quarta-feira, 15 de agosto de 2018

O CARA

   

    A última casa que papai alugou foi para um casal de jovens, pelo menos ele tinha 20 anos enquanto ela, como nos disse, 32.  Minha mãe gostou tanto dos dois que até comer eles comiam com a gente e  eram visto mais na nossa casa do que na que pagavam para morar. A simpatia do rapaz e a doçura da mulher causavam ótima impressão em minha mãe que já os considerava parte da família. Eu também gostava deles e dessa vez não era só por causa da mulher, mas pelas roupas que vestiam e olha que nada eu entendia da moda feminina e da masculina um pouco menos. Agora, as camisas que o cara vestia, meu Deus do céu! Só em manequins eu tinha visto.  Quanto aos sapatos, nem neles eu vira antes, por isso namorava os dele, até que um dia resolveu me perguntar se eu  gostava do que estava olhando ou se eu tinha alguma coisa contra já que eu não tirava os olhos dos pés dele? Ao que respondi que não. Que claro que não.  Quer dizer, que não tinha motivo algum para não gostar daquela maravilha. Então ele, gentil como deixava parecer que era, descalçou-se e   empurrando aquela belezura para o meu lado sugeriu-me que o calçasse.  E eu o calcei.  Jesus do céu, como era macio e bonito. Eu estava até sem jeito de pisar naquilo.  Adorei, disse olhando para quem sorria pelo bem que a mim havia feito.  Olha, cara  disse-me  dá-lo eu não posso, até porque a minha mulher é quem compra o que eu visto e calço.  Mas fica aqui a dica; sempre que você sair para comprar só compre aquilo que for bom, porque o resultado será sempre afirmativo. Mas se você quiser pode usar o meu porque a minha mulher não vai se importar, é só pedir.  Mais à frente você compra o seu.  concluiu sorrindo enquanto eu, envergonhado, devolvia o que provei.  Na época eu não tinha aonde cair morto, por isso eu não comprasse roupa e sapatos de marca como ele comprava.  Aliás, nem era ele, senão aquela gostosura quem comprava e foi graças a ela que o marido me mostrou como ficamos bem vestido se não entregamos o nosso suado dinheirinho à nossa mãe, dinheiro esse que entregava a ela até que eu completei 25 anos, quando saí de casa. Meu pai também agia assim e eu achava aquilo lindo. 
Um dia, finalmente, o casal brigou e a moça foi dormir lá em casa. Chegou com os olhos vermelhos para nos braços de minha mãe chorar sua tristeza.  Jesus de Nazaré, lá vou eu curtir outra insônia por conta dessa mulher, e para infernizar meus pensamentos a danada foi a última a tomar banho para dormir.  Meu coração bateu descompassado quando a vi, de toalha, sair do banheiro para o quarto e assim que a porta se fechou corri o olho para o buraco da fechadura, mas algum desavisado, para não dizer um palavrão, havia pendurado alguma coisa na maçaneta de maneira que cegava a vista que se podia ter.  Voltei à cama para dormir, mas só Deus sabe depois do quê, eu consegui.  Mas não fez mal aquilo ter acontecido já que não pensavam se mudar tão cedo e como eu tinha 17 anos e só aos 25 eu partiria, muita história ainda eu ia ter para contar.

sábado, 11 de agosto de 2018

HCE

      Aos 19 anos eu fui internado no Hospital Central do Exército com pneumonia. Era lá, isolado da tropa, que a gente era tratado por um médico, capitão do exército e por freiras do Mosteiro de São Lucas.  No segundo pavilhão haviam cinco enfermarias com 19 leitos cada, enquanto a minha tinha 12, mas só 6 doentes, contando comigo, as ocupavam. Desde a minha chegada os soldados vinham saber como era servir na brigada paraquedista e se eu  não tinha medo de saltar sem ter certeza do paraquedas abrir e por que eu adoecera se paraquedista diz que é forte como rocha?   O pior é que não respondi a nenhuma daquelas perguntas na esperança de vê-los de volta aos seus lugares ou as prestativas enfermeiras não mediriam nossa pressão, como não perguntariam se passamos bem à noite e muito menos rezariam com a mão na testa da gente. Pelo menos foi isso que o sargento me falou quando cheguei, inclusive que as moças só entravam na enfermaria se todos estivessem acomodados em seus devidos lugares. Normalmente chegavam de mansinho para não atrapalhar o repouso que o tratamento exigia e graças a tais sutilezas muitas vezes as peguei olhando para o lugar aonde os hormônios se concentravam se eu pensasse em qualquer uma delas. Eu tinha certeza de que elas não olhavam só para mim, mas também para os que não percebiam a curiosidade que traziam nos olhos. Talvez ninguém as visse com maldade a não ser um mente suja como eu as via. E por falar em mente suja eu já nem sei se devo me envergonhar das coisas que falo ou se confesso que colaborei em muito com aquilo, principalmente quando vinham pela manhã ou na hora em que todos pareciam dormir.  Esses eram os melhores momentos quando eu deixava o lençol escorrer para fora da cama de modo a instigar os olhares possivelmente curiosos. E elas, pelo que dava a entender, adoravam a imagem que tinham.  Pelo menos ficavam horas olhando para ela.
Não demorou dois meses e o soldado paraquedista estava de alta o que fez das doces enfermeiras as pessoas mais tristes daquele pavilhão.  E lá foi ele de volta ao batalhão para dias mais tarde sobrevoar o lugar de onde as belas e eficientes enfermeiras viram varias vezes um coração pulsando forte diante de seus olhos. 

quarta-feira, 8 de agosto de 2018

O PODER DAS MENINAS

    Joãgamela vivia se gabando de ter mais amigos do que qualquer um por aquelas bandas. E olha que não estou falando de nenhum exemplo de beleza já que era  alto e magrela. Tinha 10 anos, mas ainda cursava a 3ª série do fundamental.  Morava com os pais e mais três irmãs pouca coisa mais velhas, cuja incumbência era cuidar dele e da casa quando os pais trabalhavam.  Só que não, porque, esqueciam do compromisso quando se trancavam no quarto com os amiguinhos do irmão.  Quanto ao número de amigos ninguém contestava que Joãgamela tivesse porque o espaço em que morava vivia repleto deles. Tinha até quem mentisse conhecê-lo para se enturmar por ali. As irmãs de Joãgamela, como eram mais velhas, escolhiam as brincadeiras. Os mais bonitinhos eram levados para brincar dentro de casa, enquanto os demais jogariam bola com o irmão na quadra lá fora.  E como cada  garota podia escolher dois meninos para brincar com ela, tinha vez que faltava jogador pra completar os times, mas ninguém reclamava de nada, haja vista que tudo era muito bem organizadinho. Lá fora o jogo tinha juiz e regras a serem cumpridas, mas, lá dentro, quem sabe? Era um tal de puxar cabelo, beliscão na bunda e os esbarrões que as sábias mãozinhas bobas davam sem que soubessem quem era. Até sabiam, mas a criatividade das meninas ia longe as vezes saltava a cerca da imaginação, principalmente quando uma perguntou se o sexo dos anjos era iguais entre eles ou só espiando se podia ter certeza. Enquanto lá fora os moleques corriam atrás da pelota a turma aqui dentro procurava esmeradamente por essa resposta.  Depois das olhadas de São Tomé e dos toques comparativos chegavam a conclusão de que só um estudo mais aprofundado daria a eles a certeza que procuravam, mas isso era brincadeira para outro dia. No final da jornada os meninos não faziam ideia dos gols que marcaram lá fora, enquanto lá dentro as meninas sabiam com quantas bolas tinham brincado.  Dúvidas sobre Joãgamela ter mais amigos do que qualquer um já não tinham, até porque, espaço para brincar era o que não faltava naquela democracia aonde meninos feios, inteligentes, bonitos e até desprovidos de inteligência tinham vez nas brincadeiras que os filhos dos Gamela faziam.  Era uma democracia na acepção da palavra. A diferença era Joãgamela  chutar a bola lá fora com tanta força que os meninos não conseguiam segurar, enquanto as irmãs seguravam, até com certo desprendimento,  as bolas dos meninos lá dentro.
Criança tem cada uma...

