terça-feira, 17 de janeiro de 2017

A CASA DO MEU AVÓ.



    

    Eu não me lembro se na casa dos meus avós havia algo que marcasse o tempo,  se o mediam pela posição do sol ou coisa parecida.  Sei, no entanto, que ninguém fazia nada às pressas, por isso tudo saía a contento. Nada do que se fazia era sem propósito, sem tempero ou sem amor.  Vovô levantava cedo para antes do  raiar do sol estar na lavoura.  Minha avó alimentava as galinhas cantando uma canção que até bem pouco tempo mamãe cantava quando nos punha para dormir. Depois  era a vez dos porcos que grunhiam pelo inhame cozinhando no fogão à lenha enquanto os passarinhos chilreavam na gaiola e fora dela. Eu só não entendia por que os meus tios os aprisionava se a maioria cantava tão perto dos seus ouvidos - essa pergunta jamais tive quem me respondesse.  Às dez da manhã o almoço chegava ao alto do morro onde vovô e a maioria dos onze filhos carpia o mato dos pés de café.  Dizem que meu avô era rigoroso na criação dos rapazes, mas eu, moleque de cidade grande que escolhia passar as férias do colégio com eles no sítio, jamais acreditei que aquele gigante de bom coração atentasse contra os próprios filhos.  Com o passar do tempo  meus tios saíram de casa.  O mais velho era uma menina que anos mais tarde os levou para morar na cidade da qual só tinham ouvido falar.   Minha avó, a mulher mais linda e bondosa do mundo, esteve ao meu lado até pouco tempo e felizmente eu pude dar a ela um pouco da minha alegria e em muitos momentos até gargalhar de perder a compostura eu a fiz.  Guardo isso com muito orgulho nas minhas lembranças. Principalmente quando vovó se vestia de fada para contar suas histórias me deixando de boca aberta com seu desempenho. Eu sei que tenho muito dos meus avós nos meus traços, mas de verdade me pareço mais com a minha mãe, não pela doçura e generosidade, mas pelo meu jeito durão, carapaça com a qual me defendo  para dar continuidade a saga dos Klein, dos quais faço parte.
-Agora eu preciso encerrar até porque o sol já se pôs e quando isso acontece é sinal de que as galinhas estão voltando para o galinheiro, mesmo  que vovó lá não esteja cantando a mesma canção.



sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

QUANDO MAMÃE NOS DEIXOU...



   Com a visão que se tem da minha sacada ou da janela envidraçada se pode ver o que sobrou de u’a mata que já teve de tudo. Desde a flora e os seus mil tons de verde a um sonoro canto de aves enunciando os primeiros raios do dia. Ao largo da gente erguem-se casas de estilo barroco e moderno o que faz da minha pequena choupana um ninho de passarinho bordado na serra. Da varanda, que mais se parece com a proa de um vapor, posso ver a dama da noite desabrochando a sua cria. Todas as flores de uma só vez. 
A magia se faz ao escurecer do dia e a metamorfose durante a madrugada, bem ali, a um palmo do meu nariz. Assim tem sido todos os verões. Durante o tempo em que por aqui tenho estado jamais o cacto deixou de mandar convite para o parto de suas filhas. Todas as vezes a gestante se arrasta por entre obstáculos e até das flechas invejosas das estrelas ela tenta escapar. Tudo isso para dar continuidade ao ciclo semeando novas gerações e perfumando às redondezas. seu perfume, como o sinto no silêncio do meu quarto, é maravilhoso. Em todos os verões o fato se repete, mas dessa vez precisava ser diferente. A planta que enfeitava a noite, os dias e as madrugadas, viu com tristeza perecer uma de suas filhas, talvez a mais importante entre todas. Se tivesse tido melhor sorte não somente seria a mais bela como não teria nascido num verão tenebroso, mas sim na primavera quando as rosas e as tulipas, as orquídeas e os lírios, ditam a cor da roupa e o perfume a ser usado. Agora, com a sua morte, nem os mais claros e irradiantes raios de sol fazem algum sentido. O meu alpendre tem vista embaçada e o jardineiro deixou de regar as plantas desde aquele dia, pois não vingariam com o orvalho da madrugada como tem sido a partir do surgimento da vida. Porém, se o fizer, o fará com o pranto que o jardim chora por sua ausência, ou pela incógnita que me atormenta desvendar.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

GAROTO DE FERRO

      
  Quando Russo era menino vivia provocando os próprio orgasmos às escondidas. Como faz a maioria das crianças.  Dezoito era a média diária dos 13 aos 25 anos.  Tudo o estimulava, desde as pernas mal cruzadas, por distração de uma menina às transparências que a claridade provocava nos vestidos das que passavam. Mulher, conheceu muito cedo, mas quando mais as tinha, mais as queria ter. Magricela, talvez por seus excessos, Russinho, mesmo assim era feliz. Até os 60 anos conservou o mesmo corpo e aos 75 ainda era viril.  Negar fogo, dizia nunca ter negado, e se alguém fugia às possibilidades do acasalamento era a companheira enquanto ele, sorrindo com a arma em riste, escutava as desculpas da oponente.  Um dos seus filhos era magro como o pai, enquanto o mais novo tinha carinha de bolacha e peitinhos de menina.  Os amiguinhos do seu filho viviam a sacaneá-lo, mas ele não estava nem aí para o que diziam.  Certa vez o irmão da mãe do pequeno, que já tinha 14 anos, pediu-lhe que parasse de se masturbar, já que, segundo o tio, masturbação criava peito nos meninos.  Russo, o pai do adolescente, entretanto, interviu a favor do filho e, pondo um braço sobre os ombros do garoto, disse alto e bom som que ninguém tinha se masturbado mais do que ele durante a juventude e nem por isso engordou, criou bunda ou peito de mulher.  O tio, meio envergonhado, recolheu-se a sua santa ignorância e com o seu “vasto conhecimento” quanto ao que a masturbação pudesse provocar numa criança,  partiu porta afora para nunca mais voltar.  Voltar a falar do que sabe e do que conhece, já que, a meu ver, nada além do próprio nome o sujeito acha que conhece.  

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

DE PAPO PRO AR.

      
    Desci a rua da ladeira de onde eu moro para ir à feira. Pretendia comprar verduras, frutas e legumes, mas com aquela lua cozinhando minha moleira, metade do prazer que eu tinha foi-se da minha companhia. Comer direito, no entanto, sempre foi o meu desejo, mas essa preguiça exacerbando a minha paciência não era coisa de Deus, muito menos do ano que se arrastava para compor o calendário. Um quilo de banana, um de laranja, meio de tomates, duas cenouras cor de cenoura, uma beterraba, um pé de alface enfolharado e pronto, estava garantido o almoço do final de semana. Agora era voltar para a casa e descansar o resto da tarde, mas só de  pensar que os meus pés doeram na descida da ladeira da minha rua, imagina subi-la com bolsas e sacolas, sem contar com o calor que nos racha aqui na serra.  Ah, não quero nem pensar em coisas desse tipo.  O importante é voltar à casa, fazer a comida, arrumar o prato do jeito que mamãe fazia, encher o bucho e me apachorrar sobre os lençóis brancos da minha cama. Dormir depois do almoço não é um hobby meu, mas quem resiste a uma boa cochilada depois do almoço se até o vento para de bolinar as folhas nesses momentos?  A sesta refaz o sono da noite mal dormida, melhora a digestão e devolve o brilho que os jovens têm na pele e disso ninguém pensou em reclamar.  Agora eu, que há muito já não sou  criança, tirando essa onda no alto onde tenho morado esses últimos anos, só posso agradecer a quem me proporcionou tal possibilidade.  Cochilar com a barriga cheia num lugar arejado, limpo e de certa forma gostoso, como é a casa da gente, não tem preço, mas se tivesse eu pagaria com o maior prazer, já que não estou num leito de hospital, feliz da vida, por saber que das três às cinco meus amigos vêm me visitar. Feliz Ano Novo, gente. E lembre-se que a saúde, os amigos e a nossa casa são o melhor presente que se pode receber.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

O JARDIM DA MINHA VIDA.

