sábado, 3 de dezembro de 2016

SONHO DE MENINA.

    Chorou a noite inteira a morte daquele homem.  Quando menina esse cara era o mocinho dos seus sonhos, seu príncipe encantado na adolescência para mais tarde ser seu macho, seu capacho, razão do seu sorriso.  Ele era um sujeito bronco, mal educado, violento.  Seu jeito abrutalhado espantava qualquer pessoas, mas no fundo as mulheres o tinham como um verdadeiro macho e talvez não existisse uma que não o tivesse desejado em sua cama. Quando passava todos viravam a cabeça para olhá-lo e buscando disfarçar a curiosidade as mulheres faziam cara de nojo ou cochichavam umas com as outras.  Os homens, que também o olhavam, exaltavam as qualidades que achavam negativas nele.  No fundo no fundo, essa gente também o invejava.  Talvez esse cara não soubesse o poder que exercia naquelas redondezas e por não sabê-lo, talvez se comportasse com desleixo como diziam que fazia. Desde os sete anos, Martinha, que vinha sendo criada pelos avós desde a morte da mãe, ouvia falar do gigante que nas madrugadas entrava nas casas e roubava as meninas bonitas do convívio da família, e só as devolvia depois de fazê-las feia. Quando avisavam que tal pessoa passava na frente da casa, Filhinha não corria para se esconder, mas para espreitá-lo e tirar, ela mesma, as suas conclusões. - Não, esse moço não é o que andam dizendo, até pelo contrário, tem dentes bons, queixo quadrado com cova, cabelo preto escorrido até os ombros e um olhar que mais parece uma faca, tal a certeza do corte.  
Os dias corriam  para fugir das noites enquanto Martinha crescia.  Crescia e sonhava e em cada um de dois sonhos, o gigante bonitão estava presente.  Tinha vez que a pegava de dentro do seu quarto e a levava ao seu esconderijo.  Lá o grandão se arrumava todo.  Penteava os cabelos, escovava os dentes e a levava a passear pelos bosques da cidade.  Pegava qualquer fruta que ela apontasse com os olhinhos amendoados e quando acordava sentia na face um quê de vaidade. Todos os rapazes do bairro cortejavam a moça, mas nem esperanças a criatura deixava que dela tivessem, até porque, precisava estar pronta para o seu gigante que bastava se deitar para dormir que ele invadia o seu quarto, a tomava no colo apertada junto ao peito e saíam a lugares que hoje já não importa saber.  O importante é que ao raiar do dia estava novamente em sua cama de onde seu amado a tinha pegado, inclusive bem mais bonita do que diziam que as meninas ficavam.

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

CHEGOU O DIA.

Fazia tempo não via o filho que deixou com a vó numa casa de praia a jogar miolo de pão às gaivotas e se o fez foi por haver descoberto, ainda a tempo, que a vida não é  só criar os filhos  na beira do precipício a espera de que voem se você não se jogar la do alto  planando por sobre as matas e as ribanceiras.  O exemplo precisava ser dado para que no futuro todos, quem sabe em bando, voassem na mesma direção. O tempo passou só esta lembrança não saía de sua cabeça e foi assim que o sujeito arrumou e enfiou no carro tudo aquilo que achava que pudesse precisar, além da mulher que ainda faz a sua cabeça e desceu morro abaixo rumo ao litoral.  A viagem corria tranquila, só as novas casas e as mudanças feitas pelo prefeito no bairro confundiram um pouco a pessoa que há muito deixara de ser criança, e não fosse o GPS que a esposa fez questão de levar com eles e o casal não teria chegado ao destino que traçou.  E assim foram fazendo o que a voz robotizada de uma mulher lhes ordenava; - dobre a esquerda.  A trezentos metros vire a direita.  Siga em frente.  Na terceira quebrada de rua se viram numa favela cercados por um bando de gente mal encarada, mas para a felicidade de todos uma voz fina de criança gritou para quem quisesse ouvir; - Gente, é o meu avô! Esse aí é o meu avô! Meu pai me falou que um dia ele viria visitar a gente e ele veio...  Felizes os três caminharam por entre barracos até uma casa que antes, só ela, chegava tão próxima das marolas daquela praia.

sábado, 26 de novembro de 2016

JOGO PERDIDO.

     Ela tinha certeza que homem daquele tipo seria a metade da sua laranja.  A postura, o porte atlético desse tipo de gente nada mais é que o resumo da ópera somado a virilidade natural naquela idade, e sua vida, talvez, não fizesse sentido se não buscasse por essas lembranças.   Ela dizia que continuava solteira porque nasceu para amar, respeitar e pertencer a um homem apenas e que o tipo descrito acima seria o sujeito oculto de sua oração. A moça também deixou entender que não sonhava se casar com uma pessoa igual a ele, pois bastaria saber que ele existia para que a chama da esperança permanecesse acesa em seu peito, e no entanto, não só esse cara existia como se tornou peça crucial no tabuleiro do seu jogo.  Esse cara que cortava caminho através dos seus sonhos estava ali na sua frente e logo faria parte da sua vida. A princípio ela não sabia que poderia encontrá-lo, mas sabia que se acontecesse jamais seria notada e muito menos saberia dos desejos dela. O destino, safado, sempre nos armando uma esparrela e foi numa das melhores festas que já tinha ido que vivenciou o maior de todos os milagres.  Uma pessoa, que mais tarde ficou sabendo ser amiga de suas amigas, trouxe até a sua presença alguém que tinha mais de príncipe do que de real.  Mal sabia ela que dias depois ele se tornaria um divisor de águas em sua vida.  No momento em que se viram sozinhos imperou a inibição, mas nada como uma taça de vinho para corar a face, soltar a língua, os cabelos e os pensamentos e a vontade de rir por qualquer motivo e por fim as estrelas faiscando nos olhos de cada um.  Tal fato deu a ela a certeza de que Deus existia e que sonhar valia à pena. - Todos os meus sonhos, se é que eu os tinha sonhado, se concretizaram e a prova disso é esse deus adormecido ao meu lado nesta cama - disse a mulher numa linda camisola de seda pura.  Esse homem tem tudo o que a mais exigente das mulheres jamais sonharia, inclusive eu, que me acho espertinha - concluiu.  O tempo passou e com ele o fogo foi se apagando.  Passou a chegar  tarde à casa depois dos chopinhos com os amigos e nos finais de semana tinha sempre o que fazer com seus clientes ou com seus amigos.  Passou a frequentar a casa da mãe com mais assiduidade, coisa que não era do seu costume, e para não ficar pior, arrumou as malas e voltou para o Flat onde morou antes de conhecê-la, deixando para trás a mulher cujo maior pecado foi sonhar com a vida que viveu sem se dar conta que estava acordada.

terça-feira, 22 de novembro de 2016

MELÍCIA NORDESTINA.

      Eu preciso melhorar a minha crença. Eu preciso aumentar a minha fé. Tudo que se faz nesse mundo, quando copiado, tem o privilégio dos acertos, das correções e da melhora. As vezes uma pessoa me diz alguma coisa que dois minutos mais tarde eu falo com o meu jeito, com os meus erros e acertos, com a entonação natural da minha voz mudando, talvez, não o sentido do que a mim foi dito, mas a beleza, a veracidade do fato ou a agudeza do sentido. Como eu disse, eu preciso melhorar a minha fé e acreditar que há dois mil anos uma turma falou, em palestra ou reunião de bar, de esquina ou nas festas, exatamente o que os livros sagrados garantem que teria sido dito. Entretanto um amigo me pediu que avisasse ao seu pai que chegaria mais tarde porque o carro enguiçara próximo ao bar do João e graças aos que bebiam naquele bar, que de pronto se tornaram amigos, não precisaria voltar a pé. No outro dia o amigo passou por mim e não me cumprimentou, até pelo contrário, ofendeu a minha honra e considerou falsa a amizade que eu tinha por ele. Pelo que me contaram o amigo perdeu a confiança do pai e o direito de guiar o carro dele, e tudo por eu "ter dito" que ele chegaria mais tarde por estar num bar com os amigos que bebiam. Pois é. Nem meia hora se passou desde o momento em que o cara me pediu pra avisar seu pai do enguiço do automóvel. No final das contas eu me pergunto; teria Pilatos feito e falado o que afiançam as escrituras ou a história enriqueceu o texto? E César, por que não tomou partido quando a milícia praticou booling com a garotada de vestido e cabelo cumprido? Tibério, que viu o cara ser esculachado, machucado e finalmente crucificado e nada fez, ou se fez, a história omitiu os fatos ou contou a grosso modo? A molecada que vivia em Israel estava ali, a dois quilômetros do palácio do Imperador. Aí eu me lembro de ter perdido um amigo por ter sido mal interpretado, mesmo vivendo num momento em que a Internet facilita tudo, só não multiplica os pães e os peixes e não ressuscita morto.

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

MEU CAJUEIRO...

       Na casa onde eu cresci com minhas irmãs havia um cajueiro.  Um enorme pau de frutas onde eu me escondi algumas vezes na esperança de fugir à vara de goiabeira com a qual mamãe riscava as nossas bundas. Aliás, eu não me lembro de ter chupado um só caju daquele pé. Talvez só estivesse ali para me proteger.  Tinha também a jaqueira que aos meus olhos era uma árvore imensa, mas tão grande que as jacas quando amadureciam caiam fazendo barulho e sujando o quinta da gente.  Os amigos do meu pai escalavam-na para pegá-las antes da queda, mas nem sempre chegavam a tempo.  Muitas vezes mamãe e algumas vizinhas pegavam, num lenços seguro pelas pontas, as que eles arremessavam do alto dos galhos. No fundo do quintal tinha um pé de abacate, mas como o leite não conhecia o endereço do pobre a gente só fez vitaminas com essa fruta adoçada com banana alguns anos depois.  Na amoreira, junto a parede da sala onde eu e as meninas dormíamos e que era o point dos azulões durante as manhãs, um passarinho de porte médio fazia, com aquelas frutinhas, a sua primeira refeição.  E era bicando as amoras enquanto cantava que sua silhueta refletia através dos furos do zinco que cobria a nossa casa, na parede interna de nossa casa e mesmo em posição invertida, sabia-se que era ele que vinha acordar a gente. Eu também não me lembro o sabor das bananas que mamãe cultivava nos fundos de nossa casa, mas lembro que tinha uma touceira com pelo menos uns cinco pés dessa fruta.  Papai dizia que elas estavam ali para decantar o esgoto da casa.  Coisas que o meu pai aprendia na obra onde trabalhava. Na casa do meu avô tinha um espaço tão grande para o plantio de qualquer tipo de planta, mas eu, que poca afinidade com o trabalho, que tinha, plantei um pé de mamão.  Nas férias do ano seguinte lá estava ele. Imponente, carregadinho de pequenos frutos ao sabor do vento. Fiquei tão feliz que mal cabia em mim.  Corri para os braços dos velhos que pareciam estar mais feliz do que eu com a minha alegria.Hoje, já crescido e sabedor da bondade dos avós que eu tive, arrisco dizer que a minha tentativa deve ter dado errada, mas os meus bondosos avós, com certeza, refizeram o plantio até que vingasse, como vingou, aquele majestoso pé de mamão que eu teria plantado. 
- Coisas de criança...