domingo, 5 de agosto de 2018

O TAXISTA

      Isso é um roubo, o senhor me cobrar 50 reais por uma corridinha de Laranjeiras até o Cosme Velho, um roubo e se não fosse essa chuva nojenta eu teria vindo a pé – disse a mocinha puxando a saia para encobrir o que ela permitia das coxas. –Mas a senhorita não precisa me dar esse dinheiro, só que precisa desemburrar essa carinha linda porque assim eu fico sem jeito - disse com os dois olhos dentro do decote.  Você sabia que o estresse faz mal a saúde, que deixa o rosto das garotas bonitas como você todo manchado e cheio de rugas, sabia? – Perguntou rindo. – Qualquer um fica desse jeito numa hora dessas, ora bolas! Afinal de contas, o que o senhor quis dizer quando falou que eu não preciso pagar pela corrida, o que pretendia dizer com isso? – Ora, menina. Tá pensando que eu não sei que nas sextas-feiras você pega táxi para voltar a casa de onde só na segunda te deixam sair? Os colegas que te levam voltam para trabalhar, mas quando terminam, vão tomar chope e bater pago, como eu também faço, enquanto você fica presa naquela casa sabe-se lá fazendo o quê. Hoje, dependendo de mim, você não volta pra lá, pelo menos agora, mas para isso é preciso que combinemos aonde você gostaria de ir, se num barzinho onde a gente tomasse uma cerveja e jogasse um punhado de conversa fora ou, se preferir, a gente dava um pulinho num motel para conversar, só isso. Depois eu te levo pra casa e os 50 paus ficam pra você comprar qualquer coisa para si. Depende de você – concluiu, parando o carro. – O senhor já fez esse tipo de proposta pra sua mãe, seu velho nojento? E vai ligando esse carro ou eu chamo a polícia – Gritou com ameaças de abrir a porta, mas desistiu quando um cano frio de 38, que o taxista tinha na mão, encostou na cabeça dela. – Não, moço, por favor. Tira isso da minha cara, por favor, eu te peço! – Disse se debatendo em desespero. – É claro que tiro, mas enquanto isso vai tirando essa roupa que eu vou te ensinar a respeitar aqueles a quem você provoca tesão – disse desafivelando o cinto e pulando para junto de quem, de braços cruzados sobre os seios, implorava tremendo por sua sorte. – Por favor, moço, não faça nada comigo, por favor, não me machuque. – gritava, mas ele avançava, e com as costas da mão deu-lhe uma bofetada tão forte que foi atirada de encontro a porta com um fio de sangue no canto da boca. Ele, que não desistia das intenções a puxou pelos cabelos para o banco onde a violentaria. E o faria em punição por ser ela mulher, por ter saído para trabalhar, por ser jovem e bonita, por vestir uma saia curta, por usar  decote mostrado o colo e por ela morar numa terra sem dono, sem lei e sem ninguém que punisse com severidade aqueles que desrespeitam os direitos dos outros. Felizmente um taxista, que sabia das taras do cara, e vendo o carro parado ali, resolveu avisar a polícia do 10ª DP, que, de arma em punho, lhe deu voz de prisão. Dois tiros, duas sirenes. Um carro da polícia para o caso, uma ambulância para a menina que continuava casta e um saco plástico preto onde puseram o estrume que jaz nu, com um furo de bala no meio da testa e outro a um palmo abaixo do umbigo.

sexta-feira, 3 de agosto de 2018

ESCARLATE ATÉ AOS PÉS.

      A professora Dalila tinha algo a ver com Dalila, o que não quer dizer que fosse o cara pequeno e magro a quem dava selinhos por trazê-la à escola.  Também os seios generosos que aprisionava sob a camisa abotoada a partir do pescoço não seriam, assim como a calça jeans arrochada justificando a beleza do corpo nada tinha a ver com Dalila.  Quanto a Sansão, a gente estava se lixando para ele.  Na verdade queríamos mais que se danasse,  porque o importante é que a professora ficava mais tempo com a gente do que com ele. E a gente se amarrava em ficar com ela, principalmente pelo poder que exercia sobre tudo e todos chegando a induzir a maioria das alunas aos estudos sem prometer nada que não pudessem conquistar a partir da sala de aula, ao passo que os meninos esmeravam-se para impressioná-la. Talvez esse fosse o algo que tivessem em comum.  E para não contradizer os textos anteriores, muitas vezes fingi que não estava entendendo a matéria só para tê-la abaixada ao meu lado explicando aquilo que eu já sabia. E como era bom o seu hálito arejando minha cara, os acordes de sua voz a lamber-me os ouvidos e o cheiro delicioso de flor a vazar-lhe da pele. E se tudo não bastasse, tinha os aprisionados que de vez em quanto tocavam o meu braço e o ombro, naturalmente. Professora Dalila jamais soube o que os leves toques causavam em mim. 
Todas as aulas dessa jovem mulher tinham cheiro de festa, mas a melhor foi a do seu aniversário, na casa dela.  Estava linda naquele longo, de cuja generosidade do decote percebia-se que um descuido, por menor que fosse, daria aos prisioneiros a chance de fugir do cativeiro, o que, infelizmente não aconteceu porque Dalila era tão ou mais poderosa do que Dalila. Dalila e as sandálias de tiras de couro finas encobertas por um longo vermelho que mal deixava os pés serem vistos, mas não o suficiente para escondê-los de quem os acreditava encantadores, como eu. 
Enfim, detalhes da festa não trago de todo na lembrança, mas nenhum outro, por menor que fosse aos meus olhos, eu dele esqueceria se tivesse a ver com Dalila.  O  acarminado da roupa que vestia, por exemplo,  pintava do mesmo vermelho as minhas bochechas sempre que de mim se aproximava. O cabelo curto roçando o pé do pescoço, o riso branco clareando o espaço, a simetria dos dentes, os gestos, a fala e os beijos que dava na gente, como esquecê-los? Eu a olhava com os olhos desejosos do homem que eu seria mais tarde.  Naquele momento, entretanto, eu não passava de um garoto, mas que via em Dalila, não uma mulher simplesmente estonteante, mas um corrimão onde me apoiei no momento da  subida difícil que fiz.

terça-feira, 31 de julho de 2018

EU GAMO E ELA, GAZELA

     
    Duas estudantes caminhavam de mãos dadas pelo estacionamento do Hospital de Marechal Hermes onde casais gostavam de namorar devido a pouca luminosidade que tinha à noite. Eu ouvia música enquanto esperava um amigo que encerrava o plantão a quem dava carona de vez em quando.  E como diziam que o local não era de muita segurança eu o aguardava no carro que tem vidros filmados. Aquilo tirava das garotas a ideia de estarem sendo observadas o que as levou a sentar no capô de um carro novinho e que para meu desespero o carro em questão era o meu. Não demorou e já estavam se beijando e no calor daquele segura daqui e esfrega dali não só elas, como eu e quem mais pudesse estar vendo, explodíamos de tesão. Também pudera, enquanto uma enfiava a mão por debaixo da blusa da outra eu aqui prendia minha entre as pernas para não fazer em mim o que desejava fazer com elas. Cinco minutos depois já estavam deitadas, uma quase encima da outra, pois tinha uma das pernas enfiada no meio das pernas da outra o que nos dava a  certeza de saberem o que estavam fazendo. O insulfilme as impedia de ver como me deixavam. A garota que estava por cima permitia que os seios ficassem à mercê da criatividade da parceira, e, no frenesi do que as possuía, uma enfiou a mão por baixo de saia da outra  enquanto um peito escapulia à voracidade dos lábios gulosos da amiga. O ato estava próximo da conclusão quando um imbecil e o farol desregulado do seu carro acabaram com a festa.  As duas corriam as gargalhadas enquanto eu procurava com o quê secar meu suor.
Depois fiquei me perguntando; quando essa coisa teria começado e que tipo de gente tem  coragem para tanto? Que tipo de papo é usado para convencer a parceira a correr esse risco que, por pouco, não as levou a concluir o que começaram? Sim, porque se não fosse o maldito farol o caso teria tomado proporções maiores, como certamente tomou em outro lugar um pouco mais apropriado.
Tempos depois rodou um filme na minha cabeça. Foi quando João e a mulher, com quem tinha se casado, vieram à festa da cerveja na minha cidade.
-Esta é Neide, a mulher com quem passarei o resto da minha vida - disse-me João, meu amigo, enquanto eu me perguntava de onde conhecia aquela garota?
Neide era uma pessoa muito bonita e que não olhava ou falava com quem não vestisse saia. Dificilmente falava com homem por mais bonito que fosse, enquanto puxava assunto  com as meninas, mesmo sem conhecê-las.  Aí, caiu minha ficha. As garotas no capô do meu carro...

