quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

ESTADO DE GREVE..

    Faz tempo que me rebaixo para uma mulher que se nega acreditar que eu existo.  Tá certo que é um pedaço de mulher, certamente a melhor da cidade, mas nada justifica o desprezo com que me trata. Será que ela não sabe que é pecado desprezar quem nos ama? É uma pena porque estou cheio de boas intenções, tipo, levá-la para um sorvete, um refrigerante ou pegar um cinema talvez. Na volta pode ser que pinte um lugar onde possamos falar com mais calma, dançar coladinho e até tomar banho morno na hidro se ela quiser. Quantos momentos agradáveis teríamos se me olhasse do jeito que a vejo.
Na semana passada, com a paralisação dos ônibus, muitos trabalhadores ficaram pela rua sem ter como voltar para casa,  mas eu que tenho carro não sofri nada com isso, quer dizer, não sofri até ser parado por uma maluca pulando na frente do carro. A doida entrou como se fosse a dona do carro e eu o seu motorista.  Não sorriu e muito menos falou sobre itinerário. Simplesmente sentou-se na posição de lótus e abriu falatório. Primeiro contra o prefeito e depois difamando o  patrão. Não buzinassem atrás da gente e lá estaríamos.  Sem graça eu ouvia a mulher por quem passei noites em claro, e ela desabafando à um palmo de mim.  Como não me pediu pra entrar e muito menos perguntou pra onde eu ia, resolvi tocar para onde apontava o nariz. Ou seja, um lugar bonito de luzes coloridas e uma garota de botas cumpridas e saia curta sorrindo pra gente. Ela mesma  fechou a garagem enquanto a minha carona, sem se dar conta do lugar em  que estava,  continuava falando. 
– Ei, psiu!... Ei!, vamos conversar no ar condicionado porque aqui fora está quente. – falei cutucando seu ombro. Gente, a mulher só se deu conta de estar num motel quando a interrompi...
– Por que viemos pra cá?, você não ia me levar para casa? – falou como quem acorda do coma.
 – Não, não vou te levar antes de um banho, ver um filme e descansar pelo menos um pouquinho. Depois eu te levo.  A mulher entrou, bateu a porta e se trancou no banheiro. Como demorava pra sair e fui até la e carinhosamente falei junto à porta: – Não precisa correr, não, meu anjo. Aqui ninguém está com pressa.  Aliás pra que pressa se fiquei meses esperando para te ver sorrir, falar com você e até passear de carro como estamos fazendo.  Meia hora depois ela me aparece, linda como nunca, num  robe branco com a logomarca da casa bordada em vermelho, dizendo;  
– Olha, eu só queria uma carona, mas pelo que estou vendo você não vai me levar de volta se eu não colaborar. Por isso te proponho o seguinte; eu facilito as coisas e você não dá chupão no meu pescoço, falou? Mas precisa me prometer que vai me levar pra casa ainda hoje...

quinta-feira, 28 de novembro de 2019

OS MELHORES DIAS DA SEMANA..

    



       Eu não trabalho para ganhar dinheiro, mas para não ficar maluco. Aliás, dinheiro eu nem preciso já que tenho refeição na hora certa e roupa limpa a tempo de ser usada.  Não só eu, mas a turma que de uma forma ou de outra leva a vida que eu levo. De manhã, por exemplo, exercito os membros para descansá-los no final do dia enquanto a vizinhança decide o que fazer da sua. Dinheiro, que nunca me encheu os olhos, vai pra conta dos meus filhos que têm tempo, jeito e sabem como aplicá-lo. Do montante eu nada tiraria se pudesse, nem para o aluguel que é responsabilidade de quem me convenceu a vir morar neste lugar. A comida é igual pra todo mundo já que a minha cor não é e nunca foi passaporte pra ter ou  pra fazer o que negro, pobre ou nordestino não possa. Meus pensamentos divergem do pensamento da maioria, talvez por isso prefira produzir a bater com a cabeça. E assim eu vou construindo o que chamam de arte ao passo que artistas são os que admiram e respeitam essas bobagens.  Quando saio, e, se saio, nem sempre é pra tomar uma gelada, mas para olhar o sol, botar a cara no vento para afastar os demônios do pensamento.  Nas manhãs quando me chamam e eu não me levanto, não é a ressaca que me aprisiona no leito, mas a dor do vazio, tipo gosto de sepultura que a bebida deixa na boca da gente. Aí chega um amigo trazendo um sujeito com ele que entende de bebida e de sepultura pra me perguntar o que eu teria comido pra me deixar naquele estado?  – Nada, doutor. Nada que não se possa comer na frente de todo mundo. Ouvindo isso voltavam para o lugar de onde vieram. Todos, cada um no seu quadrado dançando Marília Mendonça. Só eu lapidando o bruto para que achem bem feito ou próximo disso. 
Não sei que horas são no momento, mas sei que é quarta. Quarta-feira. Mais uma no calendário de tantos anos fixado na parede. Poucos se arriscariam no pátio molhado de chuva ou perambulavam nos corredores. Os outros estão como eu, contando os minutos que antecedem a quinta-feira, como fazem nas sextas e nos sábado. Contar o tempo que nos separa daqueles que, quando vêm, aparecem com um sorriso pintado na cara cheios de novidades e a gente escuta tudo dentro da prisão daquele abraço, do qual, nenhum detento em sã consciência,  almeja fugir.

sexta-feira, 22 de novembro de 2019

MINHAS MEMÓRIAS...


    Prometo, prometo e não cumpro, mas dessa vez eu garanto que é sério. Que vou parar de me engrandecer com o sucesso que eu tinha até pouco tempo  no trato com o sexo oposto. Cansei de achar que falando ajudava às pessoas, não a todas, mas àquelas que se negam acreditar que poucos são os maridos que têm a pegada que tem os amantes.  A maioria arrisca ter a mulher infeliz ou buscando outros caminhos. É preciso parar de pular etapas, esquecer de si e ajudar a parceira. Os amantes se preocupam com isso ou não proporcionavam prazer que nem nos melhores contos se acha. O companheiro ou o marido precisa acreditar no seu taco ou parar com esse negócio de "farinha pouca, meu pirão primeiro". Gozar enquanto a companheira, que achava que viria estrela, fica olhando pro lustre é sacanagem. É claro que falo das preliminares que é e sempre será o prato principal desse banquete. Eu sei que sustentar uma ereção até que a mulher, com quem transamos a vida inteira, esteja pronta a ser penetrada não é muito fácil. Mas que se dane. Se der ruim ela  até te ajuda se for necessário. A cumplicidade é tudo, portanto arrisquem-se que elas agradecem. As preliminares, segundo me contam, são a cereja do bolo e até entre pessoas do mesmo sexo. O pior é que os machos alfa como eu, (desculpem, mas não tive como não confessar) tomam  para si essa responsabilidade e se entregam de corpo e alma até que o sino que tocam na companheira acorde a cidade. Então ela, tal qual serpente às portas da morte, contorcer-se-á aos seus pés.  
E como eu prometi agora vou me calar. Não por  falta de assunto, mas para não perder os amigos que vibravam quando eu dizia que não dormia sozinho e que jamais repetia a mesma mulher. Também achavam interessante me ouvir falar que saía com uma durante o dia e passava o resto da noite com outra. Por isso eu morava sozinho e para que não pensassem que eu as traía e consequentemente levasse bola nas costas como nunca levei (eu acho). Hoje não faço mais essas coisas. Faz tempo que deixei de sair com várias mulheres e dormir cada dia com uma também já não faço. É claro que deixei de fazer não por deixar de gostar da fruta, mas pra não levar um não pelas fuças. Estas medidas devem ser tomadas na chegada da idade porque a natureza é inconsequente. Ela conserva a libido, mas tira a rigidez do nervo. Se é que me faço entender. Meu avô me dizia que com o tempo os cachorros perdem a visão e os dentes, mas o faro, jamais. Acho que ele quis dizer que a natureza que mantém o tesão do homem é a mesma que deixa de avisar que a festa acabou. Dito isto fecho a boca, mas não o livro que conta minhas memórias ou o descaramento de inventá-las.











terça-feira, 19 de novembro de 2019

PRIMEIROS PASSOS.

