sexta-feira, 20 de julho de 2018

COISAS DE ANJO.

     
     Antes da curva  acenei a quem me fizera tão bem naquele dia tão angustiante da minha vida. Até beijo eu  joguei, mas não deu sinal de que tivesse visto. Talvez porque a distância fosse curta para quem tinha passos largos e grande de mais para quem tem vista curta.  Aquela foi a primeira e a única vez que nos vimos. Enquanto eu era um pobre carente de um ombro ela era um ente enviado de Deus.  Talvez não fosse um ser comum como a gente, porém bastante especial a ponto de ofuscar minhas vistas com o brilho de sua luz. Quem sabe não seria ela um anjo, um Arcanjo ou um Querubim, quiçá  Serafim?  O nome talvez não fosse assim tão relevante se o bem que fizera não nos surpreendesse - diriam os que comentaram o assunto. Felizmente o sufoco passou sem deixar sequela que se notasse, eu, inclusive, me atrevo a dizer que já estou pronto para outra. Estou pronto uma vírgula, até porque um raio não cai duas vezes no mesmo lugar.  Pensando assim foi que decidi abrir minha correspondência e responder aqueles que me viram às portas de me tornar o bobo do Rei ou o cavaleiro da rainha. Na segunda hipótese eu teria de ter língua grande para lamber-lhe os pés.
Quando voltava da viagem que fiz à pracinha eu contei na estrada empoeirada o número de pegadas que deixara na ida e as comparei com o da volta, aonde concluí que gastei mais sola na ida do que gastei retornando ao ponto de partida. -Era o peso do fardo que carregavas, teria dito Teresa Dias, ou os pecados que confessastes àquela santa, retrucara Smareis que me viu curvado quando parti e empertigado na volta.
Não bastasse o cansaço e o sofrimento ainda tive que responder as pessoas que me mandavam mensagem de carinho.  A primeira foi  um carismático português com quem comentei sobre o assunto.  Quanto a moça bonita que todas as manhãs me deseja bom dia eu falei de flor, de lua e estrelas, de sonhos e de amor, ao passo que ela, meio sem jeito me dissera que corara com aquelas palavras.    E foi assim, entre perguntas e respostas, que vi o comentário de quem se identificava como a pessoa que mais sabia da minha vida embora não dissesse seu nome.  Na hora até pensei que se tratasse de homem, mas diante do que falou eu tive certeza de que era uma doce e bondosa mulher e não fosse a caixa de mensagem e nem no escritório eu teria dado as caras.  Ficaria sem saber da mulher que certamente mudará o ritmo das minhas melodias.   Ai eu me pergunto; será que a velhinha quis dizer alguma coisa que tivesse a ver com ferida mal cicatrizada e eu não notei? Sim, porque se ela me disse alguma coisa através do olhar eu não sei, haja vista que eu só apareci por lá para falar de mim e não para ouvir o que os olhos da velha pudessem dizer.

segunda-feira, 16 de julho de 2018

A PRAÇA.


      

    Andei muito a procura de uma arma com a qual combatesse o sentimento que tomou meus pensamentos e a minha tranquilidade de assalto. A minha esperança era encontrá-la no mercado ou perderia a vontade de sair, de comer e de dormir como vinha acontecendo. Era como aquilo, tipo o que os estudantes, as mocinhas de tenra idade e os loucos e inconsequentes sentiam quando se apaixonavam. Pelo menos era o que eu achava, mas pelo visto não é. Como é que eu, que não me preocupava com essas coisas, a não ser com meus filhos e com aqueles que contam comigo, fui cair nessa? Está na cara que não fiquei esperando a resposta cair no meu colo, por isso saí à caça. Pensei muito enquanto caminhava e foi assim, sem saber aonde estava indo que cheguei tão longe. Antes, enquanto eu caminhava teve um instante em que eu precisei sentar para descansar. Estava exausto. Três horas andando não é para qualquer um, mas não pensem que me sentei à beira do caminho porque o Erasmo já estava lá. Por isso, entre tantos lugares naquela lonjura,  eu tivesse escolhido a pracinha. Meu Deus, como era longe.  Era tão longe que nem mesmo no mapa devia constar. E acreditem, seria mentira se eu confessasse ter planejado aquela viagem, até porque, era cedo quando me levantei, tomei café e saí para dar umas voltas e foi sem perceber que comecei a caminhada. A princípio com passos de tartaruga e na medida em que o corpo esquentava eu ia apertando o passo. Quando vi já estava correndo e foi correndo que ouvia as bobagens que falavam. É claro que correndo não se entende o que dizem, mas sei que o papo que rola entre os que fazem caminhada não tem nada de sério. Continuei correndo até sumir na poeira. Não sozinho, como afirmei, mas acompanhado dos meus bons e maus pensamentos. Dos bons eu só falo se for bem das pessoas, enquanto os pensamentos maus são os que me derrubam da vaidade  que as mulheres que eu tive juram que tenho.  E foi naquela pracinha, longe do mundo e de tudo, que eu pedi licença a uma velhinha para sentar ao seu lado e contar tudo o que não tinha coragem de dizer para o meu analista. Abri todas as portas e todas as janelas do meu coração para essa mulher. O bom foi que ela ouvia sem me interromper.  Aliás, ela, em nenhum instante abriu sua boca, ao passo que eu não fechava a minha. Falei um montão. Falei dos meus medos,  dos meus sonhos e dos pesadelos, como falei do amor que me tomou de assalto e quase foi morto se essa velhinha não tivesse aparecido quando mais precisei. Permaneci ao seu lado por uma boa hora e meia e quando percebi que o mundo que eu carregava havia rolado das minhas costas foi que me levantei, beijei suas mãos, que sem dizer uma palavra, me viu sumir na poeira de volta à casa.

sexta-feira, 13 de julho de 2018

O BOBO DO REI.

       As sandálias rasteiras e o longo disfarçando a silhueta era o que se podia ver da criatura que tal qual a brisa que lambe a cara e me desalinha os cabelos  passa sorrindo para onde o queixo aponta. Pegadas, de pés que alicerçam a obra e mal tive o privilégio de ver, somem com o passar do vento.  Das pernas, que a sombra da seda branca encobre, talvez não soubesse tanto pois certamente me matariam se eu as tivesse visto.  
Tudo o que a mim foi possível ver me excitou, e o que a seda escondia não só conta o que a minha imaginação faz questão de criar como me escala para coadjuvar a história.  Olhos de melaço, cabelos de areia, seios de menina pintada de bronze pelo sol agudo do posto 6, pensamentos de mãe de pós-parto. Ela é assim, e  foi assim, desfilando a incógnita da mulher  perfeita que cruzou meu caminho como se nascida com essa intenção tivesse. Até atrasou a passada como se a intenção de instigar com seus olhos de melaço de cana os demônios dos meus ela quisesse. A guerra da mulher desejável  e o Gigante, que depois que a conheci, já não era tão grande, estava por fim declarada.  Gigante da verdade, de paz e de coerência, ora se prostra aos pés da mulher  que despretensiosa o enfeitiça com  voz segura de quem sabe o que fala, enquanto, curvado aos encantos da feiticeira ele mente, imposta a voz e nega a felicidade que sente.  Era o desespero de quem não podia sucumbir na primeira batalha.  Não tivesse o bobo da corte contado à princesa a mesma piada que contara à rainha e ela, sorrindo, talvez o escolhesse para seu cavalheiro, mas não.  Acabou denunciado pelo rei aos guardas que o jogaram no calabouço úmido da indiferença onde, condenado por plágio da própria obra,  morrerá de amor e de vergonha, com ela no pensamento.

segunda-feira, 9 de julho de 2018

UMA CABINE PRA DOIS.

