoje chamamos de mata. E foi em um descampado ao norte do país  que cultivei o aglomerado verde que o mundo admira e respeita  como se fosse o pulmão do mundo.  E tudo por conta de uma canção, pois se não fosse por ela a minha modéstia não teria me permitido revelar a identidade daquele que, sem pretensão, plantou a floresta que ora desmatam e queimam.

sexta-feira, 20 de setembro de 2019

TERRA DO NUNCA

   
     Conheci dois irmãos no alto de uma favela onde um menino de seis anos e a irmã de cinco eram criados. O mais velho queria vender bala no sinal como seu pai fazia, e a irmã, voar como Sininho e Peter Pan na Terra do Nunca. Aos 10 ele realizou o sonho graças a bala perdida que encontrou seu pai, enquanto ela, a menina que sonhava conhecer Peter Pan para ensiná-la a voar com ele, já não pretendia parar de crescer.  Agora pensava ser médica pra cuidar dos pais e de quem mais precisasse. Aos 15 o menino largou a escola pra ganhar mais dinheiro lavando carros, enquanto ela desejava ser comissária de bordo, não pra voar, dizia mentindo, mas pra conhecer o mundo caso não conseguisse estudar medicina. Aos 17 ele saiu da favela pra não ceder às ordens do crime, enquanto a irmã que já não sonhava com a fada tilim-tim, mas também não achava nada fácil vestir o jaleco branco, decidiu continuar  estudando. E assim falava a criança que aos 5 anos queria voar como a fada Sininho. Aos 18 eis que se forma numa escola de poucos investimentos e talvez por isso não foi aprovada nas provas do Enem. Largou os estudo porque não teria como pagar as mensalidades da faculdade, por isso quis arranjar um trabalho, mas sem experiência precisou esperar muito e só com 20 anos foi admitida numa empresa terceirizada que prestava serviço de limpeza num aeroporto pra onde a menina que sonhava ser passarinho foi designada.  Hoje a moça descansa do almoço olhando avião. E entre os encantos da aterrissagem e o milagre das decolagens o que mais me encanta é o brilho que isso traz pros seus olhos, talvez não tão intenso como aquele dos 5 anos quando dizia que voar como Sininho voava com Peter Pan era o que ela queria pro seu futuro.

segunda-feira, 16 de setembro de 2019

A maioria dos meus textos é baseada em algum momento da minha vida o que não justifica dizer que eu seja machista ou falso garanhão, até porque a espécie humana voa comigo num balão aonde tudo é possível, inclusive curtir a paisagem.

(Isto posto, vamos ao conto de hoje:)


     
                                                            " O GOSTO DO CIO"
       O que farias se a mulher que cantaste a vida inteira decidisse ir pra cama contigo depois do trabalho?  Largavas tudo o que estivesses fazendo ou marcavas pra quando estivesse mais descansada?  Eu cá não sou adivinho, mas tenho certeza que trocarias a data da realização do teu sonho enquanto eu largava mão de qualquer coisa para levá-la à fazenda ou à uma casinha de sapê, como canta Paula Toler.  Esse é o tipo de coisa que se resolve na hora ou se perde o bonde da oportunidade.  Como o amigo sabe, o cheiro de uma pessoa que tomou banho às sete da manhã já não é o mesmo no final do expediente, por isso eu pergunto se refugas ou continuas fuçando o lugar onde o cheiro que vem à tua cara já não é tão prazeroso.  Não é prazeroso para alguns, porque na minha rua havia uma família que tinha quatro filhos, três rapazes e uma mulher, que se tornou minha amiga e confidente e com quem os irmãos achavam que eu tinha tido um caso.  Tempos depois os rapazes casaram e por acreditarem na própria mentira eu, para me vingar, resolvi assediar  suas esposas e foi com calma e persistência que cada uma se deitou na minha cama, sendo que  a última tinha desmaios com a minha boca roçando seu corpo. Até as axilas da moça eu lambi, mas quando cheguei entre as coxas, aí foi que a coisa fedeu... Jesus do céu!  Que cheiro que tinha aquele lugar. Na hora eu até pensei que fosse brochar, mas fiz cara dura e continuei até que gozasse.  Quando terminamos eu sugeri que procurasse um ginecologista e antes de dizer o porquê do conselho me deu um tapa na cara, se vestiu e foi embora. Eu tenho certeza que não comentou que tivesse saído comigo, mas falou qualquer coisa para que, não só os irmãos, mas como toda a família  me ignorasse.  Quando passo eles fingem que não me veem enquanto eu abro um belo sorriso em resposta.

terça-feira, 10 de setembro de 2019

CLAMANDO PELOS MARIDOS


    

       Revendo a maneira com que trato as pessoas chego a conclusão que preciso melhorar muito, principalmente com as mulheres da minha idade com quem me deito mais amiúde.  As jovens nem tanto, até porque são elas que me pedem para estocá-las, para jogá-las na parede e chamá-las de lagartixa.   Esses dois tipos de pessoa merecem o meu respeito e a minha compreensão e eu as entendo e respeito do mesmo jeito como sei que as mais novas precisam da companhia de homens experientes, enquanto as outras da companhia de quem as escute e concorde com suas necessidades, mesmo que veladas. Daquelas com quem me deitei eu guardo lembranças como guardo de  uma que só descobri que era prostituta por ter me cobrado por um serviço que  não contratei mesmo tendo gozado mais vezes do que eu previ que ela gozasse. Lembro de uma atriz que quase apanhou do marido por sorrir pra mim num restaurante em Vitória.  O mais interessante  foi ela bater à porta do meu quarto horas depois.  Também não me esqueço das que foram trocadas por partidas de tênis nas quadras dos clubes granfinos do Rio. A essas a quem rendo as minhas homenagens, dei o máximo de mim.  É claro que eu buscava o prazer que me deram, mas com elas eu fiz o que os maridos tinham o dever de fazer ou seja; ouvir suas histórias, rir na hora do riso e franzir o cenho na hora de suas angústias. Talvez poucos saibam que tem marido que não está nem aí pras esposas e o pior é que elas não gostam de fazer com qualquer um, mesmo que seja bonito e gostoso,  o que fariam com os maridos se eles se permitissem.  Muitos me aceitaram como amigo de suas mulheres, deixaram que eu comesse em suas mesas, bebesse da sua bebida e indiretamente me permitiram deitar com suas parceiras. Essas mulheres precisam de tratamento refinado por parte dos maridos ou  nossos “trabalhos” se tornarão indispensável como vêm se tornando.