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

NO ESCURINHO...

                              

      Eu queria muito ver o filme de Giuseppe Tornatore; cinema paradiso, mas não iria se não fosse acompanhado de uma pessoa que me passasse a impressão de estarmos apaixonados. Assim foi com quem me cedeu parte da sua vida dividindo comigo o teto onde moramos. Num dia previamente combinado lá fomos nós rumo ao cinema no shopping de nossa cidade. Escolhemos duas poltronas na fileira do meio de onde se podia ver melhor a tela. Enquanto esperava a gente comia pipoca, olhava os casais se aconchegando e o apagar das luzes que parecia demorar mais do que o habitual. A pipoca ainda estalava nos dentes do pessoal a nossas costas quando a tela se iluminou.  Era a propaganda dos patrocinadores e por fim, Josh Groban, como as águas mansas de um lago em noite enluarada, me embalou o corpo e a alma com sua bela e tocante melodia. O ruído característico da máquina desenrolando a fita na cabine do operador era um motivo único a me levar creditar que eu assistia um filme projetado numa tela simplesmente, e não uma graça, ou uma obra do criador. Era o que eu, de verdade, gostaria de acreditar mesmo diante daquela belezura de cenário e o sabor doce e gostosa da trilha que tanto me encantava. Até os mais duros dos machões ali presente tentariam esconder a teimosa lágrima que certamente riscaria as suas faces na escuridão da sala. Acontece que choramos todos ou quase todos ali sentados.  A gente fica desse tamanho, oh! Diante a imagem daquele menino que, apaixonado pelo cinema, transcendia a outra dimensão. Foi apaixonante. Foi divino. Foi um presente com o qual Giuseppe Tornatore e Josh Groban nos presentearam naquele dia.

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

BONS TEMPOS...

     Nas férias do colégio eu ia à casa do meu avô sempre que tivesse alguém para me levar.  O sítio ficava no norte do estado a cerca de 200 quilômetros de onde a gente morava. Minha mãe, no ímpeto de ajudar os seus pais, me embarcava num  trem pela manhã para, no final da tarde, chegar ao meu destino.    E lá ia eu na maria fumaça que além de cuspir fogo pelas ventas, soltava umas fagulhas que até já queimou um casaco que mamãe tanto recomendou que tivesse cuidado com ele. A paisagem era muito bonita.   A floresta ainda verde, a água cascateando nas pedras ladeira abaixo, os passarinhos voando sem rumo como crianças correndo umas atrás das outras e a saudade que não me largava, mesmo tendo o trem há cinco minutos deixado a primeira estação.  Na lavou eu era um desastre, porque a toda hora eu saía atrás das galinhas, subia em árvore para fugir do prego, cachorro do meu tio mais novo, a quem eu não dava sossego e dos porcos que sempre me derrubavam para pegar o inhame cozido que eu levava para eles numa grande bacia de alumínio.  Para não ser discriminado eu me enturmava com os moleques que usavam estilingue na caça aos passarinhos e muitas vezes eu tive tudo para provar que era melhor do que eles, não fossem as vezes que acertei o meu próprio dedo.  Doeu muito, mas nem cara feia eu deixei que me vissem fazer.  Só os diabinhos de lá tinham mira certeira.  Era uma estilingada e o petisco da tarde estava garantido.  Dos 14 anos para cá foi que eu percebi a covardia que era jogar pedra nos indefesos passarinhos.  E só de me lembrar que eu estive perto de fazer aquela maldade eu morro de vergonha de mim.   Minha mãe jamais soube dessa minha façanha ou no lugar da minha orelha, hoje, talvez, só restasse a cicatriz.  Vovó cuidava da horta e todas as manhãs me levava com ela como companhia. Lá minha avó me contava casos, falava de Deus, da vida e da morte enquanto eu, sem entender do que ela estava falando, jogava pedrinhas no pequeno riacho do outro lado da cerca de bambu que protegia as plantas. Hoje, pelo que fiquei sabendo, faz tempo o rio não corre mais.  As plantas acabaram e a cerca foi derrubada pela última enchente que teve por aqueles lados.  Eu gostava de ouvir o que ela falava, mesmo que não entendesse certas coisas, graças a voz gostosa com que minha avó contava suas histórias. Dos dois eu gostava mais das que o meu avô contava.  Aquela voz de barítono roncando no meu ouvido me dava certeza de que eu estava seguro.  E foi embaixo de um pé, não me lembro de que, que eu vi pela primeira vez a lua andando no céu por detrás de um montão de nuvens transparente. Meu avô riu muito quando me ouviu falando aquilo e ele, que mal sabia escrever o nome me afiançou que a lua não andava, mas as nuvens sim, é que fiquei sabendo o quanto inteligente era aquele homem.
Não estou morrendo de saudades dos meus tempos de menino e muito menos do amor com que meus avós me cercavam, mas estou, sim, com saudades dos tempos da simplicidade, como quando o meu avô cortava em pequenos pedaços com o canivete que levava consigo o fumo de rolo e, sentado debaixo daquela árvore que jamais me lembrei do nome, preparava seu cigarro com o mesmo papel de seda que hoje a juventude enrola o seu baseado. Vovô fumava a noite inteira olhando as estrelas enquanto eu, sentado em uma de suas pernas brincava com seu bigode e as vezes com o chapéu que ele, nem sempre, permitia que alguém tocasse. 

sábado, 5 de novembro de 2016

EU VI.

                                                                   
      No maracanã, onde vi o meu time empatar com um time paulista,  também vi uma das partes da torcida brigar sem que houvesse motivo.  Vi beijo de namorados que se diziam apaixonados, ladrão roubando quem achava que só o juiz fosse capaz de fazê-lo em publico e um menino torcendo pelo clube que o pai escolheu para ele.  Vi gritos de gol, de raiva e desespero.  Vi meu filho envolto na bandeira do mais querido e o filho dos outros achando que a do seu clube era muito mais bonita. Vi torcidas colorindo arquibancadas e no verde do gramado aqueles que recebem para nos fazerem mais felizes.  Vi um vendedor de picolé errando o troco, só não atentei se era a seu favor ou contra. Vi os fogos espocarem no gol que tardava, mas saiu, e a torcida em peso se levantar.  A metade vibrava com o gol perfeito enquanto a outra ofendia a mãe do apitador. Na vizinhança ouvi gritos de festa e de tristeza enquanto o Faustão tinha parte do programa reduzido.   Vi alguém, que não tinha sido convidado, entrar minha casa adentro e, do nada,  me dar um abraço e uma parte do seu sorriso como se fossemos velhos conhecidos.  Vi um político religioso ir para a cadeia enquanto o outro, da mesma igreja, tomar posse na prefeitura.  Vi, enfim, tanta beleza e felicidade assim como vi coisas que me entristeceram, como a vida florindo no topo da planta enquanto meu pai, sem tempo, deixava-se ficar em minha tênue lembrança. Enfim eu vi e ouvi coisas que dos surdos e dos cegos, talvez não passassem despercebidas, mas a causa, talvez, tivesse doído mais em mim, do que o efeito que elas produziram.

terça-feira, 1 de novembro de 2016

CARA DO AVÔ.

     Eu não me lembro se na casa dos meus avós havia um relógio que marcasse o tempo de suas vidas ou  se o mediam pelo calor do sol ou coisa que o valha.  Sei, no entanto, que pressa ninguém tinha ali.  Tudo saia a tempo e a hora e nada do que era feito era sem gosto, sem tempero ou amor.  Vovô levantava antes do sol e cedo já estava na roça.  Minha avó alimentava as galinhas cantando uma música que só ela e as penosas entendiam quando era a hora do milho. Os porcos grunhiam pelo inhame que fervilhava no fogão de lenha lá fora enquanto os passarinhos cantavam dentro e fora das gaiolas. Eu só não entendia por que os meus tios os aprisionavam se a maioria cantava tão perto da gente. Essa pergunta eu jamais tive quem me respondesse.  Às dez da manhã o almoço chegava aos trabalhadores no alto do morro onde vovô e a maioria dos onze filhos capinavam os pés de café.  Dizem que meu avô era rigoroso na criação dos seus filhos, mas eu, moleque de cidade que escolhia passar as férias do colégio no sítio com eles, jamais pude acreditar que aquele brutamontes tivesse coragem de fazer a alguém.  Com o tempo os meus tios foram saindo de casa e os velhos, mais tarde, acabaram sozinhos. O primeiro dos filhos era uma menina que muitos anos mais tarde voltou para buscá-los a viver na cidade de onde só tinham ouvido falar.   Minha avó, que antes era a mulher mais linda e bondosa do mundo, estava agora ao meu lado enquanto eu, graças a Deus, pude dar a a ela um pouco da minha alegria e em muitos momentos até a fiz sorrir como antigamente vovô era capaz com as bobagens que contava.  Isso eu guardo com muito orgulho nas minhas lembranças. Principalmente quando se fazia de fada para me encantar com as suas histórias e com as paisagens tão comuns que ela transformava numa grande maravilha.  Eu sei que tenho muito dos meus avós no meu jeito de agir, mas de verdade, eu me pareço mais com minha mãe, não pela sua doçura e generosidade herdadas dos meus avós, mas pelo meu jeito duro de lidar com as coisas, e nem sempre, com certas pessoas  que no fundo, no fundo, é a carapaça com a qual me defendo para dar continuidade a saga dos Klein, de quem faço parte.  
-Agora eu preciso encerrar até porque o sol já se pôs e quando isso acontece é sinal de que as galinhas, em poucos minutos, estarão de volta ao poleiro.