     Quando comprou o primeiro carro a turma do bairro fez uma festa danada ao passo que a vizinhança fechava a cara e as portas sabedora do que a esperava.  De certa maneira a zoação aumentou. Os cigarros mudaram de cheiro, os refrigerantes que não davam barato trocados por algo que desse, os amigos de fora enlouqueceram as meninas de dentro e as madrugadas ficando cada vez mais quentes.  Os antigos amigos sabiam que tinham carona para os fins de semana e eventuais compromissos.  O número de passageiros que levava no bojo constava somente nos seus documentos, não para aqueles que precisavam de transporte para um encontro.  Era só dar um jeito que os outros, não importava quantos fossem, se ajeitavam a sua maneira. Folgado ali talvez nem o motorista. E assim foi por muitos e muitos anos até que todos se arrumaram na vida.  Hoje a farra ainda perdura, mas cada um se transporta à sua mercê, até porque se enamoraram de umas pessoas com quem se casaram, mudaram de endereço e tiveram seus filhos. As crianças brincam quando estão juntas enquanto os pais, hoje cascudos, curtem a juventude que teima por não acabar. E o engraçado disso tudo é que ninguém dava nada por essa garotada, e no entanto, um é juiz de paz, três são grandes empresários, dois jornalistas de boa estirpe e o restante teria optado pelo direito. Suas mulheres seriam colegas de seus maridos. As portas que antes se fechavam com a sua presença, hoje escancaram ao passo que são recebidos no portão e até aplaudidos quando, no bairro, dão a honra de sua presença. Os problemas mais sérios ocorridos na época não disseram respeito a ninguém daquela turma e sim aos que a família jurava ser melhor que qualquer um. A vida tem dessas coisas, assim já dizia o velho palhaço poeta. E para não dizer que a velhice me rói as lembranças, lembro do um velho ditado que diz; "no princípio tudo são flores" -  mas para contrariar tal pensamento -  no princípio nem terra para semear as margaridas parecia existir por aquelas bandas e quanto ao jardim que hoje perfuma e enfeita a cidade, nem pensar que pudesse surgir se pensava.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

CHEGA AÊ!

     Quando saíres em viagem para fora do estado ou principalmente do país, não te esqueças de fazer uma visita ao museu da cidade, ao teatro e principalmente, se tiveres coragem, é claro,  a uma casa de swing. Lá tu verás de tudo que possas ou não imaginar, só não vais esperando dar de cara com o preconceito e muito menos com o pudor que nos cora o rosto, já que esses dois nem tão por perto passarão por ali.  Será interessante saber de que forma o pessoal que frequenta a casa se divide entre o exibicionista e o voyeur.  Alguns vão a estes lugares como quem vai ao cinema ver um filme pornô, só que ao vivo.  Já outros adoram se mostrar e o fazem de maneira que lhes dê, a ela ou a ela, um prazer incomensurável, principalmente por saber que ninguém foi ali para julgar ninguém. Para esses dois casos, nada é próprio bastante como a visita de quem, talvez sem propósito, aprenderia apimentar o seu relacionamento conjugal.  Num lugar com essas características você encontrará casais gays, casais héteros, solteiros e comprometidos.  Conhecer as regras da casa e respeitá-las, como respeitar as escolhas que os outros fazem é preponderante à convivência.  Seria natual dizer que algumas pessoas entram num espaço como esse e se arrependem, mas como a música toca em todos os cantos e principalmente para os frequentadores das pistas de dança, tu poderás, muito bem, te manteres sentada observando os casas que bailam ao som da melodia ou venhas a dançar com eles.  Isso e alguns copos de cerveja ou sem eles, ajudaria em muito a passar a tua timidez.  Depois é visitar os quartos onde camas enormes acomodam casais que jamais se viram, assim como os que acomodam aqueles que preferem a coisa a dois.  Portanto, não te esqueças. Se vais viajar só ou acompanhado do ser querido, dês um "chego" até um lugar desses para temperar o relacionamento que tens em casa.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

O MENINO E O BOM VELHINHO.

     
     Ele já tinha 14 anos e ainda acreditava em Papai Noel.  Ninguém desconfiava do segredo de quem tinha plena certeza que um dia seria lembrado e não importava o tempo que passasse.  Talvez o fizesse por acreditar em Deus, mesmo jamais tendo ganhado qualquer coisas naquela data. E foi assim que na noite anterior a do nascimento do menino Jesus que o nosso jovem se entregou aos pensamentos que não eram outros senão acordar na manhã seguinte e encontrar no surrado sapato junto a janela aquele que seria o seu tão esperado presente, e não importava quem o tivesse dado. Cinquenta anos mais tarde e aquela lembrança ainda povoava seus pensamentos. 
- Meu Deus, como tudo era difícil naqueles dias - pensava com os olhos avermelhados.  A família mal tinha o que vestir e o que comer e mesmo assim vivia uma vida honrada.  Caso a crise que o país atravessa no momento tivesse ocorrido naquele tempo nem escola pública ele teria tido e no entanto o colegial ele concluiu  numa escola do governo e aos 15 anos cruzou às portas da faculdade onde se formou na pessoa que é.  
    Já eu, do alpendre da minha residência, posso ver um punhado de pequenas lâmpadas piscando no entorno das casas. Talvez porque seja véspera de natal, e a essa altura o menino, que há cinquenta anos sonhava com o presente do velhinho de barba branca, já esteja vestido, como tem feito nas vésperas de todos os Natais, com aquelas roupas largas e as botas apertadas.  O menino, hoje burro velho e até um pouco cansado, entra num macacão vermelho com enchimento para disfarçar seu corpo esguio, põe algodão na barba e óculos transparentes de aro arredondado sobre o nariz, enche de brinquedo a caçamba da sua Hilux zero quilômetro e vai às favelas entregar o pedido que a criançada fez através dos correios.  É festa no morro, na periferia e no coração daqueles que acreditam que papai Noel até existe, se você puder acreditar.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

NEM MUITO NOVO E NEM VELHO DE MAIS.

 
      Tinha o marido de uma das duas moças 40 anos mais ou menos, enquanto ela, a esposa,  outros 40, para ser preciso. Já o parceiro da outra completaria 58 naqueles dias  ao passo que sua jovem esposa tinha os 27 completados. A quarentona vinha de outro relacionamento, mas como não há bem que sempre dure e muito menos mal que perpetue, acabou acabando. Agora tinha mais liberdade do que nos tempos de porta-bandeira da Imperatriz quando era aplaudida e cobiçada por sua beleza e desenvoltura. Já seu atual marido, titular de um conceituado time de peladas do bairro, não tinha porque voltar à casa ao largar do trabalho se sua mulher, ao fechar o salão em que trabalhava, preferia as amigas ao silêncio da moradia.  Até porque, o marido não deixaria de discutir a estratégia do próximo jogo por conta de sua adorável mulher. Antes do casamento o sexo entre eles era um charme, um meio de demonstrar poder e força, mas agora é cada um no seu quadrado. Ele por saber que a mulher não se encontra em casa, troca o dia pela madrugada e com os amigos estica as noites até onde acha que pode, com ou sem futebol. O homem do segundo grupo não tinha ambições que não fosse estar com a parceira, enquanto ela, habilidosa, o levava agregado ao peito numa coleira a fazer o que lhe desse na telha. Sexo era um caso à parte. No princípio exalado por todos os cantos; no banheiro ao transar sobre a pia; na sala sobre o sofá ou no quarto, quando algumas vezes a mulher se deixava acariciar com uma pena de pavão que o companheiro, vagarosamente, passava ao longo do corpo amarrado pelos pulsos e pelos tornozelos com uma faixa de velcro preso a cabeceira e aos pés da cama em posição de X. O prazer que aquilo lhes proporcionava era arrebatador e muitas vezes bastante barulhento.   Todos os dias o casal inventava uma maneira nova de ter prazer, mas na ausência de novas ideias um papai e mamãe já estava de bom tamanho. Hoje, por incrível que pareça, o casal dá uma por mês. Já o outro, sem obrigação de sexo entre os dois, vive num mar de rosas.  Não fosse a rachadura nos calcanhares, que muitas vezes o tiraram de uma partida, a vida daquele homem seria de dar inveja. Certa vez, nem eram duas da tarde de um dia de semana, a mulher deu com o Esqueleto (Apelido que o marido recebera dos amigos por sua semelhança com o algoz do namorado de Shi-Ra, heroína de desenhos infantis), dormindo como veio ao mundo na cama dela; peladão, peladão.  Um metro e noventa de crioulo atravessado na cama e não fosse uma das enteadas, na época com 16 anos, ter recolhido a roupa que a pessoa espalhou pela casa e nele vestido uma cueca e a mulher teria remoído as lembranças do antigo casamento. Se tinha uma coisa que a mãe não tolerava e os filhos sabiam, era roupa largada por cima das coisas.
Mesmo assim eles vivem em um mar que há tempos já foi de flores.  Hoje o sujeito se veste e se perfuma como se fosse demarcar território longe de casa e ninguém o critica, até porque a mulher já o fez e ouviu dele poucas e boas. Até de bater na cara o elemento ameaçou. E, para não dizer que falei de rosas e esqueci-me das flores, o sujeito cativou muito bem os enteados, mas à mocinha cativou muito mais e o fez de certa maneira que dava a impressão de ser a filha e não a mãe a sua mulher, tal o cuidado e o carinho com que trata e é tratada pelo convidado, agora dono da casa.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

NO ALTO DA CAPELA.

