segunda-feira, 22 de agosto de 2016

A HISTÓRIA DA MENINA A QUEM CHAMAVAM “A SENHORINHA”

Contos portugueses

    Era uma vez uma menina que tinha crescido demasiado depressa, demasiado rapidamente. Não apenas no corpo, nas pernas, nos braços, mas em tudo o resto. Com oito anos, pedia-se-lhe que fosse prestável, atenta, razoável.
Que não se queixasse, que não se encolerizasse, que não fosse caprichosa, que não fizesse exigências.
Que fosse “uma senhorinha”, pois!
Não pensem que os seus pais eram uns carrascos. Oh não! Eles apenas lhe pediam:
— Dá-nos este prazer. Não te pedimos nada a não ser que sejas gentil, que sejas obediente… não é difícil!
Como esta menina nunca tinha ousado pedir fosse o que fosse, nunca se tinha sentido desapontada. Não sabia se era feliz ou não. Não tinha desejos próprios. Não esperava nada. Eram os outros que esperavam coisas dela. E o seu único prazer… era dar prazer… aos outros!
Pelo menos, assim o imaginava ela. No entanto, qualquer coisa deveria tê-la alertado, porque os outros não demonstravam lá muito a satisfação que tinham por ela ser “como deveria ser”. Para eles, era óbvio. Para ser franco, devo dizer que, por vezes, à noite, antes de adormecer, quando ela chupava o polegar, com o lençol debaixo do nariz, os olhos abertos no escuro, um sentimento de injustiça roçava nela como uma asa negra. Oh… mas apenas roçava!
Ela também imaginava que havia um país onde as meninas podiam ser pequenas durante muito, muito tempo. Um país onde os pais escutavam os desejos das crianças, mesmo se nem sempre os realizavam. Um país onde as crianças podiam brincar a ser grandes, mas apenas brincar… a ser grandes! Em algumas noites, ela imaginava que partia para esse país, com um grande saco, e que o enchia de sonhos, de jogos, de risos e também de soluços.
É que, vocês já adivinharam, esta menina não chorava nunca… porque devia portar-se como uma “senhorinha”.
A continuação da história é surpreendente. Será necessário que esta menina espere pelos seus quarenta anos. Ouviram bem, quarenta anos, para ousar tornar-se pequena, para ousar ter desejos impossíveis, para ousar chorar e rir, para ousar dançar.
Nessa altura, ela já tinha filhos e, um dia, a sua própria filha perguntou:
— É verdade, mamã, que tu nunca pudeste ser pequena quando eras criança?
— É verdade, eu vivi como se nunca tivesse tido nem tempo, nem possibilidade de ser pequena. Sim, muito cedo me tornei grande. E só hoje compreendo. Tudo se passou como se os meus próprios pais não tivessem tido tempo para crescer quando eram crianças, e eu devesse ser grande por eles…Acontece, por vezes, às ex-meninas terem de esperar muito, muito tempo, para ousarem, enfim, ser pequenas…

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

O REI MAIS PEQUENO DO MUNDO.

    Era um rei. O rei mais pequeno do mundo. Porém, tinha a mania das grandezas. Exigia que os seus súbditos, isto é, toda a gente do país, o tratasse sempre por Vossa Alteza; Vossa Enormidade; Vossa Imensidade; Vossa Grandeza. Os amigos podiam tratá-lo, nos dias em que estivesse bem disposto, por Vossa Proeminência.
Andava pelo palácio pendurado em enormes andas, pernas de pau, que o faziam mais alto do que qualquer pessoa. No palácio, de resto, isso não era difícil, pois segundo uma lei, inventada, é claro, pelo próprio monarca, não podia entrar ninguém com mais de cinquenta centímetros. Em consequência, toda a corte era composta por anões e por crianças, e estas, coitadas, perdiam o emprego assim que crescessem demais.
Para sair à rua, o rei montava uma das suas girafas. Tinha quinze. Todas altíssimas – eram girafas! – e muito bonitas e bem-educadas. Só ele podia montar nas girafas. Nos livros das escolas, as crianças aprendiam que aquele era o rei mais alto do mundo (o que levava as crianças a pensar que todos os reis eram muito pequenos).
O rei, com a sua mania das grandezas, queria que as casas do seu reino fossem as mais altas do mundo, e os cães, os mais altos do mundo, e os pés de milho, os mais altos do mundo. «Tudo neste país», dizia, «tem de estar à minha altura». Como ele era o rei, os ministros diziam: «Sim, Vossa Alteza». Os generais diziam: «Sim, sim, Vossa Enormidade». O povo dizia: «Sim, sim, sim, Vossa Desmesura».
E assim ia indo o reino. Até que um belo dia a rainha engravidou. O rei viu com preocupação crescer a barriga da mulher. Por um lado esperava que de lá de dentro saltasse o maior principezinho do mundo. Por outro, se o principezinho fosse de sua natureza muito grande, não poderia ficar no palácio (era a lei), e ele também não queria isso. A barriga da rainha cresceu muito. Cresceu tanto que ela já não cabia nas portas.
Porém, quando passado alguns dias deu à luz, as parteiras viram sair daquela enorme barriga, primeiro  penas vento, e depois um menino minúsculo.
O rei, que nunca dava o braço a torcer, mandou anunciar por todo o reino que nascera o maior príncipe do mundo. O menino, ao qual foi dado o nome de Máximo Magno, saiu ao pai. «Meu Deus!», sorria vendo-se ao espelho, «como sou enorme». O rei lembrou-se então de instalar no palácio espelhos de feira, desses que distorcem a imagem, e nos fazem parecer muito mais altos.
Máximo Magno ficou ainda mais feliz: «Sou um gigante», gritava, «nunca houve no mundo ninguém tão alto quanto eu.»
E assim ia indo o reino. O príncipe gostava de passear pelo reino mas, como era ainda mais convencido do que o pai, não usava nem andas nem girafas. Preferia seguir a pé, sozinho, para que todos admirassem a sua coragem e estatura. Ao vê-lo, as pessoas ajoelhavam-se e gritavam: «Longa vida a Vossa Eminência, o Príncipe». Uma tarde, distraído com a beleza da floresta, Máximo Magno afastou-se muito do palácio. Já ia longe, já tinha ultrapassado a linha do horizonte, quando encontrou um elefante.
— Sai da minha frente — disse-lhe com arrogância — senão piso-te. Sou o maior principezinho do mundo.
O elefante, que não era dali, viajava há muitos dias, e não conhecia a fama do rei, e nunca ouvira falar no príncipe, atira-se ao chão a rir às gargalhadas:
— Tu, pisas-me? Não conseguirias nem pisar na minha sombra.
O príncipe levantou o pé para esmagar o elefante. Não conseguiu, claro, só ele acreditava nisso, e o elefante continuou a rir. Quando conseguiu acalmar, disse ao príncipe:
— Uns nascem pequenos, outros nascem grandes. Mas ninguém nasce maior ou menor. Um dia dirão talvez que foste o maior rei do mundo, mas será por aquilo que fizeste, será porque foste um bom rei, e não por causa da tua altura.
O principezinho regressou ao palácio a pensar no que o elefante dissera. Quanto mais pensava, mais achava que o outro tinha razão. Mandou tirar os espelhos do palácio. Começou a falar com toda a gente, de igual para igual, e assim aprendeu muita coisa. Hoje, lá no reino, quando falam dele, as pessoas dizem: «É o maior Rei do mundo». E realmente acreditam nisso. Já ninguém se lembra do velho rei.
José Eduardo Agualusa
Era uma vez
Revista Pais e Filhos, s/d
adaptado

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

O TESOURO DE CLARA.

 
    Clara vive no Brasil. Não possui quase nada. Tem pele de âmbar e cabelos pretos. Veste uma t-shirt grande e, nos pés, traz sandálias de borracha, faça chuva ou sol.
Clara tem doze anos. Trabalha num orfanato. A sua função é limpar a cozinha e, de vez em quando, pode fazer de mãe dos mais pequeninos. E gosta muito disso.
À quinta-feira, é o dia de descanso de Clara. É então que sai…
A cinquenta metros, perto de um banco que está fechado, estão todos juntos à espera dela. Olham uns para os outros, sorriem, regalam-se de antemão.
São os seus amigos: Lúcia, Ângelo e Ana. Não têm casa e dormem onde calha, nas ruas do Rio.
Lúcia tem oito anos. Os seus cabelos são como ninhos de andorinha. Está sempre a rir e a mexer as mãos e os pés.
Ângelo é pequeno mas muito forte para os seus onze anos. Um dia, conseguiu mesmo levantar uma bicicleta. Está sempre descalço. Caminha sem dificuldade sobre as pedras. Canta as canções escritas por aqueles que viajaram e viram muitos países. Canta muito bem, o Ângelo.
Ana é a mais bem-comportada. Não fala muito. Tem doze anos, tal como Clara, que conheceu há muitos anos naquele sítio, diante do banco.
Por vezes, Lúcia, Ângelo e Ana vão trabalhar na produção do algodão. Outras vezes, varrem as ruas. Ou então, os pescadores chamam-nos à praia para puxarem as redes. Depois, encontram-se, sonham em conjunto, com o nariz no ar, a olhar para as nuvens e a contar os dias até quinta-feira.
Ângelo, Lúcia e Ana têm muitos amigos na rua. Alguns respiram uma cola contida em garrafas de plástico, o que os faz sorrir sem razão nenhuma.
Quando Clara encontra os amigos, vão todos a correr para a praia. Atiram areia à cara uns dos outros. Cantam a cantiga Pescadores dos três mares e comem o pão que os turistas lhes dão. Lúcia, Ângelo e Ana não querem daquela cola que faz esquecer os problemas.
Eles têm Clara. Clara é a mercadora de sonhos. Não é que os venda realmente; em vez disso, dá-os de prenda.
Clara sonha muito alto com lugares maravilhosos. Praias compridas e douradas, com barcos, papagaios de papel e papagaios de verdade.
Montanhas encantadas cobertas de gelo e criaturas estranhas, onde sopra um vento mágico, do norte. Um vento que te adormece e te acorda cem anos mais tarde.
Cidades futuras cheias de luz. De carros que voam e de parques de estacionamento floridos. E de um fogo de artifício feito de pequenos comboios brilhantes, de pizzarias e de arranha-céus espelhados.
E Clara fala-lhes de um Rio sem adultos, onde só há crianças gentis e alegres, que têm os dentes todos. Que saltam sobre os carros e invadem as lojas de bombons.
Ela oferece-lhes vales inteiros de árvores carregadas de frutos, com quatro sóis amarelos no meio do céu e com camponeses ricos, vestidos de comerciantes.
E Clara transforma os monumentos antigos da cidade em palácios das Mil e Uma Noites, e os gatos que passam em tigres da Malásia.
Clara conta os seus sonhos durante horas.
Ela estudou quatro anos na escola e lê todos os livros que encontra.
Agora, é tarde. Clara levanta-se, sacode a areia das mãos e volta para o orfanato. Os amigos escutaram-na, boquiabertos. Riram e choraram. E os olhos deles arregalar-se-ão de novo na próxima quinta-feira.
Para eles, não há cola.
Eles têm Clara.
E muitos sonhos bons para viverem ainda…
(Beatrice Alemagna
Le trésor de Clara
Paris, Autrement Jeunesse, 2000
traduçao e adaptação)