   Tenho saudade dos parentes que moram longe como dos amigos que nas horas vagas procuram por mim. A presença dessas pessoas muito me honra, mas infelizmente nenhuma  me faz ou me fez mais feliz do que aquela que me segurando no colo esfregava o nariz dela no meu e dizia coisas que jamais entendi. Talvez não entendesse por ela usar uma voz modulada, tipo assim; cadê a coisinha mais linda da mamãe, cadê?, e falava de maneira, sei lá, tipo voz de criança que nem as pessoas com quem convivia há século sabiam dizer.  Imagina eu que não enxergava direito, não tinha noção de cheiro e de cor, ter que adivinhar o que aquela maluca estava dizendo. 
– Hoje sabemos que falar daquele jeito estimula o aprendizado nos bebês. 
O cuidado que ela tinha comigo era perturbador.
– Passou álcool nas mãos?, não?, então não me venha tocar no bebê – dizia.
Eu não sabia o que era vergonha ou teria morrido quando abriu a boca pra dizer aquela besteira. 
No dia que dei o primeiro passo, sem que me segurassem, ela deu uma festa, mas quando eu disse "papai" foi ele que fechou a rua e deu um churrasco pra comemorar.
Aí o tempo passou e eu, enquanto crescia, notei que ela ficava uma arara  quando eu corria dentro da casa, mas quando gritou pra eu calar a boca foi que me dei conta que fechar a rua por conta de eu dizer a primeira palavra não fazia sentido; por que me ensinaram a andar?, e a falar, por que insistiram?  Ah..., como é duro viver em um mundo onde há século ninguém sabe o que quer...
Hoje o casal não aplaude ou se frustra mais com aquilo que digo ou com aquilo que eu faço, não por eu ter decifrado seus códigos, mas por voltar ao ventre da mãe natureza de onde os dois vieram para me ensinar o que se arrependeriam depois.

quarta-feira, 13 de novembro de 2019

TIME DA VIRADA.


      Embrulhei-me com a bandeira do meu time e saí para comemorar. O jogo foi suado e sofrido e nada mais justo naquele momento que eu procurasse um lugar para uma gelada. Escolhi um bar onde vestiam camisa na cor da minha.  Onde falassem do resultado e dos jogadores, mas infelizmente o barulho me levou a beber longe dos abraços, dos risos  e da euforia daquela galera.  Em poucas goladas derrubei a primeira e antes de pensar em chamar  o  garçom eis que o atento rapaz me aparece com outra antes de tê-lo chamado. Abriu a ampola, geladíssima, e com um gesto disfarçado indicou u'a mesa  atrás da minha onde uma bela mulata, um pouquinho fora de forma, erguia o copo pra mim. Ergui o meu em resposta. Um simples gesto que a distinta criatura tomou como  convite pra sentar-se ao meu lado. O garçom também fez o que eu não havia pedido. Deve ser hábito da casa. A mulher,  mais velha do que parecia, pegou a cerveja, abriu um sorriso  desse tamanho, encheu os copos e contou sua vida. Brindamos, não sei se a vitória da urubuzada ou à coragem de sentar-se ao lado de um cara que há muito não sentia o cheiro do pescoço de uma mulher.  
A bebida ou o lugar, talvez o bom papo, quem sabe?, nos prendeu  de tal maneira que nem notamos a hora passar e não fosse o garçom dizer que ia fechar a gente não tinha saído, pelo menos naquele momento. Paguei a conta e já ia me despedindo quando notei que não podia deixá-la naquele estado. Pensei em chamar um táxi, mas desisti.  A moça não tinha como viajar sozinha e por mais cafajeste que os leitores me considerassem  eu, que não abandono quem bebe comigo, me vi obrigado a levá-la pra casa de carro.  Pra minha casa porque a dela eu nunca soube onde fica.  
Como viram não sou um aproveitador como querem certos leitores que nem quando saio para uma cervejinha se dignam livrar minha cara.

sábado, 9 de novembro de 2019

ANJO CONCILIADOR.

   
    Eu sei que pela vontade da senhora eu sumia da sua frente, mas quem garante que não foi Deus quem me mandou dar o ombro para senhora chorar? Foi por achar que posso secar seu pranto que me ofereço pra seu escravo, pra seu capacho e o que mais quiser eu me torno.  Muitos rechaçam a felicidade antes de conhecê-la, mas para a senhora não somar nessa fila vou apresentá-la à sua enquanto é tempo. Por isso não vire às costas pro seu marido por não achar graça na cama com ele, mas lute para achar a sua seja com quem for.  Não peço para deixá-lo, mas peço que lute por isso e como sei que qualquer coisa que se deseja é possível, por que não arregaçar as mangas e começar? Portanto levante-se e lute!  Lute porque a luz pertence a quem ultrapassa a sombra.  Depois tudo é mais fácil e bonito; o viço da pele, o brilho nos olhos e o riso ofuscando a inveja.  Nós sabemos que seu marido se casou muito bem, mas também pudera! Escolher entre tantas que passaram por suas mãos é mole.  Duro é a senhora comer pão com mortadela por ter se deitado somente com ele. Só às audaciosas o filé com fritas é servido.  A senhora é u'a mulher muito interessante, tipo assim, aquela que qualquer homem quer ter ao seu lado, mas, infelizmente seu companheiro não pensa desse jeito ou não a privaria do que merece e precisa, e antes que me pergunte o que eu acho que a senhora precisa eu lhe diria; de um orgasmo...  Não estou falando em gozo, tipo aqueles que se consegue sozinho embaixo das cobertas, mas de um orgasmo  de responsa.  Daqueles em que se perde o fôlego e pensa que vai morrer. A senhora jamais teve um desses, mas seu marido teve e muitos. Cabe a senhora se contentar com o que ele lhe dá, pois foi assim que seus pais a educaram. Dê uma chance a si mesma, eu volto a pedir  – e seja feliz  – porque a felicidade não brota no quintal da gente e não será de braços cruzados ou acreditando que migalha é banquete que se vai a lugar algum a não ser pagando pra isso. Trocar a curiosidade pela certeza e o medo pelo prazer é a melhor coisa a fazer no momento e para mostrar que nada vai interferir na relação de vocês eu proponho que nos encontremos numa cidade distante onde possamos conversar despreocupados e até relaxar e rir, se der vontade, de tudo pelo qual passamos. Antecipadamente eu garanto,  não  um momento de loucura e prazer, mas uma vida inteira de cores, música e poesia, porque o amor não é exclusividade do quarto, mas algo que se dá em todos os cômodos da vida.

domingo, 3 de novembro de 2019

DEIXA QUE FALEM...

       

      Eu sei que vão chiar quando souberem que chamei de imbecis aqueles que tiveram a infeliz ideia de obrigar  marido a transar só com suas esposas e elas só com eles mesmo um dos dois sendo ruim de cama.  Cara, isso não existe.  Contradiz a natureza, confunde o ecossistema. Com certeza o pai dessa aberração ejacula antes da mulher ficar pelada, ou, quem sabe, tem pinto pequeno ou sofre de impotência, tipo, borracha mole desde criancinha.  Cara, não há nada mais constrangedor do que alguém se encantar por um espadaúdo dançarino fazendo a dança do acasalamento  e ter de virar-lhe às costas por conta de um traste que ronca a noite inteira ao seu ouvido. Deveria ser lindo caso  fosse livre o amor entre humanos.  Ah, isso seria uma maravilha, pois trocava o bobalhão que vem com aquele papo pra justificar brochada ou no caso de um belo dançarino se exibir melhor pra conquistá-la.  Aí quem sabe não ficasse com os dois, dependendo do consenso e do apetite dela, né mesmo? Não tivessem os anormais essa bendita ideia de só transar depois do casamento a gente saía de manhã  para trocar o óleo e só voltava de madrugada e dependendo  ficava por lá. A pele ficaria mais viçosa, as pessoas mais bonitas e mais felizes até porque nada se compara ao prazer de uma trepada. Eu tenho certeza que órgãos, como a igreja, o judiciário e o poder publico entrariam nessa farra, não só em busca de se relacionar sexualmente com a mulherada como pra legalizar a coisa em troca de prestígio e de alguns caraminguados. A indústria, com certeza, entraria em reboliço.  Principalmente aquelas que fabricassem artigos de limpeza e a dos artigos para lubrificação ao passo que os fabricantes de naftalina e os que lidam contra mofo sofreriam queda na produtividade já que tudo voltaria a ser usado como deveria  tipo; se vovô não dá no coro vovó procura pelo "netinho" ou a netinha se deixa procurar pelo vovô se for o caso. Eu, pra ser sincero, só não sei onde vai dar essa bagaça.  Enquanto isso ficarei olhando a cara dos borracha fraca, daqueles que ejaculam antes da hora, dos caras de pinto pequeno que certamente torcerão o nariz sempre que uma gata me olhar daquele jeito ou as mulheres mal transadas desses brochas me mandaram  zaps convidando pra sair.