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

O QUE EU ACHO DA POLÍTICA BRASILEIRA?
(Castelo).

  Infelizmente, 2/3 da população brasileira é composta 
de miseráveis, sem instrução e informação. Essa é a faixa de eleitores em que Lula tem o maior índice. Pensam eles que estão votando num "igual", um homem do povo. Mas Lula, há muito tempo, faz parte da elite brasileira que ele diz combater, muito rico, poderoso, cheio de regalias e mordomias. O eleitor do Lula é fanático, não vota com a razão, vota com a paixão, e o raciocínio lógico e objetivo não tem lugar quando entra a paixão. Ele tem carisma, é inegável, e para essa gente que vota nele não importa a quantidade inacreditável de todo tipo de falcatruas e roubalheira que o seu governo patrocina, muitas delas já comprovadas, porque a paixão abafa o raciocínio. Isto os impede de perceber que, ao votarem para a continuação desse estado de coisas, é como se estivessem dizendo: 
" - Podem continuar agindo sem respeito à ética e à moral, mentindo, roubando e repetindo todos esses crimes que nós não ligamos, até damos a maior força. Somos todos solidários". 
De certa forma, são todos cúmplices dos crimes cometidos porque os estão aprovando com seu voto. 
Faltam, principalmente, educação, valores éticos e morais, saber o que significa isso, afinal. Faltam noções mínimas de honestidade. Isso se aprende na escola que, infelizmente, o povo não tem. Será preciso que seja abolida a idéia de que se tem que levar vantagem em tudo, não importando os meios para isso. É preciso, URGENTEMENTE, abolir a crença de que todos levam alguma vantagem quando podem e, se não levam, é porque lhes falta oportunidade. E, se todos levam, então, porque não levar alguma também... 
Esta será a mais terrível herança que o governo (?) Lula deixará: 
- A banalização da corrupção como algo comum, algo que todos fazem e que, portanto, não é tão grave assim....
(Castelo)

terça-feira, 25 de outubro de 2016

LAVO AS MÃOS.

      Esse ano eu pretendia deitar-me com as galinhas e acordar com o galo cantando no meu ouvido, mas não consegui. Pretendia cuidar do que resta de mim, como cuida da horta o aguerrido plantador, mas também não encontrei tempo ou coragem.  Eu pretendia cuidar da pele, dos cabelos, das mãos, das pernas e dos pés, para que a mulher que escolhi com quem passar o resto da minha vida tivesse prazer de olhar para  seu homem.  Infelizmente ela me olha como a menina olha o pipoqueiro na praça. Se é doce ou salgada não importa, o que interessa é que estejam quentinhas. Queria parar com essa bobagem de pensar que homem que é homem não usa creme, não faz sobrancelha e não cuida das unhas. Talvez eu até conseguisse, mas o creme pode sujar as poltronas.  Os pelos das minhas sobrancelhas sairiam à base de sofrimento e as unhas, há muito eu as tenho aparadas rente ao "sabugo", principalmente quando o Mengão joga. Eu queria, pelo menos, ter as mãos bonitas para tocá-la quando chegasse à casa, e com elas fazer um coração no momento da despedida.   Só eu, pelo que tenho observado, não cuido da minha aparência como os amantes se cuidam para as suas mulheres.  Para que servem os banhos que tomo durante o dia se lavo tão somente o que acho que não está limpo?  Ninguém quer saber se o que é feio está perfumado.  O que querem saber, de fato, é que, não só o corpo do homem é limpo como a imagem, com a qual a natureza permite que ele se pinte, também o seja.  Mesmo assim eu me levanto nas manhãs de todos os dias para, antes do primeiro gole de café,  ir ao banheiro, tomar meu banho, escovar os dentes e aparar os cabelos que crescem onde eu acho que não seria necessário. Faço a barba, dou um sorriso para o espelho e saio em busca da beleza, que para minha felicidade, se encontra do outro lado da porta a minha espera.  

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

OBRIGADO AMIGO.
"Clique aqui em baixo".
https://youtu.be/Nm5N4iFLU0g

     
      Eu jamais pude dar a você  uma prova da grandeza da minha amizade  a não ser quando por cinco anos eu fui seu fiador.  Fato que você nunca deixou de mencionar num bate papo entre a gente.  Você, no entanto, quantas vezes se sacrificou deixando a zona de conforto da sua casa para ver esse cara que num gesto de extrema valentia trocou a certeza de vários anos vividos com uma mulher que a ele deu filhos e a própria vida por outra que, até deu certo, mesmo nada conspirando a favor. Talvez o amigo não se lembre, mas nos idos de 2011 quando a chuva castigou quem tinha bens e era feliz, assim como aqueles que não tinham nada além de um canto para dormir, um sujeito corajoso, talvez sofrendo mais do que os que perderam suas casas, seus bens e suas famílias, subiu até o pé da serra onde uma de muitas barreiras bloqueava a estrada e a vida dos que se tornaram estatística a partir dali. Esse cara, impedido de cumprir seu intento, avisou pelo celular que estava ali para me ajudar, para secar uma possível lágrima que por ventura eu chorasse e para me dar a mão naquela hora de sofrimento.    Você, Marcelão, talvez segurando o pranto, queria porque queria me entregar, sem ter como, os mantimentos que trazia consigo assim como me emprestar algum dinheiro, mesmo estando eu amparado pela sorte como garanti a você que estava. Hoje, depois de deixar a mulher que divide comigo o teto dela, voltei ouvindo o rádio do carro.  Nele tocava, por incrível que possa parecer, u’a música que me reportou aqueles dias.  Zeca Pagodinho que havia sofrido na carne o que você, Macelão, sofreu por Nova Friburgo, arregaçara as mangas e fora à luta.  Puxou água de dentro das casas de quem não conhecia,  suspendeu móveis e utensílios para lugares mais altos e mais seguros das casas e deu comida e bebida a quem perdeu sua cozinha, seu fogão e a torneira de água limpa durante alguns dias.  Passada a turbulência o sujeito sentou-se num canto escondido e para não chorar, se é que não chorou quando todos choravam, pegou um pedaço de papel e uma caneta e compôs a oração que eu me arrisco dizer que é nossa, do Zeca, do povo de xerém, do Marcelão e minha, que seco na cara a teimosa lágrima que teima fugir ao meu controle, e o faço na certeza de sua generosa e tamanha amizade.  Que bom ter você por perto, Marcelo, mesmo que distante.  Obrigado, muito obrigado meu amigo.

terça-feira, 18 de outubro de 2016

LUTANDO CONTRA O DESTINO.
silvioafonso

      Talvez Maria não tivesse a intenção de ser a melhor mãe do mundo, até porque, os filhos das mulheres que conhecemos tinham, pelo menos, uma qualidade, enquanto os dela, nada que fizessem, por melhor que fosse, tinha para ela algum valor.  Maria era boa pessoa, boa esposa, cumpria a tempo e a hora com os seus afazeres e achava que agindo assim despertaria nos filhos a ambição de lutar pelo que fosse real.  Como mãe não era diferente de nenhuma outra, mas se um filho ou uma filha precisasse de ajuda para decidir que rumo dar à  sua vida, não devia contar com ela a não ser que fosse para saber como se cuida de uma casa, de um marido e dos filhos, se os tivesse. Aí ela se sentia à vontade para dar os seus pitacos. Um dos filhos dessa senhora, por exemplo, queria estudar para escrever a programação da rádio da cidade, mas para ela ninguém enchia a barriga se alimentando de letras ou ouvindo as baboseiras da emissora.  As meninas, por sua vez, queriam ser engenheira, farmacêutica, advogada ou professora, mas a mãe fazia cara feia e não discutia o caso.  Para ela filha mulher tinha de aprender a cozinhar, lavar e passar, assim como tomar e dar conta do marido e de sua casa no futuro. Com o passar do tempo, tudo mudou, mas só Maria continuava a mesma.  Uma das filhas se casou, como era do desejo de sua mãe, mas não deixou de estudar.   Fez o fundamental, o curso médio e não contente por ter se formado em pedagogia, fez pós-graduação e mestrado na matéria. Hoje dá aulas em duas faculdades da cidade. A outra fez como a primeira.  Casou-se e teve filhos, mas estudou até seu nome constar entre os graduados de medicina. Com as outras duas não foi diferente.  Uma é advogada, procuradora da república, enquanto a mais nova, formada pela Puc em psicologia, tem livros traduzidos para seis idiomas, como era sonho dela.   O rapaz continua fazendo o que sempre desejou, escreve a pauta da rádio local e auxiliar em algumas séries da TV.  Maria está a beira da morte, mas, pelo que consta, não é feliz.   Sabe que depois dos filhos desobedecerem suas ordens, só os terá em casa no mesmo dia e na mesma hora se ela morrer.

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

IRMÃO CAMARADA.

     

     Liguei uma, duas, três vezes em horários diferentes e ele não me atendeu.  A gente tem divergência de pensamentos como todo mundo tem, concordo, mas nem por isso o mais vibrante harpejo pretende mudar no outro a forma de entender o som, mas sim, de se afinarem como instrumento da mesma banda.  Por isso eu liguei tantas vezes, muitas, diversas e ele não se tocou e muito menos retornou a ligação ou este desabafo não seria pertinente.  Antes de tomar tal decisão eu aguardei sentado ao pé do celular na expectativa de poder ouvir aquela voz empostada e a contundência da  sua gargalhada.  
        Com o passar do tempo e com o medo nefando de perder o melhor dos melhores amigos que já conquistei, decidi digitar outra vez os mesmos algarismos daquele telefone, e o fiz uma, duas, diversas e diversas vezes, mas ele, como havia feito em oportunidades anteriores, não quis ou não teve como me atender.   Certamente esqueceu o aparelho no carro e este numa rua distante, mas tão longe da gente que talvez precisasse de anos para chegar até lá onde o celular se encontra e nele conferir o número de vezes que dele eu me lembrei.  Eu não queria perdê-lo, meu amigo, esta jamais foi minha intenção ao dizer aquilo que falei, pois o que de fato eu pretendia era encurtar os elos da corrente que nos mantém ligados um no outro, como irmãos siameses que você, seu safado, querendo ou não querendo, jamais deixará de ser meu...

segunda-feira, 10 de outubro de 2016

BRASILEIRO VOTA MAL? ACHO QUE NÃO.
(Bruno N. Vargas.)