       Com a correria no pátio da Igreja Santo Antônio, no Suspiro, quase jazeram as imagens que nada tinham com a chegada do rapaz. Uma das moças, não me lembro se a mais gordinha, mas com certeza a mais bela de todas, corria de braços abertos para o jovem recém-chegado do Rio, que a partir daquele momento se tornaria o homem da sua vida. A imagem criada no momento em questão deu a ele a certeza de que Deus, de fato, existia. Bela, como são as flores espreguiçando no alambrado dos jardins,  ela sorria se atirando nos braços do amado. Passado os festejos do primeiro encontro os dois, entre uma conversa e outras tantas, buscavam se conhecer.  E foi a partir daquele momento que o rapaz se propôs invadir a privacidade dos pensamentos da mulher.  Durante os primeiros meses batia, com os nós dos próprios dedos, àquela porta, mas ninguém, na consciência da jovem, se dignava abri-la. Nos primeiros anos tentou várias vezes adentrar os seus pensamentos, mas alma viva nenhuma, atrás da porta, se arriscou ajudá-lo.  O máximo que conseguiu, depois de várias tentativas, foi uma fresta por onde se podia enxergar várias portas, em ambos os lados, de um cumprido corredor cujo final não se tinha ideia de onde seria. No décimo ano o rapaz, hoje seu marido e fiel escudeiro, já tinha nas mãos o passaporte que lhe dava o restrito privilégio de acessar o corredor de onde se via através de pequenas aberturas nas portas o mínimo espaço de cada sala. Dentro de 20 ou talvez 30 anos quem sabe ele tenha a permissão de entrar nessas salas, acender aluz, mudar as coisas de lugar, mas mexer nos arquivos acredito que não. O mais próximo disso que chegaram foi através de um psicólogo que depois de estudar o mapa existente na cabeça de um ser humano, ter se casado com ele, ter tido filhos e netos e sofrido a dor da guerra que praticamente mutilou sua espécie, chegou finalmente a conclusão que o fichário existente no arquivo daquela sala tinha cor alaranjada. Portanto, considerando que 50 anos seria o tempo estimado para que vivêssemos lúcidos,  somente 40  deles seriam dedicados ao estudo daquilo que nos move os pensamentos.  Concluindo; seria necessário que os pesquisadores vivessem 500 anos, mais ou menos, para entender o que leva uma pessoa a tecer pensamentos a respeito de outra e de que forma faz isso, observando uma margem de erro que não excedesse os 50 por cento, para mais ou para menos.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

PELO MENOS PARECE...

     

     Minha mãe me achava sem jeito, meio abrutalhado, já meu pai tinha outra ideia a meu respeito.  Minhas irmãs me chamam de mané enquanto os meus amigos me chamavam de irmão.  Como se vê não precisamos mudar nosso jeito  para agradar ninguém, até porque você jamais o conseguiria.  Tem vez que me acho durão até de mais para o cara que eu sou, mas também tem momento que me sinto um banana diante de certos acontecimentos, mas em tempo nenhum eu pensei me suicidar por causa disso.   Diante da minha mãe, por exemplo, eu me sinto um brutamonte aos pés de tanta doçura.  Diante do meu pai, pelo que  transparecia nos olhos dele, um maricas ou algo parecido.  Minhas irmãs pensam que sou um bobão perante os outros por conta da minha "ingenuidade", mas os amigos, os verdadeiros, me acham compreensivo, coerente.  Eu nunca me preocupei com isso e mesmo que pretendesse mudar não conseguiria.  Jamais sairia dando porrada para provar minha macheza pro meu velho ou para agradar as minhas irmãs sairia cobrando aqueles a quem eu tivesse emprestado alguma coisa.  Com a minha mãe, então, eu em nada melhoraria a minha imagem dizendo palavras que ela sabia não serem minhas. Ninguém, por mais que se esforce conseguiria ser a metade do que mamãe foi enquanto viva. Com base no que disse acima eu afirmo que todos temos três personalidades.  São elas; a nossa, a que vivemos e a que gostaríamos de viver. Haja vista que diante do Papa nos comportamos de uma maneira.  Diante dos nossos filhos de outra e de outra quando estamos com os amigos. Fora os momentos em que, chegando em lugar desconhecido e diante dos olhares curiosos a gente não tente demonstrar ser o que não se é.  Essas coisas são inerentes a qualquer pessoa e ninguém precisa ser exatamente como o outro para ser igual, já que igual é aquele que tem traços diferentes. 

sábado, 3 de dezembro de 2016

SONHO DE MENINA.

    Chorou a noite inteira a morte daquele homem.  Quando menina esse cara era o mocinho dos seus sonhos, seu príncipe encantado na adolescência para mais tarde ser seu macho, seu capacho, razão do seu sorriso.  Ele era um sujeito bronco, mal educado, violento.  Seu jeito abrutalhado espantava qualquer pessoas, mas no fundo as mulheres o tinham como um verdadeiro macho e talvez não existisse uma que não o tivesse desejado em sua cama. Quando passava todos viravam a cabeça para olhá-lo e buscando disfarçar a curiosidade as mulheres faziam cara de nojo ou cochichavam umas com as outras.  Os homens, que também o olhavam, exaltavam as qualidades que achavam negativas nele.  No fundo no fundo, essa gente também o invejava.  Talvez esse cara não soubesse o poder que exercia naquelas redondezas e por não sabê-lo, talvez se comportasse com desleixo como diziam que fazia. Desde os sete anos, Martinha, que vinha sendo criada pelos avós desde a morte da mãe, ouvia falar do gigante que nas madrugadas entrava nas casas e roubava as meninas bonitas do convívio da família, e só as devolvia depois de fazê-las feia. Quando avisavam que tal pessoa passava na frente da casa, Filhinha não corria para se esconder, mas para espreitá-lo e tirar, ela mesma, as suas conclusões. - Não, esse moço não é o que andam dizendo, até pelo contrário, tem dentes bons, queixo quadrado com cova, cabelo preto escorrido até os ombros e um olhar que mais parece uma faca, tal a certeza do corte.  
Os dias corriam  para fugir das noites enquanto Martinha crescia.  Crescia e sonhava e em cada um de dois sonhos, o gigante bonitão estava presente.  Tinha vez que a pegava de dentro do seu quarto e a levava ao seu esconderijo.  Lá o grandão se arrumava todo.  Penteava os cabelos, escovava os dentes e a levava a passear pelos bosques da cidade.  Pegava qualquer fruta que ela apontasse com os olhinhos amendoados e quando acordava sentia na face um quê de vaidade. Todos os rapazes do bairro cortejavam a moça, mas nem esperanças a criatura deixava que dela tivessem, até porque, precisava estar pronta para o seu gigante que bastava se deitar para dormir que ele invadia o seu quarto, a tomava no colo apertada junto ao peito e saíam a lugares que hoje já não importa saber.  O importante é que ao raiar do dia estava novamente em sua cama de onde seu amado a tinha pegado, inclusive bem mais bonita do que diziam que as meninas ficavam.

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

CHEGOU O DIA.