sexta-feira, 25 de outubro de 2019

PLANO "B"

     Quando a gente é novo tudo é fácil e possível. A gente tem força, coragem e beleza, pois o viço da pele é que dá motivo à molecada pra pentelhar as meninas como eu pentelhava.  E assim eu fui namorando, primeiro as bobinhas e quando tomei coragem arrisquei às mais sabidas e até mentia, quando precisava pra conquistá-las.  Eu não ligava se descobriam que faltei com a verdade, principalmente por ter conseguido acariciar os peitinhos ou encochado a garota num canto escurinho da rua. Coisa que poucas gostavam, mas eu adorava.  Lembro de quando mostrava o que eu tinha dentro das calças e uma ou outra fazia cara de nojo.  Nem todas queriam olhar ou  meter a mão no negócio, mesmo que morressem de curiosidade.  Eu insistia até que cedessem.  Em contra partida tinha os peitinhos, mas em momento  nenhum os ofereciam pra eu bolinar, muito menos esfregar na cara ou colocar na boca como queria que fizessem com o que eu lhes mostrava. Por conta disso fiquei algumas vezes sem ter com quem sair. Nesse caso eu procurava a Paulinha só pra não ficar vendo tevê com meus pais.   Paulinha era fora de série. Uma colega de escola que fazia qualquer coisa pra estar comigo, mas só quando eu não tinha ninguém saía com ela.  E não era por não ter os atributo das gostosa ou não ser um tesão de mulher que eu não queria sair, mas porque qualquer uma me estimulava sexualmente mais do que ela, só isso. A gente não saía pra teatro, pra cinema, pra praia ou qualquer lugar que não fosse o meu quarto ou o dela e quando acontecia ela me agradecia por tê-la procurado.  Pobre Paulinha que curtia os meus atrevimentos ou fingia pra não ser descartada.  Tudo o que eu queria Paulinha me dava até porque tinha passado por mãos mais irresponsáveis que as minhas.  Paulinha era tão maravilhosa que nem se  importava de me fazer companhia quando eu não tinha nada melhor. Sempre que a procurava ela estava às ordens.  Tratava-se de uma garota direita, mesmo assim a levava a lugares  que só um cara maluco como eu seria capaz.  Mas era gostoso o que a gente fazia. Mas essa facilidade tirava um pouco do meu tesão, mas a gente acabava fazendo assim mesmo.

sexta-feira, 18 de outubro de 2019

CONSELHEIRO

    

     Preste bem atenção no que eu vou falar pra vocês, disse mamãe às minhas irmãs, porque, disse ela, eu sei que uma de vocês arrasta asa para um cara que não está nem aí pra pra compromisso sério e safadeza com filha minha eu não vou admitir, por isso encareço a vocês que não se humilhem por cafajeste nenhum, mesmo achando que estão apaixonadas. Não se desvalorizem ou vão comer na mão de quem não gosta de ninguém além de si mesmo. Se não for pra gostar de quem merece o amor de vocês e a boa criação que lhes demos, esquece ou será refém de sua própria cegueira.  O importante é a gente se convencer que a pessoa pela qual pensamos estar apaixonada não é a  metade da laranja da gente e esquecê-la é o melhor que se pode fazer.  O mesmo acontece com aquele que faz tudo pra conquistar a mulher que nunca olhou na cara dele por mais que tentasse ser visto.  No caso de vocês não é diferente, não seria por ele chegar com uma estrela embaixo do braço ou  chamuscado por tentar pegar o sol pra lhes dar que vocês vão se jogar de joelhos aos seus pés. Jamais se esqueçam que presentes iguais a esse surgirão toda vez que vocês repelirem o demônio  porque homem direito não promete o que não poderá cumprir.  Portanto, minhas filhas, continuou minha mãe, não se renda a ninguém, mesmo que tenha causado taquicardia no seu coração, se essa pessoa não prova que a merece e lembrem-se que as regras do jogo continuam as mesmas e só as peças mudam de posição no tabuleiro da vida.  Não se permitam crucificar na cruz que os cafajestes trazem por trás do sorriso branco e bonito, e concluiu; conselho não tenho coragem de dar a ninguém a não ser a vocês a quem faço questão de abrir-lhes os olhos ou os meus se fecharão sem que as vejam felizes e bem casadas não importando se com homem ou com mulher se assim o quiserem.

quarta-feira, 9 de outubro de 2019

BANDIDA MEMÓRIA

  
   Quando a mulher diz que não se lembra da pessoa na boate 
que pagou sua conta, que ouviu suas lamúrias sem interferir no 
relato e ainda por cima a levou aos maiores e melhores orgasmos de sua vida, como  confessou a uma de suas amigas que por sinal me contou que a infeliz chegou a pensar que pudesse morrer de tanto que gozou naquela noite. É difícil acreditar que alguém, como essa senhora, pudesse negar fatos com provas não irrefutáveis como essas.  Isso me leva a pensar que a moça, quem sabe, pudesse estar sofrendo de amnésia ou escolheu a mim para otário. Eu até acredito que também não vá se lembrar de quando me sorriu ao sentar-se com o namorado, praticamente ao meu lado, na Confeitaria Colombo e muito menos admitirá o arrepiou que teria sentido quando toquei sua perna com a minha por baixo da mesa. Isso pra não falar do bilhete na teia da minha raquete depois do último set daquela partida.  Quando alguém se esquece de fatos tão relevantes é porque os corriqueiros, como o das flechas  lançadas em forma de brinde em minha intenção, não significam coisa nenhuma já que  se negava dizer que tivesse me visto na festa onde o branco preponderava e eu estava de preto.   Enquanto me questiono os dardos cruzam em todas e quaisquer direções,  tipo aqueles de ponta melada que um dia acertou em cheio o meu lado esquerdo do peito. Foi lindo vê-la erguer a taça em minha direção, sabendo eu que brindava a minha presença.  Agora só me resta torcer para que os dardos não sejam  adocicados quanto aqueles que me lambuzaram os lábios no momento do beijo, pois só assim deixará de roubar da mão dos infelizes, como eu, o doce que deu.

sexta-feira, 4 de outubro de 2019

QUE DROGA!