- João, meu amigo. Algo me diz que você escolheu a mulher certa, e pelo que vejo, jamais terá olhos para outro homem além de você.

sexta-feira, 27 de julho de 2018

POBRE CRIANÇA.

   
      Com a sobra das obras que o patrão dava ao meu pai, a gente construiu uma casa de madeira e mais três para alugar. Com iniciativa da minha mãe ele tinha comprado um terreno onde fizemos as obras, pelo qual pagaram intermináveis parcelas. O primeiro aluguel ajudou muito aos meus velhos tirar o nariz de dentro d’água, até porque, sempre tinha um parente com filho dormindo e comendo lá em casa. O primeiro, dos três inquilinos, foi um operador de trator, jovem de 28 anos casado com uma garota de 17, com os quais eu fiz boa amizade. Mas nunca procurei saber onde o sujeito trabalhava, só sabia que voltava para ficar com a mulher nas sextas-feiras de tarde.  Mulher que não tendo o que fazer durante a semana, vivia me atazanando o juízo.  Uma vez até me perguntou se eu sabia como se faz um filho. Eu disse que sabia, mesmo não sabendo nada a respeito.  A única coisa que de fato eu sabia era o que tinha ouvido contar. Uma tarde ela disse que ia me levar ao cinema e quanto esse dia chegou a gente sentou perto um do outro, mas tão junto, que em nossas poltronas cabia, sem sacrifício nenhum, pelo menos mais uma pessoas. Quando as luzes se apagaram ela pegou minha mão e como quem não quer nada a enfiou por debaixo da sua blusa.  Aquele era o primeiro peitinho que eu bulirei antes dos 15 anos. É claro que eu já tinha bolinado em outros, mas eram lisos como os meus, porque em peito de criança não nasce mamilo. Quando voltamos fomos direto para a casa dela. Ela tirou minha camisa e foi ao banheiro enquanto eu me livrava dos sapatos e desafivelava o cinto. Eu não sei o que ela tinha ido fazer lá dentro, mas sei que a pessoa que me pegou seminu naquele lugar era o tratorista, dono da casa e daquela mulher.  Mal tinha entrado me deu um sorriso perguntando por ela ao que eu dei de ombros.  Se perguntasse o meu nome, nem dizê-lo eu saberia, tal era o pavor que eu estava sentindo.  O engraçado é que ele nem fez ideia do que aconteceria se não tivesse chegado naquela maldita quinta-feira.  A mulher que ouvira a voz do marido a tempo de se recompor saiu perguntando. – Por que essa cara tão feia, meu amor? – Perguntou.  Eu fui mandado embora, mulher. Como é que você queria que eu estivesse? – Respondeu quase chorando. 
A droga é que esse cara, tá certo que era o dono da mulher, mas bem que podia ter sido mandado embora no dia seguinte e não naquele para empatar o que eu não tive tempo de começar. 

terça-feira, 24 de julho de 2018

AH, ESSAS CRIANÇAS...


      
       Imaginava entre as pernas lisinhas e bem torneadas não só ter os olhos, 
que eu tinha, mas ter a boca e aquele algo a mais que não sossegava quieto  nas calças enquanto o lençol, cúmplice, escorregava aos pés da cama me induzindo a jogar o jogo que quando jogo me prostra esgotado por meia hora, mas que me dá um prazer tão grande que ninguém jamais explicou. Fortuitos lábios entre outros lábios. Lábios que não eram meus, mas corados, pequenos e rosados, de quem dorme o sono da menina que cresceu e ninguém viu(?). Foi diferente das outras vezes que a via e foram tantas. Mas desta estranho, mas surpreendente. Foi como um sonho daqueles que se acorda suado, molhado, mas com vontade de sonhar mais.  Tipo assim, uma droga injetada, mal administrada ou não se explica o meu estado. Um pesadelo, talvez, mas quem me garante que a causa não fosse mais importância do que o efeito que fez? Não continuassem os espasmos a contorcer-me o corpo, tal qual criança de pé se contorce pra segurar o xixi, e eu garantiria que os múltiplos espasmos – ou seriam orgasmos?, fossem vibrantes assim como os sinos em dia de missa. Sonho ou pesadelo, verdade ou fantasia? Não importa se promessas não são negadas ou quebradas. Se desejos proibidos, pecado capital, incesto de mãe desejosa de filho. Enfim, nada de concreto teria acontecido mesmo que eu tivesse esquecido o que me lembrei de dizer. Aliás eu não disse, pensei. Porque se dissesse, talvez lhe conviesse correr cama afora mostrando aos olhos gulosos do vento, as pernas nuas assim como os seios pontiagudos mirando a cara espantada de quem, sem vergonha, a desejava enquanto dormia.

sexta-feira, 20 de julho de 2018

COISAS DE ANJO.

     
     Antes da curva  acenei a quem me fizera tão bem naquele dia tão angustiante da minha vida. Até beijo eu  joguei, mas não deu sinal de que tivesse visto. Talvez porque a distância fosse curta para quem tinha passos largos e grande de mais para quem tem vista curta.  Aquela foi a primeira e a única vez que nos vimos. Enquanto eu era um pobre carente de um ombro ela era um ente enviado de Deus.  Talvez não fosse um ser comum como a gente, porém bastante especial a ponto de ofuscar minhas vistas com o brilho de sua luz. Quem sabe não seria ela um anjo, um Arcanjo ou um Querubim, quiçá  Serafim?  O nome talvez não fosse assim tão relevante se o bem que fizera não nos surpreendesse - diriam os que comentaram o assunto. Felizmente o sufoco passou sem deixar sequela que se notasse, eu, inclusive, me atrevo a dizer que já estou pronto para outra. Estou pronto uma vírgula, até porque um raio não cai duas vezes no mesmo lugar.  Pensando assim foi que decidi abrir minha correspondência e responder aqueles que me viram às portas de me tornar o bobo do Rei ou o cavaleiro da rainha. Na segunda hipótese eu teria de ter língua grande para lamber-lhe os pés.
Quando voltava da viagem que fiz à pracinha eu contei na estrada empoeirada o número de pegadas que deixara na ida e as comparei com o da volta, aonde concluí que gastei mais sola na ida do que gastei retornando ao ponto de partida. -Era o peso do fardo que carregavas, teria dito Teresa Dias, ou os pecados que confessastes àquela santa, retrucara Smareis que me viu curvado quando parti e empertigado na volta.
Não bastasse o cansaço e o sofrimento ainda tive que responder as pessoas que me mandavam mensagem de carinho.  A primeira foi  um carismático português com quem comentei sobre o assunto.  Quanto a moça bonita que todas as manhãs me deseja bom dia eu falei de flor, de lua e estrelas, de sonhos e de amor, ao passo que ela, meio sem jeito me dissera que corara com aquelas palavras.    E foi assim, entre perguntas e respostas, que vi o comentário de quem se identificava como a pessoa que mais sabia da minha vida embora não dissesse seu nome.  Na hora até pensei que se tratasse de homem, mas diante do que falou eu tive certeza de que era uma doce e bondosa mulher e não fosse a caixa de mensagem e nem no escritório eu teria dado as caras.  Ficaria sem saber da mulher que certamente mudará o ritmo das minhas melodias.   Ai eu me pergunto; será que a velhinha quis dizer alguma coisa que tivesse a ver com ferida mal cicatrizada e eu não notei? Sim, porque se ela me disse alguma coisa através do olhar eu não sei, haja vista que eu só apareci por lá para falar de mim e não para ouvir o que os olhos da velha pudessem dizer.

segunda-feira, 16 de julho de 2018

A PRAÇA.