       Quase um ano eu morei num lugar apertado, mas tão apertado,  
que parecia a cabine telefônica da minha rua.  Só que o sacrifício valia a pena porque tudo o que é necessário à sobrevivência de quem depende de ajuda havia ali ao alcance da mão.  Talvez o lugar não fosse tão apertado assim, até porque cabine telefônica não tem tudo a tempo e a hora como tem a de um Boeing e aquela era  aconchegando e moderna. Por isso a minha gratidão a mulher que me proporcionava essa coisa, inclusive viagens a lugares diversos sem que eu precisasse sair antes da hora, é tão grande.  Devo a ela pelo que fez por minha saúde e pela minha vida.  Esse tipo de relação nos aproximou de tal modo que até seus amigos acabaram se apaixonando por mim e foi graças a esse sentimento que me calei quando vi que foi ela quem procurou o sujeito que a pôs deitada e tocou  os seus seios.  Até entre as pernas eu vi que buliu.  Só não sei se foi por covardia que virei a cara para não ver o que faziam ou foi por achar que ela, como senhora do próprio nariz, sabia bem o que estava fazendo.  Muitas vezes me calei quando chamaram a sua atenção ou lhe falavam coisas com as quais não concordava ao invés de sair em sua defesa.   Outras vezes eu a vi cochichando,  mas poucas fiquei sabendo com quem e sobre o que cochichava.  Na última vez que eu a ouvi cochichar ela acabou chorando quando a pessoa lhe disse que as dores eram normais e que só passariam quando chegasse o momento, mas precisava esperar o sinal o que só dias depois aconteceu.  Na hora me deu uma vontade danada de dar uma voadora em quem provocou suas lágrimas, mesmo eu não sabendo se era qualquer homem, um médico ou uma cozinheira.    
Ultimamente andavam dando força para ela. Enquanto umas desejavam sorte outras falavam coisas que eu não entendia. Uma vez uma velha lhe deu uma bronca tão grande que eu pensei que ela fosse morrer com aquilo.  Era sobre uma ultrassonografia que deveria ter feito naquele dia, mas por medo ela fez que esqueceu.    No Boeing onde morava eu sabia de tudo. Até conheci muitos lugares, só não sei se tão lindos como ela falava.  Mas acho que eram, porque havia  risos e muitas vezes eu escutava coisas lindíssimas a respeito e mesmo que eu não concordasse acabava achando  lindo também.  Durante o tempo que morei lá eu não dei opinião sobre nada.  Talvez por delicadeza ou por não saber como me expressar, mas, será que se eu soubesse eu teria coragem de discordar de alguém?  Acho que não.  Hoje, tantos anos depois eu me vejo numa casa tão grande, mais tão grande que sou capaz de me perder aqui dentro, mesmo assim eu sinto saudades daquela cabine.  Aí eu me pergunto, Será que enquanto eu estava no Boeing, que era a sua barriga, mamãe foi tão feliz quanto eu que vivia ali dentro?

sexta-feira, 6 de julho de 2018

SOZINHO A DOIS

     
      Talvez pela pouca idade não me atrevesse a pedir para sair com ela, mas se eu não me atrevo, como saberei se ela aceita ou não?  Tem vez que me dá uma vontade danada de perguntar se ela me enxerga como homem, que estou prestes a me tornar, ou ainda como o moleque que até pouco tempo corria atrás de pipa.   Enquanto não encontro coragem para buscar tal resposta vou dividindo a cama com as garotas da minha sala e outras que, por se acharem mais interessantes do que verdadeiramente são, nem bola me dão.  Mesmo assim eu as levo comigo.   Ontem, como faço desde que me conheço, eu fui me deitar sozinho.  Sozinho fisicamente, porque os melhores pensamentos jamais me abandonam nesses momentos. E foi assim que eu me deitei naquela noite, sem pecado que eu por ventura tivesse cometido, mas também sem promessas de não cometê-lo em um dado momento. Sem medo porque eu sei que se deitará comigo no instante em que o pano da escuridão cair sobre a terra e eu abrir mão do sono. Então bastará que eu feche meus olhos para que as pesadas portas da fantasia se abram. Portas que dão para o salão aonde todas as noites me deixo levar para dançar. Dois para lá, dois para cá. Um passo para a frente e dois atrás. Depois giro com as pernas trançadas as suas e o corpo ardente em chamas. E nesse vem que eu te quero e nesse vai, mas me leva contigo que eu tento conter a febre que pulsa a minha vaidade entre dedos macios de mãos grandes e fortes.  Não sei se para abrandar minha alma ou para assoprar essa brasa que um doce cheiro de flor adentra com  pés de fada sobre o grosso tapete do quarto e com mãos delicadas me rouba o lençol, desnuda meu corpo e nele se encaixa. Eu o toco, lambo aonde posso, amasso, roço, me enrosco. Acaricio o que pulsa, cresce, queima a minha mão, os dedos e os desejos que incham, delatam. O corpo esfria, prostra-se relaxado como se o dela fosse.  Então o sono me abate, me vira para o canto, puxa o lençol sobre um  corpo que jaz, morto, some no vento como se meu o meu corpo não fosse.

terça-feira, 3 de julho de 2018

TRANÇAPERNA.

 
  Recebi um envelope com uma foto e um convite aonde uma professora desejava reunir os alunos a quem, há 50 anos, dera as primeiras aulas. Na foto onde todos se espremem para não ficar fora a gente vê que o menino Toninho era o dono da cena. Também dá para ver  os colares que Teresa Dias, nem para dormir, se separaPedro Coimbra, o melhor aluno da sala, sempre com a fitinha verde amarela pregada na blusa. Não só o livro de poesia que Gil presenteara à Larissa estava com a professora como também o inseparável caderninho onde Cátiaho escreve seus versos. No alto, à direita, Elvira Carvalho, a menina das saias cumpridas, faz caras e bocas. Graça Pires e Ângela, Maria RodriguesGracinha e Diná Fernandes que para chamar atenção fazem pose de artista, não estão nem aí para a coisa. E essa cara emburrada que faz a Janicce, na janela de sua casa de Madeira? Antônio G, Lúcia Silva, Laerte e Majo Dutra, estão mais comportados. Céu, que vivia mexendo comigo, tenta tirar Toché Lopes do sério. É pena não me lembrar do nome dos outros, a não ser o da menina magrinha de tranças grossas e pernas finas que vivia olhando para baixo como se procurasse por algo perdido.  De tão rasteiro a turma a criticava dizendo que ia criar raiz em seus olhos.  Diziam, mas se enganavam, pois flores era o que eu via quando ela me olhava, e a cada piscada abria-se um novo botão de uma nova esperança.  Essa é Sandra. Uma Sandra de nome importado e tão diferente que muitas vezes me peguei rindo por isso. Talvez nem fosse por causa do nome, mas por causa  das tranças grossas e das pernas... Não tão grossas.
Quando eu chegar a escola espero sentir aquele cheirinho de cinema daqueles tempos e que a minha professora ainda tenha no rosto o sorriso que tanto me encantava, e o olhar, antes tão expressivo, não tenha perdido a luz que ofuscava a vista da gente. Eu sei que o tempo passou e levou a infância da gente.  Só espero não ter mudando a ponto de ter que dizer o meu nome para que saibam com quem estão conversando. Quanto as meninas, acredito que a maioria deve ter se casado enquanto os meninos que fugiam do centro das discussões não exercem a profissão desejada ao passo que eu, vermelho de vergonha,  direi que sou aquilo que afirmei que seria quando crescesse. Na despedida a professora certamente ficará na ponta dos pés e não mais se curvará para beijar minha face como fazia enquanto eu precisarei me conter para não correr ao refeitório aonde eu pedia para repetir como se em casa não tivesse comida.
Com esse filme rodando na cabeça e o envelope apertado no peito seria impossível voltar à realidade se essa brisa gostosa não tivesse lambido a minha cara.

sexta-feira, 29 de junho de 2018

DEMÔNIOS DA MINHA VIDA.