sexta-feira, 6 de setembro de 2019

A COISA ESTÁ PRETA

      Chovia e só Deus sabe o quanto me custou não ter coragem pra pegar a estrada com a chuva que caía, mas, convenhamos sair debaixo de raios com trovões explodindo em meus ouvidos, só louco.  Eu cerrava as cortinas quando o interfone tocou. Atendi, mas ninguém disse nada ou se disse, com aquele barulho eu não ouvi, por isso desci e na portaria alguém de preto, cabelos pintado de azul, três pirsings em cada orelha e anéis de caveira nos dedos.  Passou todo encharcado sem me olhar. Era uma garota de 19 anos mais ou menos que, no elevador, apertou o décimo e se  encolheu num canto.
No segundo andar as luzes piscaram e no terceiro o elevador deu uma sacudida, mas foi entre o sexto e o sétimo que ele parou. A luz voltou a piscar e o ar desligou quando a energia acabou. Em pouco tempo tudo passou, menos a garota que apavorada desmaiou de nervoso. Tentei consolá-la, mas não me ouvia. No décimo não tinha ninguém para recebê-la e se eu a deixá-la ali, jogada, seria omissão de socorro, por isso a arrastei para dentro de casa. Tentei pedir socorro, mas o celular não tinha sinal. Então eu a estapeei e até assoprei-lhe os ouvidos, mas nada, nem se mexia. Achei que respiração boca a boca fosse uma boa, mas não tive coragem. Fui à cozinha e quando voltei percebi que ela tinha mudado de posição.  Tentei um novo contato, mas não respondeu. 
-Será que ela está mesmo apagada ou ta de sacanagem? - Pensei. Pra ter certeza eu a coloquei na cama, botei minha boca na dela e assoprei uma vez. E outra, e outra até que a coisa virou beijo, e quanto mais eu beijava mais acelerada ficava a sua respiração. Em dado momento ela mais parecia um corredor de maratona num final de prova. 
-Graças a Deus a garota está bem e se quis me testar conseguiu. Escorri minha boca pescoço abaixo em quem resfolegava como locomotiva subindo serra.  Com muita calma e  bastante carinho enfiei a boca em um dos seus seios. Livrei-a dos empecilhos que  a sufocavam e a degustei por inteiro. Eu a bebi como um cão bebe água, até o som que eu fazia com a língua era igual. O vento não me soprava na cara os aromas do campo, mas também não me desagradava o perfume que me trazia. Desci deslizando as encostas até o pomar onde chupei todinha aquela fruta. 
Nada mais eu quis fazer sem que ela participasse, por isso tomei uma ducha e voltei. Voltei a tempo de vê-la amarrar o cadarço do coturno, vestir o casado e bater a porta atrás de si. Foi embora sem me perguntar o porquê dela estar minha cama.
-Este fato me deu a certeza de que ela deixou a tribo para descansar, e foi o que fez.



segunda-feira, 2 de setembro de 2019

CARA DE CÃO.

    
     Tu te lembras de quando te deram um cãozinho para fazer companhia ao teu filho que acabava de nascer? Lembras quando te recebiam no portão sujando as pernas das tuas calças com a terra com que brincavam? Não adiantava reclamar porque todos os dias a cena se repetia e terminava com o pai beijando o filho e num sutil gesto dava um passa-fora em quem latia de felicidade. Tu te lembras? Os dois tinham cinco anos naquela época.  Aos quinze, um foi viajar num intercâmbio de 10 anos no Canadá e te deixou choroso com o cachorro no portão de embarque, tu te recordas?  Hoje o garoto está formado.  Namorou uma colega da faculdade com quem logo se casará e agora, através das redes sociais, ficas sabendo que voltar ao Brasil não faz parte dos sonhos dele.  Coitado de ti meu amigo, que já não tens mais quem te suje a roupa quando chegas do trabalho. O teu filho foi cuidar da vida dele muito além de onde possam alcançar teus olhos e pelo que deixou perceber, há muito que te esqueceu enquanto o cão definha de saudade, sem forças pra correr ao encontro de quem, durante anos, lhe dava passa-foras dos quais jamais se envergonhou.

quinta-feira, 29 de agosto de 2019

SONHAR É DE GRAÇA.

    
     Eu sei que não devia, mas já critiquei quem ficasse horas, dias na fila para comprar o direito de ver de perto seu ídolo.  Eu nunca fiquei, mas também não os vi a menos de 20 metros e por não concordar com essa ideia foi que abri comentário sobre a mulherada que grita, chora e quer por que quer uma lembrança do artista e não importa se for um autógrafo, uma selfie ou um pedaço da roupa.  Na época em que abri falatória eu tinha a impressão de que se ele quisesse levar uma, duas, três ou todas pra casa nenhuma diria que não e o que faria esse cara com quem diz que morre por ele?  Eu sei que todos têm uma resposta para esta pergunta, mas, e os rapazes,  teriam eles coragem de passar uma noite com a pessoa em questão? É claro que sim, mas dormir na cama com ele só elas teriam coragem, todas juntas ou a combinar.  Tem momento que eu fico me perguntando; por que gritam, choram e até se rasgam por uma pessoa que nada tem para lhes dar além da música ou da performasse, dependendo do artista?  Esses caras, como sabemos, não são como a gente, são artistas e artista é qualquer coisa fora do comum porque criam sonhos, são artesões ou, se achar melhor, são fadas que nos levam à  ilha da fantasia, próximo a terra do nunca.  Hoje  não falo mais essas coisas, principalmente depois que eu descobri que a vida  é feita de sonhos e quem constrói esses sonhos senão os artista com suas canções, com as histórias que contam e com  a experiência de vida que têm?

segunda-feira, 26 de agosto de 2019

É DANDO QUE SE RECEBE

    

     Não tinha uma vez que eu não corresse para vê-la subir a ladeira onde a gente morava.  Ela era morena, magra, 14 anos e não muito bonita.  Não tinha corpo e nem jeito de mulher, porém fôra, pelo que nos diziam, estuprada por vários rapazes do bairro e isso mexia muito comigo. Eu sei que é triste falar dessas coisas, mas se quero falar a verdade preciso dizer que um menino de 15 anos morre de desejos pecaminosos quando ouve falar dessas coisas, imagina ver aquela que teve vários rapazes um pouco mais velho  tocando um corpo que não lhes pertencia e muito menos tinham o seu consentimento.  Não quero dizer com isso que eu os invejasse,  mas só de pensar no ato eu sabia que também pecava como qualquer ser humano da minha idade.  Agora eu a vejo atravessar a passarela dos sonhos que eu tive com ela enquanto ela, quem sabe, não pensasse que a minha passarela era o corredor da morte das possibilidades de se casar virgem, não ser tratada pelos pais dos amigos como alguém que tivesse concorrido para que o fato acontecesse.  Quando fiz 18 anos alguém me cumprimentou com voz de mulher. Gente, eu nem me lembrava mais dela quando me cumprimentou e com a mão estendida esperando a minha foi que eu vi na mulher que se tornou a menina de 14 anos que só andava com os olhos lambendo os pés e no momento eram os meus que os lambiam. Um longa metragem passou rapidamente na minha cabeça com um coadjuvante assumindo o protagonismo da cena e mudando o sentido da história. 