  
    O Ricardo foi embora... Quando ele se levantou eu estava  acordado, mas fingi que dormia para deixá-lo mais à vontade, mesmo assim veio até minha cama pra conferir. Depois tomou uma chuveirada, comeu algumas fatias de pão de forma com manteiga,um copo de leite frio e voltou ao meu quarto onde pegou a camisa que o Gabigol me deu de presente depois do jogo do Grêmio.  
Aí partiu sem dizer pra onde ia. 
Eu sei que minha casa não seria sua primeira opção ao escolher um lugar para ficar porque, como diz, eu sou chato e tudo me incomoda, inclusive a toalha molhada que o vira-casaca deixou no meu quarto quando pegou a camisa. Eu sei que só veio por ter sido enxotado da casa dos amigos por suas mulheres como a sua o enxotou da presença dela. E tudo por conta da jogatina, um vício que tirou dele o emprego, os amigos e a mulher por quem morre de amores. Foi por acreditar nesse amor que ela se afasta e o faz acreditando que sozinho possa se conscientizar da besteira que fez até porque perdeu o que tinha de mais precioso só não perdeu a minha amizade. Eu jamais o deixaria sucumbir aos pés de ferro de um baralho de cartas.  Muitas vezes, antes de me atrever em determinadas aventuras, o procurei para me aconselhar como ele muitas outras chorou no meu ombro suas mazelas.  Infelizmente a impetuosidade do vício colocou sua vergonha e sua honra de joelhos. O jogo, pelo que sabemos, não faz mal nenhum além de roubar o tempo e o dinheiro de quem joga. O pior é que ele nunca anda sozinho.  Com ele vem a bebida e o cigarro e em muitos casos as drogas ilícitas que deixam a pessoa tão fora da realidade que até tricolor "veste" a camisa do time dos outros.

segunda-feira, 23 de setembro de 2019

UMA VELHA CANÇÃO.


     
      Ouvindo Cazuza eu descobri que tenho um pouco a ver com o poeta, só não sou, como diz em uma de suas canções, muito exagerado.  Mas confesso que as vezes me excedo além dos limites. Não vou dizer que por eu saber que o "homem só é considerado homem quando faz um filho,  escreve um livro e planta uma árvore" tenha relação com a música e muito menos torna diferente aquele que faz tudo isso.  Eu, por exemplo. Desde muito cedo, ainda menino,  eu plantava semente de mamão, mas nunca vingaram. Depois comecei a escrever, mas não fui além de um contador de casos meio sem graça, e por fim as namoradinhas. Começou com as coleguinhas da escola. Depois com as meninas da rua onde a gente morava e com aquelas que frequentavam os lugares onde eu ia.  Depois de crescido comecei a escrever livros, pois queria que lessem minhas histórias da mesma maneira como eu gostava de ler a dos outros, e foram oito as tentativas, sendo que cinco estão publicadas e outras aguardando vez. Mais tarde vieram os filhos, aos pares. E daqueles que a mim foram dados a conhecer eu registrei todos. Dei a eles meu nome e com o auxílio da mãe de cada um os fiz cidadãos. E por fim, a árvore.  Comecei escolhendo um lugar para plantá-las.  Arei e adubei a terra antes de semeá-la. Depois reguei para que crescessem e chegassem ao que hoje chamamos de mata. E foi em um descampado ao norte do país  que cultivei o aglomerado verde que o mundo admira e respeita  como se fosse o pulmão do mundo.  E tudo por conta de uma canção, pois se não fosse por ela a minha modéstia não teria me permitido revelar a identidade daquele que, sem pretensão, plantou a floresta que ora desmatam e queimam.

sexta-feira, 20 de setembro de 2019

TERRA DO NUNCA

   
     Conheci dois irmãos no alto de uma favela onde um menino de seis anos e a irmã de cinco eram criados. O mais velho queria vender bala no sinal como seu pai fazia, e a irmã, voar como Sininho e Peter Pan na Terra do Nunca. Aos 10 ele realizou o sonho graças a bala perdida que encontrou seu pai, enquanto ela, a menina que sonhava conhecer Peter Pan para ensiná-la a voar com ele, já não pretendia parar de crescer.  Agora pensava ser médica pra cuidar dos pais e de quem mais precisasse. Aos 15 o menino largou a escola pra ganhar mais dinheiro lavando carros, enquanto ela desejava ser comissária de bordo, não pra voar, dizia mentindo, mas pra conhecer o mundo caso não conseguisse estudar medicina. Aos 17 ele saiu da favela pra não ceder às ordens do crime, enquanto a irmã que já não sonhava com a fada tilim-tim, mas também não achava nada fácil vestir o jaleco branco, decidiu continuar  estudando. E assim falava a criança que aos 5 anos queria voar como a fada Sininho. Aos 18 eis que se forma numa escola de poucos investimentos e talvez por isso não foi aprovada nas provas do Enem. Largou os estudo porque não teria como pagar as mensalidades da faculdade, por isso quis arranjar um trabalho, mas sem experiência precisou esperar muito e só com 20 anos foi admitida numa empresa terceirizada que prestava serviço de limpeza num aeroporto pra onde a menina que sonhava ser passarinho foi designada.  Hoje a moça descansa do almoço olhando avião. E entre os encantos da aterrissagem e o milagre das decolagens o que mais me encanta é o brilho que isso traz pros seus olhos, talvez não tão intenso como aquele dos 5 anos quando dizia que voar como Sininho voava com Peter Pan era o que ela queria pro seu futuro.

segunda-feira, 16 de setembro de 2019

A maioria dos meus textos é baseada em algum momento da minha vida o que não justifica dizer que eu seja machista ou falso garanhão, até porque a espécie humana voa comigo num balão aonde tudo é possível, inclusive curtir a paisagem.

(Isto posto, vamos ao conto de hoje:)


     
                                                            " O GOSTO DO CIO"
       O que farias se a mulher que cantaste a vida inteira decidisse ir pra cama contigo depois do trabalho?  Largavas tudo o que estivesses fazendo ou marcavas pra quando estivesse mais descansada?  Eu cá não sou adivinho, mas tenho certeza que trocarias a data da realização do teu sonho enquanto eu largava mão de qualquer coisa para levá-la à fazenda ou à uma casinha de sapê, como canta Paula Toler.  Esse é o tipo de coisa que se resolve na hora ou se perde o bonde da oportunidade.  Como o amigo sabe, o cheiro de uma pessoa que tomou banho às sete da manhã já não é o mesmo no final do expediente, por isso eu pergunto se refugas ou continuas fuçando o lugar onde o cheiro que vem à tua cara já não é tão prazeroso.  Não é prazeroso para alguns, porque na minha rua havia uma família que tinha quatro filhos, três rapazes e uma mulher, que se tornou minha amiga e confidente e com quem os irmãos achavam que eu tinha tido um caso.  Tempos depois os rapazes casaram e por acreditarem na própria mentira eu, para me vingar, resolvi assediar  suas esposas e foi com calma e persistência que cada uma se deitou na minha cama, sendo que  a última tinha desmaios com a minha boca roçando seu corpo. Até as axilas da moça eu lambi, mas quando cheguei entre as coxas, aí foi que a coisa fedeu... Jesus do céu!  Que cheiro que tinha aquele lugar. Na hora eu até pensei que fosse brochar, mas fiz cara dura e continuei até que gozasse.  Quando terminamos eu sugeri que procurasse um ginecologista e antes de dizer o porquê do conselho me deu um tapa na cara, se vestiu e foi embora. Eu tenho certeza que não comentou que tivesse saído comigo, mas falou qualquer coisa para que, não só os irmãos, mas como toda a família  me ignorasse.  Quando passo eles fingem que não me veem enquanto eu abro um belo sorriso em resposta.

terça-feira, 10 de setembro de 2019

CLAMANDO PELOS MARIDOS


    

       Revendo a maneira com que trato as pessoas chego a conclusão que preciso melhorar muito, principalmente com as mulheres da minha idade com quem me deito mais amiúde.  As jovens nem tanto, até porque são elas que me pedem para estocá-las, para jogá-las na parede e chamá-las de lagartixa.   Esses dois tipos de pessoa merecem o meu respeito e a minha compreensão e eu as entendo e respeito do mesmo jeito como sei que as mais novas precisam da companhia de homens experientes, enquanto as outras da companhia de quem as escute e concorde com suas necessidades, mesmo que veladas. Daquelas com quem me deitei eu guardo lembranças como guardo de  uma que só descobri que era prostituta por ter me cobrado por um serviço que  não contratei mesmo tendo gozado mais vezes do que eu previ que ela gozasse. Lembro de uma atriz que quase apanhou do marido por sorrir pra mim num restaurante em Vitória.  O mais interessante  foi ela bater à porta do meu quarto horas depois.  Também não me esqueço das que foram trocadas por partidas de tênis nas quadras dos clubes granfinos do Rio. A essas a quem rendo as minhas homenagens, dei o máximo de mim.  É claro que eu buscava o prazer que me deram, mas com elas eu fiz o que os maridos tinham o dever de fazer ou seja; ouvir suas histórias, rir na hora do riso e franzir o cenho na hora de suas angústias. Talvez poucos saibam que tem marido que não está nem aí pras esposas e o pior é que elas não gostam de fazer com qualquer um, mesmo que seja bonito e gostoso,  o que fariam com os maridos se eles se permitissem.  Muitos me aceitaram como amigo de suas mulheres, deixaram que eu comesse em suas mesas, bebesse da sua bebida e indiretamente me permitiram deitar com suas parceiras. Essas mulheres precisam de tratamento refinado por parte dos maridos ou  nossos “trabalhos” se tornarão indispensável como vêm se tornando.