     
     Não fosse a filha da vizinha um pedaço de mal caminho eu a teria mandado pastar. Tudo começou  com as malucas da mãe e da filha amontoando tralhas na frente da minha porta e só para me livrar dessa bagunça foi que resolvi lhes ajudar. Com isso as duas me acharam o máximo e até disseram que sou o melhor vizinho que já tiveram. A droga é que não param de me pedir o que qualquer filho de Deus pode fazer por elas.  Mas preferem encher o saco daquele que trabalha e até para dizer bom dia as duas têm que me chamar. E não estão nem aí para a cara que eu faço. Talvez por entenderem que a cara não é de reprovação,  mas uma forma de contestar a saia curta  que mal cobre um palmo abaixo da cintura da mãe e os shortinhos, assim como a camiseta solta sobre os peitos bicudos da filha que parecem ainda vão furar meus olhos.  Essas imagens deveriam fazer de mim o mais feliz dos mortais, mas como eu me conheço,  faço até cara feia para que não me deixem ver o que a saia curta não esconde, até porque, não estou a fim de pagar aluguel de casa para ninguém, muito menos quero um processo por assédio como o Diabo vem tentando. Agora, aqui para nós. Toda a vez que a campainha toca me dá uma vontade danada de pegar essa criança no meu colo para niná-la até que durma. Infelizmente os 17 aninhos dela não permitem.
– Jesus, afasta de mim esse cálice!  
É para evitar esse tipo de coisas que eu as quero longe dos meus desejos e das  possibilidades que posso criar e como podem ver estou fazendo de tudo para mantê-las bem longe dos meus olhos, mesmo que eu enlouqueça quando não me procuram. Tem vez que até me esqueço que a mãe trabalha e a filha faz faculdade, inclusive nos domingos as bobas vão à missa por conta de um tal de Padre Pátrio de Mello que deixa a mulherada ensandecida quando canta.  Até cantar o infeliz canta.  Enquanto  os maridos fecham os olhos para rezar o perigo ronda.  
Não  teria que me incomodar com tais coisas porque não tenho compromisso  até moro sozinho , mas confesso que temo pela integridade das famílias, do santo que veste cuecas e com a do meu reinado que mal começou e já se vê ameaçado. Tenho deixado a porta destrancada para não me assustar com a campainha, mas a garota, por causa disso acabou por me ver tomando banho. Disse que tinha me chamado e como não respondia ela foi entrando até que chegou onde eu estava. E o pior é que eu estava pensando nela. Enquanto eu me esfregava pensava e talvez por estar me esfregando e pensando a garota ficasse do outro lado do vidro o tempo que ficou. 
Se ela me viu do jeito que eu fico quando tenho aqueles pensamentos, eu não sei.  Mas sei que faz cinco dias que não durmo pensando nela me olhando.
Eu sempre falo aos meus amigos que o bem se curva diante do mal, mas para não ver perdurar a tradição resolvi comprar a questão.  Só não sei se terei como pagá-la.

segunda-feira, 25 de junho de 2018

NA MOSCA.

      Depois de anos longe da pátria e dos amigos eu finalmente percebi no desprezo daqueles que falam mal da nossa terra o quanto ela é grande, vibrante e o por quê de tanta inveja que ela causa. Eu pouco me importei se alguém deixou ou não deixou de assistir o que rolava na tevê quando vazei do bar aos pulos, gritando, rindo e chorando de orgulho por essa terra que há muito tem servido de chacota  para os que não sabem que aqui nós temos quatro colheitas por ano, um clima tropical e gente bonita e hospitaleira que nasceu e mora nesse chão abençoado e que de vez em quando nos veste de amarelo, como agora. Para muitos o motivo da minha grande alegria não era relevante, mas para quem é vaiado pelos países vizinhos, o momento era tudo o que se podia desejar de um país gigante e vibrante como o nosso.  Ninguém entendeu coisa nenhuma, mas eu e o resto dos brasileiros sabemos o quanto nos deixou felizes quando atingiu o centro do alvo depois de várias tentativas. São momentos como estes, que infelizmente só de quatro em quatro anos a gente tem para mostrar o tamanho dessa grandeza. Grandeza do amor que a nossa pátria mãe gentil tem por quem nasceu ou escolheu  este lugar para viver.  É nesses momentos que eu sou o que quiserem que o brasileiro seja, mas, mesmo contra todas as vontades a gente não desiste nunca.  No arremesso seguinte, acertamos a mosca novamente, mas desta vez, antes de sair gritando a beleza do feito eu vi alguém engolindo a alegria que sentia às escondidas.  Como uma mulher casada com um nativo daquela terra cantaria vitória se o marido chora o que a nossa amarelinha lhe impingiu?
Gritar de alegria a moça não gritou, mas pude ver nos seus olhos dela a minha felicidade refletida, e como eu não sabia que além de linda e triste aquela brasileira escondida num canto de bar aonde todo o tipo de gente se reunia era casada, eu perdi o medo e o respeito e saí abraçando os que estavam ali, inclusive ela, a quem beijei na boca. Eu sabia que perdia a razão naquele instante, mas não o suficiente para deixar de perceber o quão macios e gostosos eram os seios dela comprimidos no meu peito na hora do beijo. Não sei se o meu país continuará tão bem como está indo, mas aquele beijo eu tenho certeza, continuará adoçando a minha boca a vida inteira enquanto dela eu me lembrar, assim como o cheiro do seu corpo jovem que levarei comigo para onde quer que eu vá.

quinta-feira, 21 de junho de 2018

DOCE PERIGO.

   
       Talvez fosse a mãe, mas a filha era mais provável que fosse a pessoa responsável pelo furdúncio no apartamento ao lado. Até Doli, a cadelinha, latia fundo nos meus ouvidos, mas como não era sempre que o fato acontecia eu não via como reclamar.  A voz deixava claro que alguém dançando ao som de Anita era possuído pelo espírito da coisa. A cadelinha, coitada, latia, talvez de tristeza, com a maluquice de sua dona. E eu, é claro, dizia adeus a concentração que precisa para concluir o trabalho daquele dia. A maioria das pessoas tiram o domingo para ir à igreja, talvez para pedir a Deus que fatos como esse não ocorram com elas. Mas pela razão de não ser cristão eu jamais entregaria o meu trabalho como tinha prometido. Enquanto isso o som naquela altura parecia endoidecer a mulher.  Aí não deu para segurar...  Fui lá e esmurrei aquela porta. A cantoria acabou, o som abaixou e a cadelinha só o rabo manteve abanando no momento em que abriram a porta e Terê, a filha da dona, apareceu suada como pano de cuscuz e me banhou com aqueles olhos lindos que mais pareciam esmeraldas.  A moça estava sozinha e sozinha conseguia fazer todo aquele barulhão.  Aí sim, eu me dei conta de que, independente da saia curta e da blusinha molhada colada nos seios, eu só vestia a parte de baixo do pijama.  
- Você veio para derrubar minha porta ou quer me falar alguma coisa?  Perguntou com os olhos no cadarço do pijama. Felizmente ela olhava só para o cadarço porque a blusinha molhada desenhando os peitinhos  que cabiam inteiro na minha boca  já estufava  minha roupa na frente. 
 Não, é que eu pensei que vocês precisassem de alguma ajuda, visto que o barulho me deixou bastante preocupado  disse-lhe meio sem jeito, mesmo percebendo que ela não estava normal.  Parecia ter bebido, mas cheiro de álcool eu não senti ali, mas sobre a mesinha de centro alguma coisa que me chamou a atenção, infelizmente naquele momento  Doli tentou escapar pela porta que dona deixara aberta. O que eu impedi.  Doli não conseguiu escapar, mas os seios da moça sim, conseguiram. Os dois. Foi quando ela se abaixou  para tomar o pet no colo. Ai, fui obrigado a ajudá-la a levar o animalzinho para dentro, porque a dona não ia dar conta daquilo sozinha, porque não ia lá muito bem das pernas, mesmo que fossem um senhor par de pernas.  Meu Deus, que pernas!  A moça tentou esconder o açúcar  como disse que era –,  mas eu a impedi. Abracei-a e a levei ao chuveiro.  Eu poderia ter tirado suas roupas já que não estava nem aí para o que eu fizesse ou deixasse de fazer, mas optei por deixá-la embaixo do chuveiro com água a lhe escorrer na cara.  Tranquei o cachorro com ela atrás da porta para depois cuspir meus marimbondos por ter cedido ao cavalheiro a vez do cafajeste que existia em mim.

domingo, 17 de junho de 2018

DE QUE JEITO?