sábado, 24 de agosto de 2019

O SERMÃO DO PASTOR



     Eu juro que vi Elzevir transando a irmã, por trás, no fundo do terreno onde moravam.  O pior não foi o encesto, mas o tempo que levei pra dizer que ia contar pro pai dela.  Sim, porque se eu saísse dando com a língua nos dentes o irmãozinho, que tinha cinco anos a mais do que eu, certamente, os quebraria.  Primeiro eu falei pra irmã mais nova que falou pra pecadora.  Depois veio um bilhete marcando um encontro comigo naquela noite, na saída do culto.  Eu precisava estudar para melhorar minhas notas, mas larguei tudo e fui pra frente da igreja esperar por ela, quer dizer, por eles, porque o irmão e mais três  garotos vieram pra cima de mim.  Sorte que eu os vi antes e pude correr.  Correr pra casa deles onde Seu Hermes me recebeu com um sorriso desse tamanho achando que eu tinha “aceitado Jesus”.  Só que não, porque naquela idade eu não queria  nenhum compromisso além da escola pra tomar o meu tempo. Momentos depois Dona Martha chegou com os filhos que, ao me virem conversando com o pai deles, Jesus amado, foi uma puxação de saco tão grande que até seu Hermes desconfiou e se não fosse a esposa mencionar o sermão do pastor eu nem sei o que teria acontecido.  Cinco minutos depois a encestada me chamou num canto pra perguntar o que eu tinha ido fazer lá e eu, claro, menti que tinha ido pra contar “aquele negócio” pro pai dela.  Elzinha quis chorar, mas pegou minha mão e olhando nos meus olhos com o azul dos dela, me subornou;  – se eu deixar você por  a mão dentro do meu sutiã você esquece “essa coisa”?  
   Até hoje, tantos anos depois, ainda tento esquecer “essa coisa”, mas quem me garante que um dia eu vá conseguir?!

quarta-feira, 21 de agosto de 2019

COM TODO GÁS.


      Eu sou muito acanhado, mas quando os hormônios bolinam a parte de baixo do meu umbigo eu não peço desculpas ou permissão para arredar as cadeiras, puxar a mesa prum canto e dar, na frente de qualquer um, o espetáculo que nem eu acredito que dou. E coisas assim não são impossíveis de acontecer principalmente com quem lida com gente.   Recentemente uma senhora ligou pra o depósito de gás do meu sobrinho pedindo urgência no atendimento e como eu estava fazendo as entregas pra ele não tinha como deixar a freguesa esperando. Acontece que a dona acabou se esquecendo de mim ou eu não teria mofado do lado de fora com aquele peso nas costas e o sol quente na testa como fiquei.
  – Entre por favor, e desculpe por  te fazer esperar – disse a mulher diante de um cara que mal se mexia com aquilo tudo abrigado num roupão branco e toalha nos cabelos.  Ela não tinha uma cara bonita, mas tinha corpo de passista de escola de samba ou melhor; ela era a própria escola de samba e a cada evolução o roupão me premiava com as pernas de sua dona. Quando cheguei à cozinha e ela se abaixou para abrir o armário, eis que um par de belas e apetitosas mamas me salta aos olhos e eu quase atrapalho o andamento da comissão de frente.  
– Desculpa, na correria vesti qualquer coisa só pra não te deixar esperando naquele calor.  Espere só mais um pouquinho que eu vou me trocar e já volto pra te pagar – disse sorrindo.  A freguesa foi para o quarto e como estava demorando mais do que o necessário eu menti que passava mais tarde pra receber. 
– Espera aí, não vai embora não.  É o zíper do vestido engasgou – disse com jeito de gozação.  Ouvindo tal desculpa eu me prontifiquei a ajudá-la, no que ela aceitou. 
– Meu pai do céu, o que era aquilo nu na minha frente, senhor?! Eu jamais tinha visto corpo mais bonito e sedutor que aquele. A minha educação até me puxava pra fora do quarto pelas orelhas, enquanto a minha libido queria me empurrar pra cima da cama com ela.  
– Que mãos grossa você tem, meu rapaz. Você é todo assim ou é a minha pele que é sedosa de mais?  Antes de terminar o que dizia o vestido pulou pro cabide enquanto ela, na ponta dos pés, enlaçava-me pelo pescoço.  
Até hoje meu sobrinho não fala comigo.

sexta-feira, 16 de agosto de 2019

PRATO FEITO.

  Mulher a gente vê "aos monte" por aí. Algumas sem sal e  outras até bem temperadas, sendo que a maioria, se  fosse comestível, seria comparada ao prato principal.  Infelizmente a destemperada que morou comigo durante tanto tempo me trocou por outro e quase me  tirou o apetite quando falou que ia  embora, não por traição ou falta de amor da minha parte, mas pelo ciúme que tinha dos amigos com quem tomo chope, nas sextas, depois do trampo.  Eu tenho certeza que o motivo não foi outro senão os encantos de um  cafajeste que jurava acabar com a sede, que ele achava que ela sentia, mas agora a faz de pasto em sua cama.  Hoje eu sei que se arrepende de ter trocado um cara que, na cama, dava a ela os carinhos que gostava e, caso o gozo não a matasse, compartilhava comigo  um pouco do que lhe dei.  Mas agora Inês é morta, principalmente quando sua amiga confessou que matava a minha fome, aí ela pirou; foi a todos os lugares que eu frequento pra dizer que sou ruim de cama e que muitas vezes já dei  pinta de gostar de homem.  Também afirmou que sou mau pagador e que a empresa em que trabalho só não me manda embora porque é caro contratar outro melhor. Felizmente não falou que a polícia estava atrás de mim por ter  roubado um banco ou  atirado em alguém.  De qualquer forma arranhou bem a minha imagem. Mas não faz mal não porque o  mundo não vai mudar a rota por causa disso e muito menos por causa de uma mulher  que, se bem não me quis, outra, como sua amiga, bem há de me querer.

terça-feira, 13 de agosto de 2019

A ÁFRICA É AQUI.