Fazia tempo não via o filho que deixou com a vó numa casa de praia a jogar miolo de pão às gaivotas e se o fez foi por haver descoberto, ainda a tempo, que a vida não é  só criar os filhos  na beira do precipício a espera de que voem se você não se jogar la do alto  planando por sobre as matas e as ribanceiras.  O exemplo precisava ser dado para que no futuro todos, quem sabe em bando, voassem na mesma direção. O tempo passou só esta lembrança não saía de sua cabeça e foi assim que o sujeito arrumou e enfiou no carro tudo aquilo que achava que pudesse precisar, além da mulher que ainda faz a sua cabeça e desceu morro abaixo rumo ao litoral.  A viagem corria tranquila, só as novas casas e as mudanças feitas pelo prefeito no bairro confundiram um pouco a pessoa que há muito deixara de ser criança, e não fosse o GPS que a esposa fez questão de levar com eles e o casal não teria chegado ao destino que traçou.  E assim foram fazendo o que a voz robotizada de uma mulher lhes ordenava; - dobre a esquerda.  A trezentos metros vire a direita.  Siga em frente.  Na terceira quebrada de rua se viram numa favela cercados por um bando de gente mal encarada, mas para a felicidade de todos uma voz fina de criança gritou para quem quisesse ouvir; - Gente, é o meu avô! Esse aí é o meu avô! Meu pai me falou que um dia ele viria visitar a gente e ele veio...  Felizes os três caminharam por entre barracos até uma casa que antes, só ela, chegava tão próxima das marolas daquela praia.

sábado, 26 de novembro de 2016

JOGO PERDIDO.

     Ela tinha certeza que homem daquele tipo seria a metade da sua laranja.  A postura, o porte atlético desse tipo de gente nada mais é que o resumo da ópera somado a virilidade natural naquela idade, e sua vida, talvez, não fizesse sentido se não buscasse por essas lembranças.   Ela dizia que continuava solteira porque nasceu para amar, respeitar e pertencer a um homem apenas e que o tipo descrito acima seria o sujeito oculto de sua oração. A moça também deixou entender que não sonhava se casar com uma pessoa igual a ele, pois bastaria saber que ele existia para que a chama da esperança permanecesse acesa em seu peito, e no entanto, não só esse cara existia como se tornou peça crucial no tabuleiro do seu jogo.  Esse cara que cortava caminho através dos seus sonhos estava ali na sua frente e logo faria parte da sua vida. A princípio ela não sabia que poderia encontrá-lo, mas sabia que se acontecesse jamais seria notada e muito menos saberia dos desejos dela. O destino, safado, sempre nos armando uma esparrela e foi numa das melhores festas que já tinha ido que vivenciou o maior de todos os milagres.  Uma pessoa, que mais tarde ficou sabendo ser amiga de suas amigas, trouxe até a sua presença alguém que tinha mais de príncipe do que de real.  Mal sabia ela que dias depois ele se tornaria um divisor de águas em sua vida.  No momento em que se viram sozinhos imperou a inibição, mas nada como uma taça de vinho para corar a face, soltar a língua, os cabelos e os pensamentos e a vontade de rir por qualquer motivo e por fim as estrelas faiscando nos olhos de cada um.  Tal fato deu a ela a certeza de que Deus existia e que sonhar valia à pena. - Todos os meus sonhos, se é que eu os tinha sonhado, se concretizaram e a prova disso é esse deus adormecido ao meu lado nesta cama - disse a mulher numa linda camisola de seda pura.  Esse homem tem tudo o que a mais exigente das mulheres jamais sonharia, inclusive eu, que me acho espertinha - concluiu.  O tempo passou e com ele o fogo foi se apagando.  Passou a chegar  tarde à casa depois dos chopinhos com os amigos e nos finais de semana tinha sempre o que fazer com seus clientes ou com seus amigos.  Passou a frequentar a casa da mãe com mais assiduidade, coisa que não era do seu costume, e para não ficar pior, arrumou as malas e voltou para o Flat onde morou antes de conhecê-la, deixando para trás a mulher cujo maior pecado foi sonhar com a vida que viveu sem se dar conta que estava acordada.

terça-feira, 22 de novembro de 2016

MELÍCIA NORDESTINA.

      Eu preciso melhorar a minha crença. Eu preciso aumentar a minha fé. Tudo que se faz nesse mundo, quando copiado, tem o privilégio dos acertos, das correções e da melhora. As vezes uma pessoa me diz alguma coisa que dois minutos mais tarde eu falo com o meu jeito, com os meus erros e acertos, com a entonação natural da minha voz mudando, talvez, não o sentido do que a mim foi dito, mas a beleza, a veracidade do fato ou a agudeza do sentido. Como eu disse, eu preciso melhorar a minha fé e acreditar que há dois mil anos uma turma falou, em palestra ou reunião de bar, de esquina ou nas festas, exatamente o que os livros sagrados garantem que teria sido dito. Entretanto um amigo me pediu que avisasse ao seu pai que chegaria mais tarde porque o carro enguiçara próximo ao bar do João e graças aos que bebiam naquele bar, que de pronto se tornaram amigos, não precisaria voltar a pé. No outro dia o amigo passou por mim e não me cumprimentou, até pelo contrário, ofendeu a minha honra e considerou falsa a amizade que eu tinha por ele. Pelo que me contaram o amigo perdeu a confiança do pai e o direito de guiar o carro dele, e tudo por eu "ter dito" que ele chegaria mais tarde por estar num bar com os amigos que bebiam. Pois é. Nem meia hora se passou desde o momento em que o cara me pediu pra avisar seu pai do enguiço do automóvel. No final das contas eu me pergunto; teria Pilatos feito e falado o que afiançam as escrituras ou a história enriqueceu o texto? E César, por que não tomou partido quando a milícia praticou booling com a garotada de vestido e cabelo cumprido? Tibério, que viu o cara ser esculachado, machucado e finalmente crucificado e nada fez, ou se fez, a história omitiu os fatos ou contou a grosso modo? A molecada que vivia em Israel estava ali, a dois quilômetros do palácio do Imperador. Aí eu me lembro de ter perdido um amigo por ter sido mal interpretado, mesmo vivendo num momento em que a Internet facilita tudo, só não multiplica os pães e os peixes e não ressuscita morto.

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

MEU CAJUEIRO...

       Na casa onde eu cresci com minhas irmãs havia um cajueiro.  Um enorme pau de frutas onde eu me escondi algumas vezes na esperança de fugir à vara de goiabeira com a qual mamãe riscava as nossas bundas. Aliás, eu não me lembro de ter chupado um só caju daquele pé. Talvez só estivesse ali para me proteger.  Tinha também a jaqueira que aos meus olhos era uma árvore imensa, mas tão grande que as jacas quando amadureciam caiam fazendo barulho e sujando o quinta da gente.  Os amigos do meu pai escalavam-na para pegá-las antes da queda, mas nem sempre chegavam a tempo.  Muitas vezes mamãe e algumas vizinhas pegavam, num lenços seguro pelas pontas, as que eles arremessavam do alto dos galhos. No fundo do quintal tinha um pé de abacate, mas como o leite não conhecia o endereço do pobre a gente só fez vitaminas com essa fruta adoçada com banana alguns anos depois.  Na amoreira, junto a parede da sala onde eu e as meninas dormíamos e que era o point dos azulões durante as manhãs, um passarinho de porte médio fazia, com aquelas frutinhas, a sua primeira refeição.  E era bicando as amoras enquanto cantava que sua silhueta refletia através dos furos do zinco que cobria a nossa casa, na parede interna de nossa casa e mesmo em posição invertida, sabia-se que era ele que vinha acordar a gente. Eu também não me lembro o sabor das bananas que mamãe cultivava nos fundos de nossa casa, mas lembro que tinha uma touceira com pelo menos uns cinco pés dessa fruta.  Papai dizia que elas estavam ali para decantar o esgoto da casa.  Coisas que o meu pai aprendia na obra onde trabalhava. Na casa do meu avô tinha um espaço tão grande para o plantio de qualquer tipo de planta, mas eu, que poca afinidade com o trabalho, que tinha, plantei um pé de mamão.  Nas férias do ano seguinte lá estava ele. Imponente, carregadinho de pequenos frutos ao sabor do vento. Fiquei tão feliz que mal cabia em mim.  Corri para os braços dos velhos que pareciam estar mais feliz do que eu com a minha alegria.Hoje, já crescido e sabedor da bondade dos avós que eu tive, arrisco dizer que a minha tentativa deve ter dado errada, mas os meus bondosos avós, com certeza, refizeram o plantio até que vingasse, como vingou, aquele majestoso pé de mamão que eu teria plantado. 
- Coisas de criança...

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

NO ESCURINHO...