          
            Baiano não era má pessoa como dizia a patuleia. Está certo que o viram  pegar dinheiro de um mendigo, mas ninguém disse que eram moedas com as quais pagou o ônibus de volta à casa e que no chapéu, de onde as tirou, ele deixou uma nota de dez. Também falam que fica puto quando tocam a campainha da casa dele, mas não dizem que só o faz quando querem sacaneá-lo. O que de fato o exaspera a ponto de gritar com quem se atreve.  A turma espraguejou quando a menor de 14 anos, usuária de drogas, foi acolhida na casa dele.  Mas ninguém viu que a avó, de 76, que morava na rua por conta do vício da neta, também foi morar com ele. O mundo é assim mesmo. Malicioso e mal agradecido. Quando alguém faz alguma coisa errada, mil dedos apontam para o seu nariz.       O mesmo acontece com quem vive para a caridade. 
- Não bajulemos os demônios ou  subjugamos o bem. 
Muitas pessoas deixam de ajudar por medo de arder na fogueira do ódio dessa gente. 
Uma vez - disse-me Baiano - foram à sua casa pedir agasalho para moradores de rua. E como tinha dois iguais cedeu o que não era tão bonito o que deu a entender que só o tinha dado por achá-lo feio e não por generosidade. Gente, colcha não é artigo de decoração, mas sim inibidor de frio. Só isso!
Hoje eu soube que Baiano encheu o tanque da Van antes de partir para  Nova Friburgo onde, em 2011, ajudou as vítimas da chuva que por pouco não sucumbiram na lama. Só que desta vez será ele quem vai pedir que venham ao Rio doar sangue, pois a greve dos caminhoneiros deixou a zero aquele estoque.  Esse cara com certeza arcará com todas as despesas trazendo e levando essa gente bondosa de volta à sua cidade. Custo irrisório às vistas de quem pensa fazer o bem, mas será dinheiro jogado fora aos olhos dos pessimistas. Algumas mulheres, certamente, estarão entre eles dando motivos às línguas do mal para criticar quem não cruza os braços quando chamado. 
Já falaram que Baiano não é boa pessoa ou já  o teriam fisgado para marido. Enquanto a gente fala dos outros os outros falam da gente. Enquanto eu faço o mal para muitos, praticando o bem, a maioria não faz nada agravando o caos. De qualquer maneira não vamos perder as esperanças, mesmo que garantam que a felicidade é efêmera como a vida, e não eterna como é a morte.

quarta-feira, 13 de junho de 2018

SORTE NEM TODOS TÊM.

 
    No dia que Mariana achou dinheiro na rua dela eu confesso que chorei. A família fez uma festa por conta de sua sorte, enquanto eu me debulhei em lágrimas por saber que rico não anda aonde o pobre mora para perder dinheiro.  Portanto, só quem precisasse trabalhar o dia inteiro para ganhar algo parecido morava ali. Quem sabe aquele dinheiro não compraria a comida de uma semana inteira ou os remédios de um parente doente? 
 Se eu perdesse 50 reais minha mãe me tirava o couro antes de me matar.  
Isso me lembra a época dos meus nove para dez anos quando encontrei um dinheiro no canto da cozinha lá de casa, mas não peguei. No dia seguinte o dinheiro ainda estava lá, quietinho, do mesmo jeito. No outro dia e no outro também.  Eu achava que só eu sabia dele. Certamente quem o deixou já nem se lembrava do dinheiro. Aí a tentação começou a fazer cócegas, mas o sossego só foi embora no instante em que o diabo, que  me atazanava o dia inteiro,  me induziu a cometer o delito que mudaria o meu jeito de enxergar a vida. Olhei para os lados e como nada me impedia de fazer o que a minha mãe dizia que criança educada não faz, eu o peguei e como quem não quer nada saí porta afora.  Não pensava em gastá-lo, pelo menos naquele momento,  mas para escondê-lo entre o forro e as telhas no único banheiro que nós e o resto dos moradores tínhamos para usar.  Infelizmente a minha felicidade durou pouco. Bastou que eu me apropriasse do bem alheio para mamãe, com uma ripa de madeira  e aos berros, me acordar e as minhas irmãs para que déssemos conta do dinheiro que ela separava, todos os dias, para papai ir trabalhar. –  Por isso o dinheiro parecia o mesmo. E como ninguém confessava, mamãe pegou minha irmã pelo braço para espancá-la, mas antes que a pancadaria começasse eu me entreguei.  Mamãe estava pendurada na minha orelha no momento em que indiquei o lugar onde o tinha escondido.  Nessas horas mamãe batia em todos os filhos para que um não risse do outro e quem teve o azar de ser o primeiro foi minha irmã mais velha de 13 anos, que já tinha corpo e cara de mulher, mas que não passava de uma criança. Doeu-me saber que alguém pagaria por um erro que não cometera. 
Subi na tampa do vaso para ter acesso ao esconderijo da minha desgraça.  Naquele dia minha mãe me bateu tanto, mas tanto, que mal conseguia falar, até que, reunindo o resto de suas forças, chamou pelo irmão a quem deu a incumbência de completar o que tinha começado.  E titio –  que vivia às custas do meu pai – me bateu muito.  Mais do que eu pensei que fosse aguentar. No outro dia mal consegui levantar para ir à escola. Portanto, se alguém quiser perder dinheiro que o faça longe do caramelado dos meus olhos para não umedecê-los. Quanto a educar na base da porrada, depende do educando e de seu educador, até porque, meus pais formaram cidadãos batendo na gente e a gente criou cidadãos iguais a eles, mas com bons exemplos e ótimas conversas.

sábado, 9 de junho de 2018

TEMPOS ANTIGOS.

                                 
    Eu e Otabílio passamos algum tempo da nossa infância na casa um do outro.  Eu, mais na dele, porque seu pai era advogado e o meu assentava tijolos.  O irmão de Otabílio  preferia a companhia das meninas a brincar com a gente, o que envaidecia o pai que achava o caçula o mais esperto dos filhos, porque, brincar com garotas era bem mais interessante do que brincar com meninos – dizia.   Dona Alicia, a mãe, era meio que estranha. Gente boa à beça, mas tinha umas coisas que eu não entendia, como podia me deixar pensar que gostava mais do cachorro do que do marido, pelo menos não dava um passo sem que o Dogue alemão – duas vezes maior que o meu – estivesse ao seu lado. Mas isso não era problema meu e sim do marido dela, porque o importante era brincar naquela casa onde, no fundo, havia uma bela quadra para a gente bater uma bola.  Muitas vezes o pai dos garotos jogava com a gente. Só o caçula é que não.  Preferia as meninas com quem brincava de casinha. Dona Alicia até achava engraçado, mas quando aparecia por lá era por causa do jogo, não pelo filhinho. Mas deixava de se concentrar no jogo quando Rex esfregava o negócio nas pernas dela. O engraçado é que com a gente o bicho não fazia essas coisas, mas bastava D. Alicia sair porta da cozinha afora que ele vinha com aquele troço   maior do que o do meu pai  se esfregar em suas pernas. Aí, ela, meio sem jeito, voltava para casa. Por isso vivia com ele preso lá dentro e como ela mesma dizia,  era para não se constranger, como agora.
Cachorro maluco, aquele. Sempre tentando transar com as pernas da dona, que negava, mas morria de rir com o cio do bicho. Eu era meninote, mas como eu invejava o danado. O pior é que o marido achava lindo o afeto entre os dois, enquanto eu, maldoso, desde sempre, só via sacanagem naquilo tudo.  
Muitas foram as manhãs que eu acordei como se tivesse lambendo o par de pernas daquela mulher. Os vestígios no lençol não me calavam a verdade.
Com o tempo a gente cresceu e cada um seguiu seu destino. Eu escolhi a área que me sustenta.  Otabilio é oficial do exército e o caçula mora com um bando de mulher, só não sei do que vive e muito menos o que faz com elas. O Rex e o pai dos garotos morreram.  D. Alicia agora, um pouco mais madura, tem outro cachorro, o terceiro, mas nenhum é menor do que foram os outros. Quanto a se casar novamente, jamais declinou desejo. Os vizinhos afirmam que os bichos morreram de inanição enquanto o dono, de lutar para mantê-los sadios. Aí eu me pergunto; como de inanição se comida não faltava naquela casa e por que morrer pelos bichos se dinheiro não faltava para cuidar de tudo?