   

    Toda noite é a mesma ladainha e por mais que eu esfregue a orelha na parede não entendo o que dizem se estão brigando. Principalmente a moça que fala e chora ao mesmo tempo ao passo que o homem, este não chora, mas grita muito, e o pior é que usa uma linguagem que ela, mesmo brasileira, parece compreender. Eu não sei por que essa mulher não arruma as tralhas e vai embora.  Ninguém, em sã consciência, aguentaria o que ela vem conseguindo. As vezes esse animal me dá a certeza de que vai derrubar o prédio. Não é fácil dormir com tamanha confusão, aliás, é o que de melhor sabem fazer.  A porradaria tem início meia hora após sua chegada  e assim vai até altas madrugadas.  Depois do quebra quebra o pano cai dando vez ao silêncio sepulcral. Nessas horas eu sempre acho que um matou o outro e fugiu. Eu não sei porque, mas já teve momento de eu pensar que ela, psicologicamente, já tivesse morrido, tais os palavrões com que era tratada. Afinal, qual o marido que chama a esposa de galinha, cachorra, puta e vagabunda, entre outras coisas que o idioma não me favorece compreender?  Em duas ocasiões pensei falar com a polícia, mas me lembrei que os apartamentos do meu condomínio pertencem a Marinha e eu não ficaria nada confortável sendo jogado aos tubarões.  Ontem, no elevador subindo pra minha casa, eu conheci os barulhentos.  Ele, um senegalês desse tamanho. suas mãos estavam mais pra raquete de  tênis de quadra de saibro que pra de ping pongue, enquanto ela, uma loirinha meio metro menor do que ele, porém muito gostosa, tipo; "bem resolvida sexualmente" e que estava  mais pra quem parecia viver um conto de fadas do que pra vítima de torturador. Agora, arranhões, manchas roxas ou vermelhidão no corpo se tinha eu não vi, por mais que esfregasse os meus olhos naquele corpinho gostoso.  No elevador o sujeito não tirava os olhos do indicador luminoso enquanto ela, na ponta dos pés o beija e se esfregava com tamanha avidez que, não ele, mas se eu dissesse qualquer coisa, ufa!,  ninguém me entenderia.

quarta-feira, 7 de agosto de 2019

A IRMÃ...



   Fiquei feliz quando Aldeir, um amigo que há muito eu não via, me disse que ia se casar. Porém minha alegria foi desvanecendo a medida que o amigo descrevia a mulher, principalmente quando me contou que tinha estudado no Mosteiro de São Bento, longe dos pais, sem namoro e com acesso restrito à internet. Só faltava dizer que tinha o mesmo nome da mulher do Brad Pitt e como desgraça pouca é bobagem eu fiz questão de  saber qual era. 
– Amor. Eu a trato por amor porque não quero que pensem que estou com ela por causa do nome, por isso a chamo de amor...
Não foi a resposta que me matou porque já sangrava quando fiz a pergunta. 
Naquele momento começou a girar tudo à minha volta e não dar spoiler era quase impossível.  Ainda mais quando lembro que juramos ficar juntos até que a morte nos separasse. Mas, quis o destino que eu a visse, nua, com uma noviça na cama da minha empregada. Na hora  eu não disse nada, até fui pro quarto fingindo nada ter visto, mas saiu correndo, talvez levasse a mocinha com ela e sumiu. Depois disso eu nunca mais tive notícias dela. Foi e não disse nada e nem mesmo ficou sabendo que jamais tive problemas quanto a isso, que não enxergo como traição alguém se relacionar com pessoa do mesmo sexo até sendo casada. Mal sabia que eu jamais a deixaria por conta dessa bobagem a não ser que o fizesse com um homem. Sem esconder sua alegria Aldeir me falava da suposta castidade de quem tantas e tantas vezes me fez urrar de prazer e em outras tantas me desesperei achando que a tinha matado com os múltiplos orgasmos que só eu sabia provocar. E Aldeir gesticulava, falava alto e ria de gargalhar e, não fossem as firulas que fazia e teria percebido a lágrima que eu enxuguei com as costas da mão. Meu Deus, não posso confrontar a felicidade de um amigo, com cara de quem perdeu a mãe num incêndio – pensei –, mas o que faço, senhor,  pra não demonstrar que a noticia matou a esperança tê-la outra vez?
– Eu acredito que adivinhou o que vim fazer por aqui além de falar do meu casamento, não já? – Perguntou abrindo os braços para um abraço. 
– Não, meu amigo. Não adivinhei não – respondi. 
– Eu e a minha noiva decidimos que você será nosso padrinho e não aceitaremos desculpas, quaisquer que sejam. 
A gente chorava abraçado, cada um com o seu próprio motivo.
– Angelina tinha razão te escolhendo entre os outro amigos...


domingo, 4 de agosto de 2019

EU QUERIA UM SIM, SÓ ISSO.


  


    Ficou horas sentada na soleira da porta vendo os patos  se banhando, mas não viu o sol atravessar o lago e ir embora.  Encolheu as pernas, trouxe os joelhos para o queixo e chorou o resto que sobrou daquela tarde.  Não atendeu o telefone, também não comeu e muito menos quis ver ou falar com alguém. Morrer talvez fosse a única coisa em que pensasse.  O engraçado é que há bem pouco tempo essa pessoa fez uma grosseria tão grande com quem passou anos procurando coragem pra se declarar e quando conseguiu quase morreu de vergonha com o passa-fora que levou. Essa é a pessoa chorosa que ora inveja a felicidade dos bichos. Dizem que a partir daquele dia nunca mais o declarante foi o mesmo, pois teria se trancado longe de tudo e de todos e se não fosse a família ameaçá-lo de internação talvez a morte me impedisse de contar essa história. Aos poucos a ideia de sumir foi se perdendo.  Com um amigo que dele  não desistiu, voltou  aos patins e à pedalar.  Algumas vezes  colocava o barco na água e sozinho  remava as mansas águas do lago onde a brisa beijava melhor  que qualquer pessoa.  Não quero afirmar  que do meio do lago  não desse pra ouvir os soluços de alguém chorando, mas  mentiria se negasse que não  a tivesse visto através da folhagem.  E como diz o palhaçopoeta, nada é por acaso, principalmente quando se coloca um barco n'água exatamente quando a mulher que se perfuma, veste a roupa que a gente gosta e é protagonista do filme da nossa vida resolve sentar pra chorar. 
– Ei, moça!,  tá tudo bem com você?, perguntou sabendo de quem se tratava ao passo que ela, dele não se lembrava.  
– Tá, ta tudo bem, sim, obrigado – respondeu enxugando os olhos.  Fingindo não ter ouvido o rapaz sentou-se ao  seu lado. 
– Não, moça. Ninguém chora por nada. Confie em mim e me conte, só quero ajudar. E outra coisa, quando voltar ao meu barco você nunca mais saberá de mim, portanto relaxa...  
– Sabe o que é; é que eu sou desprezível. E pessoas desprezíveis merecem sofrer, principalmente quando se envergonha  aquele que declara seu amor  por você. E o pior é que eu não conhecia a pessoa pra quem fiz essa maldade.   
– Liga não, moça, já passou, e com certeza ele já nem se lembre mais disso e esteja até se relacionando com outra pessoa. Olha, por que não entra, troca de roupa e, quem sabe, chame um amigo pra sair?!  Enquanto a conversa rola a cabeça expurga os pensamentos ruis...
– Você tem razão, vou fazer o que disse. Obrigada – e concluiu – a propósito; caso você não  tenha outro  compromisso além desse;  remar um barco pra ficar me olhando, você pode sair comigo?...