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

O AVÔ LOP

       
                                  No fundo da floresta dos sonhos há uma densa moita. Os ramos entrelaçam-se bem no alto e formam um guarda-chuva verde e viçoso, que protege dos aguaceiros de cristal do início de Abril e de Maio todos os seres que ali vivem. A chuva cai durante uma ou duas horas e, depois, o sol, com os seus raios dourados, escorre pelas folhas até ao chão. Foi nesta moita que brincaram e viveram os coelhos da floresta durante toda a vida. Havia coelhos com grandes rabos fofinhos, coelhos quase sem rabo – pequenos, gordos, magros, peludos – e um coelho muito velhinho chamado Avô Lop.O Avô Lop era tão velho que há já muito tempo o seu pêlo embranquecera. Usava um velho cachecol à volta do pescoço e andava sempre com um pau nodoso que lhe servia de bengala.Todas as tardes, por volta das duas ou três horas, o Avô Lop sentava-se no seu tronco preferido a desfrutar do calor do sol. Sentava-se em silêncio até que – sem que se apercebesse – todos os coelhinhos pequenos se juntavam aos seus pés. Eles bem tentavam ficar calados, mas era-lhes tão difícil que alguns até tinham de meter as orelhas na boca para não se rirem.O Avô Lop recostava-se no tronco, olhava em volta e começava, numa voz muito suave e baixa:— Em tempos que já lá vão, no país da névoa e das coisas mágicas, havia uma floresta encantada…À medida que ia contando a história, muito devagar, algo de estranho e maravilhoso acontecia. O Avô Lop começava a endireitar-‑se cada vez mais. A luz do sol incidia nos seus olhos castanhos e deles emanava, em raios cintilantes, para toda a floresta. Até o seu pêlo reluzia.Enquanto ele contava a história, os coelhinhos ficavam completamente deslumbrados, porque, de um momento para o outro, o velho Avô Lop transformava-se no Mago da Floresta. Os coelhinhos estavam tão fascinados pela história, que nem davam conta de ela chegar ao fim. O Avô tinha de dizer:
— Agora é tempo de irem, coelhinhos. E lá regressavam eles, aos saltinhos, à moita da floresta.Mas os coelhos mais velhos foram ficando cada vez mais preocupados com os pequeninos. Certo dia, depois de eles terem desaparecido como de costume, os coelhos mais velhos reuniram-se.
— Aonde é que eles irão? — perguntavam uns aos outros. — Desaparecem todos os dias à mesma hora.
— Aposto que saem para ir ver aquele velho e inútil Avô Lop — disse um deles. — Só sei que não andam a fazer coisa boa! Conversaram e frasearam durante algum tempo e decidiram que, mal os coelhinhos voltassem nessa tarde, iriam descobrir exactamente o que estava a acontecer. À hora do costume, os coelhinhos regressaram e, como combinado, os coelhos mais velhos perguntaram-lhes onde tinham estado.
— Bem — disse um — fomos à floresta ver o Avô Lop e ele contou-nos a mais maravilhosa história da floresta. E enquanto a contava, aconteceu a coisa mais mágica e maravilhosa: o Avô Lop transformou-se no Mago da Floresta!
— Eu sabia! — disse um dos coelhos mais velhos, encolerizado. — Aquele coelho velho só conta mentiras aos miúdos.
— Mas é verdade! — protestaram os coelhinhos em coro. — Quando ele nos conta histórias, aparecem sempre estrelas e faíscas. É magia!
Os coelhos mais velhos pularam para o lado e falaram em surdina uns com os outros, olhando de vez em quando por cima do ombro. Finalmente, regressaram, zangados, para junto dos mais novos e disseram:
— Achamos que vocês estão a mentir, porque não existe magia. Por isso, vão já para a cama sem jantar e daqui para a frente estão proibidos de tornar a ver esse Avô Lop!
Com as lágrimas a correrem dos olhos, os coelhinhos arrastaram-se até às suas camas. Tinham o coração pesado e o estômago muito vazio.
No dia seguinte, como de costume, o Avô Lop sentou-se no seu tronco preferido a apanhar sol e à espera de que os coelhinhos aparecessem. Fartou-se de esperar e deve ter mesmo passado pelo sono, porque acordou, sobressaltado, quando o sol estava já a pôr-se. Para seu espanto, não havia coelhinhos nenhuns à sua volta.
“Se calhar esqueceram-se”, pensou, “mas de certeza que amanhã se vão lembrar”. Dito isto, partiu a manquejar em direcção à sua toca na floresta.
No dia seguinte, e no outro, foi um Avô Lop entristecido que esperou e esperou pelas crianças, que nunca mais apareciam. Por fim, já desesperado, foi, aos saltos, até à grande moita do bosque, à procura de algum sinal dos coelhinhos.
À medida que caminhava pelo carreiro sinuoso, fortemente apoiado na bengala, encontrou um dos coelhos mais velhos.
— Bom dia! — saudou, inclinando a cabeça hirtamente. — Ando à procura dos coelhinhos do bosque. Costumava contar-lhes histórias, sabe, mas eles deixaram de vir.
— Pois ainda bem! — grunhiu o coelho grande. — Tudo o que aqueles coelhinhos aprenderam consigo foi a mentir e a inventar histórias.
O Avô Lop ficou chocado.
— Mas eu nunca lhes ensinei a mentir — disse. — Só lhes contei as maravilhosas e mágicas histórias do bosque!
— Pois já não vai contar mais nenhuma — disse, irritado, o coelho, enquanto saltava de novo para dentro da moita.
Foi um Avô Lop muito mais triste e envelhecido que regressou à sua toca na floresta, com uma lágrima a descer-lhe pelas bochechas.
Sem nada com que ocupar agora os dias, o Avô Lop vagueava sem destino pela floresta. Ainda chegou a ir uma ou duas vezes à grande moita da floresta, mas, assim que aparecia, os coelhos mais velhos conduziam os coelhinhos para o lado oposto.
— Vai-te embora! — gritavam-lhe então. — Não queremos coelhos velhos na nossa moita.
E, com isto, todos os coelhos fugiam precipitadamente para as suas tocas.
Completamente sozinho, o Avô Lop deixava a moita e voltava para o seu canto do bosque.
Os coelhinhos-bebés fizeram o que lhes mandaram, mas não conseguiam esquecer os sortilégios do Mago da Floresta. Às vezes, quando estavam todos sozinhos, costumavam segredar o quanto tinha sido divertido. Mas, a maior parte das vezes, arrastavam-se pela moita, levantando a poeira e sentindo-se muito tristes.
Os coelhos mais velhos tentavam animá-los e até lhes contavam uma história ou outra, mas não era a mesma coisa.
As coisas pioraram tanto que os coelhinhos começaram a discutir uns com os outros. Começavam por um encontrão mas acabavam sempre num emaranhado de braços, pernas e orelhas a lutar no chão.
A certa altura, como alguns dos coelhos mais velhos já não aguentavam mais, reuniram os coelhos todos.
— Isto tem de acabar — disseram. — Com lamúrias e disputas não se consegue fazer mais nada. Já não se vai buscar comida, já não se constroem novas tocas e o Inverno está a chegar.
— Se ao menos pudéssemos ouvir as histórias mágicas do Avô Lop — disse um dos coelhinhos — já não arranjávamos mais problemas.
— Mas a magia não existe! — disseram, zangados, os coelhos mais velhos. — Vocês mentiram.
— Nós não mentimos! Nós dissemos a verdade e, se tivessem vindo connosco, ter-lhes-íamos mostrado que a magia existe mesmo.
Os coelhos mais velhos pensaram por uns instantes e decidiram:
— Vamos convosco visitar esse Mago da Floresta, só para vos provar que a magia não existe.
E lá seguiram todos, aos saltinhos, pelo longo e sinuoso carreiro da floresta, até chegarem ao tronco onde o Avô Lop esperava sentado. Estava, como sempre, a apanhar sol, e a contemplar tranquilamente o céu. Os coelhinhos sentaram-se aos seus pés, num ápice, enquanto os coelhos mais velhos se acomodavam, cépticos, num cepo velho e apodrecido.
O Avô Lop reclinou-se para trás e, com um brilho nos olhos, começou, numa voz suave e baixa:
— Há muito tempo, numa terra de névoa e magia, havia uma floresta encantada…
Os coelhos mais velhos arregalaram os olhos de espanto ao verem o Avô Lop endireitar-se cada vez mais. À medida que ia contando a história, a luz do sol como que emanava dos seus olhos castanhos e faíscas de magia começavam a cintilar por toda a floresta. Enquanto contava a história, o seu pêlo passou de branco a prateado e transformou-se no verdadeiro Mago da Floresta.
Quando a história chegou ao fim, um maravilhoso fim, todos os coelhos, novos e velhos, estavam completamente encantados. A beleza do momento era tal que alguns dos coelhos mais velhos tinham lágrimas nos olhos.
Ninguém disse uma única palavra com o medo de quebrar aquele encanto. Mas, um a um, todos se aproximaram do Avô Lop e abraçaram-no com todo o amor que tinham no coração.
Os coelhos mais velhos nunca pediram desculpa pelo mal que tinham feito aos coelhinhos e ao Avô Lop, porque todos sabiam que, às vezes, até os mais velhos cometem erros. Mas agora, todos os dias, à mesma hora, os coelhos saltam da moita e correm a ouvir o Avô Lop e a vê-lo transformar-se no Mago da Floresta.
"Escutem os mais velhos, E as suas histórias douradas; E lembrem-se do Avô Lop E das magias reveladas".
(Stephen Cosgrove
Grampa-Lop
Los Angeles, Sloan Publishers Inc., 1981
tradução e adaptação)