terça-feira, 5 de junho de 2018

COMPULSÃO

      
     João nunca tinha dinheiro disponível para ajudar em casa, mesmo trabalhando e recebendo um bom salário. Seus pais viviam dizendo que o filho precisava se casar ao invés de gastar com prostitutas  como fazia.  Ele corre o risco de pegar uma doença  diziam eles  mas João não lhes dava ouvidos, até porque era um sujeito compulsivo no tocante a sexo, e qualquer mulher com quem se casasse, jamais transaria todos os dias como queria.   Mulher quer casar e ter filhos, mas como, se na hora de transar sempre tem uma desculpa?  Disse franzindo o cenho. A metade da vida João pagou pelo que as mulheres lhe davam e a outra ele se resolveu sozinho.  Infelizmente, com a chegada da crise, a firma o mandou embora. A ele e a outros. Rapidinho o dinheiro acabou e a abstinência judiou de João. Só Andreia, uma das prostitutas com quem mais ficava, permitia que,  de vez em quando, ele desse uma rapidinha, mas só para não desagradar o freguês de tantos anos. Naquela manhã, depois de ter trabalhado a noite inteira, Andreia, cansada, finalmente aceitou que João a acompanhasse até a casa. No caminho, João, depois de algumas palavras bonitas e falar do amor que tinha por ela, terminou por pedi-la em namoro, ao que ela ficou de pensar.  É claro que, se Andreia era de fato a sua prostituta preferida, por que não pedi-la em namoro e receber de graça o que lhe custava os olhos da cara? E foi com esse pensamento que João se tornou seu namorado, depois noivo e por fim, seu marido.  Agora ele tinha a puta dos seus sonhos ali, na sua cama. Mulher que está sempre pronta aos seus desejos por mais estranhos que fossem e quanto a dor de cabeça, jamais falara a respeito. Com ela, João tem, agora, dois filhos lindos, um bom apartamento e o trabalho dela que rende a eles ótimos fins de semana e uma poupança bem melhor do que tinha antes. Pena que de manhã, quando ela chega da batalha, esteja tão cansada que antes do marido gozar ela já está dormindo. Os pais de João, depois de muitos conselhos, enfim, tiveram a felicidade de ver o filho casado, com filhos lindos e uma esposa amorosa e trabalhadeira.

sexta-feira, 1 de junho de 2018

TAL MÃE, TAL FILHA.

     

      Eu tinha cinco anos quando fomos morar numa casinha de fundo num subúrbio carioca.  Na frente moravam, Gilda, seus pais e a filha Adalgisa, da minha idade. Gilda tinha uma amiga com quem ela e a filha dividiam o quarto, dando a menina motivos de ver e ouvir o que rolava entre elas. Muitas vezes Adalgisa me falou da intimidade das duas. Bastava eu fingir que estava dormindo para começarem a pouca vergonha – dizia franzindo o cenho. Segundo Adalgisa, as duas se enfiavam debaixo dos cobertores e faziam coisas que faziam mamãe dar gritinhos, arranhar a cama com as unhas e algumas vezes a ouvi chorando. Baixinho, mas ouvi – contou a menina.  
Foi difícil fazê-la entender que não era pecado abraçar, fazer carinho e beijar as pessoas que a gente gosta e se o fazem às escondidas era para não pensarem que estão fazendo coisa feia – eu disse a quem adorava me contar essas coisas, porque fazia minha calça estufar na parte da frente – ela dizia sorrindo.
 Éramos crianças, mas tinha coisa que já bulia comigo.
Aos sete anos meus pais, finalmente, compraram um terreno onde fizeram um barraco e depois outros para alugar – graças ao patrão do meu pai que levava as sobras da obra para a gente.   Depois que mudamos não vi mais Adalgisa.
Na semana passada, num bar, eu tomava um café enquanto uma jovem olhava para mim e como insistisse, ergui minha  xícara em cumprimento, ao que ela sorriu – talvez me achasse familiar. Antes da segunda golada a mulher me perguntou de onde a gente se conhecia. – Dessa vez foi eu quem sorriu, já que era o homem que usava desse artifício para puxar assunto e não o contrário.
– Muito prazer, Adalgisa.
Essa mulher poderia ter qualquer nome, meu Deus. Menos esse...
Um filme rodou na minha cabeça, e na dela, depois que eu disse o meu.  Adalgisa morava na mesma rua do famoso clube de Swing, da região. – Só não me pergunte se já fui lá, porque não fui. Morro de vontade, mas tenho medo – falou escondendo o rosto com as mãos.   Vamos marcar um dia, a gente vai junto  – disse-lhe, encostando a cara junto aos cabelos dela.
Naquele dia a gente tomou oito chopes e duas caipirinhas o que nos deu coragem para conhecer o tal clube.  Numa sala acarpetada em  vermelho uma morena cavalgava um homem duas vezes maior do que ela. A luz não nos favorecia e os detalhes passavam despercebidos, menos os corpos nus e o que eles faziam.  Um gordinho transava com quem tinha idade para ser sua mãe. Outros casais, que faziam coisas do arco da velha, nos prostraram numa poltrona para olhá-los. A morena, que vimos com o grandão na entrada, chegou perto da gente, deu um sorriso para Adalgisa enquanto abria o zíper da minha calça e colocava a boca.  Seu parceiro a tirou do meio das minhas pernas para fazer em mim o que ela fazia e como me recusei o cara arreganhou as pernas de Adalgisa para lambê-la, mas ela o afastou e saiu me puxando para fora. 
– Desculpe, mas não é a minha praia. Eu não fazia ideia do que pudesse acontecer lá dentro, mas de uma coisa eu gostei e muito – disse Adalgisa sorrindo – foi de ver aquela coisinha miúda que antigamente estufava a calça de um certo moleque. Jesus do céu! Eu jamais imaginaria que, um dia, aquilo tivesse aquele tamanho. Parabéns – disse abraçando e beijando o meu rosto.  
Quando perguntei o porquê de ter tirado a cara do cara de entre suas pernas ela me disse que, se fosse a moça que tentasse...  Adalgisa não deve ter prestado atenção ou teria visto minha calça estofando quando enfiei a mão no bolso.

terça-feira, 29 de maio de 2018

TIA, EU?
(Risos)

      

    Fazia tempo que ia àquela espelunca e não percebera o quanto gentil era o caixa para com os fregueses. Tinha sido de uma delicadeza tão grande com aquele senhor que até achou que fosse seu parente, mas como havia feito o mesmo com u'a moça bonita e depois com uma senhora que tinha idade para ser sua mãe... Ultimamente as pessoas não tem tido tempo para ser gentis com ninguém, mas esse jovem, olha... 
Três dias depois lá estava ele com a mesma cordialidade. Na semana seguinte essa pessoa resolveu passar suas compras por ele só para ver se o tratamento era de acordo com o freguês, até porque, ninguém é cordial o tempo todo.  Mas ele estava enganado. Foi atendido como todo mundo, senão melhor.  Só na hora que recebeu o dinheiro é que, de propósito ou não,  segurou-lhe o dedo, o que o preocupara, de certa maneira. Por que teria feito aquilo se o dinheiro já estava em sua mão e por que ficou me olhando daquele jeito se tenho idade  para ser seu pai? – Resmungou.  Nada ele teria para comprar naquele final de tarde, mas certamente não dormiria se não tirasse aquilo a limpo. Por isso voltou ao mercado, mas, como havia cumprido o horário, já tinha ido embora.  No outro dia, antes de abrir,  ele já estava na porta. Comprou qualquer coisa e seguiu para o caixa que o tratou como sempre e ainda por cima ganhou uma olhada que atravessou sua alma como um punhal.  Talvez se voltasse a segurar-lhe o dedo...  Mas frustou-se. Então resolveu perguntar-lhe se estava tudo bem, ao que respondeu que nada poderia estar melhor com a sua presença. Os dois sorriram.  Ele, entretanto,  só se deu conta que ainda estava com o sorriso nos seus lábios  na porta de casa.  Preocupado decidiu trocar de mercado. Ficou duas semanas sem dar as caras até que achou que podia voltar, mas não deu. Sua mãe, que se recuperava de uma cirurgia, voltara ao hospital e ele queria vê-la. Viajou duas horas e meia e ao sair do carro ouviu chamarem o seu nome. Talvez fosse um parente ou um conhecido que tivesse ido visitar sua mãe, mas não era. Era o caixa que ao vê-lo quis saber o que estava acontecendo.  Os dois foram até a enfermaria de onde voltaram para um café. 
- Estou numa pousada aqui perto.  Amanhã cedo tenho uma entrevista de trabalho e não quero atrasar.  Caso precise de alguma coisa, até de alguém para conversar, por favor, me procure  disse o caixa escrevendo um número num pedaço de papel que ele amassou e jogou no lixo quando se despediram.
– Eu não tenho e nunca tive dúvidas quanto ao que sou, ao que gosto e ao que desejo, e não seria  um cara bonitinho, educado e que, só por me causar arrepios, ia arranjar sarna para mim e não para ele se coçar, mesmo com as unhas grandes como as que eu tenho – soluçou ao lado de sua mãe.

sexta-feira, 25 de maio de 2018

LEMBREI DE VOCÊ.