quarta-feira, 31 de julho de 2019

FRUTA MADURA


   

    Não dava pra ver se era fruta o que ela chupava a não ser a certeza de ter raro sabor tais eram as expressões de quem a sorvia. Os movimentos da língua em torno do fruto eram verdadeiras aulas de expressão facial, corporal, de música ou de dança.  Qualquer coisa sensual beirando o erotismo e às vezes passando de uma despretensiosa lambida às indecências da luxúria, pois se contorcia no trato prazeroso que dava ou que recebia com as chupadas cuidadosas, de forma que não machucasse ou  o deixasse fugir de onde estava. Do último cômodo onde passaria à noite não dava pra distinguir se de fato era fruta ou um beija-flor. Sendo fruta não carecia de tamanho cuidado ao passo que um passarinho jamais prestaria pra ser lambido daquele jeito. E aos poucos a coisa fluía... Passou de pequenos sussurros a palavras confusas, sem sentido. Depois vieram os gritinhos e as contorções que lembravam uma cobra cuja espinha fora quebrada.  Com a desculpa de querer ajudá-la avancei até onde se encontrava aquela que poderia estar sendo drogada por um desalmado que às pressas a deixou se refestelando com algo destemperado e sem gosto que só a ele deveria ser prazeroso, mas na verdade, era ela que praticamente morria com agudeza daquele veneno. Depois que cheguei a garota, de cara amarrada, enxugou as lágrimas, arrumou o vestido e na hora de ir embora colocou o sorriso da mulher resolvida nos lábios e saiu batendo a porta na cara da inveja. Partiu sem deixar seu nome ou um simples muito obrigado.

sexta-feira, 26 de julho de 2019

PRA RIR OU PRA QUÊ?

  
      Muita alegria ainda te fará rir da barriga doer e mais feliz o teu coração ao passo que em outras ocasiões ficarás num quarto trancado amargando teu sofrimento. 
Talvez porque o mundo não é outra coisa senão uma fábrica de contraditórios e loucos sentimentos. Uma vida, uma só eu não acho o bastante para chegar ao equilíbrio entre a lágrima da alegria e a lágrima do sofrimento, já que derramarás um rio delas no nascimento do teu primeiro filho e um oceano quando se forem teus pais. Também ficarás noites em claro por conta do vestibular e outras tantas cuidando de pacientes. Nas manhãs, tão logo a janela do teu quarto e o dia te permitirem, verás um sol desse tamanho se esfregando nas folhas inocentes da vegetação que sorrindo, porém submissa, curvar-se-á diante o rei. É por isso que me nego a pensar que nem todo prato tem sabor de festa, principalmente quando dou conta do quão tênue é a linha entre equilibrista e palhaço no instante em que esse último precisa, com galhofagem, justificar o desequilíbrio do amigo.
E pra não dizer que não falo de flores; há um mês Jesus apareceu aqui na Gávea. Fora contratado com a missão de fazer do meu clube uma esquadra imbatível, pois só com milagre se conseguiria tal feito.   Foi uma festa saber da contratação, mas até agora não sei se a felicidade de tê-lo entre nós  foi mais saborosa  que a salgada tristeza dos milagres concebidos.  Jesus e os  onze apóstolos,  empataram dois jogos, ganharam um e com isso perdemos a chance da disputa do título o que fez  do santo sepulcro  vermelho se cobrir de um preto desconcertante. Talvez por isso Chico tenha comparado bêbado com equilibrista enquanto a moça feia debruçada à janela sorria pensando que a banda tocasse pra ela.

sexta-feira, 19 de julho de 2019

À CIGANA


     
       Não faz  um mês que me mudei por conta de um marido ciumento e a minha casa já está cheia de gente novamente.  E não são amigos  feitos no decorrer da vida que estão lá, mas  vizinhos que vão chegando, chegando e acabam ficando.  Sempre vinha alguém  me perguntar se estava tudo bem, se  precisava de alguma coisa ou me chamava pra conhecer sua casa.  Foi tipo, se frequentando, que a gente acabou se enturmando. Atualmente eu preciso bocejar  pra ver se alguém se dá conta de que o sol, faz tempo, escorre pelo telhado e eu não dormi. Se deixasse passavam a noite bebendo, comendo  tira gosto e falando de futebol e mulher.  São pessoas que de uma forma ou de outra vêm pra somar.  Uma completando a outra.  Por exemplo; quem  podia comprava as bebidas; chegava cedo, colocava a cerveja no gelo e voltavam pra casa. Os outros levavam as esposas e o tira gosto, que dava no mesmo.  A minha tristeza era  quando tinha de  enxotá-los da minha casa, mas se não o fizesse, quem levantaria no dia seguinte pra trabalhar, alguém sabe? A metade dos que eu vi  bebendo contava bravata e a outra metade falava mentira. Por isso é que dizem que bebida e verdade não dá rima, mas também não ofende, não é mesmo?  O bom disso é que não brigavam quando um bebia  a cerveja que não comprou  ou se conversava com a mulher que não fosse a sua, desde que dessem  boas gargalhadas e não mudassem de assunto com a chegada de alguém. Mas não pensem que a festa  acabava se uma dessas regras fosse quebrada, a não ser pra quem errasse, claro.  No sábado, quando me levantei, vi que a mesa do café estava arrumada. Mas como arrumada se moro sozinho e não tenho empregada?, a não ser que alguém tenha dormido comigo e não me contaram. Tim tim, disse a mulher d’ um polícia, gente boa,  enrolada numa toalha erguendo a xícara.  Jesus amado eu  estava gostando tanto desse lugar e já vou  procurar outro pra me mudar.

segunda-feira, 8 de julho de 2019

SEM DIREÇÃO.