                              

      Eu queria muito ver o filme de Giuseppe Tornatore; cinema paradiso, mas não iria se não fosse acompanhado de uma pessoa que me passasse a impressão de estarmos apaixonados. Assim foi com quem me cedeu parte da sua vida dividindo comigo o teto onde moramos. Num dia previamente combinado lá fomos nós rumo ao cinema no shopping de nossa cidade. Escolhemos duas poltronas na fileira do meio de onde se podia ver melhor a tela. Enquanto esperava a gente comia pipoca, olhava os casais se aconchegando e o apagar das luzes que parecia demorar mais do que o habitual. A pipoca ainda estalava nos dentes do pessoal a nossas costas quando a tela se iluminou.  Era a propaganda dos patrocinadores e por fim, Josh Groban, como as águas mansas de um lago em noite enluarada, me embalou o corpo e a alma com sua bela e tocante melodia. O ruído característico da máquina desenrolando a fita na cabine do operador era um motivo único a me levar creditar que eu assistia um filme projetado numa tela simplesmente, e não uma graça, ou uma obra do criador. Era o que eu, de verdade, gostaria de acreditar mesmo diante daquela belezura de cenário e o sabor doce e gostosa da trilha que tanto me encantava. Até os mais duros dos machões ali presente tentariam esconder a teimosa lágrima que certamente riscaria as suas faces na escuridão da sala. Acontece que choramos todos ou quase todos ali sentados.  A gente fica desse tamanho, oh! Diante a imagem daquele menino que, apaixonado pelo cinema, transcendia a outra dimensão. Foi apaixonante. Foi divino. Foi um presente com o qual Giuseppe Tornatore e Josh Groban nos presentearam naquele dia.

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

BONS TEMPOS...

     Nas férias do colégio eu ia à casa do meu avô sempre que tivesse alguém para me levar.  O sítio ficava no norte do estado a cerca de 200 quilômetros de onde a gente morava. Minha mãe, no ímpeto de ajudar os seus pais, me embarcava num  trem pela manhã para, no final da tarde, chegar ao meu destino.    E lá ia eu na maria fumaça que além de cuspir fogo pelas ventas, soltava umas fagulhas que até já queimou um casaco que mamãe tanto recomendou que tivesse cuidado com ele. A paisagem era muito bonita.   A floresta ainda verde, a água cascateando nas pedras ladeira abaixo, os passarinhos voando sem rumo como crianças correndo umas atrás das outras e a saudade que não me largava, mesmo tendo o trem há cinco minutos deixado a primeira estação.  Na lavou eu era um desastre, porque a toda hora eu saía atrás das galinhas, subia em árvore para fugir do prego, cachorro do meu tio mais novo, a quem eu não dava sossego e dos porcos que sempre me derrubavam para pegar o inhame cozido que eu levava para eles numa grande bacia de alumínio.  Para não ser discriminado eu me enturmava com os moleques que usavam estilingue na caça aos passarinhos e muitas vezes eu tive tudo para provar que era melhor do que eles, não fossem as vezes que acertei o meu próprio dedo.  Doeu muito, mas nem cara feia eu deixei que me vissem fazer.  Só os diabinhos de lá tinham mira certeira.  Era uma estilingada e o petisco da tarde estava garantido.  Dos 14 anos para cá foi que eu percebi a covardia que era jogar pedra nos indefesos passarinhos.  E só de me lembrar que eu estive perto de fazer aquela maldade eu morro de vergonha de mim.   Minha mãe jamais soube dessa minha façanha ou no lugar da minha orelha, hoje, talvez, só restasse a cicatriz.  Vovó cuidava da horta e todas as manhãs me levava com ela como companhia. Lá minha avó me contava casos, falava de Deus, da vida e da morte enquanto eu, sem entender do que ela estava falando, jogava pedrinhas no pequeno riacho do outro lado da cerca de bambu que protegia as plantas. Hoje, pelo que fiquei sabendo, faz tempo o rio não corre mais.  As plantas acabaram e a cerca foi derrubada pela última enchente que teve por aqueles lados.  Eu gostava de ouvir o que ela falava, mesmo que não entendesse certas coisas, graças a voz gostosa com que minha avó contava suas histórias. Dos dois eu gostava mais das que o meu avô contava.  Aquela voz de barítono roncando no meu ouvido me dava certeza de que eu estava seguro.  E foi embaixo de um pé, não me lembro de que, que eu vi pela primeira vez a lua andando no céu por detrás de um montão de nuvens transparente. Meu avô riu muito quando me ouviu falando aquilo e ele, que mal sabia escrever o nome me afiançou que a lua não andava, mas as nuvens sim, é que fiquei sabendo o quanto inteligente era aquele homem.
Não estou morrendo de saudades dos meus tempos de menino e muito menos do amor com que meus avós me cercavam, mas estou, sim, com saudades dos tempos da simplicidade, como quando o meu avô cortava em pequenos pedaços com o canivete que levava consigo o fumo de rolo e, sentado debaixo daquela árvore que jamais me lembrei do nome, preparava seu cigarro com o mesmo papel de seda que hoje a juventude enrola o seu baseado. Vovô fumava a noite inteira olhando as estrelas enquanto eu, sentado em uma de suas pernas brincava com seu bigode e as vezes com o chapéu que ele, nem sempre, permitia que alguém tocasse. 

sábado, 5 de novembro de 2016

EU VI.

                                                                   
      No maracanã, onde vi o meu time empatar com um time paulista,  também vi uma das partes da torcida brigar sem que houvesse motivo.  Vi beijo de namorados que se diziam apaixonados, ladrão roubando quem achava que só o juiz fosse capaz de fazê-lo em publico e um menino torcendo pelo clube que o pai escolheu para ele.  Vi gritos de gol, de raiva e desespero.  Vi meu filho envolto na bandeira do mais querido e o filho dos outros achando que a do seu clube era muito mais bonita. Vi torcidas colorindo arquibancadas e no verde do gramado aqueles que recebem para nos fazerem mais felizes.  Vi um vendedor de picolé errando o troco, só não atentei se era a seu favor ou contra. Vi os fogos espocarem no gol que tardava, mas saiu, e a torcida em peso se levantar.  A metade vibrava com o gol perfeito enquanto a outra ofendia a mãe do apitador. Na vizinhança ouvi gritos de festa e de tristeza enquanto o Faustão tinha parte do programa reduzido.   Vi alguém, que não tinha sido convidado, entrar minha casa adentro e, do nada,  me dar um abraço e uma parte do seu sorriso como se fossemos velhos conhecidos.  Vi um político religioso ir para a cadeia enquanto o outro, da mesma igreja, tomar posse na prefeitura.  Vi, enfim, tanta beleza e felicidade assim como vi coisas que me entristeceram, como a vida florindo no topo da planta enquanto meu pai, sem tempo, deixava-se ficar em minha tênue lembrança. Enfim eu vi e ouvi coisas que dos surdos e dos cegos, talvez não passassem despercebidas, mas a causa, talvez, tivesse doído mais em mim, do que o efeito que elas produziram.

terça-feira, 1 de novembro de 2016

CARA DO AVÔ.

     Eu não me lembro se na casa dos meus avós havia algo que marcasse o tempo,  se o mediam pela posição do sol ou coisa parecida.  Sei, no entanto, que ninguém fazia nada às pressas, por isso tudo saía a contento. Nada do que se fazia era sem propósito, sem tempero ou sem amor.  Vovô levantava cedo para antes do  raiar do sol estar na roça.  Minha avó alimentava as galinhas cantando uma canção que até bem pouco tempo mamãe cantava quando nos punha para dormir. Os porcos grunhiam pelo inhame que fervilhava no fogão à lenha enquanto os passarinhos chilreavam na gaiola e fora dela. Eu só não entendia por que os meus tios os aprisionava se a maioria cantava tão perto dos seus ouvidos - essa pergunta jamais tive quem me respondesse.  Às dez da manhã o almoço chegava ao alto do morro onde vovô e a maioria dos onze filhos carpiam o mato dos pés de café.  Dizem que meu avô era rigoroso na criação dos rapazes, mas eu, moleque de cidade grande que escolhia passar as férias do colégio com eles no sítio, jamais acreditei que aquele gigante de bom coração atentasse contra os rapazes.  Com o tempo os meus tios saíram de casa deixando os velhos sozinhos. O primeiro de todos era menina que anos mais tarde os levou para viver na cidade da qual só tinham ouvido falar.   Minha avó, a mulher mais linda e bondosa do mundo, esteve ao meu lado até pouco tempo e felizmente eu pude dar a a ela um pouco da minha alegria e em muitos momentos até gargalhar de perder a compostura eu a fiz.  Guardo isso com muito orgulho nas minhas lembranças. Principalmente quando vovó se vestia de fada para contar suas histórias me deixando de boca aberta com sua performance. Eu sei que tenho muito dos meus avós nos meus traços, mas de verdade eu me pareço mais com a minha mãe, não pela sua doçura e generosidade, mas pelo meu jeito durão, carapaça com a qual me defendo, defendo para continuar com a saga dos Klein, dos quais faço parte.  
-Agora eu preciso encerrar até porque o sol já se pôs e quando isso acontece é sinal de que as galinhas já voltam para o galinheiro, mesmo sem o canto bonito de minha avó.