terça-feira, 9 de agosto de 2016

VIAGEM ATRAVÉS DO SOL.

    Uma criança sentou-se na tarde agreste e pintou o sol. A sala onde a criança estava ficou iluminada e fresca. Depois, a criança misturou as tintas, a água, o sonho e, num grande cartão, lentamente, foi erguendo prados, lezírias, florestas, aves, flores inesperadas. Então, chamou a irmã que a um canto assistia à criação deste mundo original e disse: «Vamos fazer uma viagem!»
E entraram os dois com seus olhos e sua imaginação pela tela dentro, alheios ao espanto de quem os contemplava nesse itinerário súbito da tarde de frio.
Misteriosamente, trocavam palavras de silêncio, encontravam- se com anões, gigantes e animais estranhíssimos, metade homens, metade bichos que, ora os assustavam, ora os desvaneciam.
A certa altura a menina disse:
— Vamos chamar a mamã?
E o menino respondeu:
— Não podemos. É muito alta. Não cabe nestes caminhos: ia pisar tudo e estes bichinhos ficavam tristes. Muito tristes.
A mãe, imóvel numa cadeira, ali mesmo à entrada desse lugar impenetrável e inacessível, ouvia o diálogo e tentava fazer-se pequenina para ir com eles. Mas não conseguia. Esforçava-se imenso e não conseguia. Tinha uma grande vontade de chorar por estar ali sozinha à beira daquele milagre mas as lágrimas não lhe adiantavam. Entretanto, os meninos, sempre a caminhar, tinham chegado ao mar. Era um mar sem abismos, sem ondas, sem temporais. Um mar susceptível de ser atravessado pelos pés levíssimos de quem o descobria.
— Vamos ao fundo deste mar! — disse a menina.
— Cá em cima é mais fresco. Lá em baixo há peixes grandes e escuros. Mordem, os peixes.
— E a mamã? — insistia a menina, já perturbada pela lonjura a que devia estar de casa, perturbada pelo bibe molhado, aflita com as algas verdes que se lhe colavam ao rosto.
— Levamos-lhe uma flor do mar. Ela fica contente se tem uma flor.
— Vamos já embora? — tornava a menina.
— Não. Só quando formos muiiiiiiito velhos.
A menina calou-se. Estava séria. Estendeu-se ao lado do irmão na areia branca daquela praia tranquila e distante.
Sentia-se muito cansada e adormeceu.
Então, amorosamente, o irmão tapou-a de folhas e flores imaginárias e ficou ali a velar-lhe o sorriso.
Quando reparou na mãe, estremeceu ligeiramente. Tinha os olhos brilhantes e, dos cabelos, escorria-lhe um perfume a sol e azul.
Sobre a tela, encostada a um armário, a noite começava a diluir em sombra toda a floresta, e o dorso dos animais marinhos erguia-se também numa respiração tranquila.
Maria Rosa Colaço
Não Quero Ser grande
Lisboa, Ed. Escritor, 1996

sábado, 6 de agosto de 2016

QUEM SEMEIA VENTOS, COLHE... INCÊNDIOS.

     Numa aldeia russa, vivia um camponês chamado Ivan. Estava bem na vida. Era o melhor trabalhador da aldeia e tinha três filhos saudáveis, que também eram bons trabalhadores. O seu velho pai era o único na família que não podia trabalhar, mas cuidavam dele muito bem. Tinham tudo o que precisavam para comer e vestir, e teriam sido felizes se não fosse o vizinho de Ivan, Gavrilo, o coxo. Ivan e Gavrilo detestavam-se.

Tinham sido bons amigos até ao dia em que algo acontecera – algo de tão ridículo e insignificante! Uma galinha que pertencia à filha de Ivan pôs um ovo no pátio de Gavrilo. Todos os dias, a galinha punha um ovo no galinheiro.
Quando a filha a ouvia cacarejar, ia buscar o ovo. Mas, daquela vez, os rapazes tinham assustado a galinha e esta tinha saltado a vedação. A filha de Ivan estava ocupada nesse dia e só foi buscar o ovo à noite. Não conseguiu encontrá-lo e os rapazes disseram-lhe onde o procurar. Foi então a casa do vizinho e encontrou a mãe de Gavrilo.
— O que queres, rapariga?
— Avó, a minha galinha esteve hoje no seu pátio. Não pôs lá nenhum ovo?
A velha pensou que a filha de Ivan estava a acusá-la de ter pegado no ovo e respondeu-lhe torto.
— Não lhe pus a vista em cima. Nós temos as nossas galinhas e já há muito tempo que elas andam a pôr.
Apanhamos os nossos ovos e não precisamos dos ovos dos outros. Ó rapariga, não precisamos de ir para os pátios dos outros apanhar ovos!
A filha de Ivan não gostou nada do que ouviu. Respondeu desabridamente, e a mãe de Gavrilo foi ainda mais desabrida. A mulher de Ivan passou por ali (tinha ido buscar água) e, nesse momento, a mulher de Gavrilo saiu de casa. Começaram todas a falar ao mesmo tempo, a ralhar e a insultar-se. Depois vieram os maridos, que tomaram o partido das respectivas mulheres e começaram à pancada. E Ivan, que era mais forte, feriu Gavrilo, o coxo.
Gavrilo levou o caso ao tribunal da aldeia, declarando que queria que Ivan fosse castigado. Quando o pai de Ivan ouviu isto, falou com firmeza.
— Rapazes, vocês estão a fazer uma asneira. Pensem bem! Tudo começou por causa de um ovo. Um ovo não vale muito. Há que chegue para todos. Foram ditas muitas palavras incorrectas; agora mostrem como se dizem palavras simpáticas. Façam as pazes e acabem com tudo isto. Se persistirem no erro, será cada vez pior.
Mas Ivan e a família não o escutaram. Pensavam que o velho estava a dizer disparates. Em vez de fazerem as pazes, Ivan foi a tribunal e tentou que Gavrilo fosse punido por lhe ter rasgado a camisa enquanto discutiam por causa do ovo.
Depois disso, os vizinhos discutiam todos os dias e sempre por motivos mesquinhos. Foram a tribunal tantas vezes que o juiz já estava cansado de os ver. E assim continuaram durante seis anos.
Por fim, a filha de Ivan acusou publicamente Gavrilo de roubar cavalos, e Gavrilo bateu-lhe de tal forma que a deixou de cama durante uma semana. Desta vez, o caso era mais sério e, quando Ivan levou o caso a tribunal, o juiz deu ordem para que Gavrilo fosse chicoteado. Era uma forma muito dolorosa de punir as pessoas culpadas. Quando Gavrilo ouviu o que iria acontecer-lhe, ficou tão branco e protestou tão veementemente que até o juiz teve medo e pediu a Ivan que lhe perdoasse e desistisse do caso. Mas Ivan não cedeu e foi para casa dizer ao pai que Gavrilo iria finalmente ser castigado.
— Ivan — disse o velho — não estás a proceder correctamente. Vês a maldade dele mas esqueces-te da tua. Jesus ensinou-nos algo de diferente. Se te insultam, mantém-te calado. Se te baterem, oferece a outra face. Faz as pazes com ele. Não é tarde demais para evitares que ele seja castigado, e o convidares para jantar, a ele e à família.
Como Ivan não se mexesse, o pai continuou:
— Não te demores, Ivan. A tua raiva é como o fogo. Apaga-a no início porque, se ela começar a alastrar, não poderás controlá-la.
Ivan começava a entender o que o pai queria dizer. Preparava- se para ir fazer as pazes quando as mulheres chegaram e disseram que Gavrilo estava tão zangado que ameaçara pegar fogo à casa. Então, Ivan ficou outra vez furioso, como se ele próprio estivesse a arder, e não desistiu do castigo de Gavrilo.
Nessa noite, Ivan lembrou-se do que Gavrilo dissera a propósito de atear um incêndio. Ficou tão perturbado que saiu para inspeccionar o pátio. Caminhou lentamente ao longo da vedação. Tinha acabado de virar a esquina quando lhe pareceu que algo se mexera na outra ponta, algo que se teria erguido e voltado a baixar. Ivan ficou quieto. Escutou e olhou: estava tudo sossegado; apenas o vento agitava as folhas do salgueiro e a palha. Estava escuro como breu mas os seus olhos habituaram-se à escuridão. Continuou a olhar, mas não viu ninguém.
— Devo ter-me enganado — disse Ivan — mas vou ver.
Avançou tão devagar que nem os próprios passos ouvia. Chegou à esquina e parou. Conseguia ver claramente alguém, com um boné na cabeça e agachado de costas para ele, a pegar fogo a um feixe de palha que tinha nas mãos. Ficou imóvel.
“Agora”, pensou, “não vai escapar-me. Vou apanhá-lo com a boca na botija.”
De repente, tudo se iluminou. A chama lambeu a palha no barracão e saltou para o telhado. Já não era um pequeno fogo. Ivan conseguiu ver Gavrilo e correu para ele. Mas Gavrilo fugiu e, apesar de coxo, correu como uma lebre. No entanto, Ivan ainda conseguiu apanhá-lo pela aba do casaco. Só que a aba rasgou-se, Ivan caiu e magoou-se na cabeça. Quando se levantou, Gavrilo tinha fugido. O incêndio era tão forte que parecia dia em vez de noite. Ivan conseguia ouvir os bramidos e a crepitação no seu pátio. Foi então que viu a palha a arder em direcção à casa.
Ivan tentou apagar o incêndio. “Se ao menos conseguisse tirar a palha para fora do barracão e apagar o fogo!”, pensou. A princípio, os seus pés não se mexiam. Depois, tropeçaram um no outro. As pessoas vinham a correr, mas já nada podia ser feito. Os vizinhos retiravam as coisas de suas casas e mandavam sair o gado. Depois da casa de Ivan foi a vez da de Gavrilo se incendiar. Levantou-se um vento que levou o fogo para o outro lado da rua. Metade da aldeia ficou reduzida a cinzas.
Tudo o que se salvou da casa de Ivan foi o velho pai, que fugira para uma parte distante da aldeia. Quando Ivan foi vê-lo, o velho comentou:
— Que te disse eu, Ivan? Quem incendiou a aldeia?
— Foi ele, pai. Apanhei-o. Se ao menos tivesse apanhado o pedaço de palha e o tivesse tirado para fora, nada disto teria acontecido.
— Ivan — perguntou de novo o pai — de quem é realmente a culpa?
Ivan fitou-o. Depois, lembrou-se de como tinha magoado Gavrilo em primeiro lugar, e de como não tinha ido fazer as pazes com ele enquanto ainda era tempo.
— A culpa foi minha, pai — disse. E calou-se.
Em seguida, o velho disse-lhe:
— Ivan.
— Sim, pai.
— O que deves fazer agora?
— Não sei, pai. Como posso continuar? Tudo o que tinha ficou queimado.
— Vais conseguir. Com a ajuda de Deus, vais conseguir. Mas lembra-te, Ivan, não deves dizer a ninguém que foi Gavrilo quem começou o fogo. Se não disseres, Deus perdoar-vos-á a ambos.
Ivan assim fez e ninguém descobriu como o fogo começara.
Depois, Ivan começou a ter pena de Gavrilo. E Gavrilo, por sua vez, ficou surpreendido por Ivan não ter dito nada. A princípio, tinha medo de Ivan, mas depois começou a sentir-se mais à vontade. Os homens deixaram de discutir, e as famílias também. Enquanto reconstruíam as casas, viviam todos juntos, e quando a aldeia foi finalmente reconstruída, Ivan e Gavrilo permaneceram vizinhos. E foram sempre amigos.
Ivan nunca se esqueceu do que o pai lhe dissera sobre apagar um fogo logo que ele começa. Se alguém lhe falava duramente, ele respondia com gentileza. A pessoa ficava envergonhada e não havia discussão. Assim, Ivan foi mais feliz do que nunca, e ninguém na aldeia teve tantos amigos como ele.
"Com certeza, se vivo fosse, Tolstoi 
que escreveu a peça, teria me contado".
(M. Clark; E. Briggs; C. Passmore
Lighting candles in the dark
Philadelphia, FGC,2001
tradução e adaptação)