      

    Andei muito a procura de uma arma com a qual combatesse o sentimento que tomou meus pensamentos e a minha tranquilidade de assalto. A minha esperança era encontrá-la no mercado ou perderia a vontade de sair, de comer e de dormir como vinha acontecendo. Era como aquilo, tipo o que os estudantes, as mocinhas de tenra idade e os loucos e inconsequentes sentiam quando se apaixonavam. Pelo menos era o que eu achava, mas pelo visto não é. Como é que eu, que não me preocupava com essas coisas, a não ser com meus filhos e com aqueles que contam comigo, fui cair nessa? Está na cara que não fiquei esperando a resposta cair no meu colo, por isso saí à caça. Pensei muito enquanto caminhava e foi assim, sem saber aonde estava indo que cheguei tão longe. Antes, enquanto eu caminhava teve um instante em que eu precisei sentar para descansar. Estava exausto. Três horas andando não é para qualquer um, mas não pensem que me sentei à beira do caminho porque o Erasmo já estava lá. Por isso, entre tantos lugares naquela lonjura,  eu tivesse escolhido a pracinha. Meu Deus, como era longe.  Era tão longe que nem mesmo no mapa devia constar. E acreditem, seria mentira se eu confessasse ter planejado aquela viagem, até porque, era cedo quando me levantei, tomei café e saí para dar umas voltas e foi sem perceber que comecei a caminhada. A princípio com passos de tartaruga e na medida em que o corpo esquentava eu ia apertando o passo. Quando vi já estava correndo e foi correndo que ouvia as bobagens que falavam. É claro que correndo não se entende o que dizem, mas sei que o papo que rola entre os que fazem caminhada não tem nada de sério. Continuei correndo até sumir na poeira. Não sozinho, como afirmei, mas acompanhado dos meus bons e maus pensamentos. Dos bons eu só falo se for bem das pessoas, enquanto os pensamentos maus são os que me derrubam da vaidade  que as mulheres que eu tive juram que tenho.  E foi naquela pracinha, longe do mundo e de tudo, que eu pedi licença a uma velhinha para sentar ao seu lado e contar tudo o que não tinha coragem de dizer para o meu analista. Abri todas as portas e todas as janelas do meu coração para essa mulher. O bom foi que ela ouvia sem me interromper.  Aliás, ela, em nenhum instante abriu sua boca, ao passo que eu não fechava a minha. Falei um montão. Falei dos meus medos,  dos meus sonhos e dos pesadelos, como falei do amor que me tomou de assalto e quase foi morto se essa velhinha não tivesse aparecido quando mais precisei. Permaneci ao seu lado por uma boa hora e meia e quando percebi que o mundo que eu carregava havia rolado das minhas costas foi que me levantei, beijei suas mãos, que sem dizer uma palavra, me viu sumir na poeira de volta à casa.

sexta-feira, 13 de julho de 2018

O BOBO DO REI.

       As sandálias rasteiras e o longo disfarçando a silhueta era o que se podia ver da criatura que tal qual a brisa que lambe a cara e me desalinha os cabelos  passa sorrindo para onde o queixo aponta. Pegadas, de pés que alicerçam a obra e mal tive o privilégio de ver, somem com o passar do vento.  Das pernas, que a sombra da seda branca encobre, talvez não soubesse tanto pois certamente me matariam se eu as tivesse visto.  
Tudo o que a mim foi possível ver me excitou, e o que a seda escondia não só conta o que a minha imaginação faz questão de criar como me escala para coadjuvar a história.  Olhos de melaço, cabelos de areia, seios de menina pintada de bronze pelo sol agudo do posto 6, pensamentos de mãe de pós-parto. Ela é assim, e  foi assim, desfilando a incógnita da mulher  perfeita que cruzou meu caminho como se nascida com essa intenção tivesse. Até atrasou a passada como se a intenção de instigar com seus olhos de melaço de cana os demônios dos meus ela quisesse. A guerra da mulher desejável  e o Gigante, que depois que a conheci, já não era tão grande, estava por fim declarada.  Gigante da verdade, de paz e de coerência, ora se prostra aos pés da mulher  que despretensiosa o enfeitiça com  voz segura de quem sabe o que fala, enquanto, curvado aos encantos da feiticeira ele mente, imposta a voz e nega a felicidade que sente.  Era o desespero de quem não podia sucumbir na primeira batalha.  Não tivesse o bobo da corte contado à princesa a mesma piada que contara à rainha e ela, sorrindo, talvez o escolhesse para seu cavalheiro, mas não.  Acabou denunciado pelo rei aos guardas que o jogaram no calabouço úmido da indiferença onde, condenado por plágio da própria obra,  morrerá de amor e de vergonha, com ela no pensamento.

segunda-feira, 9 de julho de 2018

UMA CABINE PRA DOIS.

       Quase um ano eu morei num lugar apertado, mas tão apertado,  
que parecia a cabine telefônica da minha rua.  Só que o sacrifício valia a pena porque tudo o que é necessário à sobrevivência de quem depende de ajuda havia ali ao alcance da mão.  Talvez o lugar não fosse tão apertado assim, até porque cabine telefônica não tem tudo a tempo e a hora como tem a de um Boeing e aquela era  aconchegando e moderna. Por isso a minha gratidão a mulher que me proporcionava essa coisa, inclusive viagens a lugares diversos sem que eu precisasse sair antes da hora, é tão grande.  Devo a ela pelo que fez por minha saúde e pela minha vida.  Esse tipo de relação nos aproximou de tal modo que até seus amigos acabaram se apaixonando por mim e foi graças a esse sentimento que me calei quando vi que foi ela quem procurou o sujeito que a pôs deitada e tocou  os seus seios.  Até entre as pernas eu vi que buliu.  Só não sei se foi por covardia que virei a cara para não ver o que faziam ou foi por achar que ela, como senhora do próprio nariz, sabia bem o que estava fazendo.  Muitas vezes me calei quando chamaram a sua atenção ou lhe falavam coisas com as quais não concordava ao invés de sair em sua defesa.   Outras vezes eu a vi cochichando,  mas poucas fiquei sabendo com quem e sobre o que cochichava.  Na última vez que eu a ouvi cochichar ela acabou chorando quando a pessoa lhe disse que as dores eram normais e que só passariam quando chegasse o momento, mas precisava esperar o sinal o que só dias depois aconteceu.  Na hora me deu uma vontade danada de dar uma voadora em quem provocou suas lágrimas, mesmo eu não sabendo se era qualquer homem, um médico ou uma cozinheira.    
Ultimamente andavam dando força para ela. Enquanto umas desejavam sorte outras falavam coisas que eu não entendia. Uma vez uma velha lhe deu uma bronca tão grande que eu pensei que ela fosse morrer com aquilo.  Era sobre uma ultrassonografia que deveria ter feito naquele dia, mas por medo ela fez que esqueceu.    No Boeing onde morava eu sabia de tudo. Até conheci muitos lugares, só não sei se tão lindos como ela falava.  Mas acho que eram, porque havia  risos e muitas vezes eu escutava coisas lindíssimas a respeito e mesmo que eu não concordasse acabava achando  lindo também.  Durante o tempo que morei lá eu não dei opinião sobre nada.  Talvez por delicadeza ou por não saber como me expressar, mas, será que se eu soubesse eu teria coragem de discordar de alguém?  Acho que não.  Hoje, tantos anos depois eu me vejo numa casa tão grande, mais tão grande que sou capaz de me perder aqui dentro, mesmo assim eu sinto saudades daquela cabine.  Aí eu me pergunto, Será que enquanto eu estava no Boeing, que era a sua barriga, mamãe foi tão feliz quanto eu que vivia ali dentro?