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

O QUE EU ACHO DA POLÍTICA BRASILEIRA?
(Castelo).

  Infelizmente, 2/3 da população brasileira é composta 
de miseráveis, sem instrução e informação. Essa é a faixa de eleitores em que Lula tem o maior índice. Pensam eles que estão votando num "igual", um homem do povo. Mas Lula, há muito tempo, faz parte da elite brasileira que ele diz combater, muito rico, poderoso, cheio de regalias e mordomias. O eleitor do Lula é fanático, não vota com a razão, vota com a paixão, e o raciocínio lógico e objetivo não tem lugar quando entra a paixão. Ele tem carisma, é inegável, e para essa gente que vota nele não importa a quantidade inacreditável de todo tipo de falcatruas e roubalheira que o seu governo patrocina, muitas delas já comprovadas, porque a paixão abafa o raciocínio. Isto os impede de perceber que, ao votarem para a continuação desse estado de coisas, é como se estivessem dizendo: 
" - Podem continuar agindo sem respeito à ética e à moral, mentindo, roubando e repetindo todos esses crimes que nós não ligamos, até damos a maior força. Somos todos solidários". 
De certa forma, são todos cúmplices dos crimes cometidos porque os estão aprovando com seu voto. 
Faltam, principalmente, educação, valores éticos e morais, saber o que significa isso, afinal. Faltam noções mínimas de honestidade. Isso se aprende na escola que, infelizmente, o povo não tem. Será preciso que seja abolida a idéia de que se tem que levar vantagem em tudo, não importando os meios para isso. É preciso, URGENTEMENTE, abolir a crença de que todos levam alguma vantagem quando podem e, se não levam, é porque lhes falta oportunidade. E, se todos levam, então, porque não levar alguma também... 
Esta será a mais terrível herança que o governo (?) Lula deixará: 
- A banalização da corrupção como algo comum, algo que todos fazem e que, portanto, não é tão grave assim....
(Castelo)

terça-feira, 25 de outubro de 2016

LAVO AS MÃOS.

      Esse ano eu pretendia deitar-me com as galinhas e acordar com o galo cantando no meu ouvido, mas não consegui. Pretendia cuidar do que resta de mim, como cuida da horta o aguerrido plantador, mas também não encontrei tempo ou coragem.  Eu pretendia cuidar da pele, dos cabelos, das mãos, das pernas e dos pés, para que a mulher que escolhi com quem passar o resto da minha vida tivesse prazer de olhar para  seu homem.  Infelizmente ela me olha como a menina olha o pipoqueiro na praça. Se é doce ou salgada não importa, o que interessa é que estejam quentinhas. Queria parar com essa bobagem de pensar que homem que é homem não usa creme, não faz sobrancelha e não cuida das unhas. Talvez eu até conseguisse, mas o creme pode sujar as poltronas.  Os pelos das minhas sobrancelhas sairiam à base de sofrimento e as unhas, há muito eu as tenho aparadas rente ao "sabugo", principalmente quando o Mengão joga. Eu queria, pelo menos, ter as mãos bonitas para tocá-la quando chegasse à casa, e com elas fazer um coração no momento da despedida.   Só eu, pelo que tenho observado, não cuido da minha aparência como os amantes se cuidam para as suas mulheres.  Para que servem os banhos que tomo durante o dia se lavo tão somente o que acho que não está limpo?  Ninguém quer saber se o que é feio está perfumado.  O que querem saber, de fato, é que, não só o corpo do homem é limpo como a imagem, com a qual a natureza permite que ele se pinte, também o seja.  Mesmo assim eu me levanto nas manhãs de todos os dias para, antes do primeiro gole de café,  ir ao banheiro, tomar meu banho, escovar os dentes e aparar os cabelos que crescem onde eu acho que não seria necessário. Faço a barba, dou um sorriso para o espelho e saio em busca da beleza, que para minha felicidade, se encontra do outro lado da porta a minha espera.  

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

OBRIGADO AMIGO.
"Clique aqui em baixo".
https://youtu.be/Nm5N4iFLU0g

     
      Eu jamais pude dar a você  uma prova da grandeza da minha amizade  a não ser quando por cinco anos eu fui seu fiador.  Fato que você nunca deixou de mencionar num bate papo entre a gente.  Você, no entanto, quantas vezes se sacrificou deixando a zona de conforto da sua casa para ver esse cara que num gesto de extrema valentia trocou a certeza de vários anos vividos com uma mulher que a ele deu filhos e a própria vida por outra que, até deu certo, mesmo nada conspirando a favor. Talvez o amigo não se lembre, mas nos idos de 2011 quando a chuva castigou quem tinha bens e era feliz, assim como aqueles que não tinham nada além de um canto para dormir, um sujeito corajoso, talvez sofrendo mais do que os que perderam suas casas, seus bens e suas famílias, subiu até o pé da serra onde uma de muitas barreiras bloqueava a estrada e a vida dos que se tornaram estatística a partir dali. Esse cara, impedido de cumprir seu intento, avisou pelo celular que estava ali para me ajudar, para secar uma possível lágrima que por ventura eu chorasse e para me dar a mão naquela hora de sofrimento.    Você, Marcelão, talvez segurando o pranto, queria porque queria me entregar, sem ter como, os mantimentos que trazia consigo assim como me emprestar algum dinheiro, mesmo estando eu amparado pela sorte como garanti a você que estava. Hoje, depois de deixar a mulher que divide comigo o teto dela, voltei ouvindo o rádio do carro.  Nele tocava, por incrível que possa parecer, u’a música que me reportou aqueles dias.  Zeca Pagodinho que havia sofrido na carne o que você, Macelão, sofreu por Nova Friburgo, arregaçara as mangas e fora à luta.  Puxou água de dentro das casas de quem não conhecia,  suspendeu móveis e utensílios para lugares mais altos e mais seguros das casas e deu comida e bebida a quem perdeu sua cozinha, seu fogão e a torneira de água limpa durante alguns dias.  Passada a turbulência o sujeito sentou-se num canto escondido e para não chorar, se é que não chorou quando todos choravam, pegou um pedaço de papel e uma caneta e compôs a oração que eu me arrisco dizer que é nossa, do Zeca, do povo de xerém, do Marcelão e minha, que seco na cara a teimosa lágrima que teima fugir ao meu controle, e o faço na certeza de sua generosa e tamanha amizade.  Que bom ter você por perto, Marcelo, mesmo que distante.  Obrigado, muito obrigado meu amigo.

terça-feira, 18 de outubro de 2016

LUTANDO CONTRA O DESTINO.
silvioafonso

      Talvez Maria não tivesse a intenção de ser a melhor mãe do mundo, até porque, os filhos das mulheres que conhecemos tinham, pelo menos, uma qualidade, enquanto os dela, nada que fizessem, por melhor que fosse, tinha para ela algum valor.  Maria era boa pessoa, boa esposa, cumpria a tempo e a hora com os seus afazeres e achava que agindo assim despertaria nos filhos a ambição de lutar pelo que fosse real.  Como mãe não era diferente de nenhuma outra, mas se um filho ou uma filha precisasse de ajuda para decidir que rumo dar à  sua vida, não devia contar com ela a não ser que fosse para saber como se cuida de uma casa, de um marido e dos filhos, se os tivesse. Aí ela se sentia à vontade para dar os seus pitacos. Um dos filhos dessa senhora, por exemplo, queria estudar para escrever a programação da rádio da cidade, mas para ela ninguém enchia a barriga se alimentando de letras ou ouvindo as baboseiras da emissora.  As meninas, por sua vez, queriam ser engenheira, farmacêutica, advogada ou professora, mas a mãe fazia cara feia e não discutia o caso.  Para ela filha mulher tinha de aprender a cozinhar, lavar e passar, assim como tomar e dar conta do marido e de sua casa no futuro. Com o passar do tempo, tudo mudou, mas só Maria continuava a mesma.  Uma das filhas se casou, como era do desejo de sua mãe, mas não deixou de estudar.   Fez o fundamental, o curso médio e não contente por ter se formado em pedagogia, fez pós-graduação e mestrado na matéria. Hoje dá aulas em duas faculdades da cidade. A outra fez como a primeira.  Casou-se e teve filhos, mas estudou até seu nome constar entre os graduados de medicina. Com as outras duas não foi diferente.  Uma é advogada, procuradora da república, enquanto a mais nova, formada pela Puc em psicologia, tem livros traduzidos para seis idiomas, como era sonho dela.   O rapaz continua fazendo o que sempre desejou, escreve a pauta da rádio local e auxiliar em algumas séries da TV.  Maria está a beira da morte, mas, pelo que consta, não é feliz.   Sabe que depois dos filhos desobedecerem suas ordens, só os terá em casa no mesmo dia e na mesma hora se ela vier a falecer.