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

O HOMEM QUE PINTOU O COELHO.

      Era uma vez, na longínqua China, um homem cuja ocupação preferida era pintar. 
Pintava pássaros. Pintava lebres. Pintava os peixes no ribeiro.
Os vizinhos e os amigos e todas as crianças da aldeia elogiavam-no e diziam:
— Os animais que pintaste parecem mesmo verdadeiros.
O homem tornou-se orgulhoso. E pensava:
— Ninguém no mundo consegue pintar animais como eu. O meu desejo era que os meus animais ganhassem vida.
Então, os animais pintados ganharam vida.
Os pássaros abriram as asas. Os peixes agitaram as barbatanas. As lebres espetaram as orelhas e farejaram com os seus narizes.
E saltaram para fora dos desenhos.
— Oh! — disse o homem satisfeito.
Mas, ao olhar com mais atenção, assustou-se. Os pássaros batiam as asas pesadamente e não se aguentavam no ar.
Os peixes, que tinham saltado para o ribeiro, nadavam de barriga para cima.
As lebres coxeavam.
O homem chorou ao ver os pobres animais. E disse:
— Não os pintei suficientemente bem. Que o meu desejo só se realize quando eu souber pintar bem.
O homem recomeçou a pintar. Começava de manhã cedo até à tardinha.
Afadigava-se como um lavrador no campo, como um trabalhador numa pedreira, como um boi à frente do carro. Quando os vizinhos o elogiavam, meneava a cabeça.
— Ainda não está suficientemente bem — dizia.
O homem foi envelhecendo. Esqueceu o desejo que tinha. Desenhava o sol e, enquanto desenhava, alegrava-se por ele existir. Desenhava as pedras e, enquanto desenhava, alegrava-se por elas. Tornou-se o pintor mais famoso do país.
O seu jardim estava cheio de crianças que o observavam enquanto pintava, e ele mostrava-lhes como eram lindas as coisas.
Um dia, uma menina abeirou-se dele e disse-lhe:
— Estou triste, e sabes porquê? Todos os outros meninos têm animais que podem acariciar e amar. Só eu é que não. Gostava tanto de ter um coelho. Podes desenhar-me um? Ao menos fico com um desenhado…
O velho homem pegou no pincel e desenhou um coelho. A menina disse:
— Faz-lhe uma mancha preta no nariz. Assim, fica exactamente como eu queria.
O velho homem desenhou uma mancha preta no nariz do coelho e sentiu que o nariz ganhava vida.
O nariz farejou. As orelhas compridas espetaram-se e um tremor percorreu-lhe o pêlo. O coelho virou a cabeça para a menina e, com um grande salto, pulou do desenho para os seus braços.
A menina encostou a cara ao pêlo macio.
— Que coelho tão lindo e amoroso! — disse. — Obrigada!
E saiu dali com o coelho, a correr tão contente, que nem uma só vez se voltou para o velho. Este ficou sentado à sua mesa, quieto e feliz, como se tivesse adormecido.

(Lene Mayer-Skumanz (org.)Jakob und Katharina
Wien, Herder Verlag, 1986
tradução e adaptação)

domingo, 31 de julho de 2016

CHIU, O REI ESTÁ OCUPADO!