Segundo dados colhidos pela Fundação Getúlio Vargas, os brasileiros confiam mais no judiciário do que no executivo e legislativo. Pois perceba que o poder judiciário é o único desses três no qual o próprio povo não escolhe alguém do próprio povo com a finalidade de o representar no poder. 
Estanho isso, não?
Assim se fala muito em crise de representatividade no país. Não creio em crise nenhuma. 
Também não acho que a lei da Ficha Limpa seja eficaz para melhorar o cenário. Pelas ruas vemos que as posições políticas da maioria é a da maioria no congresso. Mais do que isso, se as pessoas votam em corruptos, não podemos dar uma de herói fascista a fim de impedir elas de votarem nessas pessoas. Lembre-se que uma frase do tipo "rouba mais faz" é suficiente para lhe dar votos. Outros então ganham votos por fazer palhaçada. E tudo isso as pessoas recebem, analisam e votam.
(Bruno N. Vargas)

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

CONSEQUÊNCIA DE VOTAR MAL.
(Paulo Ribeiro de Souza)


  Vemos – com grande tristeza – que a maioria de nós, brasileiros, ainda não aprendeu
 a votar conscientemente. A impressão que temos é de que as maciças campanhas para elucidação de nada adiantam e que o brasileiro parece não dar a mínima atenção à esse ato de civismo que, contraditoriamente, é a única forma de mudar a situação de ostracismo que parece ter caído sobre a nossa nação, historicamente refém da corrupção que corrói de forma contumaz o pouco do orgulho que nos resta, após seguidos tombos em nossa trajetória política. Depois de décadas de sofrimento e sendo sufocados pela ditadura militar, aprendemos a escolher os nossos representantes para o legislativo e executivo para, logo em seguida, numa ação histórica, tiramos do poder o primeiro presidente eleito pelo voto popular (depois de lutarmos tanto para termos esse “direito”), o qual esfregou na cara de todos os brasileiros o quão idiotas fomos. Mas numa controversa invertida, após algum tempo, demostrando não termos a mínima memória cívica, o elegemos novamente para o senado federal, esquecendo de tudo o quanto ele nos fez e como se o passado tivesse ficado para trás e nada mais importasse, afinal, como diz um ditado que parece mais vivo que nunca: “Nada é tão ruim que não possa ser piorado”. Não contente com isso, ainda elegemos, tempos depois, um congresso tão apodrecido que, ao ser deflagrada a maior rede de corrupção já vista na história deste pais, vimos – com muita tristeza – que o que fez o ex-presidente expulso pelos “caras pintadas”, o faz parecer um “singelo ladrão de galinhas” perto do esquema de corrupção mais absurdo já montado desde a fundação desta nação, o que nos faz acreditar que – ainda que seja a maior rede de bandidagem que já tomamos conhecimento – existam ainda, infelizmente, coisas muito piores escondidas sob o tapete da nossa história política. Não à toa, vemos hoje, a corte máxima do país julgando (para a vergonha brasileira) os atos de corrupção escancarada num país que parece ter se transformado numa eterna “zorra”. E quando pensamos que isso é inerente a este ou aquele partido político, ficamos chocados ao saber que não existe um só partido político de conduta ilibada nesse Brasil (o que pode ser visto, por exemplo, no livro “A PRIVATARIA TUCANA”, do autor Amaury Ribeiro Jr). Após tudo isso, o que nos resta? A única coisa que ainda podemos fazer é aprender a VOTAR DIREITO, afinal de contas, somos responsáveis por toda essa corja que aí está e se perpetua no poder como hienas que não largam o osso nunca. Portanto, como não me canso de dizer jamais, precisamos aprender a votar direito, porque cada povo tem o governo que merece! Logo, antes de trocarmos o voto por um par de chinelos, por uma cesta básica, por uma dentadura ou pelo que for, que pensemos um pouco mais sobre as consequências de um voto mal dado: Quatro anos de lamúria sem fim (e sem direito a arrependimento). Até porque a punição a políticos corruptos ocorre como a passagem do Cometa Halley: Muito, mas muito raramente, quase que um evento folclórico! Portanto, antes de elegermos um palhaço ou um ladrão para nos governar, é bom pensarmos bem, pois os palhaços deste “circo” somos nós mesmos, que votamos mal e rimos depois… Mas da nossa própria desgraça.
(Paulo Ribeiro de Souza).

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

DOIS PESOS
(Antonio Tabet)

          Dois amigos - até sabe-se lá Deus quando - argumentavam:
- Foi golpe.
- Não foi golpe.
- Foi golpe.
- Não foi golpe.
- Foi golpe.
- Não foi golpe.
- Foi.
- Não foi.
- Foi o que então?
- Impeachment.
- Armado pela oposição.
- Que até outro dia era situação.
- Ainda é situação.
- Então não foi oposição.
- Que situação!
- Que vocês elegeram.
- "Vocês" uma ova! Eu votei na Dilma.
- E no Temer.
- Eu votei na Dilma.
- E no Temer.
- Mas votei nela pra presidenta.
- Presidente.
- Presidenta.
- Presidente.
- Presidenta.
- Presidente.
- Presidenta Dilma.
- Vice-presidente Temer.
- Vice não é presidente.
- Agora é. Presidento.
- Tirar a Dilma é fácil.  Quero ver continuar com a Lava-jato.
- Continuaram.
- Continuar com a Lava-jato é mole.  Quero ver o manter o Bolsa-Família.
- Mantiveram.
- Manter o Bolsa-Família é tranquilo.  Quero ver nomear mulher para cargo com status de ministério.
- Nomearam.
- Nomear mulher para cargo com status de ministério é obrigação.  Quero ver acusar o Lula.
- Acusaram.
- Acusar o Lula é previsível. Quero ver acusar o Lula sem dizer que não tem provas mas tem convicção.
- Mas não disseram!
- E não disseram que iriam cassar o cunha também?
- Cassaram o Cunha também.
- Mas a Dilma foi eleita democraticamente.
- O Cunha também.
- Mas a Dilma não inventou a corrupção.
- O Cunha também.
- Mas a Dilma foi julgada por um plenário corrupto e sem moral.
- O Cunha também.
- Mas tirar a Dilma não vai acabar com a corrupção.
- O Cunha também.
- Mas nele foi justo.
- Ele diz que foi golpe.
- Mas não foi golpe.
- Ele diz que foi golpe.
- Mas não foi golpe.
- Foi golpe.
- Não foi.
- Foi.
- Não foi.
- Foi.
- Não foi.
- Não foi o quê?
- Não foi golpe.
- Pronto.  Concordamos.
- Golpe baixo.
- O do Cunha também.

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

PONTO DE VISTA.

      Os sinais de pontuação estavam quietos dentro do livro de Português quando estourou a discussão. 
- Esta história já começou com um erro - disse a Vírgula. 
- Ora, por quê? - perguntou o Ponto de Interrogação. 
- Deveriam me colocar antes da palavra "quando" - respondeu a Vírgula. 
- Concordo! - disse o Ponto de Exclamação. - O certo seria: "Os sinais de pontuação estavam quietos dentro do livro de Português, quando estourou a discussão". 
- Viram como eu sou importante? - disse a Vírgula. 
- E eu também - comentou o Travessão. - Eu logo apareci para o leitor saber que você estava falando. 
- E nós? - protestaram as Aspas. - Somos tão importantes quanto vocês. Tanto que, para chamar a atenção, já nos puseram duas vezes neste diálogo. 
- O mesmo digo eu - comentou o Dois Pontos. - Apareço sempre antes das Aspas e do Travessão. 
- Estamos todos a serviço da boa escrita! - disse o Ponto de Exclamação. - Nossa missão é dar clareza aos textos. Se não nos colocarem corretamente, vira uma confusão 
como agora! 
- Às vezes podemos alterar todo o sentido de uma frase - disseram as Reticências. - Ou dar margem para outras interpretações... 
- É verdade - disse o Ponto. - Uma pontuação errada muda tudo. 
- Se eu aparecer depois da frase "a guerra começou" - disse o Ponto de Interrogação - é apenas uma pergunta, certo? 
- Mas se eu aparecer no seu lugar - disse o Ponto de Exclamação - é uma certeza: "A guerra começou!" 
- Olha nós aí de novo - disseram as Aspas. 
- Pois eu estou presente desde o comecinho - disse o Travessão. 
- Tem hora em que, para evitar conflitos, não basta um Ponto, nem uma Vírgula, é preciso os dois - disse o Ponto e Vírgula. - E aí entro eu. 
- O melhor mesmo é nos chamarem para trazer paz - disse a Vírgula. 
- Então, que nos usem direito! - disse o Ponto Final. E pôs fim à discussão.
(Conto de João Anzanello Carrascoza)

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

MOINHO DE SONHOS

    A mulher e o menino iam montados no cavalo; o homem ia ao lado, a pé. Andavam sem rumo havia semanas, até que deram numa aldeia à beira de um rio, onde as oliveiras vicejavam.
Fizeram uma pausa e, como a gente ali era hospitaleira e a oferta de serviço abundante, resolveram ficar. O homem arranjou emprego num moinho próximo à aldeia. A mulher se juntou a outras que colhiam azeitonas em terras ao redor de um castelo. Levou consigo o menino que, no meio do caminho, achou um velho cabo de vassoura e fez dele o seu cavalo. Deu-lhe o nome de Rocinante.
Ao chegar aos olivais, o pequeno encontrou o filho de outra colhedeira - um garoto que se exibia com um escudo e uma espada de pau.
Os dois se observaram à distância. Cada um se manteve junto à sua mãe, sem saber como se libertar dela. Vigiavam-se. Era preciso coragem para se acercar. Mas meninos são assim: se há abismos, inventam pontes.
De súbito, estavam frente a frente. Puseram-se a conversar, embora um e outro continuassem na sua. Logo esse já sabia o nome daquele: o menino recém-chegado se chamava Alonso; o outro, Sancho.
Começaram a se misturar:
- Deixa eu brincar com seu cavalo?, pediu Sancho.
- Só se você me emprestar sua espada, respondeu Alonso.
Iam se entendendo, apesar de assustados com a felicidade da nova companhia.
Avançaram na entrega:
- Tá vendo aquele moinho gigante?, apontou Alonso. Meu pai sozinho é que faz ele girar.
- Seu pai deve ter braços enormes, disse Sancho.
- Tem! Mas nem precisava, respondeu Alonso. Ele move o moinho com um sopro.
Sancho achou graça. Também tinha uma proeza a contar:
- Tá vendo o castelo ali?, apontou. Meu pai disse que o dono tem tanta terra que o céu não dá para cobrir ela toda.
- E se a gente esticasse o céu como uma lona e cobrisse o que está faltando?, propôs Alonso.
- Seria legal, disse Sancho. Mas ia dar um trabalhão.
- Temos de crescer primeiro.
- Bom, enquanto a gente cresce, vamos pensar num jeito de subir até o céu! - disse Alonso.
- Vamos!, concordou Sancho.
Sentaram-se na relva. O cavalo, a espada e o escudo entre os dois. Um sopro de vento passou por eles.
Já eram amigos: moviam juntos o mesmo sonho.