sexta-feira, 6 de julho de 2018

SOZINHO A DOIS

     
      Talvez pela pouca idade não me atrevesse a pedir para sair com ela, mas se eu não me atrevo, como saberei se ela aceita ou não?  Tem vez que me dá uma vontade danada de perguntar se ela me enxerga como homem, que estou prestes a me tornar, ou ainda como o moleque que até pouco tempo corria atrás de pipa.   Enquanto não encontro coragem para buscar tal resposta vou dividindo a cama com as garotas da minha sala e outras que, por se acharem mais interessantes do que verdadeiramente são, nem bola me dão.  Mesmo assim eu as levo comigo.   Ontem, como faço desde que me conheço, eu fui me deitar sozinho.  Sozinho fisicamente, porque os melhores pensamentos jamais me abandonam nesses momentos. E foi assim que eu me deitei naquela noite, sem pecado que eu por ventura tivesse cometido, mas também sem promessas de não cometê-lo em um dado momento. Sem medo porque eu sei que se deitará comigo no instante em que o pano da escuridão cair sobre a terra e eu abrir mão do sono. Então bastará que eu feche meus olhos para que as pesadas portas da fantasia se abram. Portas que dão para o salão aonde todas as noites me deixo levar para dançar. Dois para lá, dois para cá. Um passo para a frente e dois atrás. Depois giro com as pernas trançadas as suas e o corpo ardente em chamas. E nesse vem que eu te quero e nesse vai, mas me leva contigo que eu tento conter a febre que pulsa a minha vaidade entre dedos macios de mãos grandes e fortes.  Não sei se para abrandar minha alma ou para assoprar essa brasa que um doce cheiro de flor adentra com  pés de fada sobre o grosso tapete do quarto e com mãos delicadas me rouba o lençol, desnuda meu corpo e nele se encaixa. Eu o toco, lambo aonde posso, amasso, roço, me enrosco. Acaricio o que pulsa, cresce, queima a minha mão, os dedos e os desejos que incham, delatam. O corpo esfria, prostra-se relaxado como se o dela fosse.  Então o sono me abate, me vira para o canto, puxa o lençol sobre um  corpo que jaz, morto, some no vento como se meu o meu corpo não fosse.

terça-feira, 3 de julho de 2018

TRANÇAPERNA.

 
  Recebi um envelope com uma foto e um convite aonde uma professora desejava reunir os alunos a quem, há 50 anos, dera as primeiras aulas. Na foto onde todos se espremem para não ficar fora a gente vê que o menino Toninho era o dono da cena. Também dá para ver  os colares que Teresa Dias, nem para dormir, se separaPedro Coimbra, o melhor aluno da sala, sempre com a fitinha verde amarela pregada na blusa. Não só o livro de poesia que Gil presenteara à Larissa estava com a professora como também o inseparável caderninho onde Cátiaho escreve seus versos. No alto, à direita, Elvira Carvalho, a menina das saias cumpridas, faz caras e bocas. Graça Pires e Ângela, Maria RodriguesGracinha e Diná Fernandes que para chamar atenção fazem pose de artista, não estão nem aí para a coisa. E essa cara emburrada que faz a Janicce, na janela de sua casa de Madeira? Antônio G, Lúcia Silva, Laerte e Majo Dutra, estão mais comportados. Céu, que vivia mexendo comigo, tenta tirar Toché Lopes do sério. É pena não me lembrar do nome dos outros, a não ser o da menina magrinha de tranças grossas e pernas finas que vivia olhando para baixo como se procurasse por algo perdido.  De tão rasteiro a turma a criticava dizendo que ia criar raiz em seus olhos.  Diziam, mas se enganavam, pois flores era o que eu via quando ela me olhava, e a cada piscada abria-se um novo botão de uma nova esperança.  Essa é Sandra. Uma Sandra de nome importado e tão diferente que muitas vezes me peguei rindo por isso. Talvez nem fosse por causa do nome, mas por causa  das tranças grossas e das pernas... Não tão grossas.
Quando eu chegar a escola espero sentir aquele cheirinho de cinema daqueles tempos e que a minha professora ainda tenha no rosto o sorriso que tanto me encantava, e o olhar, antes tão expressivo, não tenha perdido a luz que ofuscava a vista da gente. Eu sei que o tempo passou e levou a infância da gente.  Só espero não ter mudando a ponto de ter que dizer o meu nome para que saibam com quem estão conversando. Quanto as meninas, acredito que a maioria deve ter se casado enquanto os meninos que fugiam do centro das discussões não exercem a profissão desejada ao passo que eu, vermelho de vergonha,  direi que sou aquilo que afirmei que seria quando crescesse. Na despedida a professora certamente ficará na ponta dos pés e não mais se curvará para beijar minha face como fazia enquanto eu precisarei me conter para não correr ao refeitório aonde eu pedia para repetir como se em casa não tivesse comida.
Com esse filme rodando na cabeça e o envelope apertado no peito seria impossível voltar à realidade se essa brisa gostosa não tivesse lambido a minha cara.

sexta-feira, 29 de junho de 2018

DEMÔNIOS DA MINHA VIDA.

     
     Não fosse a filha da vizinha um pedaço de mal caminho eu a teria mandado pastar. Tudo começou  com as malucas da mãe e da filha amontoando tralhas na frente da minha porta e só para me livrar dessa bagunça foi que resolvi lhes ajudar. Com isso as duas me acharam o máximo e até disseram que sou o melhor vizinho que já tiveram. A droga é que não param de me pedir o que qualquer filho de Deus pode fazer por elas.  Mas preferem encher o saco daquele que trabalha e até para dizer bom dia as duas têm que me chamar. E não estão nem aí para a cara que eu faço. Talvez por entenderem que a cara não é de reprovação,  mas uma forma de contestar a saia curta  que mal cobre um palmo abaixo da cintura da mãe e os shortinhos, assim como a camiseta solta sobre os peitos bicudos da filha que parecem ainda vão furar meus olhos.  Essas imagens deveriam fazer de mim o mais feliz dos mortais, mas como eu me conheço,  faço até cara feia para que não me deixem ver o que a saia curta não esconde, até porque, não estou a fim de pagar aluguel de casa para ninguém, muito menos quero um processo por assédio como o Diabo vem tentando. Agora, aqui para nós. Toda a vez que a campainha toca me dá uma vontade danada de pegar essa criança no meu colo para niná-la até que durma. Infelizmente os 17 aninhos dela não permitem.
– Jesus, afasta de mim esse cálice!  
É para evitar esse tipo de coisas que eu as quero longe dos meus desejos e das  possibilidades que posso criar e como podem ver estou fazendo de tudo para mantê-las bem longe dos meus olhos, mesmo que eu enlouqueça quando não me procuram. Tem vez que até me esqueço que a mãe trabalha e a filha faz faculdade, inclusive nos domingos as bobas vão à missa por conta de um tal de Padre Pátrio de Mello que deixa a mulherada ensandecida quando canta.  Até cantar o infeliz canta.  Enquanto  os maridos fecham os olhos para rezar o perigo ronda.  
Não  teria que me incomodar com tais coisas porque não tenho compromisso  até moro sozinho , mas confesso que temo pela integridade das famílias, do santo que veste cuecas e com a do meu reinado que mal começou e já se vê ameaçado. Tenho deixado a porta destrancada para não me assustar com a campainha, mas a garota, por causa disso acabou por me ver tomando banho. Disse que tinha me chamado e como não respondia ela foi entrando até que chegou onde eu estava. E o pior é que eu estava pensando nela. Enquanto eu me esfregava pensava e talvez por estar me esfregando e pensando a garota ficasse do outro lado do vidro o tempo que ficou. 
Se ela me viu do jeito que eu fico quando tenho aqueles pensamentos, eu não sei.  Mas sei que faz cinco dias que não durmo pensando nela me olhando.
Eu sempre falo aos meus amigos que o bem se curva diante do mal, mas para não ver perdurar a tradição resolvi comprar a questão.  Só não sei se terei como pagá-la.

segunda-feira, 25 de junho de 2018

NA MOSCA.