   
     No pior trecho entre Barreiras e Natividade, na Bahia, um caminhão em alta velocidade escorraçou-me fora da pista. Felizmente alguém me socorreu e ligou pro seguro da moto. Três dias fora do ar sem ninguém das minhas relações saber de mim.  
– Foi um milagre não ter morrido, diziam ao pé do leito. E tanto era verdade que além de Deus eu precisava agradecer a quem tomou pra si a responsabilidade de cuidar de um moribundo.  E era um faxineira, um anjo com mãos de fada e segurança de arremessador de facas. Eram mãos seguras e de uma maciez tal que me deixava de pau duro.    Quando tive alta ela me levou pra casa, pra casa dela, porque a minha estava há horas dali. – Se não fizer fisioterapia uma pernas vai ficar curta e a outra perde os movimentos, como o Dr. falou, mas não se preocupe que amanhã começam as sessões. Deu boa noite, fechou a porta e saiu.
Meu Deus do céu, teria a fisioterapeuta mãos macias quanto as dela?, e se tiver e o meu negócio vai ficar duro pra me envergonhar, como tem feito?
Para a minha felicidade ou tristeza, adivinha quem veio à tardinha me massagear?, ela, a faxineira, que ao puxar meu lençol deu de cara, mas fingiu não ter visto, o que tinha endurecido ao ouvir a voz dela. Tentei explicar, mas confessou que sabia. Transamos o  resto da tarde, aliás, ela transou com quem mal se mexia.   Você transa bem meu amor!, mentiu mordendo  a orelha.  É, mais ou menos, respondi com a orelha babada.   Talvez eu fizesse melhor se essa coisa não gangrenasse, mas foi gostoso deixar a comida perto de quem parecia estar morta de fome.
Fiquei em sua casa o resto daquele mês.  Foram dias maravilhosos que até esquecemos a  perna.  Eu, pelo menos esquecia não ela.  Todos os dias me acordava com beijos, misto quente e suco de fruta.  Depois saia porta afora com o mesmo sorriso que chegava do trabalho pra preparar o lanche, a janta e depois descansar.  Descansar, aliás, era a única coisa que não fazia.  Muitas, senão todas as noites, ela vinha pra minha cama onde tudo acontecia.
Na sexta-feira santa o seguro pagou minha moto e o DPVAT às despesas.  Coloquei o valor das despesas num cheque e o deixei no criado mudo com um bilhete onde se lia que nada pagaria o que ela me fez e não seriam alguns abraços e outro tanto de beijos a mais que o conseguiriam. Por isso me neguei dizer adeus a quem nem "oi" eu disse quando cheguei.

segunda-feira, 1 de julho de 2019

COM QUALQUER AMOR

  
      Da festa você não deve se lembrar, mas das cervejas depois das vodcas que tomou talvez reste uma boa lembrança.  Foi o que abriu pra você as portas da fantasia, como o sorriso da moça de corpo perfeito com os peitos fugindo da blusa. Ela que olhava fixo nas meninas dos seus olhos num quarto onde  o melhor da  festa rolava. Foi ali que você conheceu os raios brancos da luz, a velocidade do trem de prata e o riso sem fim. Disso você não se esquece porque tudo naquele momento era belo.  O corpo da moça e os cabelos, as pernas e até os pés pareciam obra de Aleijadinho tal a perfeição dos detalhes, mas foi quando a beijou no pescoço e sentiu seu perfume que o bicho pegou. A flagrância tinha um quê de sagrado e profano,  de feitiço e milagre, de anjo e demônio. Não havia como não cheirá-la se o incontrolável prazer proporcionado aguçava outros desejos.  E ele desceu em espiral pra se estatelar entre os seios onde ficou por um tempo, por tanto tempo que  esqueceu-se da música, dos amigos e de voltar para casa.  E você talvez a tivesse comido durante aqueles longos anos, mas não comeu porque ela não se prestaria a esse tipo de tortura, mas abraçar, beijar, deitar-se com ela em seus braços você o fez da adolescência aos 30 anos.  Havia entre vocês uma intimidade atroz, como unha e carne, amigos de todas as horas, marido e mulher.
Normalmente esquecemos das coisas ruins, mas você não se lembra, pelo menos garante não se lembrar de quem tanto representou para si. Quantas vezes o vi rindo de felicidade.  Quantas outras o peguei dando graças por tê-la conhecido, e como dizia, ninguém, além dela o fazia melhor.
Hoje, tantos anos depois do seu último riso o vejo feliz novamente.  Como feliz se jurou de pés juntos  que ao deixá-la sua vida acabou? Eu, silvioafonso, tenho certeza que desta vez acabou de verdade.  Acabou para as tristezas, para o sofrimento e para o tempo que vivia sozinho. Acabou para quem o quis na sarjeta, na roda de amigos sem nome que do seu nem sabia. Enfim, para esse tipo de coisa e de gente você acabou quando na verdade foram eles que morreram enquanto você dá boas e gostosas gargalhadas junto aos que torciam, como eu, por suas conquistas. Da gente, meu caro, você não se esquece.  Da gente você não tem como deixar de lembrar porque somos sua família e seu futuro, mas se eu estiver errado, esforce-se novamente por hoje. Só por hoje. 

terça-feira, 25 de junho de 2019

BAGAÇO DA LARANJA

  

  Não procurava mulher que ficasse aos pés dos seus erros, que não enxergasse os defeitos que tem ou falasse que ser humano sem pecado não existe.  Não procurava pela cara metade porque ninguém vive sem uma das faces e como tinha medo de encontrar  chupada a outra banda de sua laranja, jamais cogitou procurá-la. E dessa maneira se entregou aos prazeres que a mulherada pudesse lhe dar e não eram poucos porque surgiam de muitas e cada uma fazendo por ele o que só se faz por um rei. Por isso acreditasse não ser problemático e até se convencia que fosse possível morar sob o mesmo teto com quem quer que fosse. Quando questionado afirmava ser de trato fácil, porém jamais garantiu não se encrespar se as coisas que gosta não ficassem a seu jeito.   A ideia de alma gêmea é balela, é  mentira porque ninguém é igual a ninguém se cada um é singular, ímpar, único ou fora de série, dizia. Não vou negar que esse cara tenha encontrado a mulher que o completasse e ele a ela, mas as outras não paravam de chegar e a cada vez se mostravam mais encantadoras. Elas eram maravilhosas, cada uma melhor que outra.  Todas fazendo seu tipo, mas confessa que só ele não fazia o delas.  Durante a vida um casal tem momentos de euforia, de risos e de felicidades, mas é na maioria das vezes que se percebe a tristeza no papel principal, certamente pela perda da liberdade que tinha quando solteiro, mas depois ele a escraviza ou se deixa escravizar. Ninguém é feliz o tempo todo, por isso gargalhadas  são proferidas em raros momentos e não quando se quer ou precisa. 

segunda-feira, 10 de junho de 2019

ELE É O CARA...