     Num grande e poderoso reino, vivia um rei muito ocupado. Passava a vida entre os seus papéis e ninguém lho censurava. — São os assuntos do reino – murmurava ele.
Este rei muito ocupado era pai de um menino que tinha o direito de subir para os joelhos do pai cinco minutos de manhã e cinco minutos à noite. Depois do que, o rei muito ocupado logo parava de fazer “cavalinho, cavalinho” e murmurava com ar sério: — Os assuntos do reino, meu filho.
Um dia, o principezinho desenhou um lindo avião a jacto. E quis que o pai também visse o desenho.
— Chiu! — disse a rainha. — O rei muito ocupado encontra-se no seu escritório da sala oeste. Está a tratar dos assuntos do reino.
Num outro dia, o principezinho aprendeu com o velho jardineiro do castelo a podar as roseiras. Foi um trabalho árduo, com arranhaduras e tudo, e ele quis mostrá-lo ao pai.
— Mostra-mo a mim — disse a rainha, que estava sempre muito satisfeita e sorridente. — Adoro rosas, mesmo com espinhos.
— Não, quero mostrá-lo ao rei – disse o principezinho, que achava que a mãe ia forçosamente gostar do seu trabalho, e que assim não tinha piada.
— O rei muito ocupado está no escritório, na ala oeste. Assuntos do reino — respondeu-lhe tristemente a rainha.
Foi assim que o principezinho cresceu, dispondo, em cada dia, de dez minutos paternos. Muitas vezes, punha-se a reflectir e perguntava-se o que se passaria de tão importante na sala oeste do reino. Imaginava o rei com uma montanha de cadernos diante dele, a fazer somas de oito algarismos, multiplicações enormes. Imaginava também o telefone a tocar e o pai a responder:
— Alô Moscovo? Daqui Pequim (ou o contrário). Três milhões? Sim, compro.
E o menino ficava muito impressionado quando pensava que o pai não ousava ultrapassar com ele os dez minutos diários.
O principezinho tinha muito bons resultados na escola, mas, por vezes, era bastante insolente. E o professor não estava satisfeito. Advertiu o rei, que enviou então uma carta ao filho:
Querido príncipe,
Se não começar de imediato a obedecer ao seu professor, a sua insolência será gravemente punida. Não pode ocupar-se dos assuntos do reino quem não obedece às leis.
Com amizade e os melhores cumprimentos,
o rei seu pai.
O principezinho julgou que era uma linda carta e pô-la diante da sua secretária. Lia-a muitas vezes, porque significava que o rei muito ocupado tinha dedicado ao menino cinco minutos do seu tempo a escrevê-la. Mas, estranhamente, as palavras não lhe penetravam no coração. E continuou insolente na escola.
Num outro dia, o principezinho decidiu ir à ala oeste do castelo. Apareceu com a sua mega-pistola laser ultra-ruidosa, pôs-se atrás da porta e fez “blip, blip, blip”, “zigu, zigu, zigu”, “schlak, schlak”! Do outro lado da porta, foi a confusão generalizada.
— O que se passa? Um ataque aéreo? Depressa, terroristas! Alerta vermelho!
E, quando deitaram a porta abaixo, encontraram um rapazinho com uma pistola.
— Aí está o terrorista! — gritou o rei muito ocupado.
— Agarrem-no! Neutralizem-no!
— Não, não, sou o seu filho de seis anos — disse o príncipe. — Venho vê-lo por um motivo da mais alta importância. Quero jogar uma partida de flipper consigo.
O rei muito ocupado possuía, apesar de tudo, alguma lucidez, e deu-se conta de que tinha passado toda a vida na ala oeste do palácio, a ponto de, durante seis anos, só ver o filho dez minutos por dia, e ainda por cima na obscuridade da manhã e ao cair da noite. E eis que tinha confundido o principezinho com um terrorista!
Levantou-se e disse aos seus ministros:
— Suspendemos a reunião. Um assunto da maior urgência chama-me junto do meu filho. Queiram desculpar-me.
E foi então jogar um flipper dos diabos no café em frente.
Foi assim que, graças ao falso ataque terrorista, passou a haver regularmente partidas de flipper, passeios e discussões entre pai e filho. E juro-vos que os assuntos do reino não foram descurados por isso.
Chegou então o dia em que, quando o filho completou vinte anos, o velho rei alquebrado e cheio de cabelos brancos, passou da ala oeste para a ala este, preparada para o seu repouso.
Foi a vez do principezinho, muito jovial, ocupar a ala oeste e se tornar o Rei muito Ocupado Júnior.
O velho rei, no seu quarto, olhava com nostalgia os papéis e os dossiers do reino e folheava-os muitas vezes, com saudades do tempo em que era jovem e poderoso.
Muitas vezes ia deambular para a ala oeste, onde o jovem rei muito ocupado tratava dos assuntos do reino. Mas diziam-lhe:
— Chiu! O Rei Júnior está a trabalhar!
Então, colava a orelha à porta, ouvia o ruído do papel, um bip bip, e uma voz longínqua falar ao telefone. E dizer “Alô Moscovo? Daqui Paris”, ou talvez o contrário.
Então, o velho rei alquebrado e com os cabelos todos brancos sentava-se num pequeno banco no corredor e esperava.
Uma vez por dia, o jovem rei muito ocupado saía da ala oeste para jogar uma partida de flipper com o pai. Quando digo flipper… quero apenas dizer uma partida de xadrez, uma pequena conversa, um passeio pelo jardim para podar as roseiras, e outras coisas da mais alta importância.
Durante os passeios, o velho rei não cessava de lembrar, em jeito de balanço, aquele famoso ataque terrorista numa tarde de Novembro. E não parava de repetir (porque já era bastante idoso):
— Ah, como tiveste razão! E como somos patetas, nós, os reis muito ocupados, quando pensamos que, se não trabalharmos vinte e quatro horas por dia, e até mais, nos assuntos do reino, este pode desaparecer, e nós com ele!
E olhava muitas vezes para os cabelos do filho, cheio de admiração:
— Como são bonitos os teus cabelos pretos! Como são brilhantes os teus olhos! Como és um bom rei!
O velho rei alquebrado e de cabelo todo branco suspirava ao pensar no seu antigo poder. Mas não era um suspiro de tristeza, porque se sentia muito orgulhoso do filho, que ia suceder-lhe. E ambos sorriam em silêncio, olhando juntos o pôr-do-sol sobre o reino.
(Irmela Wendt
Jutta Modler (org.)
Brücken Bauen
Wien, Herder, 1987
tradução e adaptação)

quinta-feira, 28 de julho de 2016

A BATALHA DE NATAL.

        — Só mais seis dias — constata Neli, tentando em seguida assobiar Noite Feliz.
— Ainda seis dias — repete a mãe pensativamente.
A voz não soa alegre. Após uma curta pausa, prossegue, suspirando. – Se tudo tivesse já passado!
Com o assobio suspenso no ar, Neli olha para a mãe com ar estupefacto.
— Então não estás contente?
— Sim, mas já estou pelos cabelos com esta agitação toda!
Como Neli não tem aulas à tarde, vai patinar com uma amiga e, mais lá para a noite, dirige-se ao supermercado onde a mãe trabalha. Há tanto movimento que mais parece estar-se numa colmeia. A mãe encontra-se sentada numa cadeira giratória diante de uma das seis caixas registadoras. Os produtos chegam-lhe num tapete rolante e, enquanto a mão direita está pousada no teclado e marca os números, a mão esquerda roda os produtos de forma a poder ler os números, e, em seguida, coloca-os, produto a produto, no carrinho de compras. Quando acaba de marcar tudo, a mão direita carrega na tecla do total e rasga o talão, enquanto a esquerda afasta o carro cheio e puxa o próximo, vazio, para junto dela.
— Que bem que fazes isso — dissera-lhe Neli uma vez. — Eu faria tudo devagar, assim: tipp… tipp … … e, ainda por cima, metade saía mal.
— Ora — dissera a mãe a rir. — É uma questão de treino. Quando comecei, também não era assim tão despachada. Não encontrava a etiqueta com o preço, e muitas vezes carregava nas teclas erradas e as pessoas resmungavam porque tinham de esperar. Mas agora já quase consigo fazer isto automaticamente.
— Como um robô! — Neli riu-se.
Um robô como mãe? Nunca teria dor de cabeça, nem à noite estaria tão cansada. Mas um robô não tem coração. Por isso, Neli prefere a mãe tal como é, mesmo quando certas noites quase nem consegue falar de tão cansada que está!
Só mais quatro dias.
Só mais três.
As filas nas caixas eram cada vez mais longas. As pessoas abastecem-se de comida como se o Natal durasse meio ano. Com um ruído sibilante, as portas automáticas abriam-se e fechavam-se, abriam-se e fechavam-se. A mãe sentia nas costas a corrente de ar e os cartões pendurados no tecto balançavam de um lado para o outro.
Um sino de Natal, por cima da cabeça da mãe tinha escrito a vermelho:PROMOÇÃO: Bombons, 250 gr, a preço especial.
Próximo, balançava um anjo de papel com uma faixa nas mãos, como nas igrejas, mas onde não estava escrito Paz na terra aos homens de boa vontade, mas sim Fiambre para o Natal a 15,80/Kg.
Os altifalantes pingavam música de Natal:
Noite feliz…
Cabeça de anho
Noite feliz…
Café suave
Papel higiénico de três folhas
O Senhor …
Lenços com monograma
Mostarda
Nasceu em Belém…
A mãe gemia e, com um movimento rápido, limpava o suor do lábio com as costas da mão. Os clientes, impacientes, esperavam, apoiando-se ora numa, ora na outra perna. De olhar ausente, nem olhavam para a senhora da caixa, pensando no regresso com os sacos pesados, o eléctrico cheio.
Uff!
Só mais três dias, e acaba tudo.
— Vou fazer um jantar como o do ano passado — disse à noite a mãe, virando-se para a Neli — Peru assado com a laranja e batatas assadas e, como sobremesa, rabanadas e bolo-rei.
No dia 24 de Dezembro, a loja só estava aberta até às quatro horas da tarde. Em seguida, os empregados podiam comprar, com um desconto de 15%, os produtos que sobravam. A mãe de Neli achava que valia a pena, por isso tinha guardado as compras maiores para essa altura: uma pasta escolar para Neli, uma boneca, lápis de cor, um anoraque para o pai, a comida para a ceia de Natal.
Na sala do pessoal, havia um lanche para todos os empregados.
— A batalha de Natal foi mais uma vez vencida — repetia o chefe do pessoal. Dizia, depois, mais umas palavras elogiosas e eram servidos pãezinhos com fiambre e um copo de vinho.
Após o lanche, a mãe de Neli deixou ficar os gordos sacos de compras esquecidos na sala do pessoal. Só reparou quando já estava na paragem do autocarro. “As minhas prendas! Todas aquelas coisas boas para a ceia!” – pensou assustada.
Mas a loja já estava fechada e, antes do dia 27, não se voltava a lá entrar. Foi de mãos vazias que chegou a casa.
Nessa noite, apesar de tudo, festejaram o Natal. O pai acendeu as velas da árvore de Natal e Neli recitou um poema. Só se lembrou das duas primeiras estrofes e depois encravou, mas a mãe achou-o muito bonito e o pai nem reparou que ainda continuava. O jantar foi mais curto do que o planeado. Por sorte, a mãe já tinha comprado o assado e havia batatas em casa, mas não houve entrada nem sobremesa. Trincaram simplesmente nozes e comeram maçãs.
— Assim, não fico com o estômago tão pesado como no ano passado — disse o pai. — Comidas pesadas não me assentam bem.
Também não havia muito que desembrulhar.
Por isso, sobrou tempo. Muito tempo.
Neli foi buscar o jogo Memory que recebera no Natal anterior. Durante o ano inteiro, esperara, em vão, todos os domingos, que alguém tivesse tempo para jogar com ela.
Agora, os pais tinham tempo.
O pai nunca tinha jogado Memory. Ao fim de algum tempo, Neli já tinha encontrado sete pares de cartas, a mãe três, e o pai, que geralmente quer ganhar sempre, procurava constantemente no sítio errado.
Tentava ajudar-se com truques, pondo, sem ninguém dar conta, migalhinhas de pão em cima das cartas que tinha decorado, ou pousava as mãos na mesa, de tal forma que o polegar indicava a direcção em que estava uma determinada carta. Neli descobriu-lhe a jogada. Jogaram mais duas ou três vezes e o pai não se zangava por perder sempre. Depois, ainda jogaram o jogo do assalto.
À meia-noite, o pai apagou a luz e ficaram a olhar pela janela. A neve reflectia uma luz clara e ouviam-se os sinos a tocar.
— A esta hora, há quase dois mil anos, nasceu Jesus — disse a mãe, e Neli reparou como ela afinal sempre estava contente por ser Natal.
Ao ir para a cama, Neli disse:
— Este foi um Natal muito bonito.
— A sério? — perguntou a mãe admirada. — Mas não houve ceia nem prendas quase nenhumas.
— Mas houve muito tempo — respondeu Neli.
(Jutta Modler (org.)Brücken Bauen
Wien, Herder, 1987
Tradução e adaptação)

segunda-feira, 25 de julho de 2016

BACH NA CASA DE CORRECÇÃO.
(Em solo português)