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

IRMÃO CAMARADA.

     

     Liguei uma, duas, três vezes em horários diferentes e ele não me atendeu.  A gente tem divergência de pensamentos como todo mundo tem, concordo, mas nem por isso o mais vibrante harpejo pretende mudar no outro a forma de entender o som, mas sim, de se afinarem como instrumento da mesma banda.  Por isso eu liguei tantas vezes, muitas, diversas e ele não se tocou e muito menos retornou a ligação ou este desabafo não seria pertinente.  Antes de tomar tal decisão eu aguardei sentado ao pé do celular na expectativa de poder ouvir aquela voz empostada e a contundência da  sua gargalhada.  
        Com o passar do tempo e com o medo nefando de perder o melhor dos melhores amigos que já conquistei, decidi digitar outra vez os mesmos algarismos daquele telefone, e o fiz uma, duas, diversas e diversas vezes, mas ele, como havia feito em oportunidades anteriores, não quis ou não teve como me atender.   Certamente esqueceu o aparelho no carro e este numa rua distante, mas tão longe da gente que talvez precisasse de anos para chegar até lá onde o celular se encontra e nele conferir o número de vezes que dele eu me lembrei.  Eu não queria perdê-lo, meu amigo, esta jamais foi minha intenção ao dizer aquilo que falei, pois o que de fato eu pretendia era encurtar os elos da corrente que nos mantém ligados um no outro, como irmãos siameses que você, seu safado, querendo ou não querendo, jamais deixará de ser meu...

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

BRASILEIRO VOTA MAL? ACHO QUE NÃO.
(Bruno N. Vargas.)


Segundo dados colhidos pela Fundação Getúlio Vargas, os brasileiros confiam mais no judiciário do que no executivo e legislativo. Pois perceba que o poder judiciário é o único desses três no qual o próprio povo não escolhe alguém do próprio povo com a finalidade de o representar no poder. 
Estanho isso, não?
Assim se fala muito em crise de representatividade no país. Não creio em crise nenhuma. 
Também não acho que a lei da Ficha Limpa seja eficaz para melhorar o cenário. Pelas ruas vemos que as posições políticas da maioria é a da maioria no congresso. Mais do que isso, se as pessoas votam em corruptos, não podemos dar uma de herói fascista a fim de impedir elas de votarem nessas pessoas. Lembre-se que uma frase do tipo "rouba mais faz" é suficiente para lhe dar votos. Outros então ganham votos por fazer palhaçada. E tudo isso as pessoas recebem, analisam e votam.
(Bruno N. Vargas)

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

CONSEQUÊNCIA DE VOTAR MAL.
(Paulo Ribeiro de Souza)


  Vemos – com grande tristeza – que a maioria de nós, brasileiros, ainda não aprendeu
 a votar conscientemente. A impressão que temos é de que as maciças campanhas para elucidação de nada adiantam e que o brasileiro parece não dar a mínima atenção à esse ato de civismo que, contraditoriamente, é a única forma de mudar a situação de ostracismo que parece ter caído sobre a nossa nação, historicamente refém da corrupção que corrói de forma contumaz o pouco do orgulho que nos resta, após seguidos tombos em nossa trajetória política. Depois de décadas de sofrimento e sendo sufocados pela ditadura militar, aprendemos a escolher os nossos representantes para o legislativo e executivo para, logo em seguida, numa ação histórica, tiramos do poder o primeiro presidente eleito pelo voto popular (depois de lutarmos tanto para termos esse “direito”), o qual esfregou na cara de todos os brasileiros o quão idiotas fomos. Mas numa controversa invertida, após algum tempo, demostrando não termos a mínima memória cívica, o elegemos novamente para o senado federal, esquecendo de tudo o quanto ele nos fez e como se o passado tivesse ficado para trás e nada mais importasse, afinal, como diz um ditado que parece mais vivo que nunca: “Nada é tão ruim que não possa ser piorado”. Não contente com isso, ainda elegemos, tempos depois, um congresso tão apodrecido que, ao ser deflagrada a maior rede de corrupção já vista na história deste pais, vimos – com muita tristeza – que o que fez o ex-presidente expulso pelos “caras pintadas”, o faz parecer um “singelo ladrão de galinhas” perto do esquema de corrupção mais absurdo já montado desde a fundação desta nação, o que nos faz acreditar que – ainda que seja a maior rede de bandidagem que já tomamos conhecimento – existam ainda, infelizmente, coisas muito piores escondidas sob o tapete da nossa história política. Não à toa, vemos hoje, a corte máxima do país julgando (para a vergonha brasileira) os atos de corrupção escancarada num país que parece ter se transformado numa eterna “zorra”. E quando pensamos que isso é inerente a este ou aquele partido político, ficamos chocados ao saber que não existe um só partido político de conduta ilibada nesse Brasil (o que pode ser visto, por exemplo, no livro “A PRIVATARIA TUCANA”, do autor Amaury Ribeiro Jr). Após tudo isso, o que nos resta? A única coisa que ainda podemos fazer é aprender a VOTAR DIREITO, afinal de contas, somos responsáveis por toda essa corja que aí está e se perpetua no poder como hienas que não largam o osso nunca. Portanto, como não me canso de dizer jamais, precisamos aprender a votar direito, porque cada povo tem o governo que merece! Logo, antes de trocarmos o voto por um par de chinelos, por uma cesta básica, por uma dentadura ou pelo que for, que pensemos um pouco mais sobre as consequências de um voto mal dado: Quatro anos de lamúria sem fim (e sem direito a arrependimento). Até porque a punição a políticos corruptos ocorre como a passagem do Cometa Halley: Muito, mas muito raramente, quase que um evento folclórico! Portanto, antes de elegermos um palhaço ou um ladrão para nos governar, é bom pensarmos bem, pois os palhaços deste “circo” somos nós mesmos, que votamos mal e rimos depois… Mas da nossa própria desgraça.
(Paulo Ribeiro de Souza).

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

DOIS PESOS
(Antonio Tabet)

          Dois amigos - até sabe-se lá Deus quando - argumentavam:
- Foi golpe.
- Não foi golpe.
- Foi golpe.
- Não foi golpe.
- Foi golpe.
- Não foi golpe.
- Foi.
- Não foi.
- Foi o que então?
- Impeachment.
- Armado pela oposição.
- Que até outro dia era situação.
- Ainda é situação.
- Então não foi oposição.
- Que situação!
- Que vocês elegeram.
- "Vocês" uma ova! Eu votei na Dilma.
- E no Temer.
- Eu votei na Dilma.
- E no Temer.
- Mas votei nela pra presidenta.
- Presidente.
- Presidenta.
- Presidente.
- Presidenta.
- Presidente.
- Presidenta Dilma.
- Vice-presidente Temer.
- Vice não é presidente.
- Agora é. Presidento.
- Tirar a Dilma é fácil.  Quero ver continuar com a Lava-jato.
- Continuaram.
- Continuar com a Lava-jato é mole.  Quero ver o manter o Bolsa-Família.
- Mantiveram.
- Manter o Bolsa-Família é tranquilo.  Quero ver nomear mulher para cargo com status de ministério.
- Nomearam.
- Nomear mulher para cargo com status de ministério é obrigação.  Quero ver acusar o Lula.
- Acusaram.
- Acusar o Lula é previsível. Quero ver acusar o Lula sem dizer que não tem provas mas tem convicção.
- Mas não disseram!
- E não disseram que iriam cassar o cunha também?
- Cassaram o Cunha também.
- Mas a Dilma foi eleita democraticamente.
- O Cunha também.
- Mas a Dilma não inventou a corrupção.
- O Cunha também.
- Mas a Dilma foi julgada por um plenário corrupto e sem moral.
- O Cunha também.
- Mas tirar a Dilma não vai acabar com a corrupção.
- O Cunha também.
- Mas nele foi justo.
- Ele diz que foi golpe.
- Mas não foi golpe.
- Ele diz que foi golpe.
- Mas não foi golpe.
- Foi golpe.
- Não foi.
- Foi.
- Não foi.
- Foi.
- Não foi.
- Não foi o quê?
- Não foi golpe.
- Pronto.  Concordamos.
- Golpe baixo.
- O do Cunha também.