   
   Já teve mais de vinte namoradas, uma noiva, três esposas e muitas mulheres antes de se casar, mas quando se separava era no colo das outras que supria as carências.  Vergonha não teria se disse que foram muitos os orgasmos que teve, talvez uns mil comparados com sua amiga, a única que o suportou por tanto tempo e que dizia não ter tido nenhum, pelo menos com ele com quem não conversava sobre o assunto.  Os dois sabiam que ninguém acreditaria se dissessem que nunca rolou nada entre eles, por isso não falavam a respeito.  O carinho respeitoso era tanto que sexo não seria elemento de discussão.  Em tempo algum se cogitou da moça estar se autoflagelando com a presença de um cara viril, como ele, ao seu lado, mas ele, em compensação,  tinha certeza de purificar-se com a sua pureza ao lado dela.  
O tempo passou como um raio por suas vidas, enquanto, com passos de cágado, seguiam como se fora o mesmo lado de um ímã.  
Aquela  amiga continuava inteligente, bem falante e bonita, podia ter sido a castidade conspirando a seu favor e a favor do  mundo que ficava mais fácil e melhor, só não sabemos se foi pela castidade da moça ou pelo avanço da ciência. Vendo a coisa com outros olhos eu tenho a impressão de que tudo mudou por conta da turbulência provocada pelos orgasmos em questão.  Com outras palavras; não adianta ficar chupando o dedo durante a noite ou pecando o dia inteiro que nada vai mudar nada.  O importante é fazer o que der vontade, desde que se faça bem feito e com permissão.


domingo, 19 de maio de 2019

EU QUERIA...


Eu queria muito poder torcer pelo meu time, rezar na igreja onde eu me sentisse melhor e votar no partido que fizesse minha cabeça sem que me empurrassem um dedo na cara.  Queria amar a mulher por quem meu coração disparasse e pudesse com ela trilhar o que a mim resta da vida sem inveja e sem porquês, mas infelizmente não me dão esses direitos, pois quando o meu time ganha foi porque o outro era de menor investimento. Quando Deus não me acode se fico triste, é porque não sou cristão o suficiente para receber a graça,  e se o país não dá o passo de acordo com as pernas a culpa é minha porque, certamente, votei com a maioria.  Eu, silvioafonso, queria muito ser dono do meu nariz, responsável por minhas vontades e culpado das coisas que tivesse feito o que não quer dizer que não seja grato a quem bate de frente com as minhas convicções já que sem essas pessoas as minhas decisões não teriam tamanha importância.  Perdoe, se você acredita na humildade de quem pede. Julgue, se você tem o poder dos ponderados e me ame se você é normal como até eu acho que sou.

terça-feira, 14 de maio de 2019

É MELHOR SÓ OU MAL ACOMPANHADO?


     
     Eu reconheço que morar sozinho traz alguns problemas, mas nada que não possa ser contornado.  Por exemplo, quando estou de boa eu pego o carro e vou rodando por ai caso não decida entre o teatro e o cinema e até espojo no sofá diante da tevê, como animal, sem que me digam que ali não é lugar pra se deitar.  Se faz calor eu tomo uma chuveirada ou um banho quente quando o frio me encrespa o pelo. Depois eu visto alguma coisa ou fico assim do jeito que vim ao mundo sem me constranger com a janela escancarada aos olhos cobiçosos das moçoilas do apartamento em frente. Por outro lado se perde um pouco da espontaneidade quanto aos encontros que por ventura se marque.  Não quero dizer que a dor de cabeça que as esposas dizem sentirem naqueles dias, como os menstruados que nos deixam vermelhos de indignação ou mesmo o tempo que levam para depilar as partes mais íntimas nos façam falta. Claro que não, mas confesso que sem tais desculpas o amor nos parece um tempero com pouco sal. Um título inegociável ou coisa de pouco valor.  Já num encontro casual a outra parte jamais diria ter dor de cabeça,  que necessita de um banho, que precisa se depilar ou que não esteja vestida com a lingerie que a gente aprecia.  O melhor disso tudo é a independência.  Ser livre até que se  resolva colocar no próprio pescoço a coleira da fidelidade ao passo que aqueles que já dividem seus leitos encontram maior dificuldade.  Quem me conhece sabe que não advogo em causa própria e mesmo se  o fizesse, quem me apontaria o dedo se os dados ainda rolam?

quarta-feira, 1 de maio de 2019

CARA DE CACHORRO

     Nada me entristece mais do que choro de criança e cachorro maltratado, mas quando ambos estão felizes sou eu quem abana o rabo, e se digo isso é por conta da farra no terraço vizinho que eu assistia da penumbra do quarto.  Duas crianças brincavam com seu cachorrinho enquanto mamãe sorrindo as aplaudia. A imagem me encantava a ponto de mal reparar no shortinho da jovem mamãe e foi receoso de ser mal interpretado que cerrei as cortinas, não os ouvidos ou não teria escutado a criança chorar. A mãe, que talvez não soubesse da minha presença, abaixou-se mostrando os encantos, ocultos até o momento.  
Meu Deus, que imagem! Talvez não fosse aquele o momento mais indicado para externar o que a vista me proporcionava e mesmo que fosse talvez não encontrasse adjetivo para justificar o que  mostravam meus olhos. E se eu fiquei do jeito que fiquei pelos meus exacerbados desejos, pois nem mesmo o calor que fazia lá fora me esquentava mais do que aquele que me queimava aqui dentro, e foi  graças aos hormônios que eu não percebi que o sorriso daquele encanto de mulher tinha sido pra mim. Depois desse fato qualquer barulhinho do outro lado seria motivo para armar o circo e eriçar os pelos do palhaço. Tudo naquele terraço excitava meus sentidos, mas naquele dia bastou o cachorro para instigá-los.   No outro dia procurei por ela através da janela e até fui feliz no intento, só pude lamber-lhe as pernas com os olhos como no dia anterior porque não contava que a estivesse esperando.  Foi o cachorro que pediu para ela sair e pedido de "amigo" é preciso atender.  Por isso deixei de ouvir os latidos para ouvi-la falar. Três dias se passaram sem que eu ouvisse os miados da gata, o latido do cão ou a algazarra da petizada,  até o sol que já não gostava de se recolher nos finais da tarde andava de cara amarrada por não saber dela.  E foi pensando em deixar que caíssem as cortinas que ela surgiu para o último ato.  Roupas eu não sei se vestia.  Criança e cachorro fazendo bagunça também não notei que tivesse, mas se ela estava aonde os meus olhos pudessem alcançá-la já era o suficiente para alavancar cada sonho, cada um daqueles músculos que por ela se punham de pé e mesmo assim me mantinha calado, queimando de desejo sem nada lhe dizer. 