Agora vou abrir um parêntese pra falar com a minha mãe, pena que vou fazer papel de maluco falando sozinho já que ela normalmente nunca me ouviu.  Mas vou falar assim mesmo e para não me virem pagando esse mico acho melhor escrever-lhe uma carta:

 Benção, minha mãe.  Eu tenho certeza que o correio trará esta carta de volta, mesmo assim vou postá-la porque preciso desabafar e não seria legal da minha parte fazer um amigo sofrer com as minhas mazelas.  Pois olhe, minha mãe em que pé o meu sossego se encontra; faz quatro meses que não durmo direito, não trabalho bem e muito mal tenho feito as refeições  e tudo por conta de pessoas cujos pais não lhe deram a educação que você nos deu, minha mãe.  Por exemplo, a gente sabe que a lei permite que se varra a casa, limpe e troque de lugar os seus móveis, mas que o faça sem incomodar os vizinhos, principalmente quando eles trabalham ou descansam do dia a dia.  Eu tenho certeza que, se eu não tivesse tido a graça de conhecer a pessoa que me tirou de perto de você e com quem, felizmente, eu vivo muito bem, essa carta não teria razão para existir, até porque, o fubá que vc soprava na cara do diabo tirava do desgraçado o desejo de perturbar minha paz.  Um dia, eu até peço a senhora que me perdoe,  falei que se deus existisse mataria o filho do desgraçado para ver se com isso o bicho sossegava quieto em sua casa, mas infelizmente essas coisas não acontecem porque são de ordem espiritual e não física.  Enfim, minha mãe.  Vou esperar o término do contrato com muita tristeza, não por envelhecer antes do tempo, mas por não poder contar com a sua ajuda e, é claro, em vê-la fazendo qualquer coisa por mim como nos tempos em que eu era criança quando até sua força a senhora usou para nos por na linha.  É claro que isso fez muito mal a minha formação, mas de uma forma ou de outra o meu futuro foi escrito com letras tortas, mas nele não falta e não faltará o compromisso do respeito que a senhora embutiu nos filhos. Caso não o tivesse feito,  nada disso estaria acontecendo entre mim e o vizinho de cima porque um tatu cheira o outro, como diz Monteiro Lobato em um dos seus livros, lembra do escritor?, pois é...




sexta-feira, 6 de setembro de 2019

A COISA ESTÁ PRETA

      Chovia e só Deus sabe o quanto me custou não ter coragem pra pegar a estrada com a chuva que caía, mas, convenhamos sair debaixo de raios com trovões explodindo em meus ouvidos, só louco.  Eu cerrava as cortinas quando o interfone tocou. Atendi, mas ninguém disse nada ou se disse, com aquele barulho eu não ouvi, por isso desci e na portaria alguém de preto, cabelos pintado de azul, três pirsings em cada orelha e anéis de caveira nos dedos.  Passou todo encharcado sem me olhar. Era uma garota de 19 anos mais ou menos que, no elevador, apertou o décimo e se  encolheu num canto.
No segundo andar as luzes piscaram e no terceiro o elevador deu uma sacudida, mas foi entre o sexto e o sétimo que ele parou. A luz voltou a piscar e o ar desligou quando a energia acabou. Em pouco tempo tudo passou, menos a garota que apavorada desmaiou de nervoso. Tentei consolá-la, mas não me ouvia. No décimo não tinha ninguém para recebê-la e se eu a deixá-la ali, jogada, seria omissão de socorro, por isso a arrastei para dentro de casa. Tentei pedir socorro, mas o celular não tinha sinal. Então eu a estapeei e até assoprei-lhe os ouvidos, mas nada, nem se mexia. Achei que respiração boca a boca fosse uma boa, mas não tive coragem. Fui à cozinha e quando voltei percebi que ela tinha mudado de posição.  Tentei um novo contato, mas não respondeu. 
-Será que ela está mesmo apagada ou ta de sacanagem? - Pensei. Pra ter certeza eu a coloquei na cama, botei minha boca na dela e assoprei uma vez. E outra, e outra até que a coisa virou beijo, e quanto mais eu beijava mais acelerada ficava a sua respiração. Em dado momento ela mais parecia um corredor de maratona num final de prova. 
-Graças a Deus a garota está bem e se quis me testar conseguiu. Escorri minha boca pescoço abaixo em quem resfolegava como locomotiva subindo serra.  Com muita calma e  bastante carinho enfiei a boca em um dos seus seios. Livrei-a dos empecilhos que  a sufocavam e a degustei por inteiro. Eu a bebi como um cão bebe água, até o som que eu fazia com a língua era igual. O vento não me soprava na cara os aromas do campo, mas também não me desagradava o perfume que me trazia. Desci deslizando as encostas até o pomar onde chupei todinha aquela fruta. 
Nada mais eu quis fazer sem que ela participasse, por isso tomei uma ducha e voltei. Voltei a tempo de vê-la amarrar o cadarço do coturno, vestir o casado e bater a porta atrás de si. Foi embora sem me perguntar o porquê dela estar minha cama.
-Este fato me deu a certeza de que ela deixou a tribo para descansar, e foi o que fez.



segunda-feira, 2 de setembro de 2019

CARA DE CÃO.

    
     Tu te lembras de quando te deram um cãozinho para fazer companhia ao teu filho que acabava de nascer? Lembras quando te recebiam no portão sujando as pernas das tuas calças com a terra com que brincavam? Não adiantava reclamar porque todos os dias a cena se repetia e terminava com o pai beijando o filho e num sutil gesto dava um passa-fora em quem latia de felicidade. Tu te lembras? Os dois tinham cinco anos naquela época.  Aos quinze, um foi viajar num intercâmbio de 10 anos no Canadá e te deixou choroso com o cachorro no portão de embarque, tu te recordas?  Hoje o garoto está formado.  Namorou uma colega da faculdade com quem logo se casará e agora, através das redes sociais, ficas sabendo que voltar ao Brasil não faz parte dos sonhos dele.  Coitado de ti meu amigo, que já não tens mais quem te suje a roupa quando chegas do trabalho. O teu filho foi cuidar da vida dele muito além de onde possam alcançar teus olhos e pelo que deixou perceber, há muito que te esqueceu enquanto o cão definha de saudade, sem forças pra correr ao encontro de quem, durante anos, lhe dava passa-foras dos quais jamais se envergonhou.

quinta-feira, 29 de agosto de 2019

SONHAR É DE GRAÇA.