        
    Uma caixa grande de violoncelo assemelha-se bastante a um caixão, pelo que, à medida que eu transportava a minha pelo Central Juvenile Hall (Centro de Detenção Juvenil) de Los Angeles, ia atraíndo muitas atenções. Dirigia-me à capela após ter sido convencido a tocar para uma audiência de jovens reclusos pela Irmã Janet Harris, que coordenava as actividades de voluntariado. O projecto que mais a entusiasmava era um programa de escrita criativa que ela própria ajudara a criar e no qual eu começara recentemente a colaborar como professor. Os meus alunos eram IARs, ou «infractores de alto risco», que estavam acusados de homicídio ou assalto à mão armada e aguardavam ali o respectivo julgamento. 
De alguma forma misteriosa, a Irmã Janet soubera que eu tocava violoncelo nos meus tempos livres e pediu-me para dar ali um pequeno concerto. Tentei recusar, recordando-me ainda da última vez que tocara para um grupo de miúdos: fora numa festa de anos e o aniversariante pontapeara a ponta do meu instrumento, declarando que o violoncelo era estúpido e que só o acordeão conseguia ser mais aborrecido.
— Irmã Janet — disse eu — já alguma vez foi a uma festa de alunos de uma escola em que a música clássica fizesse parte do programa? Pode ser uma péssima ideia…
— Ah — respondeu ela, sorridente — mas isso seria numa escola. Os nossos rapazes jamais se comportariam assim.
Após passar por um labirinto de vedações de arame, cheguei a um edifício com uma cruz no telhado. Sobrepondo a minha voz ao ruído da música que saía de um amplificador lá de dentro, apresentei-me a alguém que trazia a identificação ao peito e um walkie-talkie. Folheando um caderno com o programa, o homem disse-me então: — O próximo é já você!
Levou-me depois para o gabinete do capelão, onde pude retirar o meu violoncelo da caixa e fazer o aquecimento para a minha actuação.
— Quando o chamarmos, vá por aquela porta, que lhe dará acesso directo ao palco — explicou-me o homem.
Quando ele saiu, decidi abrir só uma nesga da porta e espreitar para a sala. Tinha curiosidade de ver qual o tipo de actuação que antecedia a minha. E vi que era um grupo de hip-hop, com a música muito alta a sair dos amplificadores, ao som da qual a audiência de prisioneiros se abanava e batia as mãos. Um dos elementos da banda era uma jovem muito atraente, com calças de ganga justas e uma camisa que lhe deixava o umbigo à mostra. Embora ela não cantasse e a forma como usava a pandeireta denotasse pouco treino, um simples olhar sobre aquele público só de homens confirmou-me que a estrela daquela actuação era ela.
Fechei a porta e afundei-me na cadeira do capelão. «Incomodo?», perguntou uma voz atrás de mim. Era a Irmã Janet.
— Acho que não foi boa ideia pôr-me a tocar — disse-lhe.
— Porque não?
— Ouça o que está a acontecer ali dentro! Estão a bater o pé e a dançar que nem loucos, e isso só por verem a rapariga de biquini, já para não falar da música. Consegue imaginar o balde de água fria que vão ter quando eu entrar ali dentro?
— Têm lá uma rapariga de biquini? — perguntou a Irma Janet.
— Não está em biquini mas quase. Isto não vai resultar.
— Tenha um pouco de fé! — instou ela.
Às duas horas em ponto, o som dos amplificadores foi desligado sem cerimónias e o grupo saiu do palco. Ao contrário do que acontece noutros concertos, em que as pessoas aplaudem e gritam bis no final de uma actuação, o público ali teve de permanecer calmo e sentado. Mas ninguém estava com um ar satisfeito.
Um homem com uma peruca mal colocada percorreu o corredor desde lá de trás por entre os bancos, virou-se para o público e leu em voz alta: — E agora o Sr. Salzman, que vai tocar violoncelo. — Depois, voltou por onde viera e saiu da capela.
O silêncio que se instalou na sala enervou-me de tal maneira que não consegui ver a plataforma mais elevada do palco e caminhei direito a ela e tropecei, entrando em cena a cambalear para não cair. Por um triz consegui evitar a queda, utilizando o violoncelo como se fosse uma vara de esqui, ou seja, apoiando firmemente a extremidade do braço do instrumento no chão e saltando para o lado do público. Não fora minha intenção fazer uma entrada à Buster Keaton, mas foi isso que aconteceu, e os reclusos acolheram-me com uma sonora gargalhada e uma salva de palmas.
Demorei um pouco a começar para lhes explicar que quase tudo aquilo que viam no violoncelo (à excepção das cordas de metal e do pino da extremidade do braço) já tinha feito parte de coisas com vida: a parte superior fora retirada de um abeto, a parte posterior, de um carvalho silvestre (com os seus veios escuros semelhantes à pele de um tigre), o descanso para os dedos, de um ébano, o arco, de um pau de quire com pêlos de cauda de um cavalo, e as peças de marfim, de um dente de um mamute conservado na tundra congelada durante dezenas de milhares de anos. — Quando tocamos este instrumento — concluí — trazemos todas essas peças novamente à vida.
Entretanto, esgotei os factos que pouca gente sabe sobre os violoncelos, e disse aos rapazes que a primeira peça que iria tocar para eles, O Cisne, de Camille Saint-Saëns, me fazia sempre pensar na minha mãe. Comecei então a tocar. Com aquele tecto elevado, paredes nuas e chão duro, a capela fazia o som ressoar como que numa banheira gigantesca. O violoncelo soava divinamente naquela sala, o que me entusiasmou, até que a dada altura ouvi uma espécie de murmúrio entre o público, o que me trouxe de volta para a realidade. Os miúdos estavam aborrecidos, tal como eu previra.
O som aumentou de intensidade. Não era bem o som de inquietação, mas também não eram sussurros. Olhei então para o público e vi uma sala inteira de rapazes com as lágrimas a correrem-lhes dos olhos. Aquilo que eu ouvira não fora mais do que o som de fungar e assoar – que é música para os ouvidos de qualquer músico!
Toquei o resto da peça como nunca até então tocara na minha vida, e quando terminei, a ovação foi ensurdecedora. Era o sonho de um violoncelista medíocre a tornar-se realidade! Para a minha peça seguinte, escolhi uma sarabanda de uma das suites de Bach, pela qual os rapazes me recompensaram com mais aplausos. Nessa altura, alguém gritou: — Toca a das mães outra vez! — E a ideia foi imediatamente aclamada por todos. Compreendi então que fora a evocação da figura materna que os comovera daquela maneira.
Toquei novamente O Cisne, um pouco mais de Bach, e O Cisne uma terceira vez. Quando o homem da peruca assinalou o fim do tempo para a minha actuação, os jovens assobiaram-no. E depois deram-me uma ovação final!
Mark Salzman
Selecções do Reader’s Digest
Outubro 2004

sexta-feira, 22 de julho de 2016

O PRÍNCIPE QUE GUARDAVA OVELHAS.