sexta-feira, 12 de abril de 2019

CADA LOUCO COM SUA MALUQUICE

                                   
    A gente dá crédito quando a coisa é divulgada por quem estudou muito ou domina a matéria. Com base nesse princípio ninguém pensa em bater de frente com quem garante que as personagens da bíblia disseram isso ou aquilo.  É o caso dos males que dizem fazer a maconha.  Desde quando eu me entendo por gente que ouço dizer que a maconha vicia e aquele que a usa é capaz de roubar, fazer mal as pessoas e as coisas e até matar ou morrer com o efeito que dá.  Hoje, através deste espaço, eu ponho a cara à tapas e não foi preciso ter coragem para dizer que maconha não vicia, e que, as pessoas que a fumam não tentam contra a integridade dos outros a não ser aquelas que já nascem com o dom de fazer o mal.  Entre os amigos que tenho alguns já fizeram ou fazem uso do fumo, mas nenhum, pelo menos que eu saiba, fez algo de errado ou teria se tornado dependente da coisa.  Um deles, por acaso, fumava desde os tempos de criança.  Fumava quando acordava, fumava depois do café e das principais refeições.  Não saía de casa sem dar "um tapa" e também nos intervalos do que fosse fazer.  Esse elemento fez uso do "entorpecente" por vários e vários anos e nunca, eu disse nunca, se viciou.  Gente, um cara fumando do jeito que esse meu amigo fumou ou fuma e não ficou viciado é sinal de quê? De que a  erva fumada em caráter recreativo não vicia ninguém e para ser mais justo vamos deixar de usar a palavra "entorpecente" para designá-la.  Os tais amigos me disseram que depois dos baseados não sentiam nada.   Eu só não perguntei o que esse "nada" queria dizer já que poderia estar se referindo aos movimentos das pernas, dos braços e do raciocínio, mas nada falei para que não me apontassem  como discriminador.

segunda-feira, 8 de abril de 2019

RAMSÉS TERCEIRO


    
       Quando a gente foi saltar de paraquedas numa cidadezinha da Índia, meu amigo Mutreta fez questão de cair com a gente dentro do avião que pilotava. Saltamos antes da queda,  só ele não conseguiu.  Morreu fazendo aquilo que mais gostava; pilotar um aparelho que lutou tanto para conseguir.  Da pista até a zona de lançamento ia uma boa distância e a gente se perdeu na nuvem de poeira no deserto do Thar. Mutreta, coitado, jazia na areia escaldante enquanto cada um de nós, a seu jeito, buscava chegar a cidade ali perto.  Caminhei duas horas com o sol na cabeça rachando meus lábios e inchando meus olhos, até que embaixo de uma palmeira notei que alguém esperava por mim.  Infelizmente era um velho andarilho e nada sabia a respeito dos paraquedistas.  E como se fora um velho conhecido começou a dizer que se fala alto, muito alto quando se está brigando.  Também disse que o ódio leva o nosso coração para longe daquele com quem brigamos e quanto mais acirrada for a briga, mais alto se precisa gritar para que o outro coração nos ouça. O contrário também acontece; quanto mais se gosta de uma pessoa mais baixo se fala com ela e quando a amamos falamos muito baixo, tão baixo que se torna necessário adivinhar o que foi dito.  No caso do amor devastador, daqueles que nos leva à loucura, aí não se diz nada, basta se olhar para que tudo seja dito e entendido.
       Tão logo se calou eu disse baixinho o meu nome estendo-lhe a mão pra me despedir, mas  ele ignorou. Fez uma mesura se curvando em minha direção e falou, nem alto e nem baixo; muito prazer,  Ramsés III.

sexta-feira, 29 de março de 2019

O CHATO DA HORA


  
    Caso eu fosse chato como minha mãe me garante que sou, eu diria das qualidades dos meus filhos, não de todas, mas das melhores e mesmo sabendo que a minha vida inteira talvez não fosse o bastante para lembrar os valores de cada um eu deveria tentar se concordasse com ela.  Mas não o farei.  Aliás, eu o farei sim, já que mamãe lhes garantiu disso.  Deste  modo eu escolho a menina, a mais nova dos filhos, para entrar na roda e falar dos motivos que a levam a continuar estudando depois da expressivas notas  do pré-ENEM que daria a ela o direito de fazer medicina nas melhores faculdades ao que ela certamente me responderia; pai, eu não quero um caminho fácil para caminhar de olhos fechados, mas um tão complicado que me cansasse a vista já que a descansaria nas belas paisagens do trajeto.  Por isso continuo me preparando – diria.   Também perguntaria a criança, já que filho não cresce,  o porquê do anseio em melhorar suas notas se estudar não é tudo naquela idade.  Eu só não pergunto porque já sei a resposta ou não seria o pai amantíssimo que eu sinto que sou.  E ela certamente me responderia que deve tentar melhorar  enquanto há tempo ou lapidá-la para quando já não tiver  porque a vida é uma incógnita que nos é apresentada a cada vez que abrimos os olhos pelas manhãs.

sábado, 23 de março de 2019

NÃO PERCA A MAJESTADE

Uma das  cenas de o Rei Leão que mais mexeu
comigo e até me fez chorar na frente do meu filho foi quando Mufasa, o Rei, deparou com um súdito se perguntando; por que não moro lá?, referindo-se a algum lugar maravilhoso na savana, ao que sua majestade teria respondido; 
– Porque lá não existe.  Lá é a continuação do aqui e se não sei viver aqui, nunca saberei viver lá.  É preciso ser otimista, porque otimista é aquele que se vê obrigado a subir numa árvore para fugir de um leão e ainda aprecia a paisagem.  Lembre-se de que, para conseguir o que quer, você deve olhar além do que você vê  concluiu.
Está evidente que não chorei por conta desta cena, mas por me lembrar que estava sendo apresentado a Shakespeare sem o saber.
Quando alguém me diz que viu um filme mais de uma vez eu fico me perguntando; será que não entendeu ou tem tempo sobrando para matá-lo? 
 Pois eu entendi tudo o que a mim foi mostrado, mas tempo, mesmo que o tivesse em abundância jamais o mataria.  Uma coisa no entanto eu confesso, tão logo eu possa quero rever aquilo que teria aberto nos meus olhos a fenda por onde escaparam as lágrimas quando chorei.