   
    Pensei que fosse enfartar quando fiquei sabendo que você ia embora, coisa que eu jamais pensei que pudesse acontecer, mas, infelizmente, eu me enganara. Agora eu fico aqui, pensando na gente, nos seus momentos comigo e nos meus com você. Depois me bate um desânimo que nem ir à rua eu penso. Também não penso em comer e muito menos sair para beber ou falar com qualquer pessoa. Quanto a dormir, em qualquer lugar estava bom, até porque, eu estaria por perto quando chegasse a hora.  Assim eu fiz naquela noite, naquela semana e naquele mês, que foi o tempo que durou a minha agonia.  Acredito que a sua também.  Eu reconheço que peco por ouvir as pessoas para não errar nas minhas decisões e ficar na minha foi o que me aconselhavam porque mulher é assim, mesmo, imprevisível - me disseram. E não fossem os palpites que me deram e eu não teria percebido um par de olhos me procurando como criança  procura bala na festa de Halloween.  Eram olhos lindos como lindas são as manhãs. Introspectivos como os de um tibetano e mais fieis que os do chapim-azul. Era belíssima às vistas de todos e fiel àquilo que se propõe e a Deus.  Minha pressão deveria explodir, com você a minha frente. Deveria estourar todas as minhas artérias, sangrar pelos poros e parar o surdo do meu coração.  Mas nada disso aconteceu.  Naquele momento senti-me calmo como a face tranquila e serene de um lago. Minha pressão, que parecia um motor de barco de prova, transformou-se em remos de barco à vela tal a calmaria que você proporcionou com a sua chegada. Acho que você me sorriu quando seus olhos acharam os meus. Seu corpo parecia responder aos movimentos do meu e foi com um gesto de quem parte sem deixar pista de que volta algum dia, que você olhou para o caminho que seus pés resolveram trilhar. Do jeito que você me deixou eu fiquei e acho que estou, mas na casa onde você estava em todos os cantos, já não resta o que me faça lembrar de você. Só a saudade que o tempo tatuou na minha alma restou de você.  Seria maravilhoso se você não tivesse partido. Seria maravilhoso tê-la em casa nos momentos em que eu, reclamando do patrão e xingando os colegas, pudesse me atirar aos seus pés aonde as queixas, minhas dores e tristezas desapareciam sob o seu olhar bondoso. O que sossega um pouco esse meu coração é a certeza de que você não se foi por cansaço da minha presença, mas para atender aquele que a permitiu passar tanto tempo ao meu lado.  Dois anos e meio foi o tempo do nosso convívio. Você comigo. E eu com você.  Os outros jamais deixaram de serem os outros, enquanto a gente... Eu era um bobo, não nego. Mas um bobo apaixonado pelo irreal, enquanto você, uma realidade apaixonada por um bobo que eu, infelizmente, jamais voltarei a ser.

terça-feira, 22 de maio de 2018

CAPIXABA.

       
           Do centro de Vitória eu embarquei à Colatina. Era um desejo antigo conhecer uma das principais cidades do interior do Espírito Santo e a influência que exerce sobre os municípios do leste mineiro.
Ao retornar, uma jovem mulher com o filho ao lado acenava chorosa para o marido que enxugava os olhos, na plataforma. Eram lágrimas doídas da despedida. Com os olhos molhados ajeitou a criança e sentou-se a minha frente, num dos últimos assentos, no corredor. O momento seria de grande ternura se ela não tivesse tomado a atitude que tomou quando, sem querer, esbarrei no seu seio.  Foi quando o busão deixou a rodoviária que eu, ao me apoiar no encosto do banco da frente esbarrei a mão no seu peito. Eu pensei que fosse tomar um baita esporro da dona. Que ela fosse mandar o motorista parar o ônibus e me jogar para fora enquanto me xingasse de tudo o que é nome.  Mas que nada.  Pelo contrário.  Ela sorriu com um lindo sorriso e ainda por cima prendeu minha mão de encontro a poltrona quando me desculpei.  Naquele momento foi que eu tive certeza de que o Diabo existia. Na certeza de não estar sendo  observado eu me  curvei e segurei um dos seus seios, mas desta vez de propósito. Primeiro por cima da blusa, depois através do decote.   Em nenhum momento a mulher que chorou ao se despedir do marido fugiu às minhas investidas. 
Eu sempre achei que pessoas audaciosas vivem cruzando a linha do perigo, por isso voltei a sentar, mas puxei a mão dela para trás, para o meu colo. Cutuquei um gorducho, com jeito de açougueiro, que cochilava junto a janela ao meu lado, e mostrei-lhe com um gesto de cabeça o lugar onde ela estava com a mão.  Depois me levantei e ao seu lado, de pé no corredor,  botei junto a cara dela todas as minhas vergonhas de modo que ela pudesse, com a sua ousadia, desenvolver a sua criatividade. 
 Incrédulo o gordinho não perdia um só movimento.  Enquanto a mulher se arranjava com o que esfregava na cara eu viajava na certeza de que os cafajestes, assim como mulheres inconsequentes, são capazes de coisas que até Deus duvida, mas, com certeza, deixando atrás de si um rastro de tristeza e sofrimento.

sexta-feira, 18 de maio de 2018

SONHO DE VALSA.

    
    Seu Justo, um senhor metido a puritano, mas que de puritano não tinha nada, gostava da maneira como o tratavam na padaria, principalmente por parte de Janice, a garota do caixa a quem cantava na maior cara-de-pau.  Talvez, em um desses momentos, a tivesse feito entender que precisava de uma pessoa para cuidar de si e da casa. Por isso Margarida, que era amiga de Janice, começasse a visitá-lo.
 Senhor Justo se arrependeu de não ter dito a Janice, que afora ela, mulher menor de 50 anos, principalmente as bem feitas de corpo e que usam vestidos curtos, não tinha chance na casa dele, até porque, ele sabia o tipo de homem que era.
Em duas oportunidades seu Justo teria descartado a possibilidade dessa pessoa trabalhar em sua casa, mesmo assim não tinha um dia que ela não o procurasse a noite para convencê-lo do contrário. 
Em contrapartida o cinquentão “lutava” para demovê-la da ideia.
– Pois é Margarida. Eu sei que a casa precisa de uma boa limpeza, mas eu não posso pagar o que você merece e mesmo se pudesse talvez eu não devesse já que vivo sozinho.  Você é u'a moça bonita e com predicados que não me deixariam dormir, principalmente  com você aqui, tão perto.  E se digo isso é porque já tive problemas, e não pretendo cruzar essa ponte outra vez – disse sem esconder que mentia.
– Ah, seu Justo, eu sei que o Sr. precisa de uma empregada da mesma forma que eu preciso de um emprego. Esqueça os detalhes que o senhor mencionou e me aceite, vai!  Eu juro que não tiro  o seu sono.  Até pelo contrário. Farei tudo para que seja tranquilo como eu sei que serão os meus se o senhor me empregar – disse com cara de dengo.
   Seu Justo tinha jurado não tocar mais no caso, mas como fazer para se livrar aquele demônio? 
– Oh, bicho desgraçado é mulher! Enquanto uma foge das minhas cantadas outras levantam a minha libido tão alto que parece doer com o estado que fica. Só que o preço para aplacá-la só eu sei quanto custa – resmungou. 
– Não, Margarida. Melhor não. Está na cara que isso não vai dar certo. Eu me conheço, enquanto você...
Margarida não esperou que completasse a frase. Abaixou a cabeça, pegou a bolsa pendurada no encosto da cadeira e já ia saindo quando seu Justo a puxou pelo braço. Margarida rodou nos calcanhares e sentiu o seu corpo encostar-se ao dele.  Um fogo, não se sabe vindo de onde,  cozinhou o juízo de Justo de tal forma que, não resistindo aos impulsos, beijou-a na boca.  Margarida, num gesto ligeiro enlaçou-se ao  pescoço do beijoqueiro e num salto trançou-lhe a cintura com as pernas. Sem desgrudar da moça a leva, como filho de macaco agarrado a mãe e a deita de costas no tampo da mesa.  Não tinha sacado a arma para abater a caça quando a campainha tocou.  Num salto Justo saiu da cama e antes de atendê-la notou que teria perdido a hora se a maldita campainha estivesse desligada. Nada, entretanto, havia do outro lado da porta a não ser um bilhete enfiado por baixo, onde se lia;  Obrigado seu Justo, mas o dono da padaria me chamou para trabalhar com ele. Desculpa a amolação e muito obrigado, de novo. Ass. Margarida.
Seu Antônio era viúvo e diziam as más línguas que antes da morte da esposa o safado levava as mulheres para dentro do estabelecimento onde metia a mão na massa.  Encantadas em vê-lo preparando os sonhos deixavam que lhes queimasse as roscas.