      Depois de anos longe da pátria e dos amigos eu finalmente percebi no desprezo daqueles que falam mal da nossa terra o quanto ela é grande, vibrante e o por quê de tanta inveja que ela causa. Eu pouco me importei se alguém deixou ou não deixou de assistir o que rolava na tevê quando vazei do bar aos pulos, gritando, rindo e chorando de orgulho por essa terra que há muito tem servido de chacota  para os que não sabem que aqui nós temos quatro colheitas por ano, um clima tropical e gente bonita e hospitaleira que nasceu e mora nesse chão abençoado e que de vez em quando nos veste de amarelo, como agora. Para muitos o motivo da minha grande alegria não era relevante, mas para quem é vaiado pelos países vizinhos, o momento era tudo o que se podia desejar de um país gigante e vibrante como o nosso.  Ninguém entendeu coisa nenhuma, mas eu e o resto dos brasileiros sabemos o quanto nos deixou felizes quando atingiu o centro do alvo depois de várias tentativas. São momentos como estes, que infelizmente só de quatro em quatro anos a gente tem para mostrar o tamanho dessa grandeza. Grandeza do amor que a nossa pátria mãe gentil tem por quem nasceu ou escolheu  este lugar para viver.  É nesses momentos que eu sou o que quiserem que o brasileiro seja, mas, mesmo contra todas as vontades a gente não desiste nunca.  No arremesso seguinte, acertamos a mosca novamente, mas desta vez, antes de sair gritando a beleza do feito eu vi alguém engolindo a alegria que sentia às escondidas.  Como uma mulher casada com um nativo daquela terra cantaria vitória se o marido chora o que a nossa amarelinha lhe impingiu?
Gritar de alegria a moça não gritou, mas pude ver nos seus olhos dela a minha felicidade refletida, e como eu não sabia que além de linda e triste aquela brasileira escondida num canto de bar aonde todo o tipo de gente se reunia era casada, eu perdi o medo e o respeito e saí abraçando os que estavam ali, inclusive ela, a quem beijei na boca. Eu sabia que perdia a razão naquele instante, mas não o suficiente para deixar de perceber o quão macios e gostosos eram os seios dela comprimidos no meu peito na hora do beijo. Não sei se o meu país continuará tão bem como está indo, mas aquele beijo eu tenho certeza, continuará adoçando a minha boca a vida inteira enquanto dela eu me lembrar, assim como o cheiro do seu corpo jovem que levarei comigo para onde quer que eu vá.

quinta-feira, 21 de junho de 2018

DOCE PERIGO.

   
       Talvez fosse a mãe, mas a filha era mais provável que fosse a pessoa responsável pelo furdúncio no apartamento ao lado. Até Doli, a cadelinha, latia fundo nos meus ouvidos, mas como não era sempre que o fato acontecia eu não via como reclamar.  A voz deixava claro que alguém dançando ao som de Anita era possuído pelo espírito da coisa. A cadelinha, coitada, latia, talvez de tristeza, com a maluquice de sua dona. E eu, é claro, dizia adeus a concentração que precisa para concluir o trabalho daquele dia. A maioria das pessoas tiram o domingo para ir à igreja, talvez para pedir a Deus que fatos como esse não ocorram com elas. Mas pela razão de não ser cristão eu jamais entregaria o meu trabalho como tinha prometido. Enquanto isso o som naquela altura parecia endoidecer a mulher.  Aí não deu para segurar...  Fui lá e esmurrei aquela porta. A cantoria acabou, o som abaixou e a cadelinha só o rabo manteve abanando no momento em que abriram a porta e Terê, a filha da dona, apareceu suada como pano de cuscuz e me banhou com aqueles olhos lindos que mais pareciam esmeraldas.  A moça estava sozinha e sozinha conseguia fazer todo aquele barulhão.  Aí sim, eu me dei conta de que, independente da saia curta e da blusinha molhada colada nos seios, eu só vestia a parte de baixo do pijama.  
- Você veio para derrubar minha porta ou quer me falar alguma coisa?  Perguntou com os olhos no cadarço do pijama. Felizmente ela olhava só para o cadarço porque a blusinha molhada desenhando os peitinhos  que cabiam inteiro na minha boca  já estufava  minha roupa na frente. 
 Não, é que eu pensei que vocês precisassem de alguma ajuda, visto que o barulho me deixou bastante preocupado  disse-lhe meio sem jeito, mesmo percebendo que ela não estava normal.  Parecia ter bebido, mas cheiro de álcool eu não senti ali, mas sobre a mesinha de centro alguma coisa que me chamou a atenção, infelizmente naquele momento  Doli tentou escapar pela porta que dona deixara aberta. O que eu impedi.  Doli não conseguiu escapar, mas os seios da moça sim, conseguiram. Os dois. Foi quando ela se abaixou  para tomar o pet no colo. Ai, fui obrigado a ajudá-la a levar o animalzinho para dentro, porque a dona não ia dar conta daquilo sozinha, porque não ia lá muito bem das pernas, mesmo que fossem um senhor par de pernas.  Meu Deus, que pernas!  A moça tentou esconder o açúcar  como disse que era –,  mas eu a impedi. Abracei-a e a levei ao chuveiro.  Eu poderia ter tirado suas roupas já que não estava nem aí para o que eu fizesse ou deixasse de fazer, mas optei por deixá-la embaixo do chuveiro com água a lhe escorrer na cara.  Tranquei o cachorro com ela atrás da porta para depois cuspir meus marimbondos por ter cedido ao cavalheiro a vez do cafajeste que existia em mim.

domingo, 17 de junho de 2018

DE QUE JEITO?

          
            Baiano não era má pessoa como dizia a patuleia. Está certo que o viram  pegar dinheiro de um mendigo, mas ninguém disse que eram moedas com as quais pagou o ônibus de volta à casa e que no chapéu, de onde as tirou, ele deixou uma nota de dez. Também falam que fica puto quando tocam a campainha da casa dele, mas não dizem que só o faz quando querem sacaneá-lo. O que de fato o exaspera a ponto de gritar com quem se atreve.  A turma espraguejou quando a menor de 14 anos, usuária de drogas, foi acolhida na casa dele.  Mas ninguém viu que a avó, de 76, que morava na rua por conta do vício da neta, também foi morar com ele. O mundo é assim mesmo. Malicioso e mal agradecido. Quando alguém faz alguma coisa errada, mil dedos apontam para o seu nariz.       O mesmo acontece com quem vive para a caridade. 
- Não bajulemos os demônios ou  subjugamos o bem. 
Muitas pessoas deixam de ajudar por medo de arder na fogueira do ódio dessa gente. 
Uma vez - disse-me Baiano - foram à sua casa pedir agasalho para moradores de rua. E como tinha dois iguais cedeu o que não era tão bonito o que deu a entender que só o tinha dado por achá-lo feio e não por generosidade. Gente, colcha não é artigo de decoração, mas sim inibidor de frio. Só isso!
Hoje eu soube que Baiano encheu o tanque da Van antes de partir para  Nova Friburgo onde, em 2011, ajudou as vítimas da chuva que por pouco não sucumbiram na lama. Só que desta vez será ele quem vai pedir que venham ao Rio doar sangue, pois a greve dos caminhoneiros deixou a zero aquele estoque.  Esse cara com certeza arcará com todas as despesas trazendo e levando essa gente bondosa de volta à sua cidade. Custo irrisório às vistas de quem pensa fazer o bem, mas será dinheiro jogado fora aos olhos dos pessimistas. Algumas mulheres, certamente, estarão entre eles dando motivos às línguas do mal para criticar quem não cruza os braços quando chamado. 
Já falaram que Baiano não é boa pessoa ou já  o teriam fisgado para marido. Enquanto a gente fala dos outros os outros falam da gente. Enquanto eu faço o mal para muitos, praticando o bem, a maioria não faz nada agravando o caos. De qualquer maneira não vamos perder as esperanças, mesmo que garantam que a felicidade é efêmera como a vida, e não eterna como é a morte.

quarta-feira, 13 de junho de 2018

SORTE NEM TODOS TÊM.