    
     Eu sei que não devia, mas já critiquei quem ficasse horas, dias na fila para comprar o direito de ver de perto seu ídolo.  Eu nunca fiquei, mas também não os vi a menos de 20 metros e por não concordar com essa ideia foi que abri comentário sobre a mulherada que grita, chora e quer por que quer uma lembrança do artista e não importa se for um autógrafo, uma selfie ou um pedaço da roupa.  Na época em que abri falatória eu tinha a impressão de que se ele quisesse levar uma, duas, três ou todas pra casa nenhuma diria que não e o que faria esse cara com quem diz que morre por ele?  Eu sei que todos têm uma resposta para esta pergunta, mas, e os rapazes,  teriam eles coragem de passar uma noite com a pessoa em questão? É claro que sim, mas dormir na cama com ele só elas teriam coragem, todas juntas ou a combinar.  Tem momento que eu fico me perguntando; por que gritam, choram e até se rasgam por uma pessoa que nada tem para lhes dar além da música ou da performasse, dependendo do artista?  Esses caras, como sabemos, não são como a gente, são artistas e artista é qualquer coisa fora do comum porque criam sonhos, são artesões ou, se achar melhor, são fadas que nos levam à  ilha da fantasia, próximo a terra do nunca.  Hoje  não falo mais essas coisas, principalmente depois que eu descobri que a vida  é feita de sonhos e quem constrói esses sonhos senão os artista com suas canções, com as histórias que contam e com  a experiência de vida que têm?

segunda-feira, 26 de agosto de 2019

É DANDO QUE SE RECEBE

    

     Não tinha uma vez que eu não corresse para vê-la subir a ladeira onde a gente morava.  Ela era morena, magra, 14 anos e não muito bonita.  Não tinha corpo e nem jeito de mulher, porém fôra, pelo que nos diziam, estuprada por vários rapazes do bairro e isso mexia muito comigo. Eu sei que é triste falar dessas coisas, mas se quero falar a verdade preciso dizer que um menino de 15 anos morre de desejos pecaminosos quando ouve falar dessas coisas, imagina ver aquela que teve vários rapazes um pouco mais velho  tocando um corpo que não lhes pertencia e muito menos tinham o seu consentimento.  Não quero dizer com isso que eu os invejasse,  mas só de pensar no ato eu sabia que também pecava como qualquer ser humano da minha idade.  Agora eu a vejo atravessar a passarela dos sonhos que eu tive com ela enquanto ela, quem sabe, não pensasse que a minha passarela era o corredor da morte das possibilidades de se casar virgem, não ser tratada pelos pais dos amigos como alguém que tivesse concorrido para que o fato acontecesse.  Quando fiz 18 anos alguém me cumprimentou com voz de mulher. Gente, eu nem me lembrava mais dela quando me cumprimentou e com a mão estendida esperando a minha foi que eu vi na mulher que se tornou a menina de 14 anos que só andava com os olhos lambendo os pés e no momento eram os meus que os lambiam. Um longa metragem passou rapidamente na minha cabeça com um coadjuvante assumindo o protagonismo da cena e mudando o sentido da história. 

sábado, 24 de agosto de 2019

O SERMÃO DO PASTOR



     Eu juro que vi Elzevir transando a irmã, por trás, no fundo do terreno onde moravam.  O pior não foi o encesto, mas o tempo que levei pra dizer que ia contar pro pai dela.  Sim, porque se eu saísse dando com a língua nos dentes o irmãozinho, que tinha cinco anos a mais do que eu, certamente, os quebraria.  Primeiro eu falei pra irmã mais nova que falou pra pecadora.  Depois veio um bilhete marcando um encontro comigo naquela noite, na saída do culto.  Eu precisava estudar para melhorar minhas notas, mas larguei tudo e fui pra frente da igreja esperar por ela, quer dizer, por eles, porque o irmão e mais três  garotos vieram pra cima de mim.  Sorte que eu os vi antes e pude correr.  Correr pra casa deles onde Seu Hermes me recebeu com um sorriso desse tamanho achando que eu tinha “aceitado Jesus”.  Só que não, porque naquela idade eu não queria  nenhum compromisso além da escola pra tomar o meu tempo. Momentos depois Dona Martha chegou com os filhos que, ao me virem conversando com o pai deles, Jesus amado, foi uma puxação de saco tão grande que até seu Hermes desconfiou e se não fosse a esposa mencionar o sermão do pastor eu nem sei o que teria acontecido.  Cinco minutos depois a encestada me chamou num canto pra perguntar o que eu tinha ido fazer lá e eu, claro, menti que tinha ido pra contar “aquele negócio” pro pai dela.  Elzinha quis chorar, mas pegou minha mão e olhando nos meus olhos com o azul dos dela, me subornou;  – se eu deixar você por  a mão dentro do meu sutiã você esquece “essa coisa”?  
   Até hoje, tantos anos depois, ainda tento esquecer “essa coisa”, mas quem me garante que um dia eu vá conseguir?!

quarta-feira, 21 de agosto de 2019

COM TODO GÁS.


      Eu sou muito acanhado, mas quando os hormônios bolinam a parte de baixo do meu umbigo eu não peço desculpas ou permissão para arredar as cadeiras, puxar a mesa prum canto e dar, na frente de qualquer um, o espetáculo que nem eu acredito que dou. E coisas assim não são impossíveis de acontecer principalmente com quem lida com gente.   Recentemente uma senhora ligou pra o depósito de gás do meu sobrinho pedindo urgência no atendimento e como eu estava fazendo as entregas pra ele não tinha como deixar a freguesa esperando. Acontece que a dona acabou se esquecendo de mim ou eu não teria mofado do lado de fora com aquele peso nas costas e o sol quente na testa como fiquei.
  – Entre por favor, e desculpe por  te fazer esperar – disse a mulher diante de um cara que mal se mexia com aquilo tudo abrigado num roupão branco e toalha nos cabelos.  Ela não tinha uma cara bonita, mas tinha corpo de passista de escola de samba ou melhor; ela era a própria escola de samba e a cada evolução o roupão me premiava com as pernas de sua dona. Quando cheguei à cozinha e ela se abaixou para abrir o armário, eis que um par de belas e apetitosas mamas me salta aos olhos e eu quase atrapalho o andamento da comissão de frente.  
– Desculpa, na correria vesti qualquer coisa só pra não te deixar esperando naquele calor.  Espere só mais um pouquinho que eu vou me trocar e já volto pra te pagar – disse sorrindo.  A freguesa foi para o quarto e como estava demorando mais do que o necessário eu menti que passava mais tarde pra receber. 
– Espera aí, não vai embora não.  É o zíper do vestido engasgou – disse com jeito de gozação.  Ouvindo tal desculpa eu me prontifiquei a ajudá-la, no que ela aceitou. 
– Meu pai do céu, o que era aquilo nu na minha frente, senhor?! Eu jamais tinha visto corpo mais bonito e sedutor que aquele. A minha educação até me puxava pra fora do quarto pelas orelhas, enquanto a minha libido queria me empurrar pra cima da cama com ela.  
– Que mãos grossa você tem, meu rapaz. Você é todo assim ou é a minha pele que é sedosa de mais?  Antes de terminar o que dizia o vestido pulou pro cabide enquanto ela, na ponta dos pés, enlaçava-me pelo pescoço.  
Até hoje meu sobrinho não fala comigo.

sexta-feira, 16 de agosto de 2019

PRATO FEITO.

  Mulher a gente vê "aos monte" por aí. Algumas sem sal e  outras até bem temperadas, sendo que a maioria, se  fosse comestível, seria comparada ao prato principal.  Infelizmente a destemperada que morou comigo durante tanto tempo me trocou por outro e quase me  tirou o apetite quando falou que ia  embora, não por traição ou falta de amor da minha parte, mas pelo ciúme que tinha dos amigos com quem tomo chope, nas sextas, depois do trampo.  Eu tenho certeza que o motivo não foi outro senão os encantos de um  cafajeste que jurava acabar com a sede, que ele achava que ela sentia, mas agora a faz de pasto em sua cama.  Hoje eu sei que se arrepende de ter trocado um cara que, na cama, dava a ela os carinhos que gostava e, caso o gozo não a matasse, compartilhava comigo  um pouco do que lhe dei.  Mas agora Inês é morta, principalmente quando sua amiga confessou que matava a minha fome, aí ela pirou; foi a todos os lugares que eu frequento pra dizer que sou ruim de cama e que muitas vezes já dei  pinta de gostar de homem.  Também afirmou que sou mau pagador e que a empresa em que trabalho só não me manda embora porque é caro contratar outro melhor. Felizmente não falou que a polícia estava atrás de mim por ter  roubado um banco ou  atirado em alguém.  De qualquer forma arranhou bem a minha imagem. Mas não faz mal não porque o  mundo não vai mudar a rota por causa disso e muito menos por causa de uma mulher  que, se bem não me quis, outra, como sua amiga, bem há de me querer.

terça-feira, 13 de agosto de 2019

A ÁFRICA É AQUI.