(João Anzanello Carrascoza
Autor deste conto, é publicitário, 
professor da Universidade de São
Paulo (USP) e autor de livros infantis,
 entre eles, Aprendiz de Inventor (Ed. Ática)

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

APRENDIZAGEM


- Mãe, cabelo demora quanto tempo pra crescer?
- Hã?
- Se eu cortar meu cabelo hoje, quando é que ele vai crescer de novo?
- Cabelo está sempre crescendo, Beatriz. É que nem unha.
A comparação deixa a menina meio confusa. Ela não está preocupada com unhas.
- Todo dia, mãe?
- É, só que a gente não repara.
- Por quê?
- Porque as pessoas têm mais o que fazer, não acha?
A menina não sabe se essa é uma pergunta do tipo que precisa ser respondida ou é daquelas que a gente ouve e pronto. Prefere não responder.
- Você é muito ocupada, não é, mãe?
- Hã?
- Nada, não.
A mãe termina de passar a roupa e vai guardando tudo no armário.
Enquanto isso, Beatriz corre até o quartinho de costura, pega a fita métrica e mede novamente o cabelo da boneca. Ela tinha cortado aquele cabelo com todo o cuidado do mundo, pra ficar parecido com o da mãe, mas a verdade é que ficou meio torto.
"Nada, não cresceu nada", ela conclui, guardando a fita. E já tem uma semana!
Depois volta para onde está a mãe, que agora lustra os móveis.
- Mãe, existe alguma doença que faz o cabelo da gente não crescer?
- Mas de novo essa conversa de cabelo! Não tem outra coisa pra pensar não, criatura?
Sobre essa pergunta não há dúvida: é do tipo que você não deve responder.
A mãe continua trabalhando. Precisa se apressar. Dali a pouco a patroa chega da rua e o almoço nem está pronto ainda.
- Mãe!
- O que foi?
- É que eu estava aqui pensando.
- Pensando o quê?
Beatriz não responde. Espera um pouco, tentando achar as palavras certas.
- Vai, fala logo.
- Quando a gente faz uma coisa, sabe, e não dá mais para voltar atrás, entendeu?
- Não, não entendi.
Ela abaixa a cabeça, dá um tempinho e resolve arriscar:
- Então, se você não entendeu, posso continuar perguntando sobre cabelo?
- Ai, meu Deus!
Beatriz deixa a mãe trabalhando e vai procurar de novo sua boneca.
Pega a boneca no colo e diz no ouvido dela:
- Não liga, não. Cabelo de boneca é assim mesmo, cresce devagar, viu?
E com um carinho:
- Foi minha mãe que me ensinou.
Flávio Carneiro, autor deste conto,
 é roteirista, ensaísta e professor de
 Literatura. Tem 11 livros publicados,
 dentre eles, A Distância das Coisas
 (Editora SM), vencedor do III Prêmio
 Barco a Vapor.

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

UM PROBLEMA DIFÍCIL.

    Era um problema dos grandes. A turminha reuniu-se para discuti-lo e Xexéu voltou para casa preocupado. Por mais que pensasse, não atinava com uma solução. Afinal, o que poderia ele fazer para resolver aquilo? Era apenas um menino!
Xexéu decidiu falar com o pai e explicar direitinho o que estava acontecendo. O pai ouviu calado, muito sério, compreendendo a gravidade da questão. Depois que o garoto saiu da sala, o pai pensou um longo tempo. Era mesmo preciso enfrentar o problema. Não estava em suas mãos, porém, resolver um caso tão difícil. 
Procurou o guarda do quarteirão, um sujeito muito amigo que já era conhecido de todos e costumava sempre dar uma paradinha para aceitar um cafezinho oferecido por algum dos moradores. 
O guarda ouviu com a maior das atenções. Correu depois para a delegacia e expôs ao delegado tudo o que estava acontecendo. 
O delegado balançou a cabeça, concordando. Sim, alguma coisa precisava ser feita, e logo! Na mesma hora, o delegado passou a mão no telefone e ligou para um vereador, que costumava sensibilizar-se com os problemas da comunidade. 
Do outro lado da linha, o vereador ouviu sem interromper um só instante. Foi para a prefeitura e pediu uma audiência ao prefeito. Contou tudo, tintim por tintim. O prefeito ouviu todos os tintins e foi procurar um deputado estadual do mesmo partido para contar o que havia. 
O deputado estadual não era desses políticos que só se lembram dos problemas da comunidade na hora de pedir votos. Ligou para um deputado federal, pedindo uma providência urgente. O deputado federal ligou para o governador do estado, que interrompeu uma conferência para ouvi-lo. 
O problema era mesmo grave, e o governador voou até Brasília para pedir uma audiência ao ministro. 
O ministro ouviu tudinho e, como já tinha reunião marcada com o presidente, aproveitou e relatou-lhe o problema. 
O presidente compreendeu a gravidade da situação e convocou uma reunião ministerial. O assunto foi debatido e, depois de ouvir todos os argumentos, o presidente baixou um decreto para resolver a questão de uma vez por todas. 
Aliviado, o ministro procurou o governador e contou-lhe a solução. O governador então ligou para o deputado federal, que ficou muito satisfeito. Falou com o deputado estadual, que, na mesma hora, contou tudo para o prefeito. O prefeito mandou chamar o vereador e mostrou-lhe que a solução já tinha sido encontrada. 
O vereador foi até a delegacia e disse a providência ao delegado. O delegado, contente com aquilo, chamou o guarda e expôs a solução do problema. O guarda, na mesma hora, voltou para a casa do pai do Xexéu e, depois de aceitar um café, relatou-lhe satisfeito que o problema estava resolvido. 
O pai do Xexéu ficou alegríssimo e chamou o filho. 
Depois de ouvir tudo, o menino arregalou os olhos: 
- Aquele problema? Ora, papai, a gente já resolveu há muito tempo!
(Pedro Bandeira, autor deste conto, é escritor.
 Ganhou o Prêmio Jabuti na categoria Melhor 
Livro Infantil em 1986 com O Fantástico Mistério 
de Feiurinha - Ed. FTD).

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

BRUXAS NÃO EXISTEM

      Quando eu era garoto, acreditava em bruxas, mulheres malvadas que passavam o tempo todo maquinando coisas perversas. Os meus amigos também acreditavam nisso. A prova para nós era uma mulher muito velha, uma solteirona que morava numa casinha caindo aos pedaços no fim de nossa rua. Seu nome era Ana Custódio, mas nós só a chamávamos de "bruxa". 
Era muito feia, ela; gorda, enorme, os cabelos pareciam palha, o nariz era comprido, ela tinha uma enorme verruga no queixo. E estava sempre falando sozinha. Nunca tínhamos entrado na casa, mas tínhamos a certeza de que, se fizéssemos isso, nós a encontraríamos preparando venenos num grande caldeirão. 
Nossa diversão predileta era incomodá-la. Volta e meia invadíamos o pequeno pátio para dali roubar frutas e quando, por acaso, a velha saía à rua para fazer compras no pequeno armazém ali perto, corríamos atrás dela gritando "bruxa, bruxa!". 
Um dia encontramos, no meio da rua, um bode morto. A quem pertencera esse animal nós não sabíamos, mas logo descobrimos o que fazer com ele: jogá-lo na casa da bruxa. O que seria fácil. Ao contrário do que sempre acontecia, naquela manhã, e talvez por esquecimento, ela deixara aberta a janela da frente. Sob comando do João Pedro, que era o nosso líder, levantamos o bicho, que era grande e pesava bastante, e com muito esforço nós o levamos até a janela. Tentamos empurrá-lo para dentro, mas aí os chifres ficaram presos na cortina. 
- Vamos logo - gritava o João Pedro -, antes que a bruxa apareça. E ela apareceu. No momento exato em que, finalmente, conseguíamos introduzir o bode pela janela, a porta se abriu e ali estava ela, a bruxa, empunhando um cabo de vassoura. Rindo, saímos correndo. Eu, gordinho, era o último. 
E então aconteceu. De repente, enfiei o pé num buraco e caí. De imediato senti uma dor terrível na perna e não tive dúvida: estava quebrada. Gemendo, tentei me levantar, mas não consegui. E a bruxa, caminhando com dificuldade, mas com o cabo de vassoura na mão, aproximava-se. Àquela altura a turma estava longe, ninguém poderia me ajudar. E a mulher sem dúvida descarregaria em mim sua fúria. 
Em um momento, ela estava junto a mim, transtornada de raiva. Mas aí viu a minha perna, e instantaneamente mudou. Agachou-se junto a mim e começou a examiná-la com uma habilidade surpreendente. 
- Está quebrada - disse por fim. - Mas podemos dar um jeito. Não se preocupe, sei fazer isso. Fui enfermeira muitos anos, trabalhei em hospital. Confie em mim. 
Dividiu o cabo de vassoura em três pedaços e com eles, e com seu cinto de pano, improvisou uma tala, imobilizando-me a perna. A dor diminuiu muito e, amparado nela, fui até minha casa. "Chame uma ambulância", disse a mulher à minha mãe. Sorriu. 
Tudo ficou bem. Levaram-me para o hospital, o médico engessou minha perna e em poucas semanas eu estava recuperado. Desde então, deixei de acreditar em bruxas. E tornei-me grande amigo de uma senhora que morava em minha rua, uma senhora muito boa que se chamava Ana Custódio.
(Moacyr Scliar, autor desta crônica, é escritor e tem
 mais de 70 livros publicados. Ganhou o Prêmio Jabuti
 quatro vezes e é membro da Academia Brasileira de
 Letras).

domingo, 11 de setembro de 2016

O REI CANUTO À BEIRA-MAR.