 
    No dia que Mariana achou dinheiro na rua dela eu confesso que chorei. A família fez uma festa por conta de sua sorte, enquanto eu me debulhei em lágrimas por saber que rico não anda aonde o pobre mora para perder dinheiro.  Portanto, só quem precisasse trabalhar o dia inteiro para ganhar algo parecido morava ali. Quem sabe aquele dinheiro não compraria a comida de uma semana inteira ou os remédios de um parente doente? 
 Se eu perdesse 50 reais minha mãe me tirava o couro antes de me matar.  
Isso me lembra a época dos meus nove para dez anos quando encontrei um dinheiro no canto da cozinha lá de casa, mas não peguei. No dia seguinte o dinheiro ainda estava lá, quietinho, do mesmo jeito. No outro dia e no outro também.  Eu achava que só eu sabia dele. Certamente quem o deixou já nem se lembrava do dinheiro. Aí a tentação começou a fazer cócegas, mas o sossego só foi embora no instante em que o diabo, que  me atazanava o dia inteiro,  me induziu a cometer o delito que mudaria o meu jeito de enxergar a vida. Olhei para os lados e como nada me impedia de fazer o que a minha mãe dizia que criança educada não faz, eu o peguei e como quem não quer nada saí porta afora.  Não pensava em gastá-lo, pelo menos naquele momento,  mas para escondê-lo entre o forro e as telhas no único banheiro que nós e o resto dos moradores tínhamos para usar.  Infelizmente a minha felicidade durou pouco. Bastou que eu me apropriasse do bem alheio para mamãe, com uma ripa de madeira  e aos berros, me acordar e as minhas irmãs para que déssemos conta do dinheiro que ela separava, todos os dias, para papai ir trabalhar. –  Por isso o dinheiro parecia o mesmo. E como ninguém confessava, mamãe pegou minha irmã pelo braço para espancá-la, mas antes que a pancadaria começasse eu me entreguei.  Mamãe estava pendurada na minha orelha no momento em que indiquei o lugar onde o tinha escondido.  Nessas horas mamãe batia em todos os filhos para que um não risse do outro e quem teve o azar de ser o primeiro foi minha irmã mais velha de 13 anos, que já tinha corpo e cara de mulher, mas que não passava de uma criança. Doeu-me saber que alguém pagaria por um erro que não cometera. 
Subi na tampa do vaso para ter acesso ao esconderijo da minha desgraça.  Naquele dia minha mãe me bateu tanto, mas tanto, que mal conseguia falar, até que, reunindo o resto de suas forças, chamou pelo irmão a quem deu a incumbência de completar o que tinha começado.  E titio –  que vivia às custas do meu pai – me bateu muito.  Mais do que eu pensei que fosse aguentar. No outro dia mal consegui levantar para ir à escola. Portanto, se alguém quiser perder dinheiro que o faça longe do caramelado dos meus olhos para não umedecê-los. Quanto a educar na base da porrada, depende do educando e de seu educador, até porque, meus pais formaram cidadãos batendo na gente e a gente criou cidadãos iguais a eles, mas com bons exemplos e ótimas conversas.

sábado, 9 de junho de 2018

TEMPOS ANTIGOS.

                                 
    Eu e Otabílio passamos algum tempo da nossa infância na casa um do outro.  Eu, mais na dele, porque seu pai era advogado e o meu assentava tijolos.  O irmão de Otabílio  preferia a companhia das meninas a brincar com a gente, o que envaidecia o pai que achava o caçula o mais esperto dos filhos, porque, brincar com garotas era bem mais interessante do que brincar com meninos – dizia.   Dona Alicia, a mãe, era meio que estranha. Gente boa à beça, mas tinha umas coisas que eu não entendia, como podia me deixar pensar que gostava mais do cachorro do que do marido, pelo menos não dava um passo sem que o Dogue alemão – duas vezes maior que o meu – estivesse ao seu lado. Mas isso não era problema meu e sim do marido dela, porque o importante era brincar naquela casa onde, no fundo, havia uma bela quadra para a gente bater uma bola.  Muitas vezes o pai dos garotos jogava com a gente. Só o caçula é que não.  Preferia as meninas com quem brincava de casinha. Dona Alicia até achava engraçado, mas quando aparecia por lá era por causa do jogo, não pelo filhinho. Mas deixava de se concentrar no jogo quando Rex esfregava o negócio nas pernas dela. O engraçado é que com a gente o bicho não fazia essas coisas, mas bastava D. Alicia sair porta da cozinha afora que ele vinha com aquele troço   maior do que o do meu pai  se esfregar em suas pernas. Aí, ela, meio sem jeito, voltava para casa. Por isso vivia com ele preso lá dentro e como ela mesma dizia,  era para não se constranger, como agora.
Cachorro maluco, aquele. Sempre tentando transar com as pernas da dona, que negava, mas morria de rir com o cio do bicho. Eu era meninote, mas como eu invejava o danado. O pior é que o marido achava lindo o afeto entre os dois, enquanto eu, maldoso, desde sempre, só via sacanagem naquilo tudo.  
Muitas foram as manhãs que eu acordei como se tivesse lambendo o par de pernas daquela mulher. Os vestígios no lençol não me calavam a verdade.
Com o tempo a gente cresceu e cada um seguiu seu destino. Eu escolhi a área que me sustenta.  Otabilio é oficial do exército e o caçula mora com um bando de mulher, só não sei do que vive e muito menos o que faz com elas. O Rex e o pai dos garotos morreram.  D. Alicia agora, um pouco mais madura, tem outro cachorro, o terceiro, mas nenhum é menor do que foram os outros. Quanto a se casar novamente, jamais declinou desejo. Os vizinhos afirmam que os bichos morreram de inanição enquanto o dono, de lutar para mantê-los sadios. Aí eu me pergunto; como de inanição se comida não faltava naquela casa e por que morrer pelos bichos se dinheiro não faltava para cuidar de tudo?

terça-feira, 5 de junho de 2018

COMPULSÃO

      
     João nunca tinha dinheiro disponível para ajudar em casa, mesmo trabalhando e recebendo um bom salário. Seus pais viviam dizendo que o filho precisava se casar ao invés de gastar com prostitutas  como fazia.  Ele corre o risco de pegar uma doença  diziam eles  mas João não lhes dava ouvidos, até porque era um sujeito compulsivo no tocante a sexo, e qualquer mulher com quem se casasse, jamais transaria todos os dias como queria.   Mulher quer casar e ter filhos, mas como, se na hora de transar sempre tem uma desculpa?  Disse franzindo o cenho. A metade da vida João pagou pelo que as mulheres lhe davam e a outra ele se resolveu sozinho.  Infelizmente, com a chegada da crise, a firma o mandou embora. A ele e a outros. Rapidinho o dinheiro acabou e a abstinência judiou de João. Só Andreia, uma das prostitutas com quem mais ficava, permitia que,  de vez em quando, ele desse uma rapidinha, mas só para não desagradar o freguês de tantos anos. Naquela manhã, depois de ter trabalhado a noite inteira, Andreia, cansada, finalmente aceitou que João a acompanhasse até a casa. No caminho, João, depois de algumas palavras bonitas e falar do amor que tinha por ela, terminou por pedi-la em namoro, ao que ela ficou de pensar.  É claro que, se Andreia era de fato a sua prostituta preferida, por que não pedi-la em namoro e receber de graça o que lhe custava os olhos da cara? E foi com esse pensamento que João se tornou seu namorado, depois noivo e por fim, seu marido.  Agora ele tinha a puta dos seus sonhos ali, na sua cama. Mulher que está sempre pronta aos seus desejos por mais estranhos que fossem e quanto a dor de cabeça, jamais falara a respeito. Com ela, João tem, agora, dois filhos lindos, um bom apartamento e o trabalho dela que rende a eles ótimos fins de semana e uma poupança bem melhor do que tinha antes. Pena que de manhã, quando ela chega da batalha, esteja tão cansada que antes do marido gozar ela já está dormindo. Os pais de João, depois de muitos conselhos, enfim, tiveram a felicidade de ver o filho casado, com filhos lindos e uma esposa amorosa e trabalhadeira.

sexta-feira, 1 de junho de 2018

TAL MÃE, TAL FILHA.

     