segunda-feira, 14 de maio de 2018

LOUCA DE PEDRA.

        
     Maria Santa viajou do interior do estado até aquele lugarejo, a quilômetros da capital pernambucana. Infelizmente chegou dois dias após Pedro Barros perder a luta que vencia contra o câncer.  Pedro Barros tinha 20 anos. Difícil foi acreditar que deixasse a mulher viúva, e o filho de 3, tão cedo. Tudo começou aos 17 anos quando Pedro Barros engravidou a namorada Sarah, de 15, como pretexto para se casarem. Com o parto complicado Sarah perdeu a noção das coisas e só 14 dias mais tarde recuperou a normalidade quando a parteira colocou nos seus braços um robusto menino com todos os traços do pai – antes pensava ser uma menina. Pedro Barros acompanhou o sofrimento da mulher que, segundo a parteira, talvez a mãe ou a criança não saísse do parto com vida. Pedro Barros, transtornado, partira em busca de socorro de onde voltou duas semanas depois e conheceu a criança. Foi um milagre – disse à parteira com o filho no colo.
Nesses últimos dois dias, ao levar o filho para brincar na pracinha, Sarah achou que uma mulher, que jamais vira naquelas redondezas, a seguia.  Até pela janela a mulher fora vista bisbilhotando.  Maria Santa tinha 22 anos, era ruiva, altura mediana e muito bonita. A sua aparência e vivacidade lembrava as Bündchens não fosse o aspecto de mulher sofrida e maltrapilha. Certa vez Dona Sebastiana, a parteira que tinha Sarah e o marido como seus filhos, sabendo que a mulher tinha qualquer coisa a ver com eles, decidiu questioná-la.
 – Eu nunca a tinha visto por aqui, mas como estou sabendo que a senhora está seguindo a minha amiga e a seu filho decidi lhe perguntar por quê está fazendo isso? Afinal, quem é a senhora e o que pretende além de tirar o sossego dessas pessoas?
– Ah, eu me chamo Maria. Maria Santa.  Estive internada em um sanatório por três anos de onde fugi para encontrar a pessoa que eu amei loucamente até que roubasse o nosso filho recém-nascido de mim.  Infelizmente, como eu dependia de carona,  cheguei depois que ele tinha morrido. Sofri e sofro muito a ponto de ficar louca, como fiquei, mas estava disposta a esquecer o assunto e até perdoá-lo depois que me falasse o que fez com meu filho  – disse chorando.
– Aonde a senhora conheceu Pedro Barros e o que lhe dá a certeza de que ele roubou um filho que nem a senhora sabe se era dele?
– Bem, os homens nunca têm certeza, mas nós, mães, sabemos quem nos insemina. Com o sumiço dos dois e a quebra do meu resguardo acabei enlouquecendo. Fui internada num sanatório, mas quando descobri o endereço dele eu fugi e foi graças as pessoas generosas que eu estou aqui. Pena que é tarde de mais – disse olhando os pés.
Dona Sebastiana correu à casa de Sarah e a chamou em um canto. Contou-lhe, enfim, um segredo que guardou por 3 longos anos. Tirava, a partir daí, um peso que carregou por tanto tempo na consciência.
– Sua filha era linda, Sarah, mas Deus não quis que vivesse. Pedro Barros ficou desesperado e sem saber o que fazer pegou um trem e sumiu por quinze dias deixando você mais morta do que viva.  Quando voltou entregou-me uma criança dizendo que era sua e dele. Quando perguntei de onde a trouxera ele mentiu e eu, infelizmente, fingi acreditar.  Guardei essa mentira por amor a ele que tinha como meu filho e a você, também, minha querida - disse com lágrimas nos olhos. Você criou um filho que agora é seu, mas também pertence a essa moça que vê em seu filho os traços de Pedro Barros a quem, também, amou, como você. Portanto, se você quiser e se o seu coração permitir, com certeza ela deixará definitivamente a casa de saúde que deve estar virando o mundo atrás de uma louca fujona. Louca, sim, mas por ter perdido um filho, um filho a quem você deu o bonito nome de Jesus.

sexta-feira, 11 de maio de 2018

HOB CHAMBLER

    Quando Fernando enfartou eu sugeri a Teresa, sua mulher, que o trouxesse para se tratar no Rio e como eu tinha uma casa desocupada a duas quadras da minha prontifiquei-me a ajudá-los. Era justificável Teresa não me considerar amigo da família, até porque, eu a traí com sua irmã que, depois de ouvir as minhas queixas, decidiu me dar o que a minha namorada me negava.
Velhas lembranças – diria o Palhaço poeta. Velhas lembranças.
Eu acreditava que com o passar do tempo ela talvez me perdoasse, mas...
Agora era esquecer o orgulho e cuidar do marido para não perdê-lo.
Ontem, depois da caminhada, decidi por visitá-los.  Acredito não ter sido uma boa hora, não para mim, mas para ela que saiu do banho com uma toalha enrolada na cabeça e um felpudo roupão branco sobre a pele – pelo menos nada eu notei que vestisse por baixo. Coloquei a revista no colo para que ela não visse a protuberância nas minhas calças quando a vi se abaixar na minha frente para sentar. 
– Você não mudou nada – disse-me ela.
Estava na cara que o roupão a trairia. E traiu quando sentou. Abriu-se de cima a baixo e só não mostrou os seios porque os esfregaria na minha cara quando colocasse as xícaras, que trouxe na bandeja, sobre a mesinha. Teresa continuava a mesma mulher gostosa de há sete anos. Aliás, o tempo jamais se atreveria mexer no perfil das mulheres que se cuidam.
– Você não mudou nada – repetiu.
Eu sei que deveria falar sobre o caso do Fernando, mas como, se nem respirar eu podia? Vermelho eu sei que estava, e mais vermelho eu fiquei com a tranquilidade com que deixou a bandeja para cobrir as pernas e os pelos púbicos que o roupão deixou ver. Aí ela, como se nada tivesse acontecido, me entregou o café.
– Pois é, eu estava caminhando quando decidi perguntar se precisavam de algumas coisa.  O Fernando, por exemplo, como está reagindo às fisioterapias?
Teresa sabia que, se eu estava ali, não era só por causa dele, por isso achei que o roupão se abrindo fosse pretexto para testar minha amizade por seu marido. Depois me lembrei dela falando para todo mundo que eu era cafajeste e agora, diante do que parecia estar propensa, poderia, finalmente, provar que estava certa.
Em momento nenhum eu pensei que Fernando não desse mais no couro por conta da doença. Em nenhum instante eu achei que fosse por carência ou por lembrar-se da pegada que nem sabe se eu ainda tenho.  De qualquer maneira comportava-se como um coelhinho frente a arma engatilhada  do caçador.
– Teresa, quem está aí? – Perguntou Fernando lá do quarto com a voz atrapalhada.
– Eu preciso falar com seu marido, em que quarto ele está?
– Eu só não quero que ele saiba que você está aqui comigo. Espere um pouquinho que já volto. – Disse levando uns comprimidos e um pouco d'água lá para dentro.
– Pronto. Não dou cinco minutos e ele estará dormindo como um bebê. Agora venha comigo que vou lhe mostrar uma coisa.
Teresa pegou minha mão e foi me arrastando para um quarto nos fundos da casa onde uma cama com lençol de linho branco salpicado com pétalas de rosa vermelha nos aguardava.
– Meu Deus!  E o cafajeste sou eu...   
Tirei minha mão de dentro das dela e saí em passos largos, quase correndo, para não vomitar na sua frente.
Há um ano Fernando morreu. Eu só não saberia afirmar se em decorrência do enfarto ou pelos motivos que o provocaram.