       Há muito tempo, a Inglaterra era governada por um rei chamado Canuto. Como costuma acontecer com muitos líderes e homens de poder, Canuto estava sempre cercado de pessoas a enaltecê-lo. Bastava entrar num aposento qualquer e já começavam os elogios.
— Vossa Excelência é o homem mais glorioso que já surgiu na face da terra — dizia um.
— Jamais haverá alguém tão poderoso quanto Vossa Majestade — reforçava outro.
— Nada há que Vossa Alteza não seja capaz de fazer — comentava entre sorrisos um terceiro.
— Grande Canuto, monarca de todos! Nada neste mundo ousa desobedecer a vossas ordens — alguém mais dizia em seu louvor.
O rei era uma pessoa bastante sensata e estava a ficar cansado de todas aquelas tolices.
Um dia, caminhava pela beira-mar, e os seus reais dignitários e fidalgos acompanhavam-no, tecendo-lhe elogios como de costume. Canuto decidiu ensinar-lhes uma lição.
— Pois então, dizeis que sou o maior do mundo? — perguntou a todos os presentes.
— Ó rei — responderam — nunca houve alguém tão poderoso, nem jamais existirá quem tenha tanto valor!
— E dizeis também que tudo me obedece?
— Perfeitamente! O mundo curva-se diante de vós e honra-vos.
— Entendo — disse o rei. — Então, trazei a minha liteira, e vamos para a água.
— Imediatamente, Alteza! — E desceram todos, carregando o assento real pelas areias da praia.
— Vamos mais para perto — ordenou Canuto. — Colocai a liteira aqui mesmo, na beira da água. O rei então sentou-se e ficou a observar o oceano à sua frente. — Vejo que a maré está subir. Deter-se-á, se eu assim ordenar?
Os conselheiros ficaram perplexos, mas não ousaram dizer que não. — Ordenai, ó Grande Rei, e o oceano obedecer-vos-á — garantiu-lhe um deles.
— Pois bem! Oceano — gritou Canuto — ordeno que te detenhas. Maré, interrompe o teu fluxo. Ondas, deixai de rebentar na praia. Não ouseis tocar-me.
Esperou em silêncio alguns instantes, até que uma pequena onda veio espraiar-se aos seus pés.
— Como ousas! — gritou Canuto. — Oceano, afasta-te já. Ordenei que te recolhas diante de mim, e deves obedecer-me. Afasta-te.
E a resposta foi outra onda que veio rebentar ali, bem junto dos pés do rei. A maré subia, tal como sempre fizera. A água aproximava-se cada vez mais. Atingiu a liteira, e molhou não somente os pés do rei, mas também o seu manto. Os conselheiros estavam todos ao seu redor, alarmados, e desejosos de saber se ele não se irritaria.
— Ora, meus amigos — disse Canuto — parece que não tenho tanto poder quanto me fazeis acreditar. Talvez tenhais aprendido algo no dia de hoje. Talvez agora fiqueis a saber que só há um Rei todo-poderoso, que governa o mar e detém o oceano na palma da mão. Sugiro que guardeis as vossas expressões de louvor para Ele.
Os conselheiros e dignitários do rei baixaram a cabeça e sentiram-se ridículos. E dizem por aí que, pouco depois, Canuto tirou da cabeça a coroa e jamais voltou a usá-la.
William J. Bennett
O Livro das Virtudes
Editora Nova Fronteira, 1995
adaptação

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

UMA VIAGEM NO VERDE.

   Acordei com a palavra água
a dançar-me na boca. Tive sede, muita sede,
e fui beber. O dia, lá fora, estava azul
e tinha o tamanho de um rio
ou de uma cidade fantástica, e sorria.

O sorriso do dia é igual ao do sol.
É largo e branco. Tem dentro
os frutos doces da calma das manhãs,
e se for Verão são capazes de matar
a fome e a sede que têm os bichos,
que têm os homens, que têm as casas.

Visita-me agora um pássaro e diz-me: estou
doente do fumo e da pressa do voo.
Quero um ramo alto para fazer poiso
e só encontro telhados, antenas de televisão,
cidades com tosse, nuvens tristes, aviões
carrancudos nas estradas do céu.

É um pássaro bonito de asas largas
e penas cor de arco-íris. Gostava de ser
um pássaro assim, eu que também
não gosto do fumo nem da pressa do voo.
Fica poisado no meu dedo a falar-me
do mapa das coisas que tem na cabeça,
a cantar-me as cantigas de vento
que traz na ponta do bico, a dizer
que o Inverno é um sopro gelado
que magoa o sol e os ossos das casas
e enregela a casca das árvores
e as escamas brilhantes no dorso dos peixes.

Para mim o Inverno é não estar ninguém
em casa quando a gente volta
das terras quentes da beira do mar
com a boca a saber a morangos silvestres.

O pássaro sabe os segredos da sombra
das estátuas quietas nos jardins
mas não os conta a ninguém. Leva-os
guardados na bagagem do voo
e diz-me adeus lá de cima, empurrando
uma nuvem de fumo com a ponta da asa,
riscando o silêncio da noite
com a música que aprendeu a voar.

Como se chama? Que nome é que tem?
Vejo-o partir e nem lhe pergunto.
Há-de voltar quando for tempo, há-de voltar
na estação das ondas mansas trazendo notícias
dos bandos que cantam por cima do mar.

Depois de água, digo pedra
e na pedra vejo os nomes antigos
de reis e princesas, de magos e bruxas,
de cavaleiros andantes que andam cansados
das guerras já feitas, das por fazer,
das que moram nos livros da história,
das que deixam sinais na lembrança.

Andam tristes os bichos da terra
por verem crescer cidades sem sol
sobre as pedras esquecidas,
perdidas no tempo com tudo por contar.
«Vamos salvar o que resta das pedras!» —
dizem os bichos da terra, sentados
em círculo à volta do fogo, e eu oiço-os
falar e oiço-os sonhar e dou-lhes razão,
razão que sobra para os ajudar.

Depois da água e da pedra, digo fogo
e fico a tremer, não de frio, mas de medo,
com medo de ver a floresta ardida, a casa
queimada, o cereal em cinza, o pão
por fazer. Oiço sirenes, gritos na noite
e volto a tremer com medo do fogo, da chama
que chama mais fogo, mais fogo. Chega a água
e apaga o lume. Saltam da toca os bichos da terra
e fazem uma roda contentes, por verem
a seiva a correr, a floresta de novo
a cantar com árvores velhas, sábias e firmes
dançando belas canções de embalar.

Cai uma lágrima do rosto da lua
e é branca e limpa como um floco de neve.
Que dor a faz chorar? «Anda inquieto,
triste, zangado, e quem sofre é a paz!»
Na rima que faz, razão não lhe falta.

Entretém-se o poeta com esta lua redonda,
cansada de noites e noites no centro do céu
a servir de candeia contra a escuridão.
Que se guerreiem não gosta, faz-lhe doer
o seu rosto de lua, o círculo branco
das coisas que sente, das coisas que sabe.

Está lá em cima poisada há tanto, tanto
tempo que já se esqueceu da idade que tem,
dos nomes que teve nos livros antigos
dos povos que deram a forma do arado,
ao fogo, ao ferro e à roda. É mãe das marés
e gémea dos ventos, companheira das águas,
vizinha de sombras e dos vulcões. Anda agora
aflita por ver ferros em lugar de abraços.
E chora como só as luas sabem chorar:
lágrimas brancas como pérolas que chegam
à terra e se tornam crateras fundas
para guardarmos os sonhos melhores.
Apago a luz logo que a noite vem e fico a olhá-la,
triste por não poder tocar-lhe.

No rio que passa perto de mim
queixa-se, azul, um peixe pequeno. Diz:
é o óleo que mata cardumes, cavalos marinhos,
que suja os corais, as algas, as praias.
Falas iguais têm outros peixes, pequenos e grandes,
Azuis ou vermelhos. Sofrem a mesma dor:
uma dor de água turva, que faz arder
os olhos e deixa nas guelras
um gosto amargo que sabe a doença.
Tens razão, pequeno peixe azul
da profundeza do mar.

Vejo um barco à vela que leva crianças
brincando na proa e molhos de sonhos
tapados com panos de linho no meio do convés.
Sabe histórias do rio e do mar
e só tem pena do tempo que passou,
sentido por não poder navegar. Segue
a rota do peixe debaixo da onda,
e quando divide a espuma em metades iguais
parece um deus antigo, vindo de um continente
perdido no oceano das lendas.
Quero ir neste barco, mas não posso.
Só posso sonhar que vou. As viagens que faço
são sempre assim: sonhadas, sonhadas,
como se nunca mais acabassem,
como se nunca chegassem a começar.

Já disse água, azul, fogo e pedra.
Depois disse seiva, pássaro e lua.
Estas palavras são o meu alimento
e a minha memória. É com elas que vivo,
que moro e que brinco. O que sou é isto:
um duende-poeta, um gnomo-cantor
que sabe o tudo e o nada da vida das coisas
e se afunda nelas até perceber
o que são, o que querem, o que sofrem.

As palavras que digo dão corpo
às coisas que penso, e o que penso é
uma vontade grande de não ver morrer
a planta, o rio, a ave, a memória branca
que há dentro das pedras.

Tenho tão pouco, quase nada para dar:
só esta maneira de fazer poesia a falar.

Gosto dos bichos, das sementes, das pedras
raras que há nos abrigos da noite. Que mal
é que tem? Sou um duende-poeta, e as lembranças
que tenho não são de ontem, são de amanhã,
do tempo que as estrelas me dizem
que ainda está para chegar, que as aves
me contam que não pode tardar. E se às vezes
rimo a falar é por saber a música salgada
das ondas bravas do mar.

Não me podem apanhar, que eu sou tudo
aquilo que vejo e que amo: a floresta,
a duna, o rio, a maré, a seara de luz,
o galope do vento num areal feito de prata.

Sou irmão do homem quando o homem
é irmão daquilo que eu amo. Se não for,
nem tempo perco a estender-lhe a mão.