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

PONTO DE VISTA.

      Os sinais de pontuação estavam quietos dentro do livro de Português quando estourou a discussão. 
- Esta história já começou com um erro - disse a Vírgula. 
- Ora, por quê? - perguntou o Ponto de Interrogação. 
- Deveriam me colocar antes da palavra "quando" - respondeu a Vírgula. 
- Concordo! - disse o Ponto de Exclamação. - O certo seria: "Os sinais de pontuação estavam quietos dentro do livro de Português, quando estourou a discussão". 
- Viram como eu sou importante? - disse a Vírgula. 
- E eu também - comentou o Travessão. - Eu logo apareci para o leitor saber que você estava falando. 
- E nós? - protestaram as Aspas. - Somos tão importantes quanto vocês. Tanto que, para chamar a atenção, já nos puseram duas vezes neste diálogo. 
- O mesmo digo eu - comentou o Dois Pontos. - Apareço sempre antes das Aspas e do Travessão. 
- Estamos todos a serviço da boa escrita! - disse o Ponto de Exclamação. - Nossa missão é dar clareza aos textos. Se não nos colocarem corretamente, vira uma confusão 
como agora! 
- Às vezes podemos alterar todo o sentido de uma frase - disseram as Reticências. - Ou dar margem para outras interpretações... 
- É verdade - disse o Ponto. - Uma pontuação errada muda tudo. 
- Se eu aparecer depois da frase "a guerra começou" - disse o Ponto de Interrogação - é apenas uma pergunta, certo? 
- Mas se eu aparecer no seu lugar - disse o Ponto de Exclamação - é uma certeza: "A guerra começou!" 
- Olha nós aí de novo - disseram as Aspas. 
- Pois eu estou presente desde o comecinho - disse o Travessão. 
- Tem hora em que, para evitar conflitos, não basta um Ponto, nem uma Vírgula, é preciso os dois - disse o Ponto e Vírgula. - E aí entro eu. 
- O melhor mesmo é nos chamarem para trazer paz - disse a Vírgula. 
- Então, que nos usem direito! - disse o Ponto Final. E pôs fim à discussão.
(Conto de João Anzanello Carrascoza)

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

MOINHO DE SONHOS

    A mulher e o menino iam montados no cavalo; o homem ia ao lado, a pé. Andavam sem rumo havia semanas, até que deram numa aldeia à beira de um rio, onde as oliveiras vicejavam.
Fizeram uma pausa e, como a gente ali era hospitaleira e a oferta de serviço abundante, resolveram ficar. O homem arranjou emprego num moinho próximo à aldeia. A mulher se juntou a outras que colhiam azeitonas em terras ao redor de um castelo. Levou consigo o menino que, no meio do caminho, achou um velho cabo de vassoura e fez dele o seu cavalo. Deu-lhe o nome de Rocinante.
Ao chegar aos olivais, o pequeno encontrou o filho de outra colhedeira - um garoto que se exibia com um escudo e uma espada de pau.
Os dois se observaram à distância. Cada um se manteve junto à sua mãe, sem saber como se libertar dela. Vigiavam-se. Era preciso coragem para se acercar. Mas meninos são assim: se há abismos, inventam pontes.
De súbito, estavam frente a frente. Puseram-se a conversar, embora um e outro continuassem na sua. Logo esse já sabia o nome daquele: o menino recém-chegado se chamava Alonso; o outro, Sancho.
Começaram a se misturar:
- Deixa eu brincar com seu cavalo?, pediu Sancho.
- Só se você me emprestar sua espada, respondeu Alonso.
Iam se entendendo, apesar de assustados com a felicidade da nova companhia.
Avançaram na entrega:
- Tá vendo aquele moinho gigante?, apontou Alonso. Meu pai sozinho é que faz ele girar.
- Seu pai deve ter braços enormes, disse Sancho.
- Tem! Mas nem precisava, respondeu Alonso. Ele move o moinho com um sopro.
Sancho achou graça. Também tinha uma proeza a contar:
- Tá vendo o castelo ali?, apontou. Meu pai disse que o dono tem tanta terra que o céu não dá para cobrir ela toda.
- E se a gente esticasse o céu como uma lona e cobrisse o que está faltando?, propôs Alonso.
- Seria legal, disse Sancho. Mas ia dar um trabalhão.
- Temos de crescer primeiro.
- Bom, enquanto a gente cresce, vamos pensar num jeito de subir até o céu! - disse Alonso.
- Vamos!, concordou Sancho.
Sentaram-se na relva. O cavalo, a espada e o escudo entre os dois. Um sopro de vento passou por eles.
Já eram amigos: moviam juntos o mesmo sonho.

(João Anzanello Carrascoza
Autor deste conto, é publicitário, 
professor da Universidade de São
Paulo (USP) e autor de livros infantis,
 entre eles, Aprendiz de Inventor (Ed. Ática)

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

APRENDIZAGEM


- Mãe, cabelo demora quanto tempo pra crescer?
- Hã?
- Se eu cortar meu cabelo hoje, quando é que ele vai crescer de novo?
- Cabelo está sempre crescendo, Beatriz. É que nem unha.
A comparação deixa a menina meio confusa. Ela não está preocupada com unhas.
- Todo dia, mãe?
- É, só que a gente não repara.
- Por quê?
- Porque as pessoas têm mais o que fazer, não acha?
A menina não sabe se essa é uma pergunta do tipo que precisa ser respondida ou é daquelas que a gente ouve e pronto. Prefere não responder.
- Você é muito ocupada, não é, mãe?
- Hã?
- Nada, não.
A mãe termina de passar a roupa e vai guardando tudo no armário.
Enquanto isso, Beatriz corre até o quartinho de costura, pega a fita métrica e mede novamente o cabelo da boneca. Ela tinha cortado aquele cabelo com todo o cuidado do mundo, pra ficar parecido com o da mãe, mas a verdade é que ficou meio torto.
"Nada, não cresceu nada", ela conclui, guardando a fita. E já tem uma semana!
Depois volta para onde está a mãe, que agora lustra os móveis.
- Mãe, existe alguma doença que faz o cabelo da gente não crescer?
- Mas de novo essa conversa de cabelo! Não tem outra coisa pra pensar não, criatura?
Sobre essa pergunta não há dúvida: é do tipo que você não deve responder.
A mãe continua trabalhando. Precisa se apressar. Dali a pouco a patroa chega da rua e o almoço nem está pronto ainda.
- Mãe!
- O que foi?
- É que eu estava aqui pensando.
- Pensando o quê?
Beatriz não responde. Espera um pouco, tentando achar as palavras certas.
- Vai, fala logo.
- Quando a gente faz uma coisa, sabe, e não dá mais para voltar atrás, entendeu?
- Não, não entendi.
Ela abaixa a cabeça, dá um tempinho e resolve arriscar:
- Então, se você não entendeu, posso continuar perguntando sobre cabelo?
- Ai, meu Deus!
Beatriz deixa a mãe trabalhando e vai procurar de novo sua boneca.
Pega a boneca no colo e diz no ouvido dela:
- Não liga, não. Cabelo de boneca é assim mesmo, cresce devagar, viu?
E com um carinho:
- Foi minha mãe que me ensinou.
Flávio Carneiro, autor deste conto,
 é roteirista, ensaísta e professor de
 Literatura. Tem 11 livros publicados,
 dentre eles, A Distância das Coisas
 (Editora SM), vencedor do III Prêmio
 Barco a Vapor.