segunda-feira, 7 de maio de 2018

MARIAJOÃO

   - Pisou no meu pé por que, cara? "Tá" a fim de arranjar confusão ou alguém "te" mandou me provocar? - disse-lhe na ponta dos pés com os narizes quase se tocando.  O pobre rapaz não queria nada disso, além de um lugar onde pudesse viajar num vagão apertado como aquele. Mas dera azar ao se apertar junto a  Marcelle, uma loirinha que até um ano atrás vivia presa  num corpo que não tinha nada a ver com a sua personalidade. Só depois de muito sofrimento e trabalho conseguiu mostrar aos pais e ao mundo a mulher que havia nele.  Muitas coisas mudaram a partir de então, só o temperamento que não.
Aos cinco anos, Marcelle, já era vista com olhos preconceituosos e jamais soube o que era paz até que resolvesse seus problemas. Com ajuda de um psicólogo e de um amigo, decidiu dar um rumo à sua vida.  Ela e sua mãe sofreram muito quando o pai lhes disse que não faria parte daquela vergonha e a expulsou de casa.
 Marcelle não o perdoou.
Hoje, para seu desespero, o viu na estação pronto para embarcar, mas para evitar confusão, ela não desembarcou. Ficou ali até que o pai saísse do trem. Preferiu perder o compromisso a topar com ele.  Não queria confusão, mas não deu. Não foi possível ficar sem brigar. Não com o pai, mas com quem nada tinha com isso, mesmo pisando seu pé.
- Desculpe.  Eu não quero e muito menos estou atrás de confusão, mas, caso eu quisesse procuraria um cara do meu tamanho e não u'a mocinha pequena e frágil como parece que és. E para provar que te falo a verdade vou trocar de vagão, só para não ficares com raiva de mim - disse com os olhos cravados nos dela. Depois virou-se e espremeu-se por entre os passageiros em direção à saída.
- Meu Deus, nunca um cara tão bonito e educado me olhou e agiu desse jeito - pensou.
Antes que ele saltasse Marcelle o pegou pelo braço.
- É claro que eu o desculpo, mas, por favor, antes de saltar, deixe-me explicar o que está acontecendo. Aí você vai me entender.
No bar que escolheram para conversar os dois se apresentaram. Victor  falou que tinha terminado com a namorada por ter mentido que estava grávida o que lhe dera uma grande dor de cabeça. Depois a firma o despedira, e agora pisava no pé de uma garota brigona.  Enquanto ele falava,  Marcelle selecionava as palavras com as quais contaria sua história. Já Victor, reclamava da sua falta de sorte que andava tendo.
E assim passavam a tarde até que o celular de Marcelle tocou.  Era sua mãe dizendo que o pai sofrera um enfarto e antes de ser operado chamara por ela. Nervosa e sem saber o que fazer contou para Victor que tentou convencê-la a visitá-lo.  
- Eu acho que deves escutar tua mãe, até porque, essa pode ser a última vez que teu pai pede alguma coisa para alguém.  Vá, vá e depois me digas o que ele te falar.
- Tá legal.  Eu vou, mas só se você for comigo...
Quarenta minutos mais tarde chegavam ao Hospital onde o pai de Marcelle fecharia os olhos assim que unisse a mão da filha com a do rapaz e pedisse que o perdoasse. Depois olhou para Victor e pediu que cuidasse dela.  Dado o recado tombou a cabeça e descansou. Uma lágrima surgiu nos olhos de Marcelle para morrer nos lábios de Victor que a beijava.

quinta-feira, 3 de maio de 2018

THE VOICE KID

    
    Ao completar 15 anos  ingressei na Brigada Paraquedista realizando um sonho de infância. Lá recebemos, eu e 28 recrutas, algumas roupas das mãos de um sargento que nos levaria à companhia onde tomamos banho de mangueira. Era um jato de água tão forte que um cabo e um soldado suavam para dominá-lo. Para evitar que fossemos arremessados uns contra os outros, cada conscrito apoiou-se da maneira que dava. Eu, por exemplo, ajeitei-me de costas, não só para criar base, mas também para evitar certos comentários que poderiam fazer.  Mas não teve jeito. Logo me arrumaram um apelido. Um, não. Vários. Mesmo que eu só tivesse mostrado a bunda não consegui esconder o meu grande segredo.  Grande para mim, mas para eles parecia imenso.
A turma parecia ter esquecido meu nome, pois só me chamavam pelos apelidos pelos quais eu, prontamente atendia na esperança de que não pegasse. Um sargento, no entanto, chamou-me pelo que eu mais detestava e para minha infelicidade o apelido pegou. 
- Kid bambu! Gritou o miserável que nada de importante tinha para me dizer além de me sacanear.  De qualquer forma trocamos palavras sem sentido e cada um seguiu seu caminho. 
Em três meses a companhia já tinha saltado o suficiente para ser brevetada.  Eu, no entanto, não precisei mais de 30 dias para atingir essa meta.  Ninguém constava nas listas de salto mais do que eu e uns três camaradas que não me zoavam. Durante o tempo que fui responsável pelas listas de salto eu lancei menos vezes aqueles que eu não gostava do que eles achavam necessário ou queriam.  Só que eu, não.  Em um mês eu já tinha saltado mais do que qualquer um desejasse, até que, na sargenteação, um superior me perguntou por que os meus colegas faziam ordem unida naquele sol escaldante de abril enquanto eu me refastelava no ar condicionado? 
- Tenente, é que na companhia, só eu mexo com computador e as escalas de saltos são todas feitas por mim.
-  Tudo bem, soldado. Só que eu quero você lá embaixo com os outros.  Ordenou o oficial que saltava duas vezes por semana e jamais ficara de serviço num sábado ou num domingo. Isso mesmo. Saltava duas vezes por semana e tinha os fins de semana livres para fazer o que bem entendesse.  Isso mesmo, tinha. Pensei com os meus botões...
Semanas depois o comandante perguntava por que o tenente estava saltando de quinze em quinze dias e nos finais de semana era visto no quartel?  
- É a escala, comandante. É a escala,  só que não sou eu quem a faz, é o computador.  
Na formatura eu, claro, era o mais novo e também o mais sacaneado.  Quando chamaram o meu nome a turma não perdeu tempo...
-  Kid bambu! Kid bambu! Kid bambu! 
Eu, como já estava acostumado, não dei bola.  Dei um passo à frente para ser brevetado por alguém que se parecia muito com a tia Clarisse, cunhado da minha mãe. 
- Meu Deus, como era bonita aquela mulher... 
Depois fiquei sabendo se tratar da esposa do tenente, aquele que me mandava marchar num sol  escaldante de abril.  O comandante a convidara pela beleza, com permissão do marido, é claro, a  fazer as honras da corporação.
No final da festa recebi abraços de uns, beijos de outros e alguns bilhetinhos marcando encontros.  De toda aquela gente a que mais me impressionou foi uma que além de ter colocado o brevet no meu peito também tinha  letra muito, mas muito interessante.