   

    Toda noite é a mesma ladainha e por mais que eu esfregue a orelha na parede não entendo o que dizem se estão brigando. Principalmente a moça que fala e chora ao mesmo tempo ao passo que o homem, este não chora, mas grita muito, e o pior é que usa uma linguagem que ela, mesmo brasileira, parece compreender. Eu não sei por que essa mulher não arruma as tralhas e vai embora.  Ninguém, em sã consciência, aguentaria o que ela vem conseguindo. As vezes esse animal me dá a certeza de que vai derrubar o prédio. Não é fácil dormir com tamanha confusão, aliás, é o que de melhor sabem fazer.  A porradaria tem início meia hora após sua chegada  e assim vai até altas madrugadas.  Depois do quebra quebra o pano cai dando vez ao silêncio sepulcral. Nessas horas eu sempre acho que um matou o outro e fugiu. Eu não sei porque, mas já teve momento de eu pensar que ela, psicologicamente, já tivesse morrido, tais os palavrões com que era tratada. Afinal, qual o marido que chama a esposa de galinha, cachorra, puta e vagabunda, entre outras coisas que o idioma não me favorece compreender?  Em duas ocasiões pensei falar com a polícia, mas me lembrei que os apartamentos do meu condomínio pertencem a Marinha e eu não ficaria nada confortável sendo jogado aos tubarões.  Ontem, no elevador subindo pra minha casa, eu conheci os barulhentos.  Ele, um senegalês desse tamanho. suas mãos estavam mais pra raquete de  tênis de quadra de saibro que pra de ping pongue, enquanto ela, uma loirinha meio metro menor do que ele, porém muito gostosa, tipo; "bem resolvida sexualmente" e que estava  mais pra quem parecia viver um conto de fadas do que pra vítima de torturador. Agora, arranhões, manchas roxas ou vermelhidão no corpo se tinha eu não vi, por mais que esfregasse os meus olhos naquele corpinho gostoso.  No elevador o sujeito não tirava os olhos do indicador luminoso enquanto ela, na ponta dos pés o beija e se esfregava com tamanha avidez que, não ele, mas se eu dissesse qualquer coisa, ufa!,  ninguém me entenderia.

quarta-feira, 7 de agosto de 2019

A IRMÃ...



   Fiquei feliz quando Aldeir, um amigo que há muito eu não via, me disse que ia se casar. Porém minha alegria foi desvanecendo a medida que o amigo descrevia a mulher, principalmente quando me contou que tinha estudado no Mosteiro de São Bento, longe dos pais, sem namoro e com acesso restrito à internet. Só faltava dizer que tinha o mesmo nome da mulher do Brad Pitt e como desgraça pouca é bobagem eu fiz questão de  saber qual era. 
– Amor. Eu a trato por amor porque não quero que pensem que estou com ela por causa do nome, por isso a chamo de amor...
Não foi a resposta que me matou porque já sangrava quando fiz a pergunta. 
Naquele momento começou a girar tudo à minha volta e não dar spoiler era quase impossível.  Ainda mais quando lembro que juramos ficar juntos até que a morte nos separasse. Mas, quis o destino que eu a visse, nua, com uma noviça na cama da minha empregada. Na hora  eu não disse nada, até fui pro quarto fingindo nada ter visto, mas saiu correndo, talvez levasse a mocinha com ela e sumiu. Depois disso eu nunca mais tive notícias dela. Foi e não disse nada e nem mesmo ficou sabendo que jamais tive problemas quanto a isso, que não enxergo como traição alguém se relacionar com pessoa do mesmo sexo até sendo casada. Mal sabia que eu jamais a deixaria por conta dessa bobagem a não ser que o fizesse com um homem. Sem esconder sua alegria Aldeir me falava da suposta castidade de quem tantas e tantas vezes me fez urrar de prazer e em outras tantas me desesperei achando que a tinha matado com os múltiplos orgasmos que só eu sabia provocar. E Aldeir gesticulava, falava alto e ria de gargalhar e, não fossem as firulas que fazia e teria percebido a lágrima que eu enxuguei com as costas da mão. Meu Deus, não posso confrontar a felicidade de um amigo, com cara de quem perdeu a mãe num incêndio – pensei –, mas o que faço, senhor,  pra não demonstrar que a noticia matou a esperança tê-la outra vez?
– Eu acredito que adivinhou o que vim fazer por aqui além de falar do meu casamento, não já? – Perguntou abrindo os braços para um abraço. 
– Não, meu amigo. Não adivinhei não – respondi. 
– Eu e a minha noiva decidimos que você será nosso padrinho e não aceitaremos desculpas, quaisquer que sejam. 
A gente chorava abraçado, cada um com o seu próprio motivo.
– Angelina tinha razão te escolhendo entre os outro amigos...


domingo, 4 de agosto de 2019

EU QUERIA UM SIM, SÓ ISSO.


  


    Ficou horas sentada na soleira da porta vendo os patos  se banhando, mas não viu o sol atravessar o lago e ir embora.  Encolheu as pernas, trouxe os joelhos para o queixo e chorou o resto que sobrou daquela tarde.  Não atendeu o telefone, também não comeu e muito menos quis ver ou falar com alguém. Morrer talvez fosse a única coisa em que pensasse.  O engraçado é que há bem pouco tempo essa pessoa fez uma grosseria tão grande com quem passou anos procurando coragem pra se declarar e quando conseguiu quase morreu de vergonha com o passa-fora que levou. Essa é a pessoa chorosa que ora inveja a felicidade dos bichos. Dizem que a partir daquele dia nunca mais o declarante foi o mesmo, pois teria se trancado longe de tudo e de todos e se não fosse a família ameaçá-lo de internação talvez a morte me impedisse de contar essa história. Aos poucos a ideia de sumir foi se perdendo.  Com um amigo que dele  não desistiu, voltou  aos patins e à pedalar.  Algumas vezes  colocava o barco na água e sozinho  remava as mansas águas do lago onde a brisa beijava melhor  que qualquer pessoa.  Não quero afirmar  que do meio do lago  não desse pra ouvir os soluços de alguém chorando, mas  mentiria se negasse que não  a tivesse visto através da folhagem.  E como diz o palhaçopoeta, nada é por acaso, principalmente quando se coloca um barco n'água exatamente quando a mulher que se perfuma, veste a roupa que a gente gosta e é protagonista do filme da nossa vida resolve sentar pra chorar. 
– Ei, moça!,  tá tudo bem com você?, perguntou sabendo de quem se tratava ao passo que ela, dele não se lembrava.  
– Tá, ta tudo bem, sim, obrigado – respondeu enxugando os olhos.  Fingindo não ter ouvido o rapaz sentou-se ao  seu lado. 
– Não, moça. Ninguém chora por nada. Confie em mim e me conte, só quero ajudar. E outra coisa, quando voltar ao meu barco você nunca mais saberá de mim, portanto relaxa...  
– Sabe o que é; é que eu sou desprezível. E pessoas desprezíveis merecem sofrer, principalmente quando se envergonha  aquele que declara seu amor  por você. E o pior é que eu não conhecia a pessoa pra quem fiz essa maldade.   
– Liga não, moça, já passou, e com certeza ele já nem se lembre mais disso e esteja até se relacionando com outra pessoa. Olha, por que não entra, troca de roupa e, quem sabe, chame um amigo pra sair?!  Enquanto a conversa rola a cabeça expurga os pensamentos ruis...
– Você tem razão, vou fazer o que disse. Obrigada – e concluiu – a propósito; caso você não  tenha outro  compromisso além desse;  remar um barco pra ficar me olhando, você pode sair comigo?...

quarta-feira, 31 de julho de 2019

FRUTA MADURA


   

    Não dava pra ver se era fruta o que ela chupava a não ser a certeza de ter raro sabor tais eram as expressões de quem a sorvia. Os movimentos da língua em torno do fruto eram verdadeiras aulas de expressão facial, corporal, de música ou de dança.  Qualquer coisa sensual beirando o erotismo e às vezes passando de uma despretensiosa lambida às indecências da luxúria, pois se contorcia no trato prazeroso que dava ou que recebia com as chupadas cuidadosas, de forma que não machucasse ou  o deixasse fugir de onde estava. Do último cômodo onde passaria à noite não dava pra distinguir se de fato era fruta ou um beija-flor. Sendo fruta não carecia de tamanho cuidado ao passo que um passarinho jamais prestaria pra ser lambido daquele jeito. E aos poucos a coisa fluía... Passou de pequenos sussurros a palavras confusas, sem sentido. Depois vieram os gritinhos e as contorções que lembravam uma cobra cuja espinha fora quebrada.  Com a desculpa de querer ajudá-la avancei até onde se encontrava aquela que poderia estar sendo drogada por um desalmado que às pressas a deixou se refestelando com algo destemperado e sem gosto que só a ele deveria ser prazeroso, mas na verdade, era ela que praticamente morria com agudeza daquele veneno. Depois que cheguei a garota, de cara amarrada, enxugou as lágrimas, arrumou o vestido e na hora de ir embora colocou o sorriso da mulher resolvida nos lábios e saiu batendo a porta na cara da inveja. Partiu sem deixar seu nome ou um simples muito obrigado.

sexta-feira, 26 de julho de 2019

PRA RIR OU PRA QUÊ?

  
      Muita alegria ainda te fará rir da barriga doer e mais feliz o teu coração ao passo que em outras ocasiões ficarás num quarto trancado amargando teu sofrimento. 
Talvez porque o mundo não é outra coisa senão uma fábrica de contraditórios e loucos sentimentos. Uma vida, uma só eu não acho o bastante para chegar ao equilíbrio entre a lágrima da alegria e a lágrima do sofrimento, já que derramarás um rio delas no nascimento do teu primeiro filho e um oceano quando se forem teus pais. Também ficarás noites em claro por conta do vestibular e outras tantas cuidando de pacientes. Nas manhãs, tão logo a janela do teu quarto e o dia te permitirem, verás um sol desse tamanho se esfregando nas folhas inocentes da vegetação que sorrindo, porém submissa, curvar-se-á diante o rei. É por isso que me nego a pensar que nem todo prato tem sabor de festa, principalmente quando dou conta do quão tênue é a linha entre equilibrista e palhaço no instante em que esse último precisa, com galhofagem, justificar o desequilíbrio do amigo.
E pra não dizer que não falo de flores; há um mês Jesus apareceu aqui na Gávea. Fora contratado com a missão de fazer do meu clube uma esquadra imbatível, pois só com milagre se conseguiria tal feito.   Foi uma festa saber da contratação, mas até agora não sei se a felicidade de tê-lo entre nós  foi mais saborosa  que a salgada tristeza dos milagres concebidos.  Jesus e os  onze apóstolos,  empataram dois jogos, ganharam um e com isso perdemos a chance da disputa do título o que fez  do santo sepulcro  vermelho se cobrir de um preto desconcertante. Talvez por isso Chico tenha comparado bêbado com equilibrista enquanto a moça feia debruçada à janela sorria pensando que a banda tocasse pra ela.

sexta-feira, 19 de julho de 2019

À CIGANA


     
       Não faz  um mês que me mudei por conta de um marido ciumento e a minha casa já está cheia de gente novamente.  E não são amigos  feitos no decorrer da vida que estão lá, mas  vizinhos que vão chegando, chegando e acabam ficando.  Sempre vinha alguém  me perguntar se estava tudo bem, se  precisava de alguma coisa ou me chamava pra conhecer sua casa.  Foi tipo, se frequentando, que a gente acabou se enturmando. Atualmente eu preciso bocejar  pra ver se alguém se dá conta de que o sol, faz tempo, escorre pelo telhado e eu não dormi. Se deixasse passavam a noite bebendo, comendo  tira gosto e falando de futebol e mulher.  São pessoas que de uma forma ou de outra vêm pra somar.  Uma completando a outra.  Por exemplo; quem  podia comprava as bebidas; chegava cedo, colocava a cerveja no gelo e voltavam pra casa. Os outros levavam as esposas e o tira gosto, que dava no mesmo.  A minha tristeza era  quando tinha de  enxotá-los da minha casa, mas se não o fizesse, quem levantaria no dia seguinte pra trabalhar, alguém sabe? A metade dos que eu vi  bebendo contava bravata e a outra metade falava mentira. Por isso é que dizem que bebida e verdade não dá rima, mas também não ofende, não é mesmo?  O bom disso é que não brigavam quando um bebia  a cerveja que não comprou  ou se conversava com a mulher que não fosse a sua, desde que dessem  boas gargalhadas e não mudassem de assunto com a chegada de alguém. Mas não pensem que a festa  acabava se uma dessas regras fosse quebrada, a não ser pra quem errasse, claro.  No sábado, quando me levantei, vi que a mesa do café estava arrumada. Mas como arrumada se moro sozinho e não tenho empregada?, a não ser que alguém tenha dormido comigo e não me contaram. Tim tim, disse a mulher d’ um polícia, gente boa,  enrolada numa toalha erguendo a xícara.  Jesus amado eu  estava gostando tanto desse lugar e já vou  procurar outro pra me mudar.

segunda-feira, 8 de julho de 2019

SEM DIREÇÃO.

   
     No pior trecho entre Barreiras e Natividade, na Bahia, um caminhão em alta velocidade escorraçou-me fora da pista. Felizmente alguém me socorreu e ligou pro seguro da moto. Três dias fora do ar sem ninguém das minhas relações saber de mim.  
– Foi um milagre não ter morrido, diziam ao pé do leito. E tanto era verdade que além de Deus eu precisava agradecer a quem tomou pra si a responsabilidade de cuidar de um moribundo.  E era um faxineira, um anjo com mãos de fada e segurança de arremessador de facas. Eram mãos seguras e de uma maciez tal que me deixava de pau duro.    Quando tive alta ela me levou pra casa, pra casa dela, porque a minha estava há horas dali. – Se não fizer fisioterapia uma pernas vai ficar curta e a outra perde os movimentos, como o Dr. falou, mas não se preocupe que amanhã começam as sessões. Deu boa noite, fechou a porta e saiu.
Meu Deus do céu, teria a fisioterapeuta mãos macias quanto as dela?, e se tiver e o meu negócio vai ficar duro pra me envergonhar, como tem feito?
Para a minha felicidade ou tristeza, adivinha quem veio à tardinha me massagear?, ela, a faxineira, que ao puxar meu lençol deu de cara, mas fingiu não ter visto, o que tinha endurecido ao ouvir a voz dela. Tentei explicar, mas confessou que sabia. Transamos o  resto da tarde, aliás, ela transou com quem mal se mexia.   Você transa bem meu amor!, mentiu mordendo  a orelha.  É, mais ou menos, respondi com a orelha babada.   Talvez eu fizesse melhor se essa coisa não gangrenasse, mas foi gostoso deixar a comida perto de quem parecia estar morta de fome.
Fiquei em sua casa o resto daquele mês.  Foram dias maravilhosos que até esquecemos a  perna.  Eu, pelo menos esquecia não ela.  Todos os dias me acordava com beijos, misto quente e suco de fruta.  Depois saia porta afora com o mesmo sorriso que chegava do trabalho pra preparar o lanche, a janta e depois descansar.  Descansar, aliás, era a única coisa que não fazia.  Muitas, senão todas as noites, ela vinha pra minha cama onde tudo acontecia.
Na sexta-feira santa o seguro pagou minha moto e o DPVAT às despesas.  Coloquei o valor das despesas num cheque e o deixei no criado mudo com um bilhete onde se lia que nada pagaria o que ela me fez e não seriam alguns abraços e outro tanto de beijos a mais que o conseguiriam. Por isso me neguei dizer adeus a quem nem "oi" eu disse quando cheguei.