Como sou um duende-poeta, acordo
com sede de sol, de água e de espuma
e uma flor azul a bater imensa no coração.

(José Jorge Letria
Uma Viagem no Verde
Lisboa, Vega, 1989
Texto Adaptado)

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

TERNURA.

      Era uma vez um violino. Tinha música azul. Tocava-o um músico de cabelo muito negro e longo e mãos longas e brancas. Pegava no arco e todo o azul se desenrolava no ar. Quando a música era mais triste, o azul ia ficando roxo e depois vermelho cor de sangue. Se a música era mais alegre, o azul ficava claro, verde, às vezes até amarelo.
Dirão os meus amigos: isto é uma história. Não é. Ou será história, talvez, mas uma história verdadeira.
O músico tinha um cão. Que se chamava Jagunço. Era preto e branco o Jagunço. Um rafeiro. O seu olhar meigo, como um luar castanho, todo ternura.
Um dia, o dono, o nosso músico – que se chamava Joaquim – sentou-se junto de uma janela de sua casa. Uma janela aberta. Era Outono, as folhas das árvores estavam castanhas, quase douradas, como o olhar do Jagunço.
E Joaquim sentou-se com o seu violino. E começou a tocar. Triste. Azul, roxo, vermelho. Vermelho igual à rosa da Primavera? Não. Um vermelho triste de uma ferida na nossa mão.
Jagunço olhou o dono. Olhar triste o do cão. Castanho-dourado das folhas de Outono. Perguntando sem ladrar, sem palavras da sua fala de cão:
— O que te apoquenta? Eu estou aqui e sou teu amigo.
Os sons continuavam. Azuis, roxos, vermelhos.
Joaquim estava triste. E Jagunço também. E o violino tocava, tocava, tanto azul, tanto roxo, tanto vermelho…
Parou de repente de tocar. Jagunço deitou a cabeça nos joelhos do dono.
Perguntando sem ladrar, sem palavras da sua fala de cão:
— O que te apoquenta? Eu estou aqui e sou teu amigo.
O dono passou-lhe a mão branca e longa pela cabeça. Com ternura. Igual à do olhar do cão.
Lá fora, nos ramos de folhas douradas, cantou um pássaro. Sons de todas as cores.
O Sol acabava de se pôr no horizonte.
Vermelho. Igual a uma rosa vermelha. A uma flor de sangue numa mão ferida.
Joaquim levantou a sua mão sobre a cabeça do Jagunço. A mão que levara ternura trazia ternura. Todo o dourado do olhar.
E, como por encanto, uma rosa vermelha, autêntica rosa de Primavera, ficou-lhe na mão. Fugiu para o arco do violino. E o arco foi uma ramada de folhas verdes. Que o vento da música ia agitar.
E Joaquim começou a tocar. Azul, verde, amarelo.
Jagunço olhava-o admirado. Talvez os cães sorriam. Talvez. O seu olhar dourado tinha ouro-claro de alegria. Era um olhar de rei, mas de rei bom. De rei que entende os rafeiros. Os homens. Todos os Joaquins que sabem dizer se estão tristes ou alegres. E dizê-lo aos outros homens.
E Joaquim tocou, tocou, até anoitecer.
Um dia, em papel branco de pautas de cinco linhas, escreveu toda aquela música que tinha tocado defronte da janela. Em clave de fá e de sol. De Sol!
Jagunço não sabia ler mas sabia escutar.
Joaquim pôs um nome a essa música – Ternura.
E Jagunço tudo entendeu com os seus olhos bons.
Matilde Rosa Araújo
O Chão e a Estrela
Lisboa, Editorial Verbo, 2000

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

A MENINA E O PÁSSARO ENCANTADO.

    Esta é uma história sobre a separação: quando duas pessoas que se amam têm de dizer adeus…
Depois do adeus, fica aquele vazio imenso: a saudade.
Tudo se enche com a presença de uma ausência.
Ah! Como seria bom se não houvesse despedidas…
Alguns chegam a pensar em trancar em gaiolas aqueles a quem amam. Para que sejam deles, para sempre… Para que não haja mais partidas…
Poucos sabem, entretanto, que é a saudade que torna encantadas as pessoas. A saudade faz crescer o desejo. E quando o desejo cresce, preparam-se os abraços.
Esta história, eu não a inventei.
Fiquei triste, vendo a tristeza de uma criança que chorava uma despedida… E a história simplesmente apareceu dentro de mim, quase pronta.
Para quê uma história? Quem não compreende pensa que é para divertir. Mas não é isso.
É que elas têm o poder de transfigurar o quotidiano.
Elas chamam as angústias pelos seus nomes e dizem o medo em canções. Com isto, angústias e medos ficam mais mansos.
Claro que são para crianças.
Especialmente aquelas que moram dentro de nós, e têm medo da solidão…
Era uma vez uma menina que tinha um pássaro como seu melhor amigo.
Ele era um pássaro diferente de todos os demais: era encantado.
Os pássaros comuns, se a porta da gaiola ficar aberta, vão-se embora para nunca mais voltar. Mas o pássaro da menina voava livre, e vinha quando sentia saudades… As suas penas também eram diferentes. Mudavam de cor. Eram sempre pintadas pelas cores dos lugares estranhos e longínquos por onde voava. Certa vez voltou totalmente branco, cauda enorme de plumas fofas como o algodão…
— Menina, eu venho das montanhas frias e cobertas de neve, tudo maravilhosamente branco e puro, brilhando sob a luz da lua, nada se ouvindo a não ser o barulho do vento que faz estalar o gelo que cobre os galhos das árvores. Trouxe, nas minhas penas, um pouco do encanto que vi, como presente para ti…
E, assim, ele começava a cantar as canções e as histórias daquele mundo que a menina nunca vira. Até que ela adormecia, e sonhava que voava nas asas do pássaro.
Outra vez voltou vermelho como o fogo, penacho dourado na cabeça.
— Venho de uma terra queimada pela seca, terra quente e sem água, onde os grandes, os pequenos e os bichos sofrem a tristeza do sol que não se apaga. As minhas penas ficaram como aquele sol, e eu trago as canções tristes daqueles que gostariam de ouvir o barulho das cachoeiras e ver a beleza dos campos verdes.
E de novo começavam as histórias. A menina amava aquele pássaro e podia ouvi-lo sem parar, dia após dia. E o pássaro amava a menina, e por isto voltava sempre.
Mas chegava a hora da tristeza.
— Tenho de ir — ele dizia.
— Por favor, não vás. Fico tão triste. Terei saudades. E vou chorar… — E a menina fazia beicinho…
— Eu também terei saudades — dizia o pássaro. — Eu também vou chorar. Mas vou contar-te um segredo: as plantas precisam da água, nós precisamos do ar, os peixes precisam dos rios… E o meu encanto precisa da saudade. É aquela tristeza, na espera de regresso, que faz com que as minhas penas fiquem bonitas. Se eu não for não haverá saudade. Eu deixarei de ser um pássaro encantado. E tu deixarás de me amar.
Assim, ele partiu. A menina, sozinha, chorava à noite de tristeza, imaginando se o pássaro voltaria. E foi numa dessas noites que ela teve uma ideia malvada: “Se eu o prender numa gaiola, ele nunca mais partirá. Será meu para sempre. Não mais terei saudades. E ficarei feliz…”
Com estes pensamentos, comprou uma linda gaiola, de prata, própria para um pássaro que se ama muito. E ficou à espera. Ele chegou finalmente, maravilhoso nas suas novas cores, com histórias diferentes para contar. Cansado da viagem, adormeceu. Foi então que a menina, cuidadosamente, para que ele não acordasse, o prendeu na gaiola, para que ele nunca mais a abandonasse. E adormeceu feliz.
Acordou de madrugada, com um gemido do pássaro…
— Ah! menina… O que é que fizeste? Quebrou-se o encanto. As minhas penas ficarão feias e eu esquecer-me-ei das histórias… Sem a saudade, o amor irá embora…
A menina não acreditou. Pensou que ele acabaria por se acostumar. Mas não foi isto que aconteceu. O tempo ia passando, e o pássaro ficando diferente. Caíram as plumas e o penacho. Os vermelhos, os verdes e os azuis das penas transformaram-se num cinzento triste. E veio o silêncio: deixou de cantar.
Também a menina se entristeceu. Não, aquele não era o pássaro que ela amava. E de noite ela chorava, pensando naquilo que havia feito ao seu amigo…
Até que não aguentou mais.
Abriu a porta da gaiola.
— Podes ir, pássaro. Volta quando quiseres…
— Obrigado, menina. Tenho de partir. E preciso de partir para que a saudade chegue e eu tenha vontade de voltar. Longe, na saudade, muitas coisas boas começam a crescer dentro de nós. Sempre que ficares com saudade eu ficarei mais bonito. Sempre que eu ficar com saudade, tu ficarás mais bonita. E te enfeitarás, para me esperar…
E partiu. Voou que voou, para lugares distantes. A menina contava os dias, e a cada dia que passava a saudade crescia.
— Que bom — pensava ela — o meu pássaro está a ficar encantado de novo…
E ela ia ao guarda-roupa, escolher os vestidos, e penteava os cabelos e colocava uma flor na jarra.
— Nunca se sabe. Pode ser que ele volte hoje…
Sem que ela se apercebesse, o mundo inteiro foi ficando encantado, como o pássaro. Porque ele deveria estar a voar de qualquer lado e de qualquer lado haveria de voltar. Ah!
Mundo maravilhoso, que guarda em algum lugar secreto o pássaro encantado que se ama…
E foi assim que ela, cada noite ia para a cama, triste de saudade, mas feliz com o pensamento: “Quem sabe se ele voltará amanhã….”
E assim dormia e sonhava com a alegria do reencontro.
(Rubem Alves)

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

VIAGEM AO PAÍS DA INFÂNCIA.