     Trazia as duas ovelhas para o retalho de campo, ainda sem casas, liberto de muros. Nenhum cão o acompanhava. O seu amor e o seu cuidado bastavam a tão pequeno rebanho. Malhada e Ladina vinham na dianteira e o príncipe seguia-as rodando um arquinho, que uma gancheta de arame tocava, manso e fácil. Mal eram chegados, deitava-as a pastar, tirava a gancheta de arame ao arquinho e com ele armava uma coroa, que lhe cingia a testa e a palha, loira, dos cabelos. Depois sentava-se numa pedra, alta, seu trono. E reinava sobre urzes, cardos, giestas, borboletas, gafanhotos, lagartixas e seixinhos do campo verde. As ovelhas davam volta ao reino como a um redondel de circo, baliam, faziam tilintar os chocalhos, cabriolavam, tosavam erva e tojo. 
O príncipe vigiava-as cumprindo as recomendações de sua mãe, pois a mandado dela ali vinha. Mas a grande preocupação do seu coraçãozinho era quebrar-lhes o encanto. Qual seria a princesa? Malhada ou Ladina? Sim, porque uma delas princesa seria por força. Mas qual? Em vão se interrogava, escutava o ramalhar do vento, o canto dum pássaro, o silêncio das flores da urze, do tojo ou da giesta, o pulsar quente e húmido da terra, esperando qualquer socorro que o ajudasse a desvendar o segredo. Malhada era tão meiga! Vinha lambê-lo. Parecia querer falar. Dizer: – «Sou eu, sou eu». Mas seria? E Ladina tão arisca e desdenhosa? Era com certeza ela, castigada, a pobrezinha! E abraçava-a. Impossível decidir. Para consolar e esquecer aquela tortura construía, com pedras miúdas, estradas sinuosas, sem fim, que se perdiam nos tufos rumorejantes. Procurava joaninhas de vestido às pintas, que lhe passeavam as costas da mão e depois recolhia na palma, antes de, com o vento do seu sopro, lhes desfraldar as asas e as lançar no espaço, verde, do campo. Jogava ao berlinde com bichinhos de conta que se enrolavam, de propósito, para brincar com ele. E às vezes cortava uma palhinha de giesta para apanhar um grilo, que se deixava colher e, breve, voltava à liberdade das suas asas, pois todos eram livres no reino verde. Era tão bom ouvir o risinho do cri-cri guizalhar na tarde! Nada, porém, o fazia esquecer das ovelhas. Chamava-as: 
–– Malhada! Ladina! 
E tirava a coroazinha da cabeça para a experimentar nas suas amigas, que se impacientavam e lha atiravam ao chão. 
Recusavam-no? Temia o príncipe. Não e não. O que não podiam era dar-lhe indícios, revelar-lhe como havia de lhes quebrar o encanto, era o que era. Sozinho teria de o fazer. 
Mas como? Mas quando? O sol começava a rasar a copa das árvores da estrada. As lagartixas, fartas de soalheiro, sumiam-se. E um ventinho vindo do mar, desprendia as borboletas pousadas no tojo ou na giesta levando-as na dianteira, como pétalas soltas. Eram horas de partir, de abandonar o reino verde, bichos, flores e pedras. 
Então o principezinho, para que ninguém fizesse troça ao vê-lo atravessar a cidade com duas ovelhas, tirava a coroazinha da cabeça e enfiava-a na gancheta de arame. 
E seguindo o arco tocava Malhada e Ladina, antes que se acendessem as candeias, pequeninas, das estrelas.
(Luisa Dacosta, também do Porto, contou-me no ano de 2002 esta história que, segundo me disse, não passava de verdade).

quarta-feira, 20 de julho de 2016

CANÇÃO PARA DIRCEU.

      Nós morávamos num rés-do-chão com quintal, ali para os lados da Granja das Malvas, à beira da cidade nova. Morávamos, mas já não moramos. Deram em construir prédios de muitos andares, onde dantes só havia hortas e casinhas baixas, como a nossa, e vai daí a Granja das Malvas, cimentada e alcatroada, ficou irreconhecível. Parece que já nem assim se chama. A nossa velha casa foi abaixo. A mim custou-me, principalmente por causa do quintal, que tinha um tanque ao fundo, meia dúzia de árvores de fruto e uma latada ferrugenta. Não andaria muito estimado o nosso quintal, confesso, mas sinto-lhe a falta. Viemos estrear um desses apartamentos, que anunciam nos jornais. Para mudar de ares, nós, que sempre tínhamos vivido rente ao chão, escolhemos um sétimo andar com vista para o rio. É o que nos vale. A mesma opinião não terá o Dirceu. Descontando a Marília, coitada, que nem tempo teve para se habituar às alcatifas da casa nova, o Dirceu foi o que mais se ressentiu com a troca. Dirceu e Marília, o nosso casal de cágados, que o infortúnio separou, acompanharam com indiferença os preparativos da mudança, supondo talvez que todos podiam abandonar o rés-do-chão do quintal menos eles. Sempre se tinham arrastado por ali, sobre as velhas tábuas e o musgo dos canteiros, e nem sequer imaginavam que o mundo pudesse ser maior do que um quintal sombrio. Quando os meteram num caixote, juntamente com sapatos fora de uso, embrulhados em papéis velhos, devem ter ficado chocados com a desconsideração, o que se entende. Um par de cágados de nodosa casca, um nobre casal, sempre muito juntinhos ambos, obrigados a ter por companhia botas velhas e sapatões estalados era uma vergonha irreparável. Se as primas tartarugas, de casta e casca seculares soubessem da desfeita, não perdoariam. Por nós nunca o saberão. É que nos sentimos culpados.
Depois de muitos solavancos, foram desencaixotados numa das divisões por arrumar. Os dois cágados demoraram a pôr a cabeça de fora. Estranhavam os cheiros, o piso e a balbúrdia daquilo tudo. Para que lado ficaria o quintal? A Marília, mais afoita, pôs-se à procura. Chegou-se até à varanda, onde já tínhamos poisado uns vasos com hortênsias, sobrantes da outra casa. A paisagem pareceu-lhe familiar. Sendo assim, o quintal não estaria longe. Muito a custo, enfiou a carapaça pelo intervalo entre o chão da varanda e a grade do parapeito. As patas da frente nadaram no vazio, e o peso mais a pressa que trazia impeliram-na para a frente, sem remédio…
Foi para nós um grande desgosto. Haverá quem diga que os cágados são pouco sociáveis. Engana-se. O Dirceu e a Marília davam pelo nome. Estendiam o pescoço, como se quisessem alçar-se até à nossa altura, e, olhando-nos de esguelha, por pouco que não perguntavam: “Vocês, aí em cima, o que querem?” As mais das vezes, eles é que queriam. Comida, por exemplo, de preferência saboreada dentro de água, em intermináveis sessões de natação no tanque do quintal. Se não andavam na vida deles, talvez a jogar às escondidas pelo meio dos vasos, seguiam os nossos passos pela casa, cloc-cloc-cloc, como tamancos chineleiros. Desta feita, ficou o tamanco sem par. Não havia meio de fazer entender ao Dirceu o que sucedera. Pusemos umas tábuas de resguardo na varanda e procurámos ocupar-nos com as nossas tarefas. Ajeitar o recheio de uma casa antiga numa casa moderna dá muito trabalho. Para o Dirceu eram alterações a mais. Desaparecera-Ihe a companheira, tudo se transformara à sua volta. Andava estonteado, a escarafunchar por entre os papéis amarrotados, as roupas a monte, as pilhas de livros. Desta vez a Marília abusara do jogo das escondidas, julgaria o Dirceu. Assistíamos ao desespero dele sem saber como ajudá-lo. Cobríamo-lo de mimos. Banhos de banheira, carne da melhor… Mas tudo o que interrompesse as suas pesquisas era tempo perdido. O Dirceu enfastiava-se dentro de água e perdia o apetite. — Está a preparar-se para hibernar — calculámos. A nossa experiência dos outros anos ditava-nos este supor. De facto, quando as árvores do quintal se punham a tiritar, por culpa do vento que lhes arrancava as folhas, os dois cágados sumiam-se. Em que esconderijo se isolavam para resistir ao Inverno, de que forma conseguiam sobreviver sem sustento, meses a fio, era para nós um mistério. Ao primeiro despontar da Primavera nos ramos das árvores do quintal, apareciam-nos, fazendo de conta que tinham andado em viagem esse tempo todo. Ainda um pouco zonzos, mas esfomeados, devoravam tudo o que lhes trazíamos. Pudera! Pois neste último ano, já eu tinha andado à procura das botas para a chuva, aliás, sem as encontrar, já o meu pai tinha arrumado a ventoinha na caixa donde tirara o calorífero, já a minha mãe desdobrara os cobertores para arejar, e o Dirceu naquela azáfama sem nexo, de uma divisão para a outra, batendo com a carapaça nas esquinas do corredor, tão desnorteado e ansioso que metia aflição. 
— Ele hiberna e passa-lhe o desgosto — dizia o meu pai, não sei se muito convencido. Mas não havia maneira do nosso Dirceu hibernar. De olhitos espantados por trás das pregas da pele, parecia um velho dolorido, inconsolável. 
— Mais dia, menos dia, ele hiberna — dizíamos uns para os outros, para nos tranquilizarmos. Preparamos-lhe refúgios confortáveis, na despensa, num armário do corredor, debaixo do fogão da cozinha. Tudo inútil. O Dirceu não se cansava de correr ao retardador pela casa toda.
— Isto é uma maluquice minha, mas se uma canção de embalar o acalmasse, palavra que era capaz de cantar-lhe aquela que te punha muito mansinho ao meu colo, quando andavas com as birras dos primeiros dentes — dizia a minha mãe. Enterneci-me. E fiquei a magicar. Garanto-vos que passei uma noite de insônia às voltas com uma cantiga que, de propósito, distraísse, acalentasse o Dirceu. Tenho pouco jeito para versos, hão-de desculpar-me.
No dia seguinte, trouxe-o para a sala, estendi-me no chão e cantei-lhe baixinho esta lengalenga: 
Uma velha tartaruga 
muito velha 
toda às rugas
diz que a casa
onde ela mora
não se vende
nem se aluga.
Ela é velha
e é casmurra.
Tem uma casca
muito dura,
tem uma casa
muito escura,
mas é dela
onde ela mora
onde dorme
bem segura
ao comprido
e à largura.
Haja frio,
haja neve,
haja vento
lá por fora,
que na casa
onde ela mora
a botija
que ela adora
é o calor
que ela evapora,
haja frio,
haja neve,
haja vento
lá por fora…
Fosse a fugir da cantilena ou fosse do que fosse, a verdade é que Dirceu se libertou das minhas mãos e, no seu andar cambaleante e pensativo, saiu da sala. Não voltámos a vê-lo neste Inverno. Ou melhor: vi-o eu, há dias, quando, finalmente, encontrei as minhas botas. Estavam esquecidas na arrecadação da marquise, dentro do caixote tombado, que derramara para o meio do chão sapatos fora de uso e papéis velhos. Ia arrumar aquela tralha, quando avistei, na zona obscura do caixote, a casca imóvel do Dirceu. Parecia uma pedra, mas uma pedra onde latejasse um minúsculo coração entorpecido. Entorpecido? Vai-se lá saber como funciona o coração de um cágado…
(Esta história foi a mim contada em 2004 por, Antônio Torrado, um tripeiro português da época do meu cunhado também nascido no Porto. (Quem nasce no Porto é chamado de tripeiro).

quinta-feira, 14 de julho de 2016

JOGO DA VIDA.