      Eu tinha cinco anos quando fomos morar numa casinha de fundo num subúrbio carioca.  Na frente moravam, Gilda, seus pais e a filha Adalgisa, da minha idade. Gilda tinha uma amiga com quem ela e a filha dividiam o quarto, dando a menina motivos de ver e ouvir o que rolava entre elas. Muitas vezes Adalgisa me falou da intimidade das duas. Bastava eu fingir que estava dormindo para começarem a pouca vergonha – dizia franzindo o cenho. Segundo Adalgisa, as duas se enfiavam debaixo dos cobertores e faziam coisas que faziam mamãe dar gritinhos, arranhar a cama com as unhas e algumas vezes a ouvi chorando. Baixinho, mas ouvi – contou a menina.  
Foi difícil fazê-la entender que não era pecado abraçar, fazer carinho e beijar as pessoas que a gente gosta e se o fazem às escondidas era para não pensarem que estão fazendo coisa feia – eu disse a quem adorava me contar essas coisas, porque fazia minha calça estufar na parte da frente – ela dizia sorrindo.
 Éramos crianças, mas tinha coisa que já bulia comigo.
Aos sete anos meus pais, finalmente, compraram um terreno onde fizeram um barraco e depois outros para alugar – graças ao patrão do meu pai que levava as sobras da obra para a gente.   Depois que mudamos não vi mais Adalgisa.
Na semana passada, num bar, eu tomava um café enquanto uma jovem olhava para mim e como insistisse, ergui minha  xícara em cumprimento, ao que ela sorriu – talvez me achasse familiar. Antes da segunda golada a mulher me perguntou de onde a gente se conhecia. – Dessa vez foi eu quem sorriu, já que era o homem que usava desse artifício para puxar assunto e não o contrário.
– Muito prazer, Adalgisa.
Essa mulher poderia ter qualquer nome, meu Deus. Menos esse...
Um filme rodou na minha cabeça, e na dela, depois que eu disse o meu.  Adalgisa morava na mesma rua do famoso clube de Swing, da região. – Só não me pergunte se já fui lá, porque não fui. Morro de vontade, mas tenho medo – falou escondendo o rosto com as mãos.   Vamos marcar um dia, a gente vai junto  – disse-lhe, encostando a cara junto aos cabelos dela.
Naquele dia a gente tomou oito chopes e duas caipirinhas o que nos deu coragem para conhecer o tal clube.  Numa sala acarpetada em  vermelho uma morena cavalgava um homem duas vezes maior do que ela. A luz não nos favorecia e os detalhes passavam despercebidos, menos os corpos nus e o que eles faziam.  Um gordinho transava com quem tinha idade para ser sua mãe. Outros casais, que faziam coisas do arco da velha, nos prostraram numa poltrona para olhá-los. A morena, que vimos com o grandão na entrada, chegou perto da gente, deu um sorriso para Adalgisa enquanto abria o zíper da minha calça e colocava a boca.  Seu parceiro a tirou do meio das minhas pernas para fazer em mim o que ela fazia e como me recusei o cara arreganhou as pernas de Adalgisa para lambê-la, mas ela o afastou e saiu me puxando para fora. 
– Desculpe, mas não é a minha praia. Eu não fazia ideia do que pudesse acontecer lá dentro, mas de uma coisa eu gostei e muito – disse Adalgisa sorrindo – foi de ver aquela coisinha miúda que antigamente estufava a calça de um certo moleque. Jesus do céu! Eu jamais imaginaria que, um dia, aquilo tivesse aquele tamanho. Parabéns – disse abraçando e beijando o meu rosto.  
Quando perguntei o porquê de ter tirado a cara do cara de entre suas pernas ela me disse que, se fosse a moça que tentasse...  Adalgisa não deve ter prestado atenção ou teria visto minha calça estofando quando enfiei a mão no bolso.

terça-feira, 29 de maio de 2018

TIA, EU?
(Risos)

      

    Fazia tempo que ia àquela espelunca e não percebera o quanto gentil era o caixa para com os fregueses. Tinha sido de uma delicadeza tão grande com aquele senhor que até achou que fosse seu parente, mas como havia feito o mesmo com u'a moça bonita e depois com uma senhora que tinha idade para ser sua mãe... Ultimamente as pessoas não tem tido tempo para ser gentis com ninguém, mas esse jovem, olha... 
Três dias depois lá estava ele com a mesma cordialidade. Na semana seguinte essa pessoa resolveu passar suas compras por ele só para ver se o tratamento era de acordo com o freguês, até porque, ninguém é cordial o tempo todo.  Mas ele estava enganado. Foi atendido como todo mundo, senão melhor.  Só na hora que recebeu o dinheiro é que, de propósito ou não,  segurou-lhe o dedo, o que o preocupara, de certa maneira. Por que teria feito aquilo se o dinheiro já estava em sua mão e por que ficou me olhando daquele jeito se tenho idade  para ser seu pai? – Resmungou.  Nada ele teria para comprar naquele final de tarde, mas certamente não dormiria se não tirasse aquilo a limpo. Por isso voltou ao mercado, mas, como havia cumprido o horário, já tinha ido embora.  No outro dia, antes de abrir,  ele já estava na porta. Comprou qualquer coisa e seguiu para o caixa que o tratou como sempre e ainda por cima ganhou uma olhada que atravessou sua alma como um punhal.  Talvez se voltasse a segurar-lhe o dedo...  Mas frustou-se. Então resolveu perguntar-lhe se estava tudo bem, ao que respondeu que nada poderia estar melhor com a sua presença. Os dois sorriram.  Ele, entretanto,  só se deu conta que ainda estava com o sorriso nos seus lábios  na porta de casa.  Preocupado decidiu trocar de mercado. Ficou duas semanas sem dar as caras até que achou que podia voltar, mas não deu. Sua mãe, que se recuperava de uma cirurgia, voltara ao hospital e ele queria vê-la. Viajou duas horas e meia e ao sair do carro ouviu chamarem o seu nome. Talvez fosse um parente ou um conhecido que tivesse ido visitar sua mãe, mas não era. Era o caixa que ao vê-lo quis saber o que estava acontecendo.  Os dois foram até a enfermaria de onde voltaram para um café. 
- Estou numa pousada aqui perto.  Amanhã cedo tenho uma entrevista de trabalho e não quero atrasar.  Caso precise de alguma coisa, até de alguém para conversar, por favor, me procure  disse o caixa escrevendo um número num pedaço de papel que ele amassou e jogou no lixo quando se despediram.
– Eu não tenho e nunca tive dúvidas quanto ao que sou, ao que gosto e ao que desejo, e não seria  um cara bonitinho, educado e que, só por me causar arrepios, ia arranjar sarna para mim e não para ele se coçar, mesmo com as unhas grandes como as que eu tenho – soluçou ao lado de sua mãe.

sexta-feira, 25 de maio de 2018

LEMBREI DE VOCÊ.

   
    Pensei que fosse enfartar quando fiquei sabendo que você ia embora, coisa que eu jamais pensei que pudesse acontecer, mas, infelizmente, eu me enganara. Agora eu fico aqui, pensando na gente, nos seus momentos comigo e nos meus com você. Depois me bate um desânimo que nem ir à rua eu penso. Também não penso em comer e muito menos sair para beber ou falar com qualquer pessoa. Quanto a dormir, em qualquer lugar estava bom, até porque, eu estaria por perto quando chegasse a hora.  Assim eu fiz naquela noite, naquela semana e naquele mês, que foi o tempo que durou a minha agonia.  Acredito que a sua também.  Eu reconheço que peco por ouvir as pessoas para não errar nas minhas decisões e ficar na minha foi o que me aconselhavam porque mulher é assim, mesmo, imprevisível - me disseram. E não fossem os palpites que me deram e eu não teria percebido um par de olhos me procurando como criança  procura bala na festa de Halloween.  Eram olhos lindos como lindas são as manhãs. Introspectivos como os de um tibetano e mais fieis que os do chapim-azul. Era belíssima às vistas de todos e fiel àquilo que se propõe e a Deus.  Minha pressão deveria explodir, com você a minha frente. Deveria estourar todas as minhas artérias, sangrar pelos poros e parar o surdo do meu coração.  Mas nada disso aconteceu.  Naquele momento senti-me calmo como a face tranquila e serene de um lago. Minha pressão, que parecia um motor de barco de prova, transformou-se em remos de barco à vela tal a calmaria que você proporcionou com a sua chegada. Acho que você me sorriu quando seus olhos acharam os meus. Seu corpo parecia responder aos movimentos do meu e foi com um gesto de quem parte sem deixar pista de que volta algum dia, que você olhou para o caminho que seus pés resolveram trilhar. Do jeito que você me deixou eu fiquei e acho que estou, mas na casa onde você estava em todos os cantos, já não resta o que me faça lembrar de você. Só a saudade que o tempo tatuou na minha alma restou de você.  Seria maravilhoso se você não tivesse partido. Seria maravilhoso tê-la em casa nos momentos em que eu, reclamando do patrão e xingando os colegas, pudesse me atirar aos seus pés aonde as queixas, minhas dores e tristezas desapareciam sob o seu olhar bondoso. O que sossega um pouco esse meu coração é a certeza de que você não se foi por cansaço da minha presença, mas para atender aquele que a permitiu passar tanto tempo ao meu lado.  Dois anos e meio foi o tempo do nosso convívio. Você comigo. E eu com você.  Os outros jamais deixaram de serem os outros, enquanto a gente... Eu era um bobo, não nego. Mas um bobo apaixonado pelo irreal, enquanto você, uma realidade apaixonada por um bobo que eu, infelizmente, jamais voltarei a ser.