        O dia amanhecia perfumado de café e pão torrado. A bata era branca e as tranças longas. A escola, do outro lado da vila. No largo da escola cresciam as azedas, os pequenos malmequeres.
Era bom molhar os pés no orvalho matinal, correr entre os bancos vermelhos, respirar o cheiro da urze que ardia nos fornos e nas lareiras.
A escola era enorme. Ou não era? Que medida para a memória?
As carteiras tinham espaço para a fraterna comunhão dos lápis, das ardósias, das caixas de fósforos onde se guardavam os pequenos mistérios: joaninhas encarnadas, uma formiga com asas, uma borboleta adormecida.
Nas paredes havia mapas, mapas velhos, amarelados, que era preciso e fácil saber de cor.
Viajava-se nesses mapas das linhas-férreas, dos rios e das serras, em frágeis comboios, em barcos maravilhosos, de norte a sul. Parava-se em pequenos apeadeiros onde nunca ninguém fora, atravessavam-se os mares e ia-se com os Reis às cinco partes do mundo.
A minha professora era alta e forte. Ou eu era muito pequena? Vestia luto carregado pelo marido, pelo filho, pela vida. Chamava-se Maria Rosa Lopes e tinha dois canários e um canteiro de morangos junto à casa. Não a consigo dissociar destes elementos, talvez porque fossem os únicos pássaros engaiolados da vila e os únicos morangos que eu vi, até muito tarde.
Às vezes, deixava-nos nos barcos dessas viagens ao fim da terra e ia a casa, que era mesmo ao lado, num breve instante, adiantar o almoço dos filhos ou buscar brasas para uma bacia de cobre com que aquecia a sala, no Inverno.
Junto com os parágrafos, as conjunções, as dinastias, havia poemas, o cheiro da cebola refogada e, às vezes, um morango vermelho que era prémio.
Penso agora, ao ver tantos estudantes angustiados, tantos professores preocupados com os insucessos escolares, tantas greves, tanto desencontro nesse espaço que devia ser a grande festa da aprendizagem e do ensino, como seria bom existir ainda esta ligação telúrica casa-escola-terra-ervas-poemas-mapas-cães-gente que guardo em mim numa linha de continuidade terna e ininterrupta. Sem meatos entre a Família-raiz e a Escola, que deve ser a continuação de um espaço em que a criança se desenvolve, ilhada de serenidade e sabedoria. Porque tenho a certeza de que foi lá, na minha escola primeira, que bebi e mastiguei com olhos imensos para a vida tudo o que até hoje me foi válido. Vêm ainda aqueles dias em que se revolviam os canteiros frente à entrada, com pequenos sachos, para depois se assistir ao milagre dos goivos e dos lírios; das rosas e das malvas-amor, na Primavera.
E, mesmo sem os modernos clubes, pela Páscoa fazíamos o teatro, as saias bordadas e compridas, a alegria do primeiro bâton, os olhos amigos que nos vigiavam expectantes, à espera do engano, da falha. E também havia a exaltação da Pátria, a discreta iniciação à resistência de tudo o que representasse tirania e opressão. Festejava- se o 1° de Dezembro com tanto sentido de amor à liberdade que ainda hoje estremeço quando recordo a Banda e os discursos, os poemas, os foguetes que acordavam a madrugada como um sinal.
No centro de tudo isto: perfumes, bichos, terra, flores, canções, mapas, morangos, canários, aquela mulher era uma catedral negra, tranquila, protectora, ímpar: Inesquecível.
Na minha escola descobri a força e a magia das estações do ano e aprendi que é feia a denúncia e boa a Amizade. E a minha infância foi assim, pelas mãos dessa professora tão poderosa e discreta, um receptáculo magnífico de vivências, de aprendizagens do que é essencial e perpétuo para se caminhar na vida.
E apetece-me deixar aqui um desafio: quem quer experimentar na sua escola esta cabala de ternura e simplicidade; esta vontade de chegar ao fim acreditando?
Quem quer trabalhar, assim, para ficar para sempre no coração comovido de quem vos recordar? Que professor, hoje, não terá medo de uma qualquer viagem que os seus alunos um dia fizerem ao país da infância?
Maria Rosa Colaço
Não quero ser grande
Lisboa, Editorial Escritor, 1996

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

O PÃO DOS OUTROS...

      Remi está a conversar com a avó.
Gosta de a ouvir falar dos seus tempos de menina.
— Na minha aldeia, na Provença, pelo Ano Novo, no primeiro dia de Janeiro, toda a gente oferecia uma prenda a toda a gente. Vê lá se és capaz de adivinhar o que seria.
Remi lança palpites:
— Comprar prendas para a aldeia inteira… É preciso ter muito dinheiro. Quer dizer que as pessoas eram ricas?
A avó riu-se:
— Oh, não! Naquele tempo, tinha-se muito pouco dinheiro e ninguém na aldeia comprava prendas. Nem sequer havia lojas como há hoje.
— Então faziam as prendas?
— Não propriamente!
— Então como é que faziam?
— Era muito simples. Ora ouve…
Antigamente, cada família fazia o seu pão. Não havia água corrente nas casas. Então íamos buscá-la à fonte, no largo da aldeia.
E, no dia um de Janeiro, de manhã muito cedo, a primeira pessoa que saía de casa, colocava um pão fresco no bordo da fonte, enquanto enchia a bilha de água. Quem chegava a seguir pegava no pão e punha outro no mesmo lugar para a pessoa seguinte, e assim por diante…
Desta forma, em todas as casas, se comia um pão fresco oferecido por outra pessoa. Nem sempre se sabia por quem, mas garanto-te que o pão nos parecia muito bom porque era como se fosse um presente de amizade.
As pessoas que estavam zangadas pensavam que talvez estivessem a comer o pão do seu inimigo e isso era uma espécie de reconciliação…
Durante alguns dias, esta história andou a martelar na cabeça de Remi.
Uma manhã, teve uma ideia.
Meteu no bolso uma fatia de pão de lavrador. É o pão que se come na casa de Remi.
E na escola, um pouco antes do recreio, Remi pousou o pão bem à vista, em cima da carteira de Filipe, o seu vizinho.
Filipe está sempre com fome e repete sem cessar a Remi:
— Oh! Que fome, que fome eu tenho! Bem comia agora qualquer coisa!
Quando Filipe viu a fatia de pão, que rica surpresa! Sabia muito bem quem lha tinha dado, mas fingiu que não sabia.
No recreio, todo contente, comeu o pão sem dizer nada a Remi, mas…
No dia seguinte, sabem o que é que Remi encontrou em cima da carteira, mesmo antes do recreio? … Um pedaço de cacete!
Um grande pedaço bem estaladiço! Um verdadeiro regalo!
Filipe ria-se.
E assim continuaram a dar um ao outro presentes de pão.
Na aula, a Carlota e a Sílvia estão sentadas logo atrás de Filipe e de Remi. Rapidamente souberam da história do pão e quiseram também participar nas surpresas.
No dia seguinte, Sílvia levou uma fatia de cacetinho e Carlota uma fatia de pão centeio.
Outras crianças quiseram participar nas prendas de pão.
Apareceu pão grosseiro, pão de noz, pão de sêmea, pão sem côdea, pão caseiro, pão fino, pão russo, negro e um pouco ácido, que Vladimir levou, pedaços de pão árabe, que a mãe de Ahmed cozera no forno, e ainda muitos outros tipos de pão.
Desta forma, quase toda a turma se pôs a trocar pedaços de pão durante o recreio.
A professora apercebeu-se das trocas e perguntou:
— Mas o que é que vocês estão aí a fazer?
Carlota e Remi contaram-lhe toda a história do pão dos outros.
E, logo após o recreio, o que é que estava em cima da secretária da professora? …um pedaço de pão!
Toda a classe tinha os olhos postos na professora. Ela sorriu e comeu o pão.
E, no domingo seguinte, quando Remi viu a avó, era ele que tinha uma história para lhe contar:
— Sabes, avó? Olha, na minha turma…
Michèle Lochak
Le pain des autres
Paris, Ed. Flammarion, 1980

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

A HISTÓRIA DA MENINA A QUEM CHAMAVAM “A SENHORINHA”

Contos portugueses

    Era uma vez uma menina que tinha crescido demasiado depressa, demasiado rapidamente. Não apenas no corpo, nas pernas, nos braços, mas em tudo o resto. Com oito anos, pedia-se-lhe que fosse prestável, atenta, razoável.
Que não se queixasse, que não se encolerizasse, que não fosse caprichosa, que não fizesse exigências.
Que fosse “uma senhorinha”, pois!
Não pensem que os seus pais eram uns carrascos. Oh não! Eles apenas lhe pediam:
— Dá-nos este prazer. Não te pedimos nada a não ser que sejas gentil, que sejas obediente… não é difícil!
Como esta menina nunca tinha ousado pedir fosse o que fosse, nunca se tinha sentido desapontada. Não sabia se era feliz ou não. Não tinha desejos próprios. Não esperava nada. Eram os outros que esperavam coisas dela. E o seu único prazer… era dar prazer… aos outros!
Pelo menos, assim o imaginava ela. No entanto, qualquer coisa deveria tê-la alertado, porque os outros não demonstravam lá muito a satisfação que tinham por ela ser “como deveria ser”. Para eles, era óbvio. Para ser franco, devo dizer que, por vezes, à noite, antes de adormecer, quando ela chupava o polegar, com o lençol debaixo do nariz, os olhos abertos no escuro, um sentimento de injustiça roçava nela como uma asa negra. Oh… mas apenas roçava!
Ela também imaginava que havia um país onde as meninas podiam ser pequenas durante muito, muito tempo. Um país onde os pais escutavam os desejos das crianças, mesmo se nem sempre os realizavam. Um país onde as crianças podiam brincar a ser grandes, mas apenas brincar… a ser grandes! Em algumas noites, ela imaginava que partia para esse país, com um grande saco, e que o enchia de sonhos, de jogos, de risos e também de soluços.
É que, vocês já adivinharam, esta menina não chorava nunca… porque devia portar-se como uma “senhorinha”.
A continuação da história é surpreendente. Será necessário que esta menina espere pelos seus quarenta anos. Ouviram bem, quarenta anos, para ousar tornar-se pequena, para ousar ter desejos impossíveis, para ousar chorar e rir, para ousar dançar.
Nessa altura, ela já tinha filhos e, um dia, a sua própria filha perguntou:
— É verdade, mamã, que tu nunca pudeste ser pequena quando eras criança?
— É verdade, eu vivi como se nunca tivesse tido nem tempo, nem possibilidade de ser pequena. Sim, muito cedo me tornei grande. E só hoje compreendo. Tudo se passou como se os meus próprios pais não tivessem tido tempo para crescer quando eram crianças, e eu devesse ser grande por eles…Acontece, por vezes, às ex-meninas terem de esperar muito, muito tempo, para ousarem, enfim, ser pequenas…