     Fred deve ter tossido quando a bola de Marcelo explodiu no seu peito e foi cair no pé do Neymar que marcou o mais bonito gol da rodada.  Deve ter doído, mas certamente doeu mais no coração dos japoneses com o arremate que culminou numa bela pintura.  Aí, duzentos milhões de brasileiros gritavam de alegria enquanto outros dois milhões de japoneses que aqui trabalham e criam seus filhos  lamentavam seu próprio fracasso.  Os comentaristas vibravam narrando os lances, mas como não se vestir com as cores da bandeira para alegrar aqueles que os ouvem se são pagos para isso?   Antes de ganhar de presente o celular de última geração que sua mãe lhe dera, minha filha também era assim.  Sabia o nome dos jogadores e suas posições no campo e não importava a seleção que pertencia.  Assim foi com o jogo, Itália e México.  Espanha e Uruguai e Nigéria e Taiti.  O Taiti,  que perdeu para a Nigéria por seis a um, nos levou às lágrimas quando marcou o seu gol, coisa que a minha filha e o resto do mundo achavam impossível, a não ser que um milagre acontecesse, mas de repente, eis que o milagre acontece.  Aos nove minutos do segundo tempo, Jonathan Tehau - um jovem que trabalha como entregador em seu pais - escorou de cabeça um cruzamento vindo da batida de um escanteio e marcou o gol do Taiti.  Do seu Taiti. Do seu país, quiçá da sua vida.  Este gol não abalou os nigerianos que venceram a partida, mas a vibração que causou nas arquibancadas e a comemoração entre os seus jogadores que simulavam remar um barco aludindo o esporte mais popular do seu país – a canoa polinésia – foram estes o motivo do choro da minha pequena e do meu.  Nesse mesmo momento o técnico taitiano, Eddy Etaeta, que não se continha, tamanha a sua felicidade,  corria, dava pulos esmurrando o ar como se aquele gol desse à sua pátria a vitória que a humildade e a gentileza do plantel tanto merecia.

terça-feira, 12 de julho de 2016

UM GESTO DE AMOR.

- 1 -
Um filho que tinha oito anos abraçou a mãe dizendo que ela era a melhor mãe do mundo inteiro. Ela  achou graça e sarcasticamente respondeu perguntando como ele sabia disso se não conhecia cada mãe que existe no mundo inteiro. O filho apertou mais ainda o abraço e respondeu; - sim, eu sei. Você é o meu mundo.
- 2 -
Quando abriu a loja de flores naquele dia o dono viu que um soldado do exército 
que ia para o aeroporto com destino ao Afeganistão, onde ficaria por um ano, o aguardava fazia tempo. Perguntado sobre o que queria o soldado respondeu que tinha por hábito levar flores para a esposa toda sexta-feira e para não deixá-la triste durante o tempo em que estivesse fora pretendia encomendar, para as próximas 52 sextas-feiras, um buquê para cada uma, até que ele voltasse. O dono da loja deu a ele um desconto de 50%, até porque ganhara o dia vendo algo assim tão doce.
- 3 -
Estava num banco de praça quando um casal de idosos parou o carro sob um carvalho as margens do rio a dez metros de si. Baixaram os vidros das janelas por onde se ouvia o jazz que tocava no rádio. Em seguida o homem saiu do carro, deu a volta para o lado do passageiro, abriu a porta para a mulher, pegou sua mão e com mesura de um cavalheiro ajudou-a a sair. De braço dado levou-a cerca de cinco metros longe do veículo aonde dançaram por aproximadamente meia hora na sombra da árvore.
(O jeito de contar é meu. As histórias, não).

sexta-feira, 8 de julho de 2016

UM LINDO CASO DE AMOR...

       No interior do estado o povo festejava o dia de ação de graças e não poderia ter existido um dia mais propício para o encontro daqueles dois.  Seu nervosismo era latente, por isso chegou tão cedo ao local combinado. Só não sabia que entre os que vagavam pelo labirinto das barraquinhas alguém há muito esperava por ela. Jamais tinham se visto, e só se conheciam através das redes sociais.  Não tardou até que se encontrassem.  Enquanto ele se punha de pé, estático, ela, perdendo totalmente a compostura, se atirou na cintura dele que a fez girar em torno dele. Depois lhe tascou um beijo na boca com tanta vontade que excitou até o padre que a tudo assistia.   Ela parecia estar possuída, fora do eixo, ao passo que o sujeito curtia a festa como se fosse a do seu aniversário.  Era ele um cara de sorte principalmente quando tocou no corpo e beijou a boca de quem habitava seus sonhos fazia tempo.   Um beijo roubado na frente de todos dava a ela a certeza de sua pegada. Depois se deram as mãos e saíram em busca de um canto onde pudessem conversar.   Durante a caminhada ela o examinava nos mínimos detalhes e em certos relevos se deixava ficar olhando.  Principalmente nos maiores, se é que me faço entender.
O cara pensou em discutir a diferença entre suas idades, mas achou melhor se calar. Os tempos já não eram os mesmos e a sociedade tinha mais com que se preocupar, pois o que importava na verdade era que tivessem um bom relacionamento – pensava ele quando se lembrava do assunto. Dali seguiram para a casa dela onde seus parentes os aguardavam. Ninguém reparou na idade dele, mas para que não cometessem nenhum desatino a garota fez questão de dizer que o encontro era amigável e que não esperassem nada de sério da parte deles.  Tanto sabia do que estava falando que em tempo nenhum foi interrompida ou contrariada naquilo que dizia. Depois vieram outros encontros  e por entenderem que um era a metade da laranja do outro resolveram juntar suas tralhas.  A cama era o ponto de encontro do casal.  Sempre que estavam em casa corriam para a cama em busca do prazer. 
Uma cirurgia, no decorrer do período, se fez necessária e durante a convalescença, fazer amor estava fora de cogitação, como a ele disse o médico, mas quem estava aí para o que ele dissesse?  Durante as noites a temperatura subia e no calor da irresponsabilidade, mesmo depauperado, o sujeito se entregava à habilidade da moça num sexo louco, quase bonito. 
      Hoje, gozando da melhor saúde e de todas as facilidades que a vida moderna oferece a frequência já não é tão grande. Amadureceram, cresceram em praticamente tudo.  Afinaram suas ideias, investiram no que pensam ser necessário e viajam aos lugares mais distantes e mais bonitos. Vivem hoje como num conto de fadas trocando abraços e beijos quando lhes é possível, mas, nada mais, além disso.  Eu acredito que já não fazem amor com a mesma pegada de antes, embora o sentimento da parte dele continue num crescente avassalador, enquanto ela já não sente tanta graça naquilo que ele faz. Em vários momentos o cara pensou  que o amor dela por ele tivesse acabado, ou que ela se arrependeu de tê-lo conquistado.  Choroso pelos cantos acredita que não viveria sem o atrevimento dos carinhos que por sinal escasseiam a cada dia, assim como há muito não se vê provocado por um olhar malicioso, um cruzar de pernas pretensioso que os levava à cama quase sempre. 
- Enfim, vamos deixar que o tempo os ilumine, porque só ele tem o poder da modificação.   Se tiver de mudar para melhorar, que mude, caso contrário, que mudem os dois ou se acovardem para sempre.

segunda-feira, 4 de julho de 2016

EU EM VOCÊ...

    Depois de cortejada se deitou de costas ao jugo de quem a ela tudo prometia. Carinhos, palavras sussurradas e alguns beijos apressados de cujos lábios sentia lamberem seu pescoço, seu colo e ao pé dos seios rendeu-se a um longo gemido.  Eram beijos gulosos que comiam, que devoravam e sem resistir se viu sem forças, entregue ao mais puro e louco dos desejos. Beijos vorazes no dorso da mão, ao longo do pescoço, no colo, no bico intumescido dos seios e, por fim, um grito, não de pavor, medo ou de dor, mas de qualquer coisa que o corpo talvez até suportasse, mas tal qual sua alma, desabrochou todas as flores.  Ali se consumou o ato e antes que o suspiro final ele ouvisse, vestiu-se o homem e foi embora deixando estirado, morto, um corpo satisfeito no momento, mas em breve, muito breve dessa overdose ele quisesse mais. Seria sonhador se a maioria das histórias não tivesse desfecho parecido.  Enquanto um se vai depois da glória da conquista o outro fica moribundo de saudade. A boca que calou com os sonhos da mentira era a mesma com a qual sonhara desde os tempos de menina. Era linda de ser vista e doce de ser beijada. Quando dizia o seu nome era a coisa mais romântica que já tinha ouvido. Olhos, de cuja cor jamais se esqueceria, principalmente por terem nocauteado os belos verdes dos seus na primeira vez que se cruzaram. Enquanto isso ele sumia na esquina distante, talvez, buscando por outras, como eu, a quem se entregará com garbo e elegância até o momento de tê-la inerte, mas realizada, ao longo de uma cama de qualquer motel - delirava olhando no espelho do teto o reflexo do seu estado. 
Precisava ir embora, mas talvez ficasse um pouco mais, já que levaria consigo a certeza de que o sabor da mulher cortejada, da mulher enfeitiçada e possuída, estava agora, dentro